segunda-feira, 6 de abril de 2015

Um relato sobre Paraty



Ana Maria Silveira
                                

Até o início da década de 60 não existia estrada ligando o Município de Paraty ao Estado do Rio de Janeiro. O acesso era por São Paulo e havia uma movimentação por parte dos paulistas para anexarem Paraty ao seu Estado. Os moradores locais não suportavam tal possibilidade, quando entrou na discussão o candidato ao governo do Estado do Rio, Roberto Silveira, eleito em seguida. Roberto elaborou um estudo minucioso e não apenas construiria a estrada, mas levaria água, energia elétrica, saneamento básico e outros benefícios à população. Infelizmente, morreu de modo suspeito, em Petrópolis, não podendo realizar esse seu sonho.

Seu irmão Badger é eleito governador no pleito seguinte com o intuito de realizar o que Roberto, lamentavelmente, não conseguiu.



Em Paraty o prefeito era o Lulu (não me lembro do nome nem sobrenome), correligionário do PTB getulista, muito querido pela comunidade, disposto, trabalhador, confiante nas novas mudanças que seriam feitas na antiga e esquecida cidade.


Um dia, no Palácio do Ingá, em Niterói, meados de março de 1963, chega para uma audiência com o governador um senhor muitíssimo educado, cujo nome era Rodrigo. Com diplomacia e muito cuidadoso com as palavras (afinal Lulu e Badger eram do mesmo partido político, deveriam estar compartilhando o mesmo projeto!), o Sr. Rodrigo relatou a intenção de Lulu: modernizar Paraty! Iria botar abaixo aqueles casarios velhos e ultrapassados e no lugar construir uma rodoviária grandiosa para receber a nova estrada e prédios moderníssimos no estilo da Nova Capital. Lulu também iria asfaltar a cidade inteira para encobrir aquela pedraiada toda das ruas para que a criançada pudesse andar de bicicleta...


Badger, ao ouvir o relato dessas providências do amigo Lulu, deu um pulo na cadeira e indagou:

-O Lulu está doido? Tocar num patrimônio desses!

O Sr. Rodrigo se transfigurou. De tenso e medidor de palavras,descontraiu-se completamente quando percebeu que Badger pensava de modo diferente do prefeito de Paraty. Acabaram numa conversa muito amigável. Tratava-se de Rodrigo Melo Franco de Andrade, fundador e diretor do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

- Eu já estou com viagem marcada para ir Paraty, pela Páscoa, disse-lhe Badger. Considere-se meu convidado. Iremos todos em comitiva e aproveitaremos as festividades, em que todos estarão reunidos e explicaremos à população a importância da cidade como ela é e que se pode “modernizar” sem se destruir a parte antiga da Cidade.


Badger comunicou-se imediatamente com o Lulu, pedindo que o amigo não tomasse atitude alguma em relação às edificações antes da Páscoa.

 E assim foi: saímos em caravana para os festejos da Páscoa em Paraty.


Da comitiva, além do convidado, participaram a família, amigos, agregados, um guarda e um motorista, com seus familiares também. Entre crianças e adolescentes éramos uns 30 participantes, superlotando, juntamente com os adultos, uns 12 automóveis.


Calma, meus amigos, não era nenhum “trem-da-alegria”! O palácio só dispunha de dois veículos oficiais( o terceiro foi adquirido quando o Presidente Jango visitou o estado do Rio, por extrema necessidade de segurança), de forma que, quem foi, usou condução e combustível próprios.


Chegamos a Angra dos Reis à noite. De lá embarcamos rumo ao nosso destino. A embarcação que nos recolheu era larga, com muito espaço ao ar livre, onde nos sentamos para admirar tanta beleza sob o deslumbrante luar.


Nem Graciliano, nem Clarice, com toda sua força e delicadeza literárias conseguiriam descrever a magia que nos envolveu nos três dias que se seguiram... Quando o barco atracou em Paraty, descemos alvoroçados e nos espalhamos por aquele imenso espaço. Tudo que minha mãe conseguiu foi gritar:

-Quem se perder do grupo venha para frente da igreja que...

Corríamos tanto que a voz dela foi sumindo... sumin...


Todos os olhares se voltaram para nós. Naquela algazarra toda não nos demos conta de que era Sexta-feira Santa, dia sombrio, de muito respeito, dia da procissão com Cristo morto. As ruas estavam repletas de moradores e pessoas vindas de povoados vizinhos, que chegaram para os festejos.


Como na comitiva havia o tal senhor muito educado, o Sr. Rodrigo, meu pai levou junto o Mestre de Cerimônias. Este, para a criançada, era um sujeito insuportável. Queria que nós crianças, indisciplinadas por natureza, nos sujeitássemos às suas regras que achávamos ridículas como: sentarmos assim, comermos com modos, na hora certa, de mãos lavadas, falando baixo, esperando sermos servidos. Morrendo de fome tínhamos de esperar a hora do almoço, jantar etc..


Aquilo nos injuriava, já que na nossa casa, antes de irmos morar no Palácio do Ingá, o café da manhã durava das 5 às 11 horas; o almoço das 11 às três da tarde; o lanche, das 15 às 18h e o Jantar das 18 horas até que o último cidadão (amigos, políticos) deixasse a nossa casa.


A mesa estava sempre posta para quem chegasse.

Logo meu irmão apelidou o Mestre de Cerimônias de caga-regras.


Em Paraty, onde nos sentimos livres novamente, ele não teve a menor chance de emitir ou nos impor seus preceitos.


Não sei aonde os outros foram parar, mas nós, meninas, percorremos todas as ruas, os cantos, as vielas e vez ou outra víamos passar ao longe a procissão.


A Lua exuberante apareceu e nos demos conta da rapidez com que o dia se acabou.

 Fomos os primeiros a chegar defronte à Igreja. Vó Preta lá estava de plantão para recolher a molecada.


Não havia hotel, pousada, coisa semelhante. Fomos distribuídos pelas casas dos moradores que nos acolheram carinhosamente.


Achávamos tudo engraçado: os colchões de capim, as paredes que só iam até à metade, a falta de forro no teto, as moringas com água, os buracos nas portas para os gatos entrarem e saírem.


Havia muito pouca água, racionadíssima. À noite fazia muito frio. Não havia cobertas suficientes. Alegremente nos vestimos com todas as roupas ao mesmo tempo. E ríamos, ríamos... A satisfação era tanta que qualquer bobagem que um dissesse ou fizesse era motivo de muita risada. Nessa casa ficamos as meninas, Vó Preta e um irmão, dos menores.
 

Quando amanheceu as ruas já estavam repletas. Os cafés da manhã eram servidos a céu aberto, assim como almoços e jantares. 


Mesas imensas foram colocadas num vasto gramado e, dos moradores ao último visitante, todos para ali se dirigiam e se deliciavam com o que nos era oferecido: café com melado, rapaduras, aipim cozido, broas de milho, batata doce, bolinhos rosquinhas, milho-verde, pedaços de cana descascados, peixes e banana da terra, fritos. Tudo era servido caprichosamente. Todo o tempo as senhoras retiravam as travessas vazias e recolocavam aquelas delícias todas.


Logo cedo, cercado de amigos, meu pai saiu para pescar. Minha mãe, apegada os filhos menores, deliciava-se com o nosso corre-corre e nosso vai-e-vem.


Encantados, íamos para –e vínhamos de- todos os lados. Mergulhávamos na praia, comíamos peixes, entrávamos e saíamos das casas onde moradores nos ofereciam frutas dos seus quintais. Enlouqueciam-nos as frutas do conde, pitangas, tamarindos, goiabas, araçás, coquinhos, bananas, cajás.


Estouraram um Judas, corremos para ver. Sem que fossem notados, os quitutes da manhã foram substituídos por um almoço magnífico. Travessas com gigantescos peixes assados, postas fritas, cozidas, empanadas, lagostas e crustáceos incríveis, por nós desconhecidos foram servidos ao lado de outros frutos do mar. Os camarões, saborosíssimos, chamavam a atenção pelo tamanho descomunal. Jamais vi outros assim.


A cidade estava agitada. Enquanto em um espaço aberto armavam um palanque, alguns grupos folclóricos se apresentavam.


Nesse vai e vem permanente, às vezes, como pano de fundo, transeuntes arrastavam para a sombra o nosso mestre de cerimônias, que não resistiu às deliciosas cachaças locais. Meu pai e amigos chegaram abarrotados de peixes. Comentaram que ouviram falar de uma aldeia ali perto cujos habitantes falavam um linguajar diferente.


O horário do almoço era tão flexível como o da nossa casa. As pessoas vinham, comiam, lavavam os pratos e copos na água do mar, envolvendo-se em seguida em outras atividades.


Após o almoço, fomos levados à Igreja. Éramos um pequeno grupo que o padre encaminhou a uma sala, deslumbrando-nos coma beleza das joias da Santa Padroeira. Simplesmente um tesouro. Objetos em ouro e pedras preciosas: tiaras com diamantes, águas marinhas, pérolas, rosários, que, segundo o padre, as pessoas antigas doavam quando recebiam alguma graça ou por ocasião de eventos significativos: nascimentos, casamentos, morte.

Minha mãe questionou sobre a segurança. Não havia nenhuma! O Padre pediu ao meu pai para que conversasse com o bispo a respeito. As peças, posteriormente, foram transferidas aos cuidados da Cúria Diocesana.


Ao entardecer, palanque pronto, as autoridades se dispuseram a falar sobre a festa, os casarios antigos e o futuro de Paraty. Os discursos eram eloquentes, sinceros. A política era feita por amor. Respeito à população era fundamental e o povo reconhecia.

 Rodrigo Melo Franco explicou a importância arquitetônica e cultural da Cidade e a responsabilidade dos habitantes em preservarem aquele patrimônio histórico.


Pela comoção que envolveu a todos e pelos aplausos entusiásticos percebia-se que a mensagem havia sido compreendida. Muitos outros discursaram até chegar a vez do governador. Badger foi o primeiro, na história de Paraty, a visitá-la. De repente, todo alarido cessou.

As pessoas puderam perceber o luar que tudo encobria.


Badger começou a discursar nos envolvendo com as suas belas palavras. Ele tinha esse dom: era um grande orador, como seu pai e seus irmãos.

Acredito que, como eu, todos estavam hipnotizados. 

Lembro-me vagamente do trecho, aqui sem contexto, em que ele dizia: “Jamais permitiremos o desmembramento desta Cidade! Tirar Paraty do nosso Estado do Rio seria como arrancar dos braços de uma afetuosa mãe o seu filho tão querido!”


Muitos chegamos às lágrimas. Irradiou-se pela praça uma energia tão forte que todos perceberam.

Badger nos disse, mais tarde, quando comentamos sobre o bem estar por todos sentido, que durante o discurso ele teve a nítida sensação de que quem falara havia sido o Roberto.


Foi o que todos nós sentimos.


Encerrados os discursos, um grupo de instrumentistas juntamente com alguns cancioneiros, puxaram uma Ciranda. Que delícia é dançar uma Ciranda! Das crianças aos idosos, todos começaram a dançar. A cada música correspondia uma coreografia, que apreendíamos rapidamente.

Aproveitávamos as cirandas para nos aproximarmos dos nossos paquerinhas. Como era bom segurar suas mãos e olhar nos seus olhos durante os volteios!

Numa das cirandas, enquanto se rodava indo e vindo, cantava-se: 

      -Namoro o Felipe que eu quero casar...

      -Namoro o Felipe que eu quero casar...


E nós, irmãs, primas e amigas adolescentes, cantávamos escondidinho:

-Namoro o Luiz Carlos que eu quero casar...

-Namoro o Getúlio que eu quero casar...

-Namoro o Eduardo que eu quero casar... E ríamos, ríamos baixinho, esbanjando felicidade.

Dançando conosco, a Lua, refletida no balanço das ondas. Tranquila, porque sabia que todos os Felipes eram dela.





Ana Maria Silveira é filha do ex-governador Badger Silveira








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