Por Gino Martins Borges Bastos
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| José Francisco Melo Laurindo, autor do texto da placa biográfica, e Cláudio Moreira Pillar, sobrinho do Expedicionário Paulo Moreira, 10 de agosto de 2024 |
Quando eu era criança, nos corredores do antigo Colégio Rio Branco, a História me chamava como um canto antigo. Não era apenas uma matéria: era um convite para atravessar oceanos de tempo, guiado por mestres que, com palavras, abriam portas para mundos remotos. Entre todos, um nome se destacava como mel na língua: professor de História Heliton Dias Pimentel.
Lembro-me de um questionário escolar perguntando o que eu queria ser quando crescesse. Sem hesitar, escrevi: “Quero ser como o professor Heliton Dias Pimentel.” E assim, sem saber, eu já me tornava herdeiro de uma paixão.
Outros nomes brilharam nesse mapa afetivo: as irmãs Dona Clarice Baptista e Dona Carmita, diretora do educandário, e meu próprio pai, Luciano Bastos. Mais tarde, já adulto, tornei-me eterno aluno de Dona Maria Apparecida Dutra, filha do historiador Antônio Dutra e neta de Pedro Gonçalves da Silva Junior, o primeiro prefeito de Bom Jesus, empossado num simbólico 25 de dezembro de 1890. Ainda hoje, em meus momentos de repouso, fecho os olhos e me vejo outra vez nos bancos escolares, ouvindo vozes que ecoam como preces, levando-me à Grécia Antiga, ao Brasil de ontem e à história viva de minha terra.
Já ouvi quem diga que não existem mais grandes professores como antigamente.
Mas aprendi, ao longo da vida, a desconfiar das frases prontas. Observei de perto os mestres que ainda moldam as salas de aula de nosso município. E vi, com clareza, que a sentença ouvida não se sustenta. Ainda há quem lecione com a devoção de uma oração.
Na História, um exemplo resplandece: José Francisco Melo Laurindo, professor no Colégio Estadual Euclides Feliciano Tardin e no Colégio Estadual Governador Roberto Silveira. Não é apenas mestre: é pesquisador de primeira linha, apaixonado por seu ofício e por seus alunos. Seu interesse especial pela 2ª Guerra Mundial tem raízes familiares: seu tio, Romil Laurindo Neto, foi pracinha na Itália.
Movido por essa chama, José Francisco mergulhou na vida de outros pracinhas bonjesuenses, deixando biografias valiosas, entre elas, as de Romil Laurindo Neto e de Paulo Moreira, o único expedicionário bonjesuense que tombou na guerra. Foi dele o texto da primeira placa biográfica de nossa cidade, na rua Expedicionário Paulo Moreira.
No amor pela história de sua aldeia, leva seus alunos ao Espaço Cultural Luciano Bastos (ECLB), desejando-os sempre mais cultos. Em uma dessas visitas, doou ao ECLB uma relíquia: uma flâmula do ex-governador Roberto Silveira, lançada após um ano de governo.
Durante a III FLICbonjê, a historiadora Isabel Menezes, de Varre-Sai, contou que foi incentivada por José Francisco a reescrever o livro “Cruz da Ana”. O próprio professor revelou um vínculo pessoal: “Minha mãe, Jovenília Maria de Melo Laurindo, era devota e, na adolescência e juventude, fui com ela algumas vezes à Cruz da Ana. Ela sempre levava vela e uma fita com a medida do nosso corpo para cumprir alguma promessa. Sempre trazia a água da fonte para bebermos em caso de alguma doença. Lá, a gente sempre via muitas pessoas de Bom Jesus que também eram devotas.”
José Francisco Melo Laurindo não é apenas prova de que ainda existem professores imbuídos de idealismo. Ele é, ele próprio, História e fé. É a encarnação de todos os mestres que continuam, silenciosos, a moldar as novas gerações com luz nos olhos e sonhos no coração.

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