quinta-feira, 7 de maio de 2026

O Dia da Poesia Bonjesuense e a Folia de Reis Irmandade da Estrela Guia



A chama que não se apaga: o guardião da memória

Há presenças que não chegam, revelam-se.

No calendário afetivo de Bom Jesus do Itabapoana, o dia 3 de maio não é apenas uma data, é um marco de poesia e memória. Nesse dia nasceu Elcio Xavier, o eterno Príncipe dos Poetas, cuja palavra ainda ressoa como canto antigo nas almas sensíveis.

E não é por acaso que, ao celebrar o Dia da Poesia Bonjesuense, os versos parecem ganhar corpo e caminhar entre o povo. Eles ecoam nas rimas da Folia de Reis, misturam-se ao som da sanfona, ao compasso da caixa e à cadência das vozes que entoam fé e tradição.

Na cantoria da Irmandade Estrela Guia, liderada pelo Mestre Warlem Rodrigues Souza, há algo mais do que música: há poesia viva. Como se, em cada verso improvisado, em cada rima entoada sob o céu do interior, a presença de Elcio Xavier se fizesse sutil, não como lembrança distante, mas como essência incorporada.

Assim, a Folia canta, e o poeta permanece.

Naquele 3 de maio, no Espaço Cultural Luciano Bastos, não foi apenas um grupo que atravessou o auditório: foi a própria memória de um povo que entrou em cortejo, vestida de cores, fé e música.

A Folia de Reis Irmandade Estrela foi a primeira a chegar. E não entrou, inundou. Como maré serena que avança sobre a areia, trouxe consigo a bandeira erguida, o riso enigmático do palhaço, o compasso da caixa, o sopro da sanfona e vozes que pareciam costurar o presente ao passado. Não era espetáculo. Era permanência.

Naquele espaço, outrora Colégio Rio Branco, fundado em 1920,  a cultura encontrou abrigo em sua própria essência. Um lugar que respira história acolheu outra história viva, feita de passos, promessas e devoção.

E então algo silencioso aconteceu: muitos ali deixaram de ser apenas espectadores. Voltaram a ser crianças. Crianças que corriam atrás das Folias pelas ruas, que acreditavam no encanto, que viam no som dos instrumentos um portal para o sagrado e o mágico. A infância, por um instante, regressou inteira.

A Estrela Guia foi a última a sair.

Mas, na verdade, não saiu.

Permaneceu, nos olhos marejados, nas mãos que aplaudiam com reverência, nos corações que reconheceram ali não apenas uma tradição, mas uma herança viva.

Porque há luzes que não dependem de eletricidade.

Acendem-se com memória. Sustentam-se com devoção.

E essa luz começou em 1981, quando Carlos Rodrigues de Ávila, mais que fundador, foi semeador. Não criou apenas uma Folia, ergueu um altar em movimento, nascido de uma promessa e alimentado pela fé. Ele compreendia o que poucos compreendem: que a cultura, quando tocada pelo sagrado, não envelhece, eterniza-se.

O tempo, porém, provou sua força. Com a partida do patriarca, o silêncio tentou ocupar o lugar da cantoria. A bandeira repousou. Passou por mãos que não escutaram o chamado, por outras que a protegeram com respeito, mantendo acesa, ainda que tímida, a chama da tradição.

Mas há heranças que não se perdem, apenas aguardam.

E há treze anos, o destino encontrou seu guardião.

Ao assumir a Folia, Warlem Rodrigues Souza não aceitou um título, aceitou um legado. Não empunhou apenas a bandeira, abraçou sua própria história. Ser mestre, para ele, é mais que conduzir: é dialogar com o passado, honrar o presente e semear o futuro.

Sob sua liderança, a Estrela Guia respira. Vive. Caminha.

É estrada, é poeira, é madrugada, é canto que ecoa onde há fé. Warlem conduz seus foliões como quem carrega um relicário: com firmeza nas mãos e ternura no coração.

E talvez, em cada verso entoado, em cada passo ritmado, haja um sorriso invisível, o de seu avô, que, em algum lugar onde a folia nunca termina, reconhece que a promessa segue sendo cumprida.

Neste 3 de maio de 2026, a Estrela Guia volta a brilhar.

E seu brilho não está apenas nos trajes ou nos instrumentos, mas naquilo que representa: a resistência da cultura, a força da memória e a beleza de quem se dedica a manter viva a alma de um povo.

Porque enquanto houver um mestre que se lembre, uma bandeira que se erga, e uma estrela que guie, a tradição jamais conhecerá a escuridão.






















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