Há uma sintonia perfeita entre o que consta no livro A Pedra e Fogo, de José Sérgio Rocha, sobre a vida de Roberto Silveira e o depoimento de Sebastião Florenço da Rosa, conhecido como Tião Cosme, da Barra do Pirapetinga ao jornal O Norte Fluminense, em 2016.
O tema comum é o dos pistoleiros Severo Coco e Quim Jacó que aterrorizaram a região, especialmente a de Calheiros, Barra do Pirapetinga e Serônia.
Nas terras da Serônia, na parte alta da Fazenda São Tomé, viveram dois homens de fama bravia: Quim Jacó e Severo Coco. Eram daqueles que deixavam cruzes pelo caminho, marcando os lugares onde a morte havia passado por suas mãos. Cruzes para lembrar os mortos. Cruzes para lembrar os vivos.
O destino, que gosta de aproximar semelhantes, fez com que um dia se enfrentassem.
Quim Jacó disparou primeiro. O chumbo da espingarda vinte e um encontrou o corpo de Severo Coco. Todos pensaram que a história terminaria ali. Mas a morte, às vezes, se distrai. Severo foi socorrido e atravessou meses de recuperação. Enquanto a carne cicatrizava, a alma afiava seus instrumentos.
Quando voltou a caminhar, comprou papel, envelope e caneta. E escreveu ao seu inimigo:
"Você não soube atirar. Você vai ver como se mata um homem."
Não era apenas uma ameaça. Era uma sentença escrita por alguém que havia regressado da beira do fim.
Então Severo esperou.
Escondeu-se sobre uma pedra alta. Passou dias entre a fome, o silêncio e a paciência. Porque a vingança, quando amadurece, aprende a caminhar devagar.
Até que um dia Quim Jacó surgiu pelo caminho.
O disparo encontrou seu destino.
Quim caiu.
Mas para Severo aquilo ainda não bastava. Aproximou-se do corpo estendido, olhou para o homem que um dia acreditou tê-lo vencido e golpeou-lhe a cabeça com a coronha da espingarda.
Então pronunciou as palavras que encerravam uma história iniciada muitos meses antes:
"Você é um patife e não sabe atirar."
Talvez a lição escondida nesse episódio não seja sobre armas, nem sobre vingança.
Talvez seja sobre a condição humana.
Quem for dar um tiro para matar deve se certificar de que matou.
Porque existe algo mais perigoso que um homem morto: um homem ferido. Ferido no corpo, ferido na alma, ferido na honra. A dor tem o estranho poder de alimentar forças que o próprio homem desconhece possuir.
Porque um homem atingido apenas no corpo pode morrer. Mas um homem atingido no corpo e na alma pode se transformar em algo imprevisível. A dor o empurra para lugares onde a razão não alcança. Faz nascer perseveranças impossíveis, esperas intermináveis e superações inimagináveis.
Por isso, em toda disputa entre homens, convém lembrar: os ferimentos mais profundos não são os que sangram por fora.
São os que permanecem vivos por dentro.
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| Tião Cosme foi entrevistado pelo jornal O Norte Fluminense em 2016 |
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| O autor José Sérgio Rocha utilizou a história local de Bom Jesus do Itabapoana, onde Roberto Silveira nasceu, para contextualizar a vida do ex-governador |



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