Ser parente é um acidente do nascimento; tornar-se verdadeiramente irmão é uma conquista do caráter
Hobbes talvez tenha exagerado ao transformar o homem em lobo. Afinal, o lobo dificilmente trai sua alcateia por uma herança, uma vaidade ou alguns metros de terra. Nesse ponto, pobres lobos: talvez tenhamos sido injustos com eles
Toda família nasce como uma promessa de bênção. É o primeiro território onde imaginamos encontrar abrigo, lealdade, afeto e aquela espécie de porto para o qual poderemos regressar quando o mundo se tornar áspero demais. O sangue parece escrever antecipadamente um pacto de solidariedade. Crescemos ouvindo palavras como pai, mãe, irmão, filho, tio, primo, como se cada uma delas carregasse, por natureza, uma garantia moral. Mas a vida, essa professora sem piedade, termina ensinando que parentesco é circunstância; caráter é construção.
Porque nenhuma árvore genealógica produz virtudes automaticamente. Caráter precisa ser cultivado todos os dias, como se cultiva um jardim ameaçado permanentemente pelo mato. Exige renúncia, gratidão, respeito, memória e, sobretudo, limites impostos ao próprio egoísmo. O problema é que nem todos estão interessados nessa agricultura da alma. Alguns preferem cultivar ressentimentos; outros, conveniências. Existem aqueles que somente descobrem que somos parentes quando precisam de alguma coisa e aqueles que, diante de interesses materiais, conseguem transformar décadas de convivência numa fria contabilidade de vantagens.
É então que a promessa de bênção pode adquirir o gosto amargo da maldição. Não porque a família seja má em sua essência, mas porque dentro dela habitam seres humanos, e seres humanos carregam consigo grandezas e abismos. Às vezes, justamente de onde esperávamos proteção chega o golpe mais doloroso. O desconhecido que nos trai provoca indignação; o familiar que nos trai produz uma ferida diferente, porque conhecia exatamente o lugar onde doeria mais.
Por isso atravesse os séculos a sentença popularizada por Thomas Hobbes: “o homem é o lobo do homem”, homo homini lupus. Hobbes não estava escrevendo especificamente sobre famílias, mas sua visão pessimista da natureza humana parece, em certos momentos, atravessar também as portas de nossas casas. Retiradas as convenções, enfraquecidos os freios morais e colocado algum interesse importante sobre a mesa, quantas delicadas máscaras não começam a cair?
E o mais inquietante é perceber que os lobos nem sempre chegam mostrando os dentes. Alguns chegam sorrindo. Sentam-se conosco à mesa, participam das fotografias, conhecem nossas histórias e pronunciam com desenvoltura a palavra “família”. Depois, quando chega a hora decisiva, demonstram que o parentesco estava nos documentos, mas jamais alcançou verdadeiramente a consciência.
Com o passar dos anos, perdemos algumas ilusões, talvez justamente aquelas de que mais gostávamos. Descobrimos que existem amigos capazes de atitudes profundamente fraternas e parentes capazes de uma indiferença espantosa. Percebemos que a genética explica a cor dos olhos, determinados traços do rosto e muitas semelhanças físicas, mas ainda não inventaram exame de DNA capaz de detectar generosidade, lealdade ou decência.
Resta-nos, portanto, uma conclusão pouco confortável: família é uma extraordinária possibilidade de amor, jamais um certificado antecipado de virtude. Quando seus integrantes cultivam caráter, ela pode ser uma das maiores bênçãos concedidas à existência humana. Quando prevalecem egoísmo, inveja, ganância e ressentimento, o mesmo teto que deveria proteger começa a produzir sombras.
E o verdadeiro pessimismo não está em admitir isso. Está em constatar que, depois de milhares de anos de civilização, bibliotecas inteiras sobre ética, religiões pregando fraternidade e incontáveis tragédias ensinando o preço do egoísmo, ainda precisamos recordar ao homem uma verdade elementar: ser parente é um acidente do nascimento; tornar-se verdadeiramente irmão é uma conquista do caráter.
Hobbes talvez tenha exagerado ao transformar o homem em lobo. Afinal, o lobo dificilmente trai sua alcateia por uma herança, uma vaidade ou alguns metros de terra. Nesse ponto, pobres lobos: talvez tenhamos sido injustos com eles.

Nenhum comentário:
Postar um comentário