Rosal, cercada por suas montanhas, fará aquilo que sabe fazer tão bem: encantar
Rosal pertence à música. Quando setembro se aproxima e o Festival Sesc de Chorinho e Sanfona anuncia seus acordes, o pequeno e encantador distrito de Bom Jesus do Itabapoana muda de dimensão. As ruas ganham ritmos, as casas antigas abrem suas janelas para escutar melhor, e até as montanhas que abraçam a localidade assumem a solenidade de quem sabe que ali acontecerá novamente um encontro entre tradição, arte e afeto.
Nos dias 5 e 6 de setembro, Rosal será mais uma vez território livre da música. E não poderia haver abertura mais simbólica do que a presença da centenária Lira 14 de Julho, patrimônio afetivo da comunidade, instituição que atravessa gerações ensinando que uma banda não é formada apenas por instrumentos e músicos: é feita também de lembranças, famílias, mestres, aprendizes e histórias transmitidas de ouvido em ouvido e de coração em coração. Quando a Lira toca em Rosal, de alguma maneira são os próprios antepassados que voltam à praça.
Depois, o chorinho chega com sua elegância brasileira, essa música que aprendeu o segredo de sorrir mesmo quando carrega alguma saudade. E vem a sanfona, instrumento que respira. Abre-se o fole e Rosal inspira; fecha-se o fole e toda a vila suspira. Chorinho e sanfona encontram-se como dois velhos amigos que passaram algum tempo separados e descobrem, no primeiro abraço, que jamais deixaram verdadeiramente de conversar.
A programação é uma celebração dessa diversidade. Lira 14 de Julho, Chorinho Nova Geração, Lívia Matos e Nilze Carvalho conduzem o sábado. No domingo, a música prossegue com Dixieland, Maestro Mauro, Valdeir do Acordeon e Grupo de Sanfoneiros, Bebê Kramer e Carlos Malta. Artistas, estilos e gerações diferentes reunidos sob o mesmo céu, demonstrando que tradição não significa permanecer imóvel no passado: significa trazer o passado pela mão para que ele dance com o presente.
E aí está a grandeza do Festival de Chorinho e Sanfona de Rosal. Ele não é simplesmente uma sucessão de apresentações. É um acontecimento de pertencimento. Durante dois dias, moradores recebem visitantes, amigos se reencontram, crianças descobrem instrumentos, músicos conversam através de melodias e a pequena localidade transforma-se numa imensa sala de concertos a céu aberto.
Rosal tem esse privilégio raro: não precisa de arranha-céus, avenidas monumentais ou multidões intermináveis para ser grande. Sua grandeza está na delicadeza. Está na igreja, nas montanhas, nas casas, na conversa tranquila, na memória de seu povo e nessa extraordinária capacidade de conservar tradições sem aprisioná-las no passado.
Quando soar o primeiro acorde, muitos fecharão os olhos por alguns segundos. E então já não haverá sábado nem domingo, presente nem passado. Haverá somente música.
O saxofone contará histórias. O clarinete bordará lembranças. O cavaquinho espalhará alegria. A sanfona respirará saudades.
E Rosal, cercada por suas montanhas, fará aquilo que sabe fazer tão bem: encantar.
De alguns festivais, depois do último acorde, simplesmente voltamos para casa. O Festival de Chorinho e Sanfona é diferente. Dele levamos alguma coisa conosco, uma melodia, um encontro, uma recordação, aquela inexplicável vontade de permanecer um pouco mais.
Nos dias 5 e 6 de setembro, quem desejar encontrar Rosal não precisará procurá-la no mapa.
Bastará seguir a música.

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