terça-feira, 22 de setembro de 2026

Uzbequistão derrota a Índia no confronto decisivo e reina absoluto na Olimpíada de Xadrez

 

O lance tático do uzbeque que decidiu a partida 

Em Samarcanda, antiga cidade atravessada por caravanas, impérios e sonhos, uma nova história foi escrita sobre as 64 casas do tabuleiro. Não houve o rumor das antigas batalhas nem o galope de cavalos pelas rotas da seda. Houve apenas o silêncio, o correr implacável dos relógios e dois jovens enxadristas diante de um destino que ainda não escolhera seu vencedor.

De um lado, Nihal Sarin, representante da poderosa Índia, trazia no tabuleiro uma posição superior e, no relógio, a tranquilidade de quem possuía quase meia hora de vantagem. Do outro, Nodirbek Yakubboev lutava contra as peças, contra o tempo e contra a sombra da derrota. Restavam-lhe poucos minutos, enquanto o adversário parecia conduzir serenamente a partida para o triunfo.

Mas o xadrez é um reino em que nenhuma vitória existe antes do último gesto.

Na pressa de transformar a vantagem em ponto, Nihal jogou 37...Cf5??. Foi um pequeno movimento, quase imperceptível para quem observa o tabuleiro como simples paisagem, mas suficiente para abrir um abismo. A dama indiana, até então senhora de seus caminhos, ficou presa à fatalidade de uma combinação inesperada.

Yakubboev enxergou, então, aquilo que somente os grandes jogadores conseguem ver quando o relógio aperta e o coração se agita. Jogou 38.Ce6!!. O cavalo saltou como se atravessasse não apenas algumas casas, mas toda a distância entre a derrota anunciada e a vitória inesquecível. Era um golpe belo, preciso e inevitável. A Índia perdia a dama; o Uzbequistão conquistava o confronto.

Nos outros três tabuleiros, as partidas haviam terminado empatadas. Toda a responsabilidade permanecia, portanto, sobre aqueles dois homens e aquele cavalo colocado em e6. Quando a vitória se confirmou, o capitão Rustam Kasimdzhanov celebrou ao lado de Yakubboev. Não era apenas a alegria por um ponto conquistado. Era a emoção de um país inteiro que, jogando diante de sua gente, assumia isoladamente a liderança da 46ª Olimpíada de Xadrez.

Após seis rodadas, o Uzbequistão alcançava 12 pontos, com aproveitamento perfeito. China e Armênia vinham logo atrás, com 11. A Alemanha, que também iniciara a rodada sem tropeços, caiu diante da China por 3 a 1. No primeiro tabuleiro, Ding Liren derrotou Vincent Keymer; no quarto, Xu Xiangyu venceu Alexander Donchenko. A competição mostrava, mais uma vez, que até os favoritos precisam caminhar com cuidado: no tabuleiro, toda certeza pode desaparecer entre dois lances.

Na disputa feminina, China e Cazaquistão permaneceram soberanos, ambos com 12 pontos. A China venceu a Polônia por expressivos 3,5 a 0,5, enquanto o Cazaquistão superou o Azerbaijão por 2,5 a 1,5. A Índia, ferida pela derrota da rodada anterior, reencontrou sua força ao derrotar os Estados Unidos por 3 a 1. Savitha Shri e Vantika Agrawal foram as estrelas de uma reação que recolocou as indianas no caminho do pódio.

Contudo, a imagem que ficará guardada na memória da sexta rodada será a de Yakubboev diante de Nihal. Um jogador quase vencido, com pouco tempo no relógio, encontrando no instante mais difícil a claridade de um lance extraordinário. Porque o xadrez também é isso: a arte de permanecer de pé quando a posição parece desabar; a coragem de procurar uma saída onde todos enxergam apenas muros.

Em Samarcanda, por alguns segundos, o mundo coube em um tabuleiro. Um cavalo saltou para e6, uma dama caiu e uma nação inteira se levantou. O Uzbequistão assumiu a liderança isolada, mas conquistou algo ainda mais duradouro: uma dessas partidas que deixam de pertencer somente ao torneio e passam a habitar, para sempre, a memória do xadrez.



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