Existe um acontecimento raro nesta fotografia: Raul Travassos sorri. A fisionomia habitualmente séria, ocupada por tantas ideias, atividades e preocupações, abre uma clareira. Acima dele, as flores amarelas da cássia parecem prolongar aquele sorriso até o azul. Por um instante, o homem e a árvore participam da mesma alegria.
Diante do Santuário do Senhor Bom Jesus, Raul plantou duas cássias: uma em homenagem ao açoriano Padre Mello; outra, ao Padre Francisco. Quem passasse no momento do plantio talvez enxergasse apenas duas pequenas mudas e a terra remexida. Raul, porém, já contemplava alguma coisa além. Acostumado a embelezar os cenários das novelas da TV Globo e a encantar o país, conhecia a força de uma imagem. Ali, entregava à natureza uma criação que precisaria de raízes, estações e paciência.
Raul cultivou o tempo.
Deixou na terra duas homenagens que agora se erguem e florescem. Os nomes dos sacerdotes ganham uma delicada continuidade na paisagem: recebem a chuva, acompanham os dias da cidade, oferecem flores a quem passa. Há uma forma emocionante de gratidão nesse gesto de plantar. O homenageado permanece na memória, enquanto a árvore estende sua generosidade a desconhecidos.
Hoje, uma dessas cássias derrama seu ouro sobre o homem que a plantou. Na fotografia, os ramos o cercam com a intimidade de quem reconhece um velho amigo. A árvore parece devolver, em abundância, o cuidado que recebeu. E Raul sorri sob a beleza que um dia confiou ao futuro.
Esse sorriso adquire uma ternura ainda maior quando lembramos que seu caminho também atravessou momentos de sofrimento pessoal. Há dores que os retratos não mostram, preocupações que não encontram lugar nas conversas, noites cujo peso só conhece quem as viveu. Por isso, alegra ver seu rosto assim, iluminado por uma manhã florida. Sem precisar dizer palavra, a fotografia guarda um instante de alívio.
Seu amor pela igreja já encontrou palavras que merecem permanecer na memória de Bom Jesus. Certa vez, Raul contou:
“Fico emocionado. Tenho muito amor por essa igreja. Tanto que cheguei a fazer uma ‘filial’. Sempre que caminhava de madrugada, aproveitando o frescor, passava inevitavelmente em frente a ela e, ao contemplá-la, me vinham pensamentos apocalípticos de que tudo volta ao pó. Então pedia a Deus: Senhor, se tiver que acabar tudo, deixa pelo menos Bom Jesus... Se não puder, deixa pelo menos a nossa igreja... E, mesmo assim, se tiver que acabar, deixa ao menos a fachada.”
É uma oração que vai recolhendo o mundo para tentar salvá-lo. Primeiro, a cidade inteira; depois, a igreja; por fim, a fachada, aquele rosto amado de Bom Jesus que Raul desejaria preservar até diante do fim. Podemos imaginá-lo no frescor da madrugada, interrompendo os passos, erguendo os olhos, pedindo a permanência de alguma coisa bela.
Possivelmente as duas cássias também façam parte dessa oração. Plantadas diante do Santuário, acrescentam vida àquilo que ele tanto deseja conservar. A cada floração, renovam a paisagem e oferecem aos olhos uma razão para demorar um pouco mais.
O gênio de Raul Travassos encontra ali uma expressão profundamente humana: criar beleza e deixá-la ao alcance de todos. Quem passa recebe um pouco daquele amarelo, mesmo sem conhecer a história das árvores. Alguém olha para cima. Alguém fotografa. Alguém leva consigo uma leveza inesperada.
Bom Jesus recebe mais esse ouro de Raul. Um ouro que cresce ao ar livre, acolhe a luz e se reparte sem se gastar.
E, desta vez, recebe também seu sorriso, como se, depois de tanto semear encantamento pelo mundo, Raul pudesse enfim repousar, por um instante, dentro da própria obra.

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