Por Gino Martins Borges Bastos
Eu era jovem e me encontrava na biblioteca situada na parte de cima de minha casa. No meio de livros e silêncios, o mundo parecia distante, protegido pelas paredes e pelas páginas. Foi então que, repentinamente, ouvi gritos vindos da rua.
Levantei-me e abri a janela.
Uma menina caminhava pela calçada, apertando uma boneca contra o peito. Atrás dela, um homem corria e gritava:
- Por que você fugiu de casa?
A menina não respondeu. Continuou andando, levando consigo apenas aquela pequena companheira de pano, plástico e silêncio. Pouco depois, os dois dobraram a esquina e desapareceram de minha vista. Os gritos cessaram. A rua voltou à sua rotina. E eu jamais soube o desfecho daquela história.
Mas a imagem permaneceu dentro de mim.
Durante muito tempo, perguntei-me que sofrimento teria levado aquela criança a abandonar a própria casa. Que palavras duras teria escutado? Que medo teria atravessado sozinha? Quantas lágrimas teriam caído sem que ninguém as enxugasse? Para uma criança, fugir de casa não é apenas atravessar uma porta: é romper, com passos frágeis, a fronteira entre aquilo que deveria ser abrigo e aquilo que se transformou em dor.
Ela não levou roupas, alimentos ou qualquer objeto útil. Levou somente a boneca.
Talvez porque, em sua inocência, a boneca fosse a única criatura que a escutava sem julgá-la. Talvez fosse sua confidente, sua irmã imaginária, seu último pedaço de lar. Ao apertá-la contra o peito, aquela menina parecia proteger o pouco de ternura que ainda possuía, ou talvez pedisse à boneca a proteção que não encontrara entre os adultos.
Existem dores infantis que não sabem pronunciar o próprio nome. Elas se escondem no silêncio, no olhar assustado, na vontade de desaparecer. Algumas crianças não conseguem fugir pelas ruas; fogem para dentro de si. Crescem construindo quartos secretos na alma, lugares onde guardam o medo, a incompreensão e o desamor.
A infância deveria ser o tempo da confiança, mas, para tantas crianças, ela se torna a primeira escola da tristeza. E é particularmente cruel quando aqueles que deveriam oferecer colo são justamente os que ferem; quando o lar, que deveria ser porto, converte-se em tempestade.
Mesmo depois de adultos, conservamos dentro de nós a criança que fomos. Ela continua segurando sua boneca invisível, tentando preservar a inocência diante das muitas forças que procuram destruí-la. Algumas pessoas passam a vida inteira tentando reencontrar a menina ou o menino que um dia precisou fugir, ainda que ninguém tenha percebido a fuga.
Décadas se passaram, mas aquela menina jamais dobrou completamente a esquina de minha memória. Ainda a vejo caminhando pela calçada, pequena diante do mundo, abraçada à sua boneca. Não sei se voltou para casa, se encontrou acolhimento ou se alguém compreendeu a profundidade de sua dor.
Sei apenas que ela desapareceu de meus olhos, mas nunca de minha alma.
E, sempre que penso nas crianças que sofrem silenciosamente dentro dos próprios lares, volto àquela janela. Vejo novamente aqueles passos apressados e aquela boneca apertada contra o peito. Então, uma pergunta antiga retorna, coberta por uma tristeza que o tempo não conseguiu apagar:
quantas meninas ainda fogem todos os dias, levando consigo apenas o último pedaço de amor que lhes restou?

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