Existem dias em que uma palavra nos fere mais do que uma pedra. Ela chega, instala-se no peito e ali permanece, repetida pelo pensamento, mesmo quando quem a pronunciou já seguiu seu caminho. À noite, a casa está quieta, mas dentro de nós a conversa continua.
Na imagem, um imenso olho parece abrir-se entre as estrelas. Abaixo dele, uma figura solitária contempla o horizonte. Diante daquela vastidão, pensamos em como cada um de nós carrega seu próprio céu: lembranças que iluminam, receios que escurecem, saudades que tingem de dourado até os lugares mais simples.
A frase atribuída a Epicteto convida a olhar também para dentro. O que contamos a nós mesmos depois de uma decepção? Que fomos feridos naquele instante ou que jamais seremos amados? Que uma tentativa fracassou ou que todos os caminhos se fecharam?
Entre essas perguntas cabe uma vida inteira.
A chuva cai sobre a cidade. Alguém corre para recolher a roupa do varal; alguém se alegra com a terra molhada; alguém, junto à janela, recorda uma tarde da infância. A água é a mesma, mas encontra histórias diferentes em cada coração.
Também nós mudamos. Uma rua que ontem parecia triste pode amanhecer cheia de ternura depois de uma notícia boa. O banco vazio da praça pode doer pela ausência de alguém e, em outro dia, acolher a lembrança de sua risada. Aos poucos, aprendemos a permanecer ali, sem fugir da saudade, deixando que ela nos devolva alguma coisa do amor vivido.
Existem dores que exigem tempo, cuidado, companhia. Nenhum pensamento as dissolve por encanto. Mas podemos tratar com delicadeza a pessoa que nos tornamos enquanto atravessamos essas dores. Podemos evitar que uma perda nos convença de que nada mais frutificará; que uma palavra cruel se transforme na medida do nosso valor.
Talvez a serenidade comece assim, numa conversa mais bondosa conosco. Num instante em que respiramos antes de concluir o pior. Num dia em que abrimos a janela, embora o peito ainda esteja pesado.
O viajante da imagem permanece diante do horizonte. O sol surge devagar, iluminando primeiro uma borda das nuvens, depois outra. Ele ainda tem montanhas pela frente. Contudo, já consegue enxergar onde colocar o próximo passo.
E há manhãs em que isso basta para que a esperança volte a caminhar conosco.

Nenhum comentário:
Postar um comentário