sábado, 31 de outubro de 2026

As raízes que o vento não leva

 


O vento chegou sem pedir licença. Sacudiu as folhas, levantou a poeira dos caminhos, fez ranger as janelas. No quintal, o bambu se inclinou tanto que pareceu, por um instante, prestes a tocar o chão. Depois se ergueu um pouco, tornou a se curvar e continuou naquele movimento, acompanhando a passagem da tempestade.

Quem o visse apenas de longe poderia  confundir sua delicadeza com fraqueza. Mas, debaixo da terra, havia um trabalho silencioso sustentando cada gesto.

Também nós atravessamos dias assim. Uma notícia muda o rumo da manhã. Uma ausência ocupa a cadeira à mesa. Um projeto, preparado com tanto cuidado, precisa ser adiado. E aquilo que imaginávamos firme começa a balançar dentro de nós.

Nessas horas, quanto esforço fazemos para parecer inabaláveis. Contemos os sentimentos, escondemos o cansaço, respondemos que está tudo bem. Como se a dor fosse uma falha. Como se precisássemos enfrentar o vento sem mover uma folha.

O bambu, no entanto, permite que a tempestade apareça em seu corpo. Ele se dobra. Sua resistência tem movimento.

Podemos aprender com ele a aceitar a mão que nos é oferecida, a descansar quando o peso se torna excessivo, a mudar de caminho quando a estrada já não permite passagem. Existe uma coragem discreta em reconhecer que não sabemos o próximo passo e, ainda assim, procurar um lugar onde apoiar os pés.

Enquanto isso, nossas raízes trabalham.

São feitas da voz de quem nos amou primeiro, de uma oração aprendida na infância, das escolhas que conseguimos honrar mesmo nos dias difíceis. Existem raízes no abraço de uma pessoa amiga, no cheiro da casa antiga, na lembrança de alguém que atravessou grandes sofrimentos e conservou a ternura.

Nem tudo permanece como era. Algumas tempestades deixam clareiras que levarão tempo para se cobrir de verde. Existem perdas que seguirão conosco, misturadas à vida que continua. Aos poucos, porém, voltamos a abrir a janela, a cuidar de uma planta, a sentir vontade de conversar. Um dia, sem perceber, demoramos os olhos na beleza da tarde.

No quintal, o vento começa a diminuir. Das folhas do bambu caem as últimas gotas. Seu caule ainda oscila, como se guardasse no corpo a memória do que passou.

Olhamos para ele e pensamos nas pessoas que amamos. Em tudo o que enfrentaram. Na maneira como ainda encontram forças para preparar um café, fazer uma prece, perguntar por nós.

Então entramos em casa com vontade de ouvir uma dessas vozes.

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