quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Os prêmios concedidos aos campeões de xadrez do Uzbequistão

 

O gesto mais fecundo de um país é este: colocar um tabuleiro diante dessa criança e oferecer-lhe tempo, orientação e confiança


O valor de uma mente, o futuro de um povo


O aplauso precisa chegar também à sala onde faltam peças, ao professor que trabalha sem apoio, ao jovem que não consegue viajar para um torneio. É fácil abraçar o vencedor diante das câmeras. Mais difícil é acompanhar o aprendiz quando ele ainda perde, hesita e precisa de alguém que lhe diga: continue


Quantos talentos permanecem à espera de uma oportunidade modesta? Às vezes, bastariam uma sala aberta, alguns livros, um instrutor e a continuidade de um projeto. Há vocações que se apagam por falta de tão pouco, enquanto tanto se gasta com celebrações passageiras


Na imagem, as medalhas repousam sobre o peito dos enxadristas como pequenos sóis. Atrás deles, as bandeiras; à frente, o anúncio de dinheiro, casa e automóvel. A mensagem é clara: o talento merece reconhecimento, e a inteligência também pode levar um povo às ruas para celebrar.

Mas o que mais comove nessa cena é imaginar o caminho anterior ao brilho: o menino curvado sobre um tabuleiro, a partida perdida que lhe roubou o sono, o professor paciente, a família que acreditou quando a vitória ainda não tinha nome.

Uma medalha aparece na fotografia. Os anos que a tornaram possível permanecem fora do enquadramento.

É aí que nasce a pergunta incômoda: quanto vale a inteligência antes de vencer?

A homenagem aos campeões pode acender milhares de sonhos. Uma criança vê aqueles jogadores e descobre que também existe grandeza no silêncio, na concentração, no esforço de compreender uma posição. Aprende que pensar pode ser uma aventura e que um tabuleiro cabe dentro das maiores esperanças.

Entretanto, o aplauso precisa chegar também à sala onde faltam peças, ao professor que trabalha sem apoio, ao jovem que não consegue viajar para um torneio. É fácil abraçar o vencedor diante das câmeras. Mais difícil é acompanhar o aprendiz quando ele ainda perde, hesita e precisa de alguém que lhe diga: continue.

Essa reflexão alcança o Brasil e chega às nossas cidades. Quantos talentos permanecem à espera de uma oportunidade modesta? Às vezes, bastariam uma sala aberta, alguns livros, um instrutor e a continuidade de um projeto. Há vocações que se apagam por falta de tão pouco, enquanto tanto se gasta com celebrações passageiras.

O reconhecimento anunciado na imagem tem força simbólica. Mas sua promessa mais bonita será cumprida se o brilho dessas medalhas alcançar quem ainda está aprendendo a mover um peão.

Porque uma política de valorização do xadrez precisa sobreviver à fotografia. Precisa estar presente na manhã seguinte, quando o salão se esvaziar e uma criança voltar à escola trazendo uma pergunta, um sonho e a vontade de jogar.

O gesto mais fecundo de um país é este: colocar um tabuleiro diante dessa criança e oferecer-lhe tempo, orientação e confiança.

Então, antes mesmo da primeira medalha, alguma coisa já terá sido conquistada.

 


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