Por Gino Martins Borges Bastos
Arroz à piamontese, servido com saudade
Certos nomes trazem consigo uma cidade inteira. Para mim, basta alguém dizer “arroz à piamontese” e já estou de volta ao antigo Marrom Glacê. A memória encontra o caminho da Avenida Geraldo Magela, aproxima-se do restaurante e me restitui a presença de Zezinho, com seu atendimento cortês e aquele talento de transformar uma refeição em motivo para voltar.
Foi com ele que conheci o prato. Desde então, o nome de sonoridade italiana ficou ligado, dentro de mim, a um cozinheiro de Rosal e a uma mesa de Bom Jesus do Itabapoana. Posso encontrá-lo em outros cardápios, prová-lo em outras cidades, mas há uma lembrança que chega antes da primeira colherada. Nela, Zezinho continua em seu restaurante.
O Marrom Glacê conquistou sua fama pelas mãos de José Roberto dos Santos, o nosso Zezinho do Marrom, um dos maiores cozinheiros da história de Bom Jesus. Havia uma confiança construída ao longo dos anos entre aquela cozinha e seus frequentadores. Quem chegava sabia que encontraria comida bem-feita e a delicadeza de ser bem recebido. A tradição foi crescendo assim, refeição após refeição, até o restaurante ganhar seu lugar na vida da cidade.
Fico contente por tê-lo entrevistado em 2018. Naquela ocasião, fiz também uma fotografia que hoje guardo com especial carinho. Há encontros cujo valor o tempo nos ensina a compreender melhor. Ao registrar seu rosto e sua trajetória, eu preservava um pouco daquela presença que agora procuro nas lembranças.
Na matéria, escrevi que a melhor comida de Bom Jesus do Itabapoana podia ser encontrada no Restaurante Marrom Glacê, estabelecido por ele havia cerca de 35 anos. Registrei o ambiente tranquilo, o bom atendimento e uma vida dedicada ao trabalho. Nascido em Rosal, em 14 de maio de 1944, Zezinho havia passado pelo Hospital São Vicente de Paulo e pela Mug Lanchonete. Somava, então, sessenta anos de trabalho.
Hoje me detenho nesse número. Sessenta anos contêm uma existência de compromissos, aprendizados e cansaços que uma reportagem apenas consegue entrever. Penso nas tantas pessoas alimentadas por suas mãos, nos dias comuns que sua comida tornou melhores, nas famílias que escolheram seu restaurante para estar juntas. Cada freguês levou consigo alguma coisa daquele lugar, mesmo sem saber que um dia a levaria pelo resto da vida.
Comigo ficou o arroz à piamontese.
A cremosidade do prato, seu nome, a descoberta daquele sabor: tudo se reuniu à figura de quem o preparava. É curioso como a memória escolhe seus caminhos. Às vezes, procuramos longamente uma recordação; outras vezes, alguém menciona uma comida e uma porta se abre inteira. De repente, estamos outra vez diante de uma pessoa querida, quase podendo agradecer-lhe.
A fotografia de 2018 me permite rever Zezinho. A matéria me devolve os fatos de sua caminhada. Mas é o nome daquele arroz que o traz mais perto, no movimento espontâneo e afetuoso com que certas lembranças nos visitam.
Bom Jesus também vive nessas pequenas fidelidades do coração. Nos estabelecimentos que marcaram uma época, nos trabalhadores que lhes deram personalidade, nos sabores que passaram a fazer parte da nossa história. O Marrom Glacê permanece ligado a Zezinho porque foi sua dedicação que fez daquele endereço um lugar reconhecido e querido.
Quando torno a ouvir “arroz à piamontese”, sinto que ainda há uma mesa à minha espera na memória. E, por um instante, antes que a saudade me recorde a ausência, tenho a alegria simples de estar chegando ao restaurante e encontrar Zezinho.






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