Fernando Azevedo
Havia uma jabuticabeira no quintal. Na infância, ela parecia imensa. Seus galhos sustentavam o céu, e o tronco, coberto de frutos, guardava uma generosidade que eu julgava inesgotável. Bastava estender a mão. A felicidade estava ali, ao alcance dos dedos, deixando na camisa as manchas que minha mãe descobriria depois.
Comíamos depressa. Uma fruta, outra, mais outra. Algumas caíam no chão, perdidas na distração de quem tinha um quintal inteiro pela frente. Depois corríamos para alguma brincadeira, certos de que, na volta, encontraríamos a árvore no mesmo lugar, carregada à nossa espera.
Demorei a perceber quanto dessa certeza se espalhava pelo resto da vida.
Também parecia natural encontrar a casa cheia, ouvir determinadas vozes, chegar sem avisar. Havia sempre outra tarde para uma visita, outro domingo para o almoço, outra oportunidade para sentar ao lado de alguém e perguntar por uma história antiga.
Até que um dia procuramos um nome no telefone e nos lembramos de que já não podemos chamar.
Ficamos olhando a tela por alguns instantes. Ao redor, tudo continua: um carro passa, a água ferve, alguém pergunta onde deixamos a chave. E precisamos voltar às pequenas tarefas, levando conosco aquela vontade de conversar que ficou sem destino.
É assim que começamos a amadurecer: quando uma ausência nos ensina a chegar mais perto de quem está.
Hoje, gosto das visitas que se demoram. Do café que esfria enquanto alguém conta um caso já conhecido. Há uma ternura particular em ouvir de novo uma história e perceber que, desta vez, prestamos atenção à voz, ao gesto das mãos, à alegria de quem a conta.
Tenho aprendido a deixar algumas coisas para depois, mas procuro escolher melhor quais. A discussão sem importância pode esperar. O abraço, quando possível, merece acontecer. Há dias em que desligar um aparelho e puxar uma cadeira é tudo o que precisamos fazer para reencontrar a vida.
Penso nisso diante de uma pequena porção de jabuticabas.
Escolho uma, sinto a casca ceder, reconheço o gosto. De repente, o quintal reaparece. Ouço passos dentro de casa e quase espero que minha mãe venha à porta reclamar da camisa manchada. A memória tem dessas delicadezas: por um instante, devolve até aquilo que parecia esquecido.
Como devagar.
Do lado de fora, a tarde vai mudando de cor. Ainda há alguém com quem repartir os frutos, alguém a quem telefonar, uma visita que posso fazer amanhã, ou, quem sabe, ainda hoje.
Separo algumas jabuticabas numa vasilha.
Depois lavo as mãos. A mancha demora um pouco a sair.

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