No Dia da Poesia Bonjesuense, quando Bom Jesus celebrava o nascimento de Elcio Xavier, o Príncipe dos Poetas, três gigantes atravessaram as portas do Espaço Cultural Luciano Bastos e fizeram o passado voltar a respirar.
Não eram apenas bonecos.
Eram lembranças de pano, madeira e sonho.
Vieram conduzidos por Rondinelli Jesus de Paula, filho de Toninho do Tupy, acompanhado de Joana, sua mãe, trazendo consigo não apenas figuras enormes, mas uma herança inteira. Ao entrarem no auditório, pareciam antigos guardiões regressando ao templo da memória para assistir, em silêncio, à celebração da cultura que ajudaram a construir.
E ali permaneceram durante toda a programação.
Assistiram à Folia de Reis entoando versos ancestrais. Viram a capoeira desenhar liberdade no ar. Escutaram o piano delicado de dona Marise Figueiredo Xavier, fundadora da Escola de Música Cristo Rei, como quem acaricia o tempo com as mãos. Ouviram os instrumentos das crianças e jovens da Sociedade Musical da Usina Santa Maria ecoarem como promessa de continuidade.
Observaram Rogério Loureiro Xavier, filho de Elcio Xavier e dedicado guardião da memória do pai, acompanhado de sua esposa, Eloisa Xavier, e da filha, Elaine Xavier, que vieram do Rio de Janeiro para viver aquele momento de celebração e afeto. Observaram também o açoriano Francisco Amaro Borba Gonçalves, que atravessou distâncias especialmente para o evento, assim como Cristiana Ana, integrante de diversas academias culturais, vinda de Vitória para prestigiar o encontro. Viram ainda Lenice Xavier, prima escritora da família Xavier, reunida entre escritores, acadêmicos, músicos, artistas e o povo, todos unidos como uma só família espiritual.
Naquela tarde, o que se viu foi mais do que um evento.
Foi um encontro de mundos que nunca deveriam estar separados.
A cultura popular entrou de mãos dadas com a cultura clássica. A sanfona abraçou o piano. A caixa da Folia dialogou com os instrumentos de orquestra. Os bonecos gigantes caminharam ao lado dos livros. A ABIJAL, Academia Bonjesuense de Artes e Letras, e a Tuna Luso-Bonjesuense juntaram suas presenças a esse grande mosaico de afetos e manifestações culturais.
E então compreendeu-se algo precioso: identidade não nasce da exclusão, mas do encontro.
Somos feitos desse mosaico.
Da cantoria da Folia.
Do toque do piano.
Do corpo gingando na capoeira.
Do verso escrito.
Do clarim das bandas.
Do boneco gigante atravessando a rua como se a infância nunca tivesse ido embora.
Toninho do Tupy compreendeu isso antes de muitos.
Filho de João de Dão e Rosa Maria da Conceição, ele transformou a vida em festa e a festa em pertencimento. Criou clubes, levantou carnavais, inventou gigantes. Fez da rua um palco onde o povo podia reconhecer a própria alegria. Seus bonecos não eram apenas alegorias, eram espelhos aumentados da alma popular.
Careca Barrigudo, a Boneca, a Mula Rosada e tantos outros não caminhavam apenas pelas ruas das duas Bom Jesus; caminhavam pela imaginação coletiva de gerações inteiras.
E agora, graças ao filho Rondinelli Jesus de Paula, a técnica de construir esses gigantes permanece viva. Ao fundar uma associação dedicada à preservação da memória de seu pai, Toninho, da cultura e de seus heróis, Rondinelli compreendeu que tradição não é saudade parada: é continuidade.
Os bonecos ainda respiram porque alguém decidiu não deixar morrer o encantamento.
Naquela tarde memorável, enquanto os gigantes observavam silenciosos cada apresentação, parecia que também eles se emocionavam ao perceber que o legado deixado por Toninho continuava florescendo diante de novas gerações.
E talvez essa tenha sido a maior poesia do dia.
Mais do que homenagear Elcio Xavier, Bom Jesus homenageou a si mesma. Reconheceu-se em suas múltiplas vozes. Descobriu que sua verdadeira riqueza não está apenas em monumentos ou prédios antigos, mas naquilo que o povo consegue preservar em conjunto: a memória, a arte, a fraternidade e o sentimento de pertencimento.
Porque um povo só se torna inteiro quando consegue enxergar beleza em todas as formas de cultura que o constituem.
E naquela tarde, no meio de versos, bonecos, músicas e bandeiras, Bom Jesus viu seu próprio coração palpitando diante dos seus olhos.
Os gigantes de Toninho não ocupavam apenas o auditório.
Ocupavam a eternidade.
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