O voo literário de Hagatha no Colégio Estadual Padre Mello
No dia 29 de setembro de 2026, às 8h40 e às 14h10, o educandário realizará o Sarau Literário “Potência da Mulher”, em homenagem a Clarice Lispector, uma das vozes mais profundas e luminosas da literatura brasileira. O encontro reunirá literatura, sensibilidade e protagonismo feminino, sob a responsabilidade das professoras Ediane Alexandre, Gislaine Boechat e Aline Pedrosa.
Em meio às homenagens a Clarice, outra escritora também começará a escrever o próprio nome na história: Hagatha Louise Teixeira dos Santos, aluna do 7º ano do Ensino Fundamental, turma 701. Durante o sarau, será lançado seu livro Borboleta Atíria e a Lagarta Lola, trabalho desenvolvido sob a orientação cuidadosa da professora Ediane Alexandre.
O livro de Hagatha traz dentro de si um bosque inteiro. Em suas páginas, a jovem autora abre as portas de dois reinos encantados, separados por um riacho, mas unidos por uma ponte, assim como estavam unidas, antes do conflito, as vidas da borboleta Atíria e da lagarta Lola.
Tudo começa com o desaparecimento das plantas encantadas de Atíria. A amizade, que parecia tão firme, é abalada pelo orgulho, pela mágoa e por uma mentira cuidadosamente semeada. Os dois reinos se preparam para a guerra. Casulos se fecham, soldados treinam, túneis são abertos e armas são empunhadas. Sobre o bosque, antes tranquilo, paira a sombra de um combate que jamais deveria ter começado.
Entretanto, Hagatha nos recorda que, mesmo no coração de uma batalha, a ternura pode sobreviver. Ao ouvir o choro de Lola, Atíria interrompe a fúria para fazer uma pergunta. Naquele instante, a palavra torna-se mais poderosa do que qualquer arma. A verdade finalmente aparece: movida pela inveja da amizade entre as duas, a cobra Górgona havia lançado sua poção e plantado a discórdia. A guerra nascera de uma mentira.
Por trás da fantasia, vive uma lição profundamente atual. Quantas amizades, famílias e comunidades são divididas por palavras falsas, intrigas e julgamentos precipitados? Antes de transformar o outro em inimigo, é necessário atravessar a ponte do diálogo. Atíria poderia continuar lutando, mas preferiu escutar. Lola poderia ocultar seu erro, mas encontrou coragem para pedir desculpas. Ambas descobriram que perdoar também é uma forma de vencer.
Há uma bela simbologia na escolha das personagens. A lagarta e a borboleta representam momentos distintos de uma mesma transformação. A estudante que hoje escreve suas primeiras histórias poderá, amanhã, abrir asas sobre o vasto céu da literatura. Cada frase é um pequeno casulo; cada página, uma asa que começa a se formar.
Esse voo não acontece sozinho. Ao lado da jovem autora está a professora Ediane Alexandre, cuja orientação demonstra a grandeza do verdadeiro educador: aquele que não entrega apenas respostas, mas ajuda o aluno a reconhecer as próprias perguntas, a organizar a imaginação e a acreditar no valor de sua voz. Quando uma professora acolhe o talento de uma estudante, a sala de aula deixa de ter paredes e se transforma em horizonte.
E, por trás desse belo movimento cultural, encontra-se o trabalho magnífico e muitas vezes silencioso da diretora Nathyara Teixeira da Silva. Com uma concepção libertadora e humanizada da educação, ela vem fazendo do Colégio Estadual Padre Mello um território de possibilidades. Sua gestão compreende que educar não é somente transmitir conhecimentos: é despertar sensibilidades, revelar talentos, fortalecer a autoestima e preparar seres humanos para participarem da construção de um mundo melhor.
O Sarau Literário “Potência da Mulher” é fruto dessa visão. Ao homenagear Clarice Lispector e, simultaneamente, abrir espaço para o lançamento da obra de uma jovem estudante, o colégio une gerações de mulheres por meio da palavra. De um lado, Clarice, que mergulhou nos mistérios da existência humana; do outro, Hagatha, que começa a descobrir a força de sua própria imaginação. Entre elas, professoras que orientam, incentivam e mantêm acesa a chama da literatura.
Quem acompanha a vida das escolas sabe que um novo mundo está sendo silenciosamente gestado nas salas de aula do interior. Ele nasce quando uma professora acredita no talento de uma aluna; quando uma diretora transforma a cultura em prioridade; quando um colégio promove um sarau e permite que uma jovem escritora apresente sua criação à comunidade.
Com sua imaginação, Hagatha fez muito mais do que narrar uma aventura. Mostrou que a inveja separa, que a mentira destrói, mas que a verdade, o diálogo e o perdão podem reconstruir pontes. No bosque criado por ela, as plantas encantadas representam a própria amizade: quando regadas com confiança e carinho, florescem novamente, mesmo depois da tempestade.
Ao concluir a leitura, percebemos que Atíria não foi a única borboleta a levantar voo. Hagatha também abriu suas primeiras asas. E, levando consigo o nome do Colégio Estadual Padre Mello, a dedicação da professora Ediane Alexandre e o incentivo da diretora Nathyara Teixeira da Silva, iniciou sua caminhada pelo céu luminoso da literatura.
Nesse dia, cada livro aberto será também uma janela. Cada palavra pronunciada será uma semente. E cada estudante compreenderá que, quando a escola acredita em seus sonhos, até os casulos mais tímidos podem se transformar em asas.





