O NORTE FLUMINENSE, Bom Jesus do Itabapoana (RJ)
Jornal fundado por Ésio Martins Bastos em 25 de dezembro de 1946 e dirigido por Luciano Augusto Bastos no período 2003-2011. E-mail: onortefluminense@hotmail.com
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Caetano Veloso cita leitura da obra Parditude de Beatriz Bueno
Quando um livro encontra outro olhar
Na fotografia, há uma delicada coincidência de tempos: de um lado, Caetano Veloso, recolhido à intimidade da leitura; de outro, Beatriz Bueno, jovem autora de Partitude, segurando o próprio livro como quem segura não apenas uma obra, mas uma parte de si mesma.
E esse é o milagre da literatura: o instante em que aquilo que nasceu dentro de alguém encontra abrigo dentro de outro.
Caetano, que tantas vezes transformou palavras em música e música em pensamento, aparece agora diante de um livro que também procura compreender o Brasil por dentro, esse país mestiço, contraditório, feito de encontros, apagamentos, heranças, dores e reinvenções. Ao escolher Partitude entre suas leituras recentes, o artista estabelece uma ponte silenciosa entre gerações: a experiência de quem há décadas pensa o Brasil e a voz de quem chega agora para interrogá-lo com outros olhos.
Há algo de profundamente simbólico nessa imagem.
O livro repousa nas mãos de Caetano, mas parece atravessar a fotografia como uma pergunta. O jaguar desenhado na capa nos observa. Animal de força e de memória, ele parece representar também a coragem necessária para penetrar nas florestas profundas da identidade brasileira, onde nem tudo é evidente, onde muitas histórias foram escondidas e onde ainda procuramos compreender quem somos.
Beatriz Bueno escreve a partir de uma experiência que não pretende caber em fórmulas prontas. Ao se declarar parda e defender uma abordagem brasileira para pensar raça e mestiçagem, ela se coloca diante de um dos temas mais complexos da nossa formação. Não para oferecer respostas definitivas, mas para abrir caminhos.
É justamente aí que a literatura se torna indispensável.
Um livro não precisa encerrar uma discussão. Às vezes, sua maior grandeza está em começar uma conversa.
A fotografia de Caetano lendo Partitude é, portanto, mais do que uma recomendação de leitura. É um encontro entre a consagração e o nascimento, entre a voz que já atravessou gerações e aquela que começa a construir seu próprio lugar no mundo das palavras.
Há uma beleza especial quando um escritor é lido por alguém que também aprendeu a transformar o mundo em linguagem.
No fundo, livros são isso: encontros que acontecem longe dos olhos de quem os escreveu.
Beatriz escreveu.
Caetano leu.
E, no meio das mãos de um e das palavras da outra, o Brasil ganhou mais uma oportunidade de olhar para si mesmo.
Essa é a verdadeira irresistibilidade de certos livros: eles não terminam quando fechamos a última página.
Continuam vivendo em nós.
Vem aí o XXIIII Congresso Brasileiro de Poetas Trovadores
17 de Agosto: Dia do Patrimônio Histórico
As irmãs que a miséria não perdoou
Existem irmãs que, mesmo dividindo o mesmo sangue, já não conseguem reconhecer no rosto da outra a própria infância
A miséria material pode ser vencida. A moral, entretanto, é mais silenciosa
Em Os Miseráveis, Victor Hugo conhecia profundamente uma espécie de miséria que lentamente, vai também empobrecendo os afetos, até que o sangue, que deveria ser abrigo, se transforma em distância
Não apenas a miséria que deixa os bolsos vazios, mas a que invade a alma, modifica os gestos, endurece as palavras e, algumas vezes, transforma irmãos em estranhos.
Em muitas famílias, a pobreza despoja de quase tudo, menos das lembranças. Em outras a miséria, lentamente, vai também empobrecendo os afetos, até que o sangue, que deveria ser abrigo, se transforma em distância
As irmãs que aparecem à margem da grande narrativa de Hugo não precisam ocupar o centro da cena para nos ensinar alguma coisa. Elas pertencem a esse vasto coro de personagens que carregam consigo as marcas de uma sociedade desigual, onde nascer pobre significava, muitas vezes, começar a vida já devendo ao destino.
Essa é a grandeza de Victor Hugo: ele não olha apenas para os grandes personagens. Olha para os esquecidos. Para aqueles que atravessam a história quase sem deixar nome, como se a vida lhes tivesse negado até o direito de serem lembrados.
Nas relações entre irmãos, Hugo parece nos perguntar: o que acontece com o amor quando a necessidade fala mais alto? Até onde pode resistir o afeto quando a fome, a humilhação, o abandono e o ressentimento ocupam a mesma casa?
Algumas irmãs envelhecem juntas e permanecem distantes. Outras se afastam por uma palavra, por uma herança, por uma mágoa antiga. E existem as que, mesmo dividindo o mesmo sangue, já não conseguem reconhecer no rosto da outra a própria infância.
A miséria material pode ser vencida. A moral, entretanto, é mais silenciosa. Ela não se anuncia pela falta de pão, mas pela falta de compaixão.
Por isso, ao pensar nas personagens de Victor Hugo, devemos ampliar o significado da palavra miserável. Miserável não é somente quem nada possui. Miserável pode ser também aquele que possui muito e nada consegue oferecer ao outro; aquele que guarda dinheiro, orgulho ou ressentimento, mas já não guarda ternura.
As irmãs de Hugo pertencem a esse grande espelho humano de Os Miseráveis. Nele, reconhecemos não apenas a França do século XIX, mas a nossa própria humanidade.
No fim, a verdadeira tragédia não é nascer pobre.
É perder, por dentro, a capacidade de amar.



