segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Gerry & The Pacemakers


 

23/04/2014: Entrevista Histórica com Ismélia Saad Silveira


 

Houve africanos que participaram da captura e da venda de outros africanos

 

Recusar a confortável tentação de construir uma memória na qual o mal estivesse sempre exclusivamente do outro lado

Necessitamos da grandeza de quem deseja impedir que a memória seja construída sobre uma mentira conveniente

A verdade histórica não necessita escolher apenas uma culpa. Pode carregar várias

Nenhuma ferida cicatriza escondendo parte de sua história


A cúpula internacional de Gana

Nas páginas da História observamos dores que nenhuma geração consegue virá-las inteiramente. O tráfico transatlântico de africanos escravizados é uma delas. Milhões de seres humanos foram arrancados de suas terras, separados de suas famílias, acorrentados, transportados através do oceano e transformados em mercadoria. A responsabilidade central daquele gigantesco sistema econômico pertence às potências, traficantes e sociedades coloniais que organizaram, financiaram e exploraram durante séculos esse comércio de seres humanos. Mas existe também uma dimensão incômoda dessa história: houve africanos que participaram da captura e da venda de outros africanos.

Em Gana, essa ferida antiga voltou a ser tocada não para diminuir responsabilidades, mas para ampliarmos nossa compreensão da tragédia humana.

O rei Tackie Teiko Tsuru II, Ga Mantse, líder tradicional do povo Ga, decidiu fazer algo raro entre aqueles que recebem dos antepassados não apenas glórias, mas também sombras: reconheceu publicamente a participação ancestral de seu povo no comércio de escravizados e pediu desculpas.

O gesto possui extraordinária força simbólica.

É relativamente fácil celebrar aquilo que nossos antepassados fizeram de grandioso. Difícil é olhar para trás e dizer: também erramos.

O povo Ga, em determinado período, atuou como intermediário nas negociações com europeus. Ouro e marfim atravessavam aquelas rotas comerciais. Depois, também seres humanos. Homens, mulheres e crianças capturados, inclusive em guerras e conflitos locais, acabaram negociados em troca de tecidos, bebidas, armas e outros produtos.

E aqui a História apresenta uma de suas verdades mais desconfortáveis: a vítima de um sistema pode pertencer ao mesmo continente, à mesma cor e à mesma humanidade daquele que, em determinadas circunstâncias, colabora com o opressor.

Não existe nisso qualquer absolvição do colonialismo europeu.

Muito menos uma divisão artificial de responsabilidades como se todos tivessem possuído igual poder, obtido iguais lucros ou construído o mesmo sistema.

O tráfico transatlântico transformou a escravização numa engrenagem econômica internacional de proporções gigantescas. Navios, companhias comerciais, portos, capitais, governos e mercados do outro lado do oceano fizeram da carne humana uma mercadoria altamente lucrativa.

Mas reconhecer essa estrutura não exige apagar a participação de intermediários africanos.

A verdade histórica não necessita escolher apenas uma culpa.

Pode carregar várias.

E é isso que o rei de Gana verbalizou.

Ao reconhecer a responsabilidade de seus ancestrais, ele não diminuiu a culpa dos traficantes europeus. Fez algo moralmente mais profundo: recusou a confortável tentação de construir uma memória na qual o mal estivesse sempre exclusivamente do outro lado.

O mal possui uma terrível capacidade de recrutar colaboradores. Essa é uma das grandes lições universais da escravidão.

Thomas Hobbes escreveu sobre uma humanidade em que o homem poderia tornar-se lobo do próprio homem. A História demonstrou inúmeras vezes que nenhuma origem, povo, religião ou continente imuniza o ser humano contra a cobiça, a violência e o desejo de poder.

Houve europeus que escravizaram africanos. Houve africanos que escravizaram e venderam africanos. Houve homens que enriqueceram aprisionando outros homens.

E houve também, em diferentes lugares e épocas, pessoas que resistiram, protegeram fugitivos, combateram o tráfico e pagaram caro por se recusarem a aceitar a transformação do próximo em propriedade.

É essa complexidade que torna a História verdadeiramente humana.

O pedido de desculpas do rei Tackie Teiko Tsuru II possui ainda outra dimensão. Ele fala em reparação. E, ao fazê-lo, não dirige a exigência somente para fora. Reconhece que aqueles que se beneficiaram do tráfico devem enfrentar sua responsabilidade e admite que esse compromisso moral também alcança sua própria tradição.

Há grandeza nesse gesto.

Não a grandeza de quem pretende apagar o passado, porque o passado não se apaga, mas a de quem deseja impedir que a memória seja construída sobre uma mentira conveniente.

A verdadeira reconciliação começa aí. Não no esquecimento. Não na tentativa de distribuir culpas de maneira matematicamente confortável. Não na utilização política da História para inocentar uns e condenar outros.

Mas na coragem de olhar para uma ferida e reconhecer todos aqueles que ajudaram a produzi-la, respeitando, evidentemente, as enormes diferenças de poder, escala e responsabilidade entre os diversos participantes.

Os mortos dos navios negreiros não perguntariam hoje qual narrativa nos deixa mais confortáveis.

Perguntariam apenas se finalmente aprendemos alguma coisa.

Aqueles homens e mulheres arrancados de suas terras não eram números de uma estatística histórica. Tinham nomes. Tinham mães. Tinham filhos. Tinham aldeias. Tinham amores. Tinham sonhos.

E um dia alguém decidiu que poderiam ser vendidos.

Essa é a parte mais terrível da escravidão: antes das correntes de ferro, foi necessário existir uma corrente moral muito mais profunda, aquela que permitiu a um ser humano olhar para outro e deixar de enxergar nele um semelhante.

Quando um rei africano olha para os próprios antepassados e reconhece a participação deles naquela tragédia, não está diminuindo a África.

Está engrandecendo a verdade.

Povos amadurecem não apenas quando celebram seus heróis.

Amadurecem também quando encontram coragem para olhar nos olhos de seus fantasmas.

Peter & Gordon


 

O homem por trás do jaleco branco


A literatura realiza uma espécie de medicina da memória: impede que determinados instantes morram definitivamente




No dia 2 de setembro, em Nova Friburgo, o médico Rogério Seródio fará mais do que lançar um livro. Ao apresentar O homem por trás do jaleco branco, permitirá que o leitor atravesse uma fronteira que muitas vezes permanece invisível: aquela que separa o médico que todos conhecem do ser humano que poucos conseguem enxergar.

O jaleco branco tem uma força simbólica extraordinária. Diante dele chegam a dor, o medo, a esperança e aquela pergunta silenciosa que acompanha todo enfermo: “Será que ficarei bem?”. Quem o veste aprende a conviver com a fragilidade humana. Escuta corações, examina corpos, interpreta exames, acompanha recuperações e, algumas vezes, precisa permanecer de pé quando a própria alma gostaria de se sentar e chorar.

Mas existe um homem por trás daquele branco.

Um homem que também se cansa. Que tem família, lembranças, alegrias, angústias e saudades. Um homem que atravessou os dias levando consigo experiências que nenhum prontuário seria capaz de registrar. E isso ocorre quando o médico retira simbolicamente o jaleco e começa a contar sua própria história: descobrimos uma dimensão ainda mais profunda da medicina.

A imagem escolhida para acompanhar a obra parece resumir essa travessia: uma lamparina acesa.

Antes dos grandes hospitais iluminados, dos equipamentos sofisticados e da medicina cercada pela tecnologia, havia pequenas luzes enfrentando enormes escuridões. A lamparina não pretendia iluminar o mundo inteiro. Bastava-lhe iluminar alguns passos adiante.

Essa é uma das mais belas metáforas da medicina.

O médico também não possui todas as respostas. Não vence todas as enfermidades. Não consegue impedir todas as despedidas. Mas pode iluminar alguns metros da caminhada humana. Pode diminuir uma dor, prolongar uma existência, oferecer esperança e, sobretudo, segurar simbolicamente a mão daquele que atravessa a noite.

E existe ainda algo profundamente poético nessa história: Seródio transforma a memória em livro.

As experiências que poderiam desaparecer com o tempo passam agora para o papel. Pessoas, lugares, acontecimentos, dificuldades e alegrias ganham uma segunda existência através das palavras. A literatura realiza, assim, uma espécie de medicina da memória: impede que determinados instantes morram definitivamente.

O título da obra contém, portanto, uma delicada revelação. Por trás de cada profissão existe uma pessoa. Por trás do médico existe o homem. Por trás do jaleco existem sonhos.

E por trás de muitas histórias aparentemente comuns existem vidas extraordinárias esperando apenas alguém que tenha coragem de contá-las.

Na noite de setembro, no Café D’Art Bistro, em Nova Friburgo, haverá certamente livros sobre uma mesa, dedicatórias, abraços, fotografias e reencontros. Mas haverá também algo que nenhuma fotografia conseguirá registrar completamente: um homem entregando aos leitores parte da própria caminhada.

Os livros são exatamente isso.

Lamparinas deixadas acesas para que aqueles que vierem depois possam encontrar algum caminho na escuridão.

E Rogério Seródio, depois de tantos anos cuidando da vida com o jaleco branco, se dedica agora a outra maneira de cuidar dela: salvando-a do esquecimento pela palavra.






Dr. Pedro Antônio e o sonho que devolveu Maria Antonieta ao mundo

 


Entre as montanhas, casarões, ruas e memórias de São Pedro do Itabapoana, Sítio Histórico do Sul do Espírito Santo, nasceu, em 17 de setembro de 1896, Maria Antonieta Tatagiba, poetisa que viveu apenas 31 anos, mas deixou versos suficientes para atravessar um século. E foi também nessa pequena São Pedro que um homem decidiu enfrentar um adversário poderoso: o esquecimento.

Seu nome é Dr. Pedro Antônio de Souza.

Presidente e fundador da Academia Maria Antonieta Tatagiba - Artes, História e Letras, Dr. Pedro pertence à rara linhagem dos idealistas que não se limitam a admirar a história: trabalham para que ela continue viva, se responsabilizando por sua preservação e trabsmissão às gerações seguintes.

Durante muito tempo, alimentou o sonho de ver novamente publicada Frauta Agreste, obra de Maria Antonieta Tatagiba. Não era apenas o desejo de reeditar um livro. Era o propósito de devolver uma voz ao seu tempo e projetá-la para além dele.

E o sonho se realizou.

Em 2025, Flauta Agreste ganhou uma reedição fac-similar, realizada com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, repassados pela Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de Mimoso do Sul. Um acontecimento que, por si só, já representaria extraordinária vitória para a preservação da memória literária capixaba.

Mas os verdadeiros visionários enxergam sempre um horizonte depois do horizonte.

A professora Ester Abreu Vieira de Oliveira traduziu a obra para o espanhol. E aconteceu então algo profundamente simbólico: a poesia nascida numa pequena localidade do Sul capixaba ganhou condições de atravessar fronteiras linguísticas.

Maria Antonieta podia conversar com outros povos.

São Pedro do Itabapoana podia falar ao mundo.

Há nisso uma extraordinária metáfora sobre o poder da cultura. Um livro escrito por uma jovem mulher nascida no interior do Espírito Santo, no final do século XIX, sobrevive ao tempo e, mais de cem anos depois, encontra alguém disposto a retirá-lo das fronteiras da memória local e colocá-lo novamente em circulação.

É por isso que a atuação do Dr. Pedro Antônio de Souza merece ser compreendida em sua verdadeira dimensão.

Ele se revela um gigante da cultura que se ergue de um pequeno lugar do Sul capixaba.

Mas é preciso acrescentar: um gigante com os olhos voltados para o mundo.

Valorizar o local não significa aprisioná-lo dentro de suas fronteiras. Pelo contrário. O verdadeiro regionalismo é aquele que conhece profundamente suas raízes para, a partir delas, dialogar com o universal. Quem ama verdadeiramente sua terra não constrói muros em torno dela: constrói pontes.

Dr. Pedro constrói pontes. Entre São Pedro e Mimoso do Sul. Entre o passado e o presente. Entre Maria Antonieta e as novas gerações. Entre a língua portuguesa e a espanhola. No meio do pequeno território onde uma poetisa nasceu e o imenso território onde sua poesia ainda poderá chegar.

Aí reside o caráter visionário de sua atuação. Criar uma Academia dedicada a Maria Antonieta Tatagiba significa proclamar que a memória daquela jovem poetisa merece institucionalidade, pesquisa, divulgação e permanência. Significa dizer às futuras gerações: houve aqui uma mulher que escreveu versos e nós não permitiremos que o tempo apague seu nome.

A cultura necessita desses guardiões.

Não daqueles que transformam memória em peça imóvel de museu, mas daqueles que conseguem fazê-la respirar novamente.

Quando um livro antigo volta às mãos dos leitores, o passado deixa de ser passado por alguns instantes. A autora retorna. Sua voz reaparece. As palavras atravessam novamente os olhos de alguém.

E quando essa mesma obra ganha outro idioma, acontece algo ainda mais bonito: aquilo que nasceu local começa a adquirir vocação universal.

Maria Antonieta Tatagiba morreu em 13 de março de 1928. Tinha somente 31 anos. Poderia parecer uma existência interrompida cedo demais. Entretanto, a literatura possui uma estranha maneira de contrariar o calendário dos homens. Algumas pessoas vivem noventa anos e desaparecem da memória coletiva; outras vivem três décadas e continuam falando depois de um século.

Para isso, entretanto, é necessário que existam pessoas dispostas a escutá-las.

Dr. Pedro Antônio de Souza escutou Maria Antonieta.

Mais do que isso: fez com que outros pudessem escutá-la novamente.

Essa é uma das mais belas missões que alguém pode desempenhar no campo cultural.

São Pedro do Itabapoana continuará pequena quando observada no mapa.

Que continue.

Grandeza nunca foi questão de extensão territorial.

Existem pequenas terras capazes de produzir enormes histórias.

Existem pequenas localidades de onde partem vozes destinadas a alcançar o mundo.

E existem homens que, mesmo vivendo longe dos grandes centros, possuem a rara capacidade de perceber que o horizonte não termina na última montanha que os olhos conseguem enxergar.

Dr. Pedro Antônio de Souza é um desses homens. Um idealista. Um visionário. Um guardião da memória.

Um gigante da cultura de um pequeno lugar, com as raízes profundamente fincadas em São Pedro do Itabapoana e os olhos permanentemente voltados para o mundo.

Sempre que Frauta Agreste continuar sendo aberta por novas mãos, em português ou espanhol, haverá em cada página um pouco do sonho de Maria Antonieta,  e também um pouco da obstinação daqueles que compreenderam que preservar a cultura é uma maneira de vencer o tempo.

Petula Clark