quarta-feira, 24 de junho de 2026

Do Piano ao Xadrez


 Por Gino Martins Borges Bastos 



Ao refletir sobre minha infância e juventude, fases decisivas na formação do ser humano, percebo que o ambiente proporcionado por meus pais foi marcado por uma disciplina rigorosa.

Em primeiro lugar, o estudo era uma norma natural e inquestionável, reforçada pela própria condição de meu pai, Luciano Bastos, diretor do Colégio Rio Branco. O ambiente familiar respirava disciplina e valorização do conhecimento.

Em segundo lugar, havia a preocupação constante com as chamadas más companhias. Em muitos sábados à tarde, enquanto os colegas se reuniam para jogar futebol na quadra do colégio, lá ia eu, pasta em mãos, para as aulas de piano.

Na época, havia um compreensível descontentamento. Hoje, porém, enxergo aquelas exigências como elementos importantes na formação do caráter.

Pouco a pouco, essas circunstâncias favoreceram o desenvolvimento de ideias próprias, muitas vezes diferentes das da maioria. O xadrez surgiu naturalmente nesse contexto. Trata-se de um jogo que se estuda na solidão e que ensina lições valiosas de estratégia, visão de futuro e controle das emoções.

Ter vivido a infância e a juventude sob tantas restrições, apesar das inevitáveis reclamações daquele tempo, contribuiu para moldar minha personalidade. A resiliência e a disposição para enfrentar desafios, mesmo quando envolvem riscos, em defesa de causas consideradas justas nasceram quase espontaneamente.

Certamente, houve exemplos que inspiraram esse processo. Mas a principal reflexão que faço é que uma infância e uma juventude marcadas por desafios, disciplina e renúncias podem revelar, mais tarde, benefícios inesperados. Aquilo que um dia pareceu privação transformou-se em aprendizado; o que parecia excesso de rigor acabou se convertendo em força interior.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Um "capivara" na capital planejada como tabuleiro de xadrez, por Yelmo Papa

 

Yelmo Papa: treinando xadrez  no Morro do Teleférico em Nova Friburgo.


O menor estado do país tem a menor capital, a única que não tem a sede da Universidade Federal (que fica exatamente em S. Cristóvão). Morei e trabalhei lá por um ano e meio (na TV Sergipe, afiliada Globo). 

Um povo maravilhoso, hospitaleiro e sui generis. Lá toda linguiça é chamada de "calabresa", a traseira de carros e caminhões é chamada de "fundo" (o táxi bateu no fundo do caminhão). Lá tabém não existe meio dia e meia nem 12h30. Eles falam "doze e meia" e outras curiosidades. É uma pena, assim como tantas outras cidades, que só a parte antiga é um tabuleiro perfeito. 

O crescimento desordenado acabou desfazendo esse plano inteligente. Eu morava no centro e caminhava todos os dias na orla do Rio Sergipe. Da janela do 14º andar onde morava eu avistava a Barra dos Coqueiros (município do outro lado do rio) e o litoral. Saí de lá porque não resisti às altas temperaturas mínimas (nunca vi uma noite com menos de 23º), a falta de dias chuvosos (também não vi um sequer) e outros motivos que iam fazer me estender demais. 

Pra finalizar esse comentário, que nada tem a ver com o xadrez, peço desculpas a todos, no meu tempo - entre 2001 e 2003 - não havia a bela ponte ao fundo da foto aérea. A travessia do Sergipe era feita por lanchas de ferro, como as barcas Rio - Niterói (que o Gino deve ter usado muito) ou os folclóricos barquinhos tó-tó-tó (nome que vem da onomatopeia dos pequenos motores a Diesel que os impulsionam). Obrigado.

Dr. Moacyr Tardin de Figueiredo: o médico que ajudou a construir Apiacá

 


Há homens que atravessam o tempo apenas como personagens de uma época. Outros, porém, tornam-se parte da própria paisagem de uma cidade. Assim foi Dr. Moacyr Tardin de Figueiredo, médico, líder comunitário, desportista e primeiro prefeito eleito de Apiacá, cuja trajetória permanece gravada na memória coletiva do município que ajudou a construir.

Nascido em Carabuçu, em 1925, Dr. Moacyr encontrou em Apiacá não apenas o lugar onde exerceria sua profissão, mas o solo fértil onde plantaria as sementes de uma história marcada pelo compromisso público e pela dedicação ao próximo. Com o jaleco de médico e o espírito de servidor, tornou-se uma das figuras mais respeitadas da região, em uma época em que a presença de um profissional da saúde no interior significava muito mais do que assistência médica: representava esperança, acolhimento e segurança para inúmeras famílias.

Pelas estradas de terra e pelos lares simples do sul capixaba, seu nome passou a ser associado à generosidade e ao compromisso humano. Antes mesmo da política, foi na medicina que construiu sua reputação, atendendo à população de Apiacá e dos municípios vizinhos com a dedicação daqueles que entendem a profissão como um verdadeiro sacerdócio.

Mas seu olhar alcançava além dos consultórios. Apaixonado pela vida comunitária, envolveu-se ativamente com o esporte e com as causas locais. Entre 1953 e 1957, presidiu o Boa Vista Futebol Clube, uma das mais tradicionais instituições da cidade. Sob sua liderança, o clube ganhou um novo estádio e consolidou seu espaço físico, tornando-se símbolo de convivência, lazer e identidade para gerações de apiacaenses.

O destino, porém, reservava-lhe uma responsabilidade ainda maior.

Em 1958, Apiacá conquistou sua emancipação política. O jovem município dava seus primeiros passos rumo à autonomia administrativa, carregando os sonhos e as expectativas de toda uma população. Quando a cidade precisou de liderança para iniciar essa nova caminhada, foi Dr. Moacyr quem recebeu a confiança popular.

Eleito o primeiro prefeito do município, administrou Apiacá entre 1959 e 1962, período decisivo para a organização da nova estrutura administrativa. Coube a ele implantar os primeiros mecanismos de governo, estruturar serviços essenciais e lançar os alicerces institucionais sobre os quais o município construiria seu futuro. Seu governo ficou marcado pela dedicação ao interesse coletivo e pelo compromisso com a consolidação da administração pública local.

Ao seu lado estava sua esposa, Hilda Bastos de Rezende Figueiredo, nascida em Bom Jesus do Itabapoana. Mulher de forte presença na vida pública, Hilda também entraria para a história política capixaba ao tornar-se, em 1982, a primeira mulher eleita prefeita no Espírito Santo, ampliando o legado de participação e serviço público da família.

Mais do que administrar uma cidade recém-criada, Dr. Moacyr ajudou a moldar sua identidade. Seu trabalho contribuiu para estabelecer as bases do município moderno, permitindo que Apiacá encontrasse seu próprio caminho de desenvolvimento.

Décadas se passaram, mas sua presença continua viva. Ela pode ser percebida nas histórias contadas pelos mais antigos, nos registros oficiais e até mesmo na principal alameda que abriga órgãos da administração municipal, hoje denominada Alameda Dr. Moacyr Tardin de Figueiredo. Uma homenagem que transcende a simples nomenclatura urbana e se transforma em reconhecimento permanente àquele que dedicou grande parte de sua vida ao bem comum.

Em 2025, por ocasião do centenário de seu nascimento, a Câmara Municipal de Apiacá realizou uma sessão solene em sua homenagem. Familiares receberam diplomas e placas comemorativas, enquanto o município renovava sua gratidão a um de seus mais ilustres cidadãos.

A história de Dr. Moacyr Tardin de Figueiredo é, em essência, a história de um homem que escolheu servir. Médico das dores humanas, líder dos sonhos coletivos e construtor das primeiras páginas da vida administrativa de Apiacá, ele permanece como referência de trabalho, integridade e compromisso público.

Alguns homens passam pela história. Outros ajudam a escrevê-la. Dr. Moacyr Tardin de Figueiredo pertence, sem dúvida, a esta segunda categoria.

Amizades, por Rogério Loureiro Xavier

 


Olá 🖐pessoa amiga e do bem. 


*Amizades*


Amizades não são coisas grandes, são milhares de coisas pequenas. 


Muitas pessoas irão passar pela sua vida, mas ... somente os verdadeiros amigos deixarão marcas no seu coração. 


"Amigos são um tesouro sem preço, um gostar sem distância. A amizade é valiosa demais para ser descartada, grande demais para ser perdida, importante demais para ser esquecida."


*"Amizade não é sobre quem vem primeiro ou quem vem por último. É sobre quem vem e nunca vai embora."*


*✍️ ... Rogerio Loureiro Xavier*

Apiacá e os Açores: O Dia do Imigrante Açoriano

 


Há um mistério antigo nas coisas que cruzam o oceano. Quando os primeiros açorianos aportaram por estas bandas, trouxeram nos baús pouca roupa, mas uma bagagem pesada de saudade, misturada ao cheiro de sal e terra molhada. O tempo passou, os navios de outrora viraram silhuetas na memória, mas o cordão umbilical entre as ilhas de bruma e o solo capixaba nunca se rompeu. Ele permaneceu atado pelo nó mais forte que existe: a herança do afeto.

​Hoje, Apiacá acorda com um sotaque diferente no vento. Não é apenas o calendário que marca o Dia do Imigrante Açoriano; é a própria alma da cidade que se enfeita de azul, branco e vermelho para celebrar trinta e seis anos de um milagre diário: transformar nostalgia em arte. Trinta e seis anos em que o Grupo Musical Amantes da Arte traduz o invisível em música, provando que cantar é, antes de tudo, um ato de fincar raízes no vento.

​Quando a noite cair e os relógios marcarem sete e meia, a Casa dos Açores abrirá suas portas não para um evento formal, mas para um reencontro de tempos. Ali, sob o teto da memória viva, o Coral Vozes do Tempo do CRAS de Apiacá vai misturar o ontem e o hoje em uníssono, provando que a idade da alma é eterna quando ela se põe a cantar.

​E então, far-se-á o silêncio mais bonito da noite. Um homem, Francisco Borba Gonçalves, tomará o violão nos braços como quem acolhe um pedaço da própria pátria. Seus dedos tocarão as cordas e, de repente, as paredes desaparecerão. Apiacá será mar. O salão será névoa. Pelas frestas das notas musicais, as Ilhas de Bruma emergirão diante de nós, desenhadas não por mapas, mas pela poesia dedilhada. Cada acorde será uma onda batendo nas rochas dos Açores; cada pausa, o suspiro de quem lembra de onde veio para saber exatamente para onde vai.

​Presididos pelo olhar atento de Dr. Nino Moreira Seródio e costurados pelo zelo da Professora Maria Cristina Borges, esses laços se renovam. O convite está feito, mas não é um chamado apenas para assistir. É uma convocação para sentir. Para entender que a distância entre duas terras distantes se apaga completamente quando o coração bate no compasso de uma mesma canção.

​Venham. Há um mar de histórias esperando por nós logo ali, na Casa dos Açores.