No alto do Monte Calvário, onde os olhos alcançam Bom Jesus quase inteira e a cordilheira de morros desenha os contornos do Vale do Itabapoana, uma casa de quatro pavimentos abriu hoje suas portas para receber aquilo que nenhuma construção, por mais imponente que seja, pode comprar: a presença da família.
Ali se reuniram três irmãos, um cunhado e um sobrinho, no gesto singelo e profundamente humano de resgatar a tradição dos encontros familiares. Oito cães guarnecem a residência, mas seria injusto chamá-los apenas de guardiões: circulam entre as pessoas com a intimidade dos que também pertencem à família e conhecem, pelo afeto, cada voz e cada silêncio da casa.
A música gospel ecoa pelos pavimentos, atravessa janelas e varandas e parece alcançar as montanhas. Suas mensagens de fé e esperança encontram correspondência na própria paisagem, como se o céu, a música e a família participassem da mesma celebração. Do alto, Bom Jesus se estende diante dos visitantes, abraçada pelos morros que formam o vale e protegem a cidade como antigas sentinelas.
Não foi por acaso que, em 1899, Padre Mello escolheu o Monte Calvário para iniciar a construção da Capela do Cristo Rei. Erguida em posição privilegiada, ela parece olhar para tudo e por todos: para as casas, as ruas, as famílias e os sonhos que atravessam as gerações. Hoje, uma bonita praça e uma quadra anexa ao CEI Amelinha integram o conjunto de melhorias realizadas pelo poder público, conferindo nova vida a esse espaço histórico e espiritual.
Os anfitriões desse reencontro são Maria Aparecida de Sousa dos Santos Cardoso, advogada e professora, e seu esposo, Francisco Cardoso, o conhecido Chico Artesiano, cuja profissão de construir poços parece carregar também um belo simbolismo: ele busca nas profundezas da terra a água que sustenta a vida.
Ao redor da mesa e das lembranças estavam também as irmãs de Aparecida, Cristiani Vieira de Souza e Alcione Vieira de Souza, esta acompanhada do esposo, o comerciante Alciano da Silva Moledo. Completava o encontro o sobrinho Diego Vieira da Silva, servidor público da área da saúde, que definiu aquela reunião com uma palavra carregada de memória: “nostálgica”.
Mas a nostalgia daquele dia não significava tristeza. Era a saudade convertida em presença; o desejo de recuperar o tempo em que as famílias se reuniam sem pressa, compartilhavam histórias, repartiam o alimento e reconheciam umas nas outras a continuidade de sua própria existência.
Há também nessa família uma história de progresso econômico construído pelo trabalho, pela perseverança e pelos próprios méritos. Não é apenas a casa que se elevou em quatro pavimentos: elevaram-se igualmente as condições de vida, a consciência do valor da família e, sobretudo, a espiritualidade de seus integrantes. Ao mesmo tempo, o espaço público ao redor se transformou, revelando que o progresso material pode caminhar ao lado da fé, da convivência e do bem-estar coletivo.
Naquela casa, no alto do Monte Calvário, tudo parecia estar em seu devido lugar: a paisagem diante dos olhos, a música alimentando a alma, os cães acompanhando os passos e a família novamente reunida. E, quando o ambiente físico se harmoniza com o afeto familiar, quando a prosperidade encontra a gratidão e a fé se transforma em esperança, temos a impressão de que o paraíso não está tão distante.
Talvez, por algumas horas, ele tenha escolhido morar ali.





















