Bosco e Rita: Guardiões do Sonho de Padre Mello
Há onze anos, quando os irmãos João Bosco e Rita de Cássia Cogo atravessaram as montanhas que ligam Guaçuí a Bom Jesus do Itabapoana, levavam consigo mais do que figurinos, partituras e memórias. Levavam uma chama antiga, dessas que passam de pais para filhos, de mesa de jantar para sala de estar, de fotografia amarelada para o coração de quem aprende cedo que cultura não é luxo: é herança viva.
Nascidos em Muniz Freire e radicados em Guaçuí, filhos de uma linhagem marcada por raízes italianas e portuguesas, aprenderam em casa que família é mais do que palavra: é presença, cuidado e memória. Quem cruza a porta de sua casa percebe isso imediatamente. Ali, cada móvel parece guardar uma história; cada peça antiga murmura o passado; cada fotografia de álbum familiar é como uma janela aberta para o tempo. É um lar onde a memória respira.
Quando aceitaram o desafio de ajudar a reconstituir, com sacrifício e devoção, a parte cênica da celebração do aniversário do açoriano Padre Mello, talvez não imaginassem que estavam plantando algo maior do que um simples evento cultural. Padre Mello, gênio da civilização e da cultura local, voltaria a caminhar simbolicamente entre seu povo através de gestos simples, delicados e cheios de significado.
Na cantina da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus, o café voltou a ser servido no bule, como nos tempos do velho pároco. As poesias ganharam voz novamente: Crianças, Carro de Boi. Instrumentos musicais evocaram o dom artístico do sacerdote. E o tradicional Pão do Padre voltou a circular entre as mãos das pessoas, lembrando os dias em que era vendido por Mariquinha, irmã do padre, e por Dona Cândida, amiga fiel da família que viera dos Açores.
Era como se o tempo tivesse aberto uma pequena fresta.
O gesto dos irmãos não se perdeu. Anos depois, veio o convite inesperado: homenagear Padre Mello em Varre-Sai, em um Seminário Intermunicipal entre Varre-Sai e Bom Jesus do Itabapoana. O que começou como dedicação silenciosa transformou-se em reconhecimento público.
Mas quem conhece Bosco e Rita sabe que a motivação deles nunca foi aplauso. São agentes culturais movidos por algo mais raro: o amor puro pela arte, pela história e pela memória coletiva. Ao longo dos anos enfrentaram desafios econômicos com coragem, sem jamais permitir que a realidade apagasse o ideal. Para eles, o ideal sempre veio primeiro.
Talvez porque entendam, no fundo da alma, aquilo que o próprio Padre Mello escreveu, versos que hoje ecoam no busto erguido diante da Igreja Matriz de Bom Jesus:
“Morrer sonhando é despertar na glória,
eis a vitória, morrerei assim.”
A lição do pároco é clara como a manhã nas montanhas: só morre sonhando quem teve coragem de viver sonhando.
E os sonhos que Bosco e Rita carregam, feitos de memória, cultura e afeto, não pertencem apenas a eles. Já se tornaram parte da história de muitos.
Por isso, quando o tempo fizer seu silêncio inevitável, não haverá dúvida.
Como ensinou o velho poeta dos Açores, eles também despertarão na glória.


























