Existem homenagens que crescem devagar. Precisam de terra, de água, de alguém que cuide delas enquanto ainda são pequenas. Um dia, porém, abrem-se em flores, e toda uma cidade pode compreender o que aquelas mãos quiseram dizer.
À frente do Santuário do Senhor Bom Jesus e Santa Rita de Cássia, duas cássias guardam a memória de dois sacerdotes. Plantadas pelo genial Raul Travassos, representam Padre Mello e Padre Francisco. Suas raízes abraçam o chão bonjesuense; seus ramos prolongam, ao ar livre, uma história de fé e beleza.
Contemplamos a imagem. Acima das torres, o céu azul acolhe nuvens claras. A porta aberta parece esperar por alguém. Nas laterais, as árvores oferecem suas flores à paisagem, como quem chega para uma celebração levando o melhor que tem.
Pensamos em Padre Mello, o açoriano que deixou na magnífica fachada a marca de sua dedicação. Há algo de comovente nessa trajetória: um homem vindo das ilhas ajuda a erguer, em nossa terra, um lugar para onde tantos olhos se voltariam em busca de amparo. A fachada permanece diante da praça, recebendo a claridade das manhãs, acompanhando a passagem das gerações.
Quantos terão parado diante dela antes de entrar? Quantos terão levantado os olhos, por um instante, quando lhes faltavam palavras para rezar?
Padre Francisco cuidou da beleza do interior. A quem atravessa a porta, esse trabalho oferece outro encontro: o recolhimento, a proximidade do altar, o silêncio em que cada pessoa pode escutar a própria esperança. A obra dos dois sacerdotes se comunica no gesto cotidiano de entrar na igreja. Os olhos admiram a fachada; os passos conduzem ao espaço acolhedor que se abre além dela.
Raul Travassos compreendeu essa conversa entre a beleza e a fé. Também contribuiu com melhoramentos no interior do templo, acrescentando seu cuidado ao cuidado dos que vieram antes. Depois, levou sua sensibilidade para a terra diante do Santuário.
E plantou as duas cássias.
Imaginamos o instante em que as mudas foram acomodadas no chão. Naquele momento, a homenagem ainda cabia em poucos ramos. Era preciso confiar no tempo, aceitar a demora das raízes, esperar que a vida encontrasse seu caminho até o alto.
Raul confiou.
Hoje, o vento pode atravessar as folhas e tocar, com o mesmo sopro, as paredes da igreja. A memória dos sacerdotes participa das estações. Recebe chuva, abriga pequenos pássaros, espalha sombra. Quem passa talvez admire primeiro as flores; ao conhecer a história, passa a enxergar também os homens que elas representam.
E as cássias floresceram exatamente no período da consagração como Santuário.
Essa coincidência guarda uma delicadeza que convida à contemplação. Enquanto a comunidade celebrava, as árvores abriam seus ramos floridos diante do templo. Havia a solenidade lá dentro e, à frente da igreja, aquela oferenda silenciosa, preparada ao longo de tantos dias de sol e chuva.
Talvez Raul tenha olhado para as duas copas com a alegria íntima de quem vê uma ideia ganhar vida. A homenagem chegava à sua plenitude no momento em que o lugar amado recebia sua consagração.
Desde então, há uma ternura particular em olhar para essas árvores. Uma nos recorda Padre Mello; a outra, Padre Francisco. Juntas, lembram também o homem que as plantou e soube dar à gratidão uma forma viva.
Quando suas pétalas caem, imaginamos que a praça recebe pequenos fragmentos dessa história. Alguém passa apressado, uma criança se detém, um fiel sobe os degraus. No alto, os sinos; perto do chão, as flores.
E Bom Jesus continua a guardar seus benfeitores assim: no meio da firmeza das paredes e da delicadeza de duas cássias que aprenderam a florescer diante da fé.