O jardim que desperta conosco ("Dormi e sonhei que a vida era bela; acordei e descobri que a vida era um dever" - Confúcio)
Naquela manhã, ele demorou alguns instantes a sair da cama. Ainda havia um jardim dentro dos olhos. No sonho, os caminhos eram claros, as pessoas amadas estavam próximas e o tempo passava devagar, sem levar ninguém.
Então, um ruído da rua o trouxe de volta. Sobre a cadeira, a roupa do trabalho. Na mesa, os papéis à espera. No telefone, uma mensagem que precisava de resposta. O dia já havia começado a chamá-lo pelo nome.
Por um momento, quis fechar os olhos novamente.
Quem nunca desejou permanecer um pouco mais naquele lugar onde os encontros dispensam despedidas? Há sonhos dos quais despertamos com saudade, como se tivéssemos visitado uma casa onde fomos felizes e deixado alguma coisa na varanda.
Levantou-se. Na cozinha, pôs a água no fogo e abriu a janela. A claridade alcançou primeiro a borda da mesa, depois uma xícara, depois suas mãos. Eram as mesmas mãos que, dali a pouco, carregariam documentos, segurariam o volante, cumprimentariam pessoas. Naquela hora, porém, bastava-lhes preparar o café.
Lembrou-se de que precisava telefonar para a mãe.
Havia adiado a ligação na véspera, vencido pelo cansaço. Agora, enquanto esperava a água ferver, imaginou a voz dela do outro lado, a pergunta de sempre, o cuidado escondido nas recomendações mais simples. Pegou o telefone.
Conversaram poucos minutos. Ela contou uma pequena novidade da casa. Ele disse que estava bem. Antes de desligar, ouviu um “Deus te acompanhe” e permaneceu um instante com o aparelho junto ao ouvido, mesmo depois de terminada a chamada.
O jardim do sonho já parecia distante. Mas alguma coisa dele havia chegado à cozinha.
Saiu para trabalhar. Pelo caminho, encontrou o homem que varria a calçada, a mulher que erguia a porta de uma loja, um pai ajeitando a mochila nas costas do filho. Cada qual trazia suas preocupações; alguns ainda carregavam o sono no rosto. Ainda assim, a rua ia se tornando habitável pelo esforço de todos.
Pensou nas tarefas que o aguardavam. Algumas seriam difíceis. Outras passariam despercebidas, embora lhe custassem horas. Haveria também aquilo que não conseguiria resolver, apesar da boa vontade. Conhecia o peso desses dias e sabia que precisaria, em algum momento, repousar.
Ao chegar, encontrou alguém esperando por ele. A pessoa se levantou, estendeu a mão e disse:
- Que bom que o senhor veio.
Foi uma frase breve. Bastou para que ele compreendesse algo que, deitado, não conseguira perceber.
A vida bela com que sonhara também tinha compromissos. Tinha a voz da mãe à espera de uma ligação, uma criança precisando atravessar a rua, alguém sentado diante de uma porta, confiando que ela se abrisse.
Guardou suas coisas e convidou a pessoa a entrar.
Lá fora, a manhã continuava. E ele, agora inteiramente desperto, começava a reconhecer o jardim.