Existem pessoas cuja presença nos ajuda a compreender o lugar onde vivemos. Ao ouvi-las, uma rua recupera seus antigos passos, uma escola abre novamente as janelas, uma voz distante volta a ser escutada. Maria Apparecida Dutra possui esse dom: em suas lembranças, Bom Jesus do Itabapoana reencontra parte de si.
Celebrar seus 96 anos, no dia 9 de setembro, é percorrer uma história de dedicação ao ensino, amor aos livros e cuidado com a memória. É agradecer à professora que, ao longo de quatro décadas, ajudou gerações a descobrir o mundo e a encontrar seu próprio caminho dentro dele.
“Minha vida se confunde com a História de Bom Jesus”, declarou em entrevista ao jornal O Norte Fluminense, em 2012. E acrescentou, com a humildade que torna suas palavras ainda mais belas: “Se tenho algum mérito, devo aos meus antepassados e a inúmeras pessoas desta terra.”
Neta de Pedro Gonçalves da Silva, primeiro intendente de Bom Jesus do Itabapoana, Maria Apparecida recebeu uma herança que soube transformar em serviço. Dos pais, Alice e Antonio de Sousa Dutra, guardou os ensinamentos de dignidade e dedicação ao próximo. Na convivência familiar, aprendeu também que um livro pode acompanhar uma criança por toda a vida.
Nas férias da infância, Monteiro Lobato e Malba Tahan lhe abriam caminhos. No meio de páginas e descobertas, crescia a menina que, aos treze anos, já escrevia para A Voz do Estudante, publicação dos alunos do antigo Ginásio Rio Branco. Podemos imaginá-la diante do papel, procurando a palavra precisa, enquanto a cidade seguia lá fora, ainda sem saber quantas de suas lembranças encontrariam abrigo naquela jovem leitora.
O amor à palavra também se revelava no cuidado de seu pai com os registros de nossa história. Antonio de Sousa Dutra preservou exemplares do Itabapoana, jornal de 1906. Seu filho Pedro deu continuidade a essa guarda e, posteriormente, doou as preciosidades a Luciano Bastos. Hoje, no Museu da Imprensa do Espaço Cultural Luciano Bastos, essas páginas permitem que outras mãos e outros olhos se aproximem da cidade de outrora.
Há algo profundamente emicionante nesse percurso. Um pai guarda. Um filho conserva. Outra família recebe e compartilha. E assim, através de sucessivos gestos de cuidado, o tempo chega até nós com suas letras ainda legíveis.
Maria Apparecida fez trabalho semelhante com suas recordações. Em depoimento ao O Norte Fluminense, em 2015, trouxe Padre Mello para perto de nossos olhos: o sacerdote que a batizou, que lhe deu a primeira Eucaristia, que frequentava as reuniões do Grêmio Estudantil e incentivava os alunos do Colégio Rio Branco.
Em suas palavras, ele reaparece também na Farmácia Normal, conversando com Antonio Dutra e os amigos. Dois bancos confortáveis acolhiam os frequentadores; política e literatura alimentavam os encontros. A farmácia tinha remédios nas prateleiras e, entre uma conversa e outra, oferecia à cidade o prazer de pensar em companhia.
Dona Apparecida guardou até a voz do sacerdote. Décadas depois, ainda podia ouvi-lo em suas pregações: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus...”. Ao repartir essa lembrança, permitiu que também nós nos aproximássemos daquela voz que o tempo já não nos deixava escutar.
Sua memória acolhe, ainda, as educadoras que marcaram sua formação. Ao recordar Adélia Bifano, conta a escolha de permanecer em Bom Jesus para amparar a irmã e o nascimento de uma escola com bancos feitos de tábuas cedidas pela família. É uma lembrança que revela também o olhar de quem a narra: Maria Apparecida reconhece a grandeza presente nos começos modestos, na renúncia silenciosa, no esforço de ensinar com aquilo que se tem.
Foi com essa sensibilidade que formou seus alunos. Sua bondade e sua mansidão deixaram marcas que os anos de escola não encerram. Há ensinamentos que reaparecem muito depois, quando um antigo aluno precisa agir com justiça, acolher alguém ou recomeçar. Nessas horas, uma professora continua presente, mesmo longe da sala de aula.
Neste aniversário, o Jornal O Norte Fluminense se une aos que receberam sua amizade, seus ensinamentos e suas preciosas contribuições à história bonjesuense.
Que a vida lhe ofereça o carinho que ajudou a espalhar. Que haja serenidade em seus dias, mãos afetuosas junto às suas e a alegria de saber que tanto do que ensinou continua florescendo.
Parabéns, Dona Apparecida! Bom Jesus tem muito a lhe agradecer. Ao abrir o livro de suas lembranças, a senhora nos oferece um lugar à sua mesa, e a cidade inteira se senta para ouvir.