quarta-feira, 6 de maio de 2026

O Dia da Poesia Bonjesuense e André Marreta: O Mestre que Conduz a Fila da Esperança

 


Na tarde em que a poesia vestiu branco de paz e o céu de maio derramou sua luz sobre as duas Bom Jesus, o auditório do Espaço Cultural Luciano Bastos transformou-se em terreiro sagrado da memória e da esperança.

Era o Dia da Poesia Bonjesuense. Data do nascimento de Elcio Xavier, o príncipe das palavras, o homem que ensinou que versos também podem ser pontes entre o povo e a eternidade.

E foi nesse dia simbólico, como se os ancestrais afinassem invisíveis berimbaus no infinito, que entrou o Mestre André Marreta, seguido por seus alunos, por crianças de olhos acesos, por jovens de passos firmes, por homens e mulheres que aprenderam, com ele, que a capoeira é mais do que luta: é oração em movimento.

Vieram em fila indiana.

Naturalmente formada entre as cadeiras do auditório, mas carregando o peso simbólico das grandes marchas humanas:

a disciplina dos que respeitam,

a ordem dos que aprendem,

a humildade dos que sabem seguir para um dia também poder conduzir.

Na frente ia o Mestre.

Não como quem busca aplausos, mas como quem abre caminhos.

Atrás dele, a comunidade inteira parecia caminhar.

E então o berimbau falou.

Falou através dos cantos.

Falou nos corpos dançando.

Falou nos pés descalços da infância.

Falou na vibração coletiva que arrepiou o auditório e fez a cultura popular erguer-se soberana, como rainha antiga que jamais aceita o exílio.

As músicas compostas pelo próprio Marreta ecoaram pelas paredes do espaço cultural como hinos de pertencimento.

Canções nascidas do chão simples, mas destinadas a voar longe, atravessando estados, cidades e corações.

Naquela tarde, não havia apenas uma homenagem.

Havia reconhecimento histórico.

O Certificado de Honra e Louvor entregue ao Mestre não premiava somente um capoeirista.

Premiava um semeador de futuros.

Um homem que escolheu salvar vidas com o instrumento da cultura, com a pedagogia do afeto, com a disciplina da roda e com a música que transforma feridas em resistência.

Filho da região de Bom Jesus do Norte, André Marreta iniciou sua caminhada oferecendo aulas voluntárias, quando quase ninguém enxergava a força social da capoeira.

Enquanto muitos viam apenas um esporte, ele via possibilidade de redenção.

Onde havia abandono, ele levou ritmo.

Onde havia silêncio, ele levou canto.

Onde havia desesperança, ele levou pertencimento.

E assim sua obra cresceu.

Chegou a Carabuçu, ao Bela Vista, às cidades vizinhas, ao Nordeste Fluminense, rompendo fronteiras invisíveis e espalhando sementes de dignidade por lugares onde a capoeira ainda mal era conhecida.

Hoje, suas raízes alcançam Cabo Frio, Macaé, São José do Calçado, Castelo e Muriaé.

Mas sua maior expansão não aconteceu no mapa.

Aconteceu dentro das pessoas.

Cada criança resgatada pela capoeira é um território libertado da violência.

Cada jovem que aprende a tocar berimbau é um poema vivo contra a exclusão.

Ao lado dele, sua esposa também constrói pontes humanas, unindo mães, famílias e comunidade por meio da ginástica, do acolhimento e do cuidado.

Juntos, fazem da cultura um abraço coletivo.

Naquela tarde memorável, até as autoridades compreenderam a dimensão do momento.

O prefeito de Bom Jesus do Norte, Toninho Gualhano, e o vice-prefeito Marcão prestigiaram a cerimônia, como quem reconhecem que existem homens que governam sem cargo, lideram sem imposição e transformam sem violência.

Porque Mestre Marreta pertence à rara linhagem dos que constroem revoluções silenciosas.

Seu berimbau não convoca guerras.

Convoca consciência.

Sua roda não separa.

Abraça.

Sua capoeira não humilha adversários.

Ergue irmãos.

E mesmo depois que a cerimônia terminou, os ecos daquela tarde continuaram vivos pelas ruas das duas Bom Jesus.

Ainda hoje parecem atravessar janelas, misturar-se ao vento do entardecer e repousar suavemente no coração de quem presenciou aquele instante.

Porque certas tardes acabam no relógio, mas nunca terminam na memória.

O berimbau da esperança continua tocando.

E enquanto houver um Mestre como André Marreta abrindo caminhos à frente da fila indiana dos sonhadores, a cultura continuará sendo essa força milagrosa capaz de unir pessoas, curar tristezas e anunciar, no meio do mundo, um amanhã mais justo, mais humano e mais fraterno.




















O Dia da Poesia Bonjesuense e a Usina Santa Maria que Fabrica Esperança

 



Há datas em que o calendário parece abrir um portal para o impossível. No dia 3 de maio, o Espaço Cultural Luciano Bastos não foi apenas um prédio; foi um casulo onde a memória bonjesuense rompeu o silêncio para cantar. Celebrava-se o nascimento de Elcio Xavier, o Príncipe dos Poetas, mas a poesia ali presente não estava apenas escrita em papéis amarelados, ela respirava, soprava metais e palpitava no coração de uma comunidade que se recusou a esquecer.

​O que se viu foi a tradução lírica da resiliência. A Sociedade Musical da Usina Santa Maria, que por anos dormiu o sono profundo da inatividade, despertou. Sob o olhar zeloso de Maria de Lourdes de Sá e a sensível e precisa batuta do Maestro Alessandro Azevedo, cuja maestria conduz a arte com elegância, rigor e profunda inspiração, a música fluiu novamente. Ver as mãos pequenas de crianças e a energia dos jovens empunhando instrumentos é a prova de que a esperança é uma partitura que se escreve em conjunto. Quando uma sociedade se une, o silêncio se retira, envergonhado, dando lugar a uma harmonia que nenhum tempo pode apagar.

​Entre os presentes, a figura de Jorge Roberto de Almeida, o Betinho Milão, erguia-se como um monumento à fé. Ele, que olhou para os escombros do Teatro Cinema Conchita de Moraes em 2016 e não viu o fim, mas um recomeço. Enquanto muitos sentenciaram a morte do teatro sob o peso do teto desabado, Betinho acreditou no "impossível". E o impossível, intimidado por tamanha liderança e união, rendeu-se. O teatro hoje é pedra sobre pedra, sonho sobre sonho.

​Ao lado deles, Eva Rosângela da Silva, com a força silenciosa de quem caminha junto a Paulo César Vitorino de Sá, presidente da Associação de Moradores, personificava o resgate da identidade da Usina Santa Maria. Ali, a Associação não é apenas um registro burocrático; é um guardião de histórias, um operário da cultura que não deixa o passado se perder na poeira dos engenhos.

​A homenagem de Honra e Louvor entregue naquela noite foi, em verdade, um reconhecimento da "Poesia Viva". Pois se Elcio Xavier imortalizou Bom Jesus com palavras, esses homens e mulheres a imortalizam com gestos.

​O Dia da Poesia Bonjesuense provou que a arte mais refinada é aquela que nasce do esforço coletivo. A música da Usina Santa Maria voltou a tocar, o teatro voltou a de pé, e o povo bonjesuense mostrou que, quando o amor pela terra rege a orquestra, até o que estava quebrado volta a brilhar com o esplendor da primeira vez.







 







 










A Dança das Mãos do Mestre Daniel de Lima: o Sopro do Barro

 

​O silêncio do atelier não é ausência de som, mas uma espera. Sobre a mesa, o bloco de argila repousa, úmido, pesado, carregando em si o sono milenar da terra. É uma massa bruta que aguarda o destino, como um corpo que ainda não aprendeu a respirar.

​Então, surgem as mãos do Mestre Daniel de Lima.

​Não são mãos que apenas tocam; são mãos que escutam. Há uma coreografia invisível no ar antes mesmo do primeiro contato. Quando os dedos encontram a massa fria, o tempo parece dobrar-se sobre si mesmo. Daniel não está apenas modelando; ele está despertando memórias que o barro guardava em segredo.

​A técnica é o rigor, mas o lírico é o detalhe. Sob a pressão precisa de seus polegares, as curvas surgem como se estivessem ali o tempo todo, apenas escondidas sob a pele da terra. Uma prega de tecido em argila não é apenas uma forma geométrica; é o movimento de um vento que soprou há séculos, congelado agora pela sensibilidade do mestre. A estátua que observa o horizonte, com mãos postas e olhar de serenidade, parece partilhar de um diálogo mudo com seu criador. Ela agradece pela vida que lhe é dada através do suor e da paciência.

​Nesta Oficina de Modelagem, Daniel não ensina apenas a manusear o material. Ele ensina o despojamento. Para dar forma ao barro, é preciso primeiro sujar as mãos, aceitar a imperfeição e entender que a beleza nasce do esforço entre o Criador e a Matéria.

​O barro, sob o comando de Daniel, deixa de ser lama para se tornar alma. Cada vinco, cada expressão capturada é um testemunho de que a arte é, em última análise, um ato de amor: a tentativa humana de tornar eterno aquilo que, por natureza, é pó. E ali, entre as 9:30h e as 12:30h de um sábado qualquer, o mundo para. A única coisa que palpita é o ritmo do mestre, transformando o chão que pisamos no céu que admiramos.


O Dia da Poesia Bonjesuense e O Retorno à Nascente: O Encontro de Jandira com sua Essência


​No calendário da alma bonjesuense, o dia 3 de maio não é apenas uma marca no tempo; é o palpitar rítmico do Príncipe dos Poetas, Elcio Xavier, que renasce em cada verso declamado. Mas, naquele crepúsculo de celebração no Espaço Cultural Luciano Bastos, a poesia deixou de ser apenas palavra escrita para se tornar carne, movimento e memória na figura de Jandira Moreira Xavier.

​A escritora, que cruzou fronteiras e conquistou o reconhecimento internacional com a força de sua educação e de sua escrita, ali estava, não como a intelectual laureada, mas como a menina de Pirapetinga de Bom Jesus.

O Canto que Desperta o Tempo

​Quando os primeiros acordes da Folia de Reis Irmandade da Estrela Guia, comandada pelo Mestre Warlem Rodrigues Souza, ecoaram pelo salão, o ar pareceu se transformar. O som da viola, o bater do tambor e o tilintar do triângulo não traziam apenas música; traziam o cheiro da terra úmida e o brilho das estrelas de uma infância distante.

​Para Jandira, a Folia não era uma apresentação folclórica; era um portal. Viu-se, em um átimo, acompanhando os passos dos foliões pelos caminhos de terra, sentindo a mesma reverência sagrada e profana que moldou seus primeiros olhares sobre o mundo. O brilho nos olhos da educadora não era de orgulho pela homenagem recebida, mas de emoção pura, o tipo de lágrima que só brota quando reencontramos um pedaço de nós mesmos que julgávamos perdido no passado.

​O Abraço entre o Saber e a Raiz

​Em um gesto de profunda humildade e beleza, a escritora fez questão de imortalizar o momento. No meio de uniformes alvirrubros, do Mestre Warlem e os instrumentos que guardam a tradição, ela buscou a figura enigmática e vibrante do Palhaço da Folia.

​Naquela fotografia, o que se vê é um abraço simbólico: de um lado, a erudição que correu o mundo; do outro, a máscara colorida que guarda a ancestralidade.

​Ali, Jandira Moreira Xavier reafirmou que nenhuma árvore toca o céu sem respeitar a profundidade de suas raízes. A homenagem no Dia da Poesia Bonjesuense transbordou o protocolo para se tornar um rito de passagem reverso: a volta para casa.

​Foi o encontro da mestre com a sua própria nascente. Em Pirapetinga de Bom Jesus, a menina que corria atrás da Folia certamente sorriu, orgulhosa da mulher que, mesmo sendo mundo, nunca deixou de ser chão, nunca deixou de ser poesia viva.


Jandira Moreira Xavier: Honra e Louvor