segunda-feira, 20 de julho de 2026

Quando Você e Eu Éramos Jovens, Maggie

 


"
When You and I Were Young, Maggie" (A clássica canção folk )

​Autor da letra: George Washington Johnson (1864). Ele escreveu o poema como uma declaração de amor para sua noiva, Margaret "Maggie" Clark.

​Compositor da melodia: James Austin Butterfield (1866). 


Quando Você e Eu Éramos Jovens, Maggie

(Quando Você e Eu Éramos Jovens, Maggie)


​Hoje caminhei até a colina, Maggie,

Para contemplar a paisagem lá embaixo,

O riacho e o velho moinho a ranger, Maggie,

Como costumávamos fazer há tanto tempo.


​O verdejante bosque sumiu da colina, Maggie,

Onde os primeiros malmequeres desabrochavam,

O velho moinho ruidoso agora está silencioso, Maggie,

Desde quando você e eu éramos jovens.


​E agora estamos velhos e de cabelos grisalhos, Maggie,

E as provações da vida estão quase no fim.

Cantemos sobre os dias que se foram, Maggie,

Quando você e eu éramos jovens.


​Uma cidade tão silenciosa e profunda, Maggie,

Onde os jovens, os alegres e os melhores,

Em polidas mansões brancas de pedra, Maggie,

Encontraram um lugar para descansar.


​Foi erguida onde os pássaros costumavam cantar, Maggie,

E as águas murmurantes fluíam.

Como dançávamos no borrifar da fonte, Maggie,

Quando você e eu éramos jovens.


​Dizem que estou fraco pela idade, Maggie,

Meus passos são menos ágeis do que outrora,

Minhas bochechas estão frias como a neve, Maggie,

Mas estou feliz novamente,


​Como quando você se tornou minha doce esposa, Maggie,

E o borrifar da água saltava,

Quando ficávamos lado a lado junto ao carvalho, Maggie,

Quando você e eu éramos jovens.


Luar e Rosas (Trazem Lembranças de Você)

 



A famosa canção "Moonlight and Roses (Bring Mem'ries of You)" tem uma história de composição dividida entre a música original e a adição de sua letra:

Composição Musical (Melodia): Foi criada pelo influente organista e compositor inglês Edwin Henry Lemare em 1888 (originalmente lançada como uma peça para órgão chamada Andantino em Ré bemol).

Letra e Adaptação: Em 1925, Ben Black e Neil Moret (pseudônimo do compositor e editor Charles N. Daniels) adaptaram a melodia de Lemare e escreveram a letra, transformando a peça instrumental na canção popular que ficou famosa globalmente.


Luar e Rosas (Trazem Lembranças de Você)

(Moonlight and Roses)


​Luar e rosas

Trazem lembranças de você

O luar prateado

Guia-me até você


​Pássaros da noite estão cantando

Suas canções para as estrelas

Luar e rosas

Trazem lembranças de você


(Instrumental)


​Luar e rosas

Trazem lembranças de você

O luar prateado

Guia-me até você


​Pássaros da noite estão cantando

Suas canções para as estrelas

Luar e rosas

Trazem lembranças de você


Caminhe com Fé no Seu Coração

 




A canção "Walk With Faith In Your Heart" foi composta pela dupla Tony Starr e Freddy James.

​A música ficou bastante famosa ao longo dos anos nas vozes de artistas e grupos renomados como:

Johnny Nash (uma das gravações mais antigas, lançada em 1959);

Vera Lynn (que a gravou acompanhada pela The Roland Shaw Orchestra and Chorus, também em 1959);

The Bachelors (grupo que popularizou bastante a canção nos anos 1960);

Fred Murphy Davis.



Caminhe com Fé no Seu Coração

(Walk With Faith In Your Heart)


​Caminhe com fé no seu coração

E você nunca caminhará sozinho

Há esperança em cada passo

Quando você caminha com o Senhor


​Quando a estrada for longa e íngreme

E a noite for fria e escura

Você encontrará a luz do amor

Se caminhar com fé no seu coração


​Caminhe com fé, caminhe com esperança

Caminhe com amor a cada passo

Ele o guiará por todo o caminho

Com Sua misericórdia ao seu lado


​Embora o mundo possa lhe virar as costas

E seus sonhos possam se despedaçar

Você sempre encontrará o seu caminho

Se caminhar com fé no seu coração


​Caminhe com fé, caminhe com esperança

Caminhe com amor a cada passo

Ele o guiará por todo o caminho

Com Sua misericórdia ao seu lado


​Embora o mundo possa lhe virar as costas

E seus sonhos possam se despedaçar

Você sempre encontrará o seu caminho

Se caminhar com fé no seu coração


​Se caminhar com fé no seu coração


20 de julho: a Poesia de Peões, Torres, Cavalos, Bispos, Damas e Reis

A Dança das Estratégias: Reflexões no Dia do Enxadrista



​Haverá quem olhe para a imagem acima e veja apenas um Rei azul, um peão branco e algumas peças de xadrez em um tabuleiro. Mas para os iniciados, para os amantes do jogo de reis, essa imagem é um portal. Ela nos transporta para um reino de silêncio profundo, concentração tátil e batalhas invisíveis que se desenrolam na mente, não no campo.

​"Jogar Xadrez faz bem, Pratique." A frase é simples, quase utilitária, mas emana uma verdade profunda. É um convite não apenas para um passatempo, mas para um encontro consigo mesmo. Quando as mãos tocam as peças frias e pesadas, como este Rei azul imponente, começa uma dança. Uma coreografia de possibilidades, ameaças e promessas.

​Hoje, 20 de julho de 2026, celebramos o Dia do Enxadrista. É o dia de quem vê o mundo não em binários de preto e branco, mas em uma rica tapeçaria de lances intermediários, contra-ataques e sacrifícios brilhantes. É o dia de quem sabe que uma derrota pode ensinar mais do que mil vitórias fáceis, e que a verdadeira mestria não reside na quantidade de lances previstos, mas na compreensão da essência da posição.

​A imagem, trazida a nós pela "JWM Rocha Treinamento", de Jorge Wilson Martins Rocha, encapsula a filosofia do jogo. Os ícones na parte inferior, uma mente ativa, o alvo de foco, o gráfico de disciplina e a torre de evolução, são os quatro pilares do enxadrista. O xadrez não é apenas um jogo; é uma forja de caráter. Ele nos ensina a planejar com antecedência, a controlar nossas emoções sob pressão e a assumir a responsabilidade por cada decisão.

​A figura do Rei azul domina a cena. Ele é a representação do que buscamos: a segurança, mas também a liderança. E a frase "Estratégia, Foco, Disciplina, Evolução" é um mantra para a vida.

​Neste Dia do Enxadrista, está o convite a olhar para esta imagem não como um anúncio, mas como uma meditação visual. A vida, assim como o xadrez, é sobre as escolhas que fazemos. Às vezes, somos o Rei, precisando de proteção constante; outras vezes, somos o peão solitário, marchando em direção a uma promoção incerta. Em ambos os casos, a beleza está na jornada, na busca pela ordem no caos do tabuleiro.

​Pratique o xadrez. Pratique a vida. E que seu próximo lance seja sempre o melhor.


domingo, 19 de julho de 2026

"AS SETE FACES DE ADEMAR MIRANDA", por Lauro Amaral


Lauro Amaral 

Vou contar um pouco do que ouvi do próprio Ademar Miranda, uma lenda real e um dos meus melhores interlocutores. Cozinheiro, campeiro, jogador de futebol, sapateiro, motorista, leiloeiro e administrador. Depois eu soube que era também bastante fantasioso, como a contagem sugere. Teremos muitos nomes paralelos, mas tomara que você identifique algum. Nasceu em 1932 no Valão do Cágado, entre Itaperuna e Bom Jesus. Filho de Jorge Ribeiro Miranda e Maria Joaquina Miranda. Teve como irmãos: Antônio, Laíde, Ataíde e Alcenor. Cresceu com sua família na lida com o gado e com a terra. Estudou na escolinha que ficava no quintal da fazenda, sendo aluno das professoras Eni Boechat e Alaíde Boechat.

​Aos 17 anos fez seu alistamento militar obrigatório em Itaperuna. Todavia, por não haver na região nem mesmo o Tiro de Guerra e devido à insegurança daquele período de pós-guerra mundial, o jovem Ademar foi convocado no ano seguinte e sentou praça na capital, na Vila Militar e depois em Triagem, ficando nos alojamentos destas guarnições por 4 anos. Ali desenvolveu várias atividades e aprendizados, se destacando particularmente como chefe das cozinhas dos quartéis, título que lhe rendeu diversas congratulações. Nos fins-de-semana livres por vezes passeava de dia na praia de Ramos (que segundo ele já era bem imprópria para banho, porém a mais divertida) e de noite no Mangue (extinto meretrício de polacas, bastante procurado por militares e demais cariocas, mas frequentado também por outros conterrâneos hoje ilustres).

​Sempre retornava para casa de seus pais nas férias do destacamento. Em uma destas foi “segurado” (como ele disse) por uma de suas namoradas que o proibiu de voltar para a capital. A jovem bem tinha razão, considerando a sua fama de rapaz namorador e o apelo passional do Rio de Janeiro cheio de bossa nova e samba canção. Metido a conquistador Ademar gostava de sair com seu grupo de companheiros a cavalo ou em sua charrete, o que lhe era mais agradável pois (além de andar com uma perna levemente manca) estas coisas lhe pareciam dar diferenciais favoráveis. 

E assim seguiam à procura dos bailes da vida, em Ourânia, na serra do Barreiro, na Lajinha, no Pavão, no Laurentino, na Jaboticaba e onde mais corresse a notícia de um possível arrasta-pé e arrasta-pista, na Vargem Alegre. Mas foi em uma das inúmeras festas de sábado à noite promovidas no salão da fazenda de Leonides Germano que se aproximou de Lindalva, sua futura esposa, filha de Alberto Germano e Eny Borges de Souza.

​Em tempos de pouco dinheiro sacudiu sua poeira: pegou seus bois de carro, chamou os companheiros Alcemiro de Souza (Mila) e Geraldo Theodoro e foram trabalhar arando terras nas baixadas (para plantio de arroz) e morros (para plantio de milho e feijão) na região do Valão (de Cezar Poubel) e no Viveiro (de Bebeto Germano, seu sogro). Lembrou-se da cena em que havia mais de 10 arados trabalhando ao mesmo tempo e que em determinado ano chegou a lotar seu grande paiol de milho até a cumeeira.

​Certa vez recebeu um convite do Mocinho (Homero Vieira Seródio) e do Mila para participar da equipe do Pirapetinga Futebol Clube, com direito a pagamento expressivo. Tinham até a carteira do time assinada (teve gente que se aposentou graças ao tempo de trabalho ali registrado, imaginem!). Entre os jogadores se lembra mais dos goleiros com os quais foram tricampeões: Damásio (filho de Nazário), Brizantino, Vivaldi e Germano (hoje residente em Bom Jesus do Norte). Em paralelo trabalhou também como sapateiro com o Sr. Jarí, um alfaiate que tinha seu quarto de costura no porão do fazendão. E por estar satisfeito com estas duas remunerações (jogador e sapateiro) deixou de vez o trabalho no campo.

​Trabalhou ainda no bar de Dona Iracema Seródio, que funcionava no salão anexo à sua casa, no início da Praça João Catharina. Ali havia sinuca, máquina para fabricar picolé, energia elétrica (de dínamo, coisa muito rara, especial mesmo) e rádio (com pilhas enormes) com o qual acompanhavam atentos e felizes a Copa de 70, quando o Brasil conquistou o tricampeonato. Naquele clima de alegria, de “pra frente Brasil”, este certamente foi um excelente ponto de encontro da zona rural. Lá os homens bebiam “até tardão da noite” (10 horas, estourando), em meio a muita bagunça, naturalmente. Tanto que Dona Iracema determinou o fechamento do bar.

​Foi ajudante de propriedade do Sr. Jary Goninho e também de caminhão, tendo como motorista o Chico Preto (do Bonito). Em um certo dia de estresse e cansado da rotina o Chico se queixou do vencimento e abandonou o caminhão no pico de uma serra em que estavam trabalhando. Então Ademar se viu obrigado a pegar no volante para dirigir e descer com tudo aquilo lá de cima. Com esta prática, mais adiante foi motorista da Viação São Cristóvão, de propriedade do Sr. Jorgino (ou seria Josino Dutra? Ah, a memória lhe traindo...). Aquele ônibus todo azul e branco, supermoderno, viera substituir a antiga e pequena jardineira, que tinha o bagageiro em cima, com uma escadinha para subir e pôr as malas e pequenos animais. Dirigiu para Carabuçu, Campos, Muriaé, Congonhas e Aparecida do Norte por muitos anos, nos tempos difíceis em que vários trechos ainda não eram asfaltados. Transportava pessoas comuns, romeiros e times de futebol com toda aquela bagunça peculiar, enfrentando problemas com a Polícia Rodoviária Federal etc. Mais tarde encerrou esta parte da vida dirigindo apenas entre Itaperuna e Pirapetinga. Com uma caneta atrás da orelha, um bloco de passagens no sovaco, as notas de dinheiro entrelaçadas entre os dedos e se equilibrando em pé pelo corredor do ônibus, Ademar se recorda que teve como seus cobradores: Norberto Freitas (da Malvina), Jadeir Hilário (do Custódio), Joaquim (do Manoel Gonçalves) e Rogério Barbosa (do Olívio). Nas noites de sábado entre galinhas caipiras (vivas ou assadas), bonecas de pano (momento de maior algazarra), cestas de ovos (feitas com cascos de tatu) e muuuitos doces, participou incontáveis vezes como leiloeiro da igreja no coreto da praça.

​De revés em sua história foi o momento da perda de seu filho de 10 anos, com epilepsia intensa, desenganado pelos médicos de Ourânia e Barreiro (vilas de Natividade) e com posterior cirurgia em Niterói. Então pediu licença de 6 meses do trabalho no ônibus e não voltou mais a dirigir. Ficou parado. Reflexivo por um bom tempo. Mais adiante Paulo Portugal e Jacinto Seródio (então gestores municipais) o convidaram para ser o administrador do distrito, seguindo-se com a sua aposentadoria. Contudo Ademar continuava prestativo, solidário, companheiro e marcante entre nós.




Rodolfo da Tijuca: a banca que une jornais, histórias e afetos na celebração da Casa dos Açores

 



Na festa de celebração dos 74 anos da Casa dos Açores do Rio de Janeiro (CARJ), a história se encontrou com o afeto em uma noite marcada por reencontros e memórias. No meio de abraços, conversas e lembranças, Rodolfo Graziano Sinforoso, proprietário da icônica Banca do Rodolfo, na Tijuca, um dos tradicionais pontos de encontro dos leitores cariocas, esteve presente acompanhado de sua esposa Rosemery Fernandes da Costa Moreira.  Graças à sensibilidade e à articulação do amigo Francisco Amaro Borba Gonçalves, o encontro reuniu novamente antigos companheiros de jornada, entre eles o próprio Francisco Amaro, Isac Nascimento, André Luiz de Oliveira, seu filho Miguel da Silva Oliveira e Gino Martins Borges Bastos. Um momento em que a amizade, a cultura e a paixão pela comunicação revelaram que os laços construídos ao longo do tempo permanecem vivos.

Rodolfo carrega em sua trajetória o simbolismo de uma cidade que ainda valoriza o jornal impresso e a convivência nas bancas de rua. Há décadas, sua banca mantém acesa a chama da leitura, sendo também responsável pela circulação do jornal O Norte Fluminense no Rio de Janeiro, graças à iniciativa de Francisco Amaro Borba Gonçalves. A celebração aconteceu no Salão Nobre Vitorino Nemésio, homenagem ao escritor, intelectual e professor açoriano que foi um dos grandes idealizadores da Casa dos Açores do Rio de Janeiro e seu Presidente de Honra na década de 1950. Nesse espaço de memória e cultura, a tradição açoriana encontrou a força dos encontros humanos, onde jornais, histórias e amizades continuam atravessando gerações.



Casa dos Açores do Rio de Janeiro: 74 anos de história, música e emoção que atravessam o Atlântico

 

Uma noite de celebração da cultura açoriana reuniu tradição, memória e o reencontro de gerações na presença da cônsul-geral de Portugal


A harmonia perfeita entre o compromisso da Diretoria da CARJ e a alma palpitante da Tuna Açoriana


A celebração dos 74 anos da Casa dos Açores do Rio de Janeiro (CARJ), realizada no dia 18 de julho, consolidou-se como uma das mais expressivas e palpitantes manifestações da cultura acoriana na capital fluminense. Nessa data, a noite recusou-se a terminar quando as luzes se apagaram: ela permaneceu gravada na memória coletiva, feito uma canção que continua a ecoar no silêncio, muito depois do último acorde.

​A histórica sede da instituição transfigurou-se em um verdadeiro cais de encontro entre o ontem e o amanhã. Cruzaram-se ali as memórias calejadas dos primeiros imigrantes açorianos, a força das tradições preservadas a ferro e afeto por décadas, e o olhar renovado das novas gerações, jovens que aceitam o chamado de carregar no peito a identidade de um povo eternamente marcado pelo mar, pela coragem e pela doçura da saudade.

O prestígio da solenidade foi elevado pela presença ilustre da cônsul-geral de Portugal no Rio de Janeiro, Maria Joana da Costa Afonso Lino Gaspar. Em um dos momentos mais solenes do evento, como justo reconhecimento à sua calorosa aproximação com a comunidade, a diplomata foi agraciada com o Diploma de Sócia Honorária da Casa dos Açores. O gesto, mais do que uma formalidade protocolar, selou um abraço fraterno de amizade e integração cultural entre Portugal e o Brasil.

A noite em que as nove ilhas tocaram no Rio de Janeiro

O ápice artístico da noite foi protagonizado pela Tuna Açoriana, que subiu ao palco em sua formação completa. Reunindo nove integrantes, o grupo desenhou no espaço uma simbologia perfeita: cada músico em cena representava uma das nove ilhas que moldam o arquipélago dos Açores.

Quando os primeiros acordes ecoaram, a música operou uma verdadeira metamorfose no ambiente. Os sons dos instrumentos pareciam soprar o vento salgado do Atlântico e desenhar os contornos das icônicas ilhas de bruma. Naquela harmonia, resgatou-se a memória dos antepassados que outrora atravessaram oceanos inteiros desafiando o desconhecido, carregando na bagagem quase vazia apenas a esperança e a riqueza de sua cultura.

A apresentação revelou uma qualidade técnica e artística comparável à dos grandes grupos profissionais do gênero. Mais do que um espetáculo musical, a Tuna Açoriana provou que a tradição, quando cultivada com amor e devoção, não é um eco estático do passado, mas uma força viva que se renova a cada nota.

A força da união das comunidades portuguesas

Outro capítulo inesquecível da noite foi desenhado pela participação da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro do Rio de Janeiro. Instituição histórica fundada em 28 de julho de 1923, ela partilha com a Casa dos Açores mais do que a proximidade física de suas sedes vizinhas: partilha o mesmo sangue e o mesmo amor pelas raízes lusitanas.

​Em um gesto de pura comunhão cultural, a entidade transmontana promoveu um workshop de castanholas, abrindo caminhos para que o estalar rítmico do instrumento se integrasse aos acordes da Tuna Açoriana. Somada a isso, a chegada da concertina, com seu fole que parece respirar saudades, expandiu o horizonte melódico do grupo.

Essa fusão de timbres e sotaques não apenas ampliou a riqueza musical da Tuna, mas traduziu em arte o que há de mais belo na diáspora: pontes sonoras que estreitam os abraços e fortalecem a união entre as diversas regiões portuguesas que palpitam, irmanadas, em solo carioca.

A música que atravessa gerações: os Fagundes

A presença da família Fagundes reservou o momento de maior emoção para o público, transformando o palco em um verdadeiro altar de memórias. No compasso da Tuna Açoriana, a tradição musical recusa-se a virar passado: ela palpita viva através de Alexandre Pires Fagundes, filho do saudoso Anselmo Fagundes, cujo violino outrora marcou época e moldou a trajetória da antiga Tuna Terceirense.

​Hoje, a linhagem desse afeto sonoro ganha novas vozes e mãos. Alexandre, ao lado de seu filho João Vitor e de seu primo Pedro Fagundes, personifica a continuidade de uma herança familiar moldada entre partituras e acordes.

​É pelas mãos de Pedro, no entanto, que o tempo parece suspender o fôlego: ele mantém viva uma história de profunda sensibilidade ao dedilhar o mesmíssimo violino que pertenceu a Anselmo. Nas cordas daquele instrumento ressuscitado pelo carinho, a madeira gasta pelo tempo prova que a saudade também pode cantar, fazendo com que a alma de Anselmo continue ali, viva, contando histórias através da música.

Reconhecimento àqueles que preservam a identidade açoriana

Um dos momentos mais tocantes da solenidade foi a homenagem prestada pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Por iniciativa do vereador Rafael Aloisio Freitas, a Casa dos Açores recebeu uma Moção de Louvor e Reconhecimento, um tributo de papel e afeto que oficializa o valor da instituição para a engrenagem cultural da cidade. 

A noite também ganhou contornos de profunda gratidão com a entrega do título de Grande Açoriano a duas personalidades que carregam a essência dessa herança em suas trajetórias: Manoel Luis Ventura e Maria Durvalina Borba. 

 No centro das celebrações, o presidente da Casa dos Açores, João Leonardo Soares, foi justamente aplaudido pelo trabalho que vem desenvolvendo à frente da instituição. Conduzindo a entidade com a sensobilidade do diálogo, a força da dedicação e o compromisso inabalável de manter viva a memória açoriana além-mar, João Leonardo fez questão de partilhar os louros. Em seu discurso, ressaltou a atuação dos que o antecederam e o valor de toda a diretoria. Dedicou um agradecimento caloroso e especial ao departamento feminino - a alma sensível que costura os bastidores e os sucessos da instituição.       

Bom Jesus do Itabapoana presente na celebração

O jornal O Norte Fluminense e a TV Alcance, de Bom Jesus, marcaram presença na solenidade dos 74 anos da Casa dos Açores do Rio de Janeiro, levando mais do que homenagens: levaram o abraço simbólico do Vale do Itabapoana à comunidade açoriana. Durante a celebração, foram entregues à Casa dos Açores e à Tuna Açoriana Certificados de Reconhecimento e produtos da terra bonjesuense, fortalecendo os laços culturais entre duas histórias que, embora separadas pelo oceano e pela geografia, permanecem unidas pela memória, pela arte e pela amizade.

Essa aproximação nasceu da sensibilidade e da dedicação do açoriano Francisco Amaro Borba Gonçalves, verdadeiro elo entre as culturas. Com sua capacidade de construir pontes de afeto, ele aproximou Bom Jesus do Itabapoana e os Açores, mostrando que a cultura é uma estrada de encontros, onde tradições, pessoas e sentimentos caminham juntos para preservar a identidade de um povo.

O sabor da memória

A gastronomia encarregou-se de completar essa viagem sensorial além-mar, transformando o paladar em mais um território de descoberta cultural. Os convidados puderam saborear verdadeiras joias da doçaria açoriana, como a delicadeza da Queijada da Graciosa e a riqueza da Queijada Dona Amélia, doces conventuais que guardam em suas receitas secretas séculos de história, especiarias e afeto.

Rodolfo e Márcia Pessanha

A celebração teceu-se também com o brilho de presenças ilustres. Entre os que foram saudar a data, estava Rodolfo Graziano Sinforoso, guardião de uma icônica banca de jornais na Tijuca - um santuário que, há décadas, teima em manter viva a chama sagrada da leitura. Ao lado de sua esposa, Rosemery Fernandes da Costa Moreira, ele carregava o orgulho de fazer ecoar a voz do jornal O Norte Fluminense nas terras cariocas, fruto da feliz iniciativa de Francisco Amaro Borba Gonçalves. A noite tornou-se ainda mais nobre com a presença de Márcia Maria de Jesus Pessanha. Escritora, semeadora de saberes e gestora da nossa identidade cultural, ela hoje rege os destinos da Academia Fluminense de Letras (AFL), a centenária casa fundada em 1917 que guarda, com afeto oficial, a memória literária de todo o Estado do Rio de Janeiro.

Setenta e quatro anos de uma história que transcende o tempo e se eterniza na alma da comunidade

Quando a noite finalmente se recolheu, uma certeza unânime permaneceu viva no peito de cada um dos presentes: a de que os 74 anos da Casa dos Açores do Rio de Janeiro cruzaram a barreira dos números. Essa trajetória não cabe nas folhas frias de um calendário; ela é um organismo vivo, uma chama que continua a queimar e a iluminar o futuro da identidade lusa em solo carioca.

Uma instituição cultural não se ergue apenas com tijolos e paredes. Ela é esculpida no tempo por vozes, memórias, canções e, acima de tudo, pelas pessoas que se recusam a deixar apagar a centelha de suas origens.

​Foi assim que, sob o céu dessa noite inesquecível, o Rio de Janeiro silenciou para ouvir, mais uma vez, o palpitar forte e apaixonado do coração dos Açores.