quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Tempo Não Apaga José Carlos de Campos

 

​A CAES cumpre o seu papel mais nobre: o de ser a guardiã do tempo, transformando a história local em um patrimônio vivo e acessível a todos que desejam saber de onde vieram para entender para onde vão


Fotos: Antônia Aparecida Abreu, André Luiz de Oliveira e Cristina Borges 

Há terras que guardam, em suas dobras profundas, mais do que o silêncio dos séculos; guardam a pulsação daqueles que primeiro ousaram desafiar a mata virgem.

No Vale do Itabapoana, onde o vento ainda parece sussurrar histórias antigas entre as frestas do tempo, o nome de José Carlos de Campos insiste em não se apagar. Desbravador, pioneiro, raiz de uma árvore genealógica e histórica que ainda hoje se ergue frondosa no Espírito Santo, ele foi citado pelo padre Antônio Francisco de Mello como um dos doze instituidores do patrimônio de São Bom Jesus. Em 1942, por ocasião do centenário da chegada dos primeiros desbravadores a Bom Jesus do Itabapoana, o sacerdote idealizou um monumento em homenagem a todos eles.

Em um resgate que mistura a precisão do registro histórico ao calor da memória afetiva, a Casa dos Açores do Espírito Santo (CAES) abriu suas portas no dia 26 de maio  para uma verdadeira jornada de reencontro com o passado. Sob o título poético de “Noite de Memória e História”, o evento não buscou apenas catalogar fatos em páginas amareladas, mas devolver alma e presença a um personagem fundamental da formação agrária e social da região.

A noite ganhou contornos de profunda emoção com a presença do convidado especial, Fábio Martins Faria. Descendente direto do desbravador, Fábio compartilhou com o público não apenas dados históricos, mas também as dores, os triunfos, os documentos e as reflexões íntimas sobre um homem cuja presença ainda ecoa fortemente no Vale do Itabapoana. Há uma poesia quase palpável no fato de que o próprio terreno que hoje abriga a CAES, em Apiacá, pertenceu outrora ao seu ancestral. O ciclo, de certa forma, se fecha para que a memória recomece.

No dia 27, Fábio retornou à CAES para uma palestra para estudantes da escola municipal Maria de Lourdes Alves de Apiacá.

Fábio encaminhou ao jornal O Norte Fluminense um ensaio intitulado “Família Campos no Vale do Itabapoana”, texto que serviu de base para sua palestra.

O ensaio apresenta um amplo estudo histórico-genealógico sobre a família Campos no Vale do Rio Itabapoana, especialmente acerca da trajetória de José Carlos de Campos, mineiro de Chapéu D’Uvas, atual distrito de Juiz de Fora (MG), considerado um dos principais desbravadores da região situada entre o norte fluminense e o sul capixaba no século XIX.

Os principais pontos do ensaio

José Carlos de Campos nasceu por volta de 1825, em Minas Gerais, e migrou para o Vale do Itabapoana em meio ao declínio da mineração e às profundas transformações econômicas e políticas da época. Tornou-se grande fazendeiro de café e açúcar, além de criador de gado.

Por volta de 1855, adquiriu vastas extensões de terra na região onde hoje se localiza o município de Apiacá (ES), sendo apontado como um dos primeiros ocupantes da área.

Participou ativamente da formação dos povoados e da infraestrutura regional. Entre suas realizações, destacam-se:

a construção de uma ponte sobre o Rio Itabapoana, ligando Rio de Janeiro e Espírito Santo;

o exercício da função de subdelegado em Bom Jesus do Itabapoana;

a colaboração na formação do arraial que deu origem à cidade;

a abertura de estradas e o incentivo ao desenvolvimento econômico regional.

Sua fazenda, denominada Fortaleza, tornou-se referência no Vale do Itabapoana. Relatos da época descrevem a propriedade como rica, organizada e altamente produtiva, dedicada ao cultivo de café, à produção de açúcar, à criação animal e sustentada pela utilização de mão de obra escravizada.

Atuação política

O ensaio também destaca sua participação política:

inicialmente ligado ao Partido Conservador;

posteriormente adepto do movimento republicano;

integrante de comissões locais, processos eleitorais e iniciativas comunitárias.

Sobre a escravidão, o texto registra que José Carlos possuía pessoas escravizadas, libertando parte delas antes da Lei Áurea. Após a abolição, escreveu uma carta criticando a forma como o processo ocorreu, reclamando da escassez de mão de obra para as lavouras.

José Carlos de Campos morreu em 1905, em Bom Jesus do Itabapoana. Seu nome, contudo, permaneceu inscrito na história regional:

deu origem ao distrito de José Carlos, em Apiacá;

também denomina uma rua em Bom Jesus do Itabapoana.

Descendência

A parte final do documento dedica-se à genealogia dos filhos de José Carlos de Campos e Maria Carlota de Oliveira, detalhando casamentos, propriedades rurais, cargos políticos e importantes conexões familiares no sul capixaba e no noroeste fluminense.

Tema central

O ensaio procura demonstrar como a família Campos participou:

da ocupação territorial do Vale do Itabapoana;

da expansão da cafeicultura;

da formação política e econômica de cidades como:

Bom Jesus do Itabapoana;

Apiacá;

São José do Calçado.

Além disso, o estudo se apoia em ampla pesquisa documental, jornais antigos, almanaques e registros históricos, reconstruindo com riqueza de detalhes a trajetória da família e sua influência na formação regional.


Rua em Bom Jesus do Itabapoana situada próxima à praça Amaral Peixoto 

O Homem por Trás do Retrato

​Olhar para a velha gravura de José Carlos de Campos é enxergar o retrato de uma época de transição. Fazendeiro de café, açúcar e madeira, subdelegado e figura de proeminente influência social e política, ele não foi apenas um espectador da história, mas o próprio artífice que moldou os primeiros núcleos populacionais da região. Seu suor e suas decisões pavimentaram os caminhos por onde hoje transitam as novas gerações.

"Há passos antigos que permanecem vivos na terra, nos caminhos e na memória dos povos."

​A Urgência do Lembrar

​Mais do que uma homenagem póstuma, as palestras ministradas na sede da CAES, Cada dia Açores do Espírito Santo, localizada na BR-297 (Km 10, na Ponte José Carlos, distrito de Apiacá) propuseram uma reflexão urgente sobre o nosso próprio tempo. Compreender o presente exige, inevitavelmente, escavar o passado. Preservar a memória de pioneiros como José Carlos de Campos não é um ato de nostalgia vazia, mas um farol que ilumina a nossa identidade cultural.

​A CAES cumpre, assim, o seu papel mais nobre: o de ser a guardiã do tempo, transformando a história local em um patrimônio vivo e acessível a todos que desejam saber de onde vieram para entender para onde vão.
































terça-feira, 26 de maio de 2026

A idade é apenas um número, por Rogério Loureiro Xavier

 


Olá 🖐 pessoa amiga e do bem. 


*A idade é apenas um número.*


Cada ruga é uma história, cada cabelo branco é uma conquista. 


A idade é apenas um número, o que realmente importa é como você vive cada momento. 


Então, celebre cada ano com gratidão e alegria, pois você é uma obra prima em constante evolução. 


Viva intensamente e abrace sua jornada pois cada fase da vida tem sua própria magia!


*"A VIDA É UM SONHO, REALIZEO - Madre Teresa"*


*✍️ ... Rogerio Loureiro Xavier*

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Vem aí a 5ª Feira Literária de Pirapetinga de Bom Jesus!

 



Dostoiévski e o Nome que Define o Ser

 


A escolha de um nome nunca é um ato de distração para quem decifra a alma humana; é o batismo de um destino. Quando Fiódor Dostoiévski molhou a pena na tinta para dar vida ao jovem estudante que vagaria pelas noites sufocantes de São Petersburgo, ele não escolheu apenas um som. Ele esculpiu uma chave.

Raskólnikov. Onze letras. Um edifício inteiro de angústia e redenção contido no espaço de um fôlego.

​Como pode o gênio russo encerrar a imensidão de Crime e Castigo em um único sobrenome? A resposta não está na sonoridade áspera, mas no eco histórico e espiritual que a palavra carrega. Em russo, raskol significa cisão, cisma, divisão

​Ao carregar esse nome, Rodíon já nasce partido. Ele é, em si mesmo, o próprio conflito geopolítico, psicológico e existencial de uma Rússia que se debatia entre a razão fria do Ocidente e a fé mística do Oriente. Nas onze letras de seu nome, Dostoiévski plantou os cinco níveis de um abismo que o personagem, e todos nós, somos forçados a cruzar:

O Conflito Social: O estudante miserável que confronta a injustiça de um mundo onde uns têm tudo e outros, como a velha usurária, sugam o pouco que resta.

O Conflito Psicológico: A mente febril dividida entre a empáfia do "homem extraordinário" (um Napoleão que tudo pode) e o terror do homem comum, esmagado pela culpa.

O Conflito Filosófico: O embate de uma lógica puramente utilitarista contra a moral absoluta. Vale a pena um crime se dele brotarem mil boas ações?

O Conflito Biológico/Físico: O corpo que adoece, o suor frio, o delírio da febre que mostra que a carne não suporta o peso de uma ideia transgressora.

O Conflito Espiritual: A separação definitiva de Deus e dos homens. Ao erguer o machado, Raskólnikov racha a própria alma, exilando-se em uma Sibéria interior muito antes de ser condenado pelos tribunais dos homens.

​Dostoiévski sabia que um homem dividido não encontra paz na teoria. Por isso, o castigo de Raskólnikov não começa na prisão, mas no instante em que ele se percebe isolado da humanidade. E o crime não é o corte do metal, mas a ilusão de que se pode caminhar sozinho, amputado do outro.

​Passamos a vida tentando colar nossos próprios pedaços, tentando unificar o que em nós é raskol, a nossa própria cisão cotidiana entre o que idealizamos e o que executamos no silêncio do quarto. No fim, a genialidade da literatura não está em apontar o erro, mas em nos lembrar que, mesmo para as almas mais fragmentadas, o recomeço é possível. É preciso que o orgulho se quebre por inteiro para que, pelas rachaduras da vaidade, a luz da redenção finalmente consiga entrar.


O Sopro da Terra pelas Mãos do Mestre Artesão Daniel de Lima




O barro é matéria silente, mas guarda em si a memória do mundo. Espera, na sua humidade fria, o instante exato em que o homem decidir lhe dar um nome, um contorno, uma alma. No silêncio que antecede a forma, a terra é apenas chão; nas mãos certas, ela se transmuta em poesia viva.

​Vem vindo o mês de junho, trazendo o recolhimento do inverno, e com ele o convite para um retorno às origens. Sob o teto acolhedor do Mônica La atelier, o tempo há de suspender o seu passo apressado. Ali, o Mestre Daniel de Lima conduzirá um rito antigo: uma imersão profunda no cerne daquilo que fomos e que ainda somos.

​Não se trata apenas de uma oficina, mas de um encontro marcado entre a criatura e o criador que habita em cada um de nós. Durante longas e generosas horas, os dedos aprenderão a ler as texturas da argila. Entre o toque firme e a pausa necessária para o almoço, onde o afeto e a palavra também alimentam, corpos e mentes se alinharão ao ritmo telúrico da criação.

​Olhar para a escultura que ganha vida na foto é testemunhar um nascimento. O semblante de barro que emerge, solene e eterno sob as árvores, parece guardar os segredos dos antigos e a serenidade dos que sabem esperar. Há uma cumplicidade sagrada no olhar do artista que molda, um respeito profundo pelo sopro que dá vida à forma.

​Serão apenas oito os escolhidos para essa jornada poética. Oito pares de mãos que aceitarão o desafio de se sujar de terra para limpar a alma, transformando a argila bruta em testemunho de sua própria sensibilidade.

​O barro chama. E quem ouve esse chamado, guiado pela maestria de quem conhece os segredos da terra, sabe que moldar o mundo com as próprias mãos é, no fundo, a forma mais bonita de se esculpir por dentro.

​Detalhes do Encontro com a Matéria

  • Atividade: Oficina de Imersão no Barro com Mestre Daniel de Lima
  • Local: Mônica La atelier
  • Data: Sábado ou domingo de junho (a confirmar)
  • Duração: 6 a 7 horas (com pausa para almoço)
  • Vagas: Estritamente limitadas a 8 participantes
  • Informações e Inscrições: (22) 99228-0589
  • No Instagram: @filhosdobarro | @monicalaatelier


Onde Diziam Ser Impossível: Os 10 Anos do Memorial Governadores Roberto e Badger Silveira

 


7 de agosto de 2026.


Dez anos do Memorial Governadores Roberto e Badger Silveira, erguido no silêncio acolhedor do Sítio Rio Preto, em Calheiros, Bom Jesus do Itabapoana. Um sonho que nasceu no meio de lembranças, resistência e amor à história. Muitos diziam ser impossível. Diziam que o tempo apagaria a memória, que as paredes não se levantariam, que o passado ficaria perdido entre o esquecimento e a descrença.

Mas o impossível, às vezes, apenas espera coragem. E foi ela que transformou esperança em alicerce, saudade em presença, memória em eternidade. Durante uma década, o memorial permaneceu como farol da história regional, guardando nomes, ideias e legados que ajudaram a construir uma terra inteira.

Ao completar dez anos, não se celebra apenas um prédio ou uma data. Celebra-se a vitória da persistência sobre o ceticismo, da memória sobre o abandono, da fé sobre a dúvida. Porque aquilo que nasce do amor à própria história nunca morre, permanece vivo no coração de cada geração que aprende a olhar para trás para entender a grandeza do caminho adiante.


domingo, 24 de maio de 2026

Oitis: as Árvores que Guardam Histórias de Bom Jesus



Em Bom Jesus do Itabapoana houve um tempo em que mãos anônimas plantaram pequenas mudas de oiti ao longo das calçadas, talvez sem imaginar a eternidade silenciosa que estavam semeando. Eram frágeis hastes verdes diante do sol forte, quase invisíveis na pressa dos dias. Hoje, porém, essas árvores erguem copas largas sobre as ruas, oferecendo sombra, frescor e memória.

Os oitis, árvores nativas do Brasil, cresceram junto com a cidade. Viram crianças correndo para a escola, namoros nas esquinas, procissões, bicicletas antigas, tardes de verão e o lento caminhar dos idosos que ainda se lembram de quando aquelas árvores cabiam na palma da mão. Cada tronco guarda uma história que não foi escrita em livros, mas permanece viva na paisagem cotidiana.

Ao passarmos por certas ruas, reconhecemos não apenas árvores, mas testemunhas do tempo. Suas sombras desenham o passado sobre o chão quente das calçadas, como se a cidade conversasse consigo mesma através das folhas que balançam ao vento.

O oiti tornou-se mais do que árvore: virou referência afetiva, abrigo de memórias e sinal de permanência. Em cada copa que se desponta, existe um elo invisível entre quem plantou ontem e quem caminha hoje. E talvez seja essa a mais bela vocação das árvores antigas: ensinar que o tempo também floresce.