Uma noite de celebração da cultura açoriana reuniu tradição, memória e o reencontro de gerações na presença da cônsul-geral de Portugal
 |
| A harmonia perfeita entre o compromisso da Diretoria da CARJ e a alma palpitante da Tuna Açoriana |
A celebração dos 74 anos da Casa dos Açores do Rio de Janeiro (CARJ), realizada no dia 18 de julho, consolidou-se como uma das mais expressivas e palpitantes manifestações da cultura acoriana na capital fluminense. Nessa data, a noite recusou-se a terminar quando as luzes se apagaram: ela permaneceu gravada na memória coletiva, feito uma canção que continua a ecoar no silêncio, muito depois do último acorde.
A histórica sede da instituição transfigurou-se em um verdadeiro cais de encontro entre o ontem e o amanhã. Cruzaram-se ali as memórias calejadas dos primeiros imigrantes açorianos, a força das tradições preservadas a ferro e afeto por décadas, e o olhar renovado das novas gerações, jovens que aceitam o chamado de carregar no peito a identidade de um povo eternamente marcado pelo mar, pela coragem e pela doçura da saudade.
O prestígio da solenidade foi elevado pela presença ilustre da cônsul-geral de Portugal no Rio de Janeiro, Maria Joana da Costa Afonso Lino Gaspar. Em um dos momentos mais solenes do evento, como justo reconhecimento à sua calorosa aproximação com a comunidade, a diplomata foi agraciada com o Diploma de Sócia Honorária da Casa dos Açores. O gesto, mais do que uma formalidade protocolar, selou um abraço fraterno de amizade e integração cultural entre Portugal e o Brasil.
A noite em que as nove ilhas tocaram no Rio de Janeiro
O ápice artístico da noite foi protagonizado pela Tuna Açoriana, que subiu ao palco em sua formação completa. Reunindo nove integrantes, o grupo desenhou no espaço uma simbologia perfeita: cada músico em cena representava uma das nove ilhas que moldam o arquipélago dos Açores.
Quando os primeiros acordes ecoaram, a música operou uma verdadeira metamorfose no ambiente. Os sons dos instrumentos pareciam soprar o vento salgado do Atlântico e desenhar os contornos das icônicas ilhas de bruma. Naquela harmonia, resgatou-se a memória dos antepassados que outrora atravessaram oceanos inteiros desafiando o desconhecido, carregando na bagagem quase vazia apenas a esperança e a riqueza de sua cultura.
A apresentação revelou uma qualidade técnica e artística comparável à dos grandes grupos profissionais do gênero. Mais do que um espetáculo musical, a Tuna Açoriana provou que a tradição, quando cultivada com amor e devoção, não é um eco estático do passado, mas uma força viva que se renova a cada nota.
A força da união das comunidades portuguesas
Outro capítulo inesquecível da noite foi desenhado pela participação da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro do Rio de Janeiro. Instituição histórica fundada em 28 de julho de 1923, ela partilha com a Casa dos Açores mais do que a proximidade física de suas sedes vizinhas: partilha o mesmo sangue e o mesmo amor pelas raízes lusitanas.
Em um gesto de pura comunhão cultural, a entidade transmontana promoveu um workshop de castanholas, abrindo caminhos para que o estalar rítmico do instrumento se integrasse aos acordes da Tuna Açoriana. Somada a isso, a chegada da concertina, com seu fole que parece respirar saudades, expandiu o horizonte melódico do grupo.
Essa fusão de timbres e sotaques não apenas ampliou a riqueza musical da Tuna, mas traduziu em arte o que há de mais belo na diáspora: pontes sonoras que estreitam os abraços e fortalecem a união entre as diversas regiões portuguesas que palpitam, irmanadas, em solo carioca.
A música que atravessa gerações: os Fagundes
A presença da família Fagundes reservou o momento de maior emoção para o público, transformando o palco em um verdadeiro altar de memórias. No compasso da Tuna Açoriana, a tradição musical recusa-se a virar passado: ela palpita viva através de Alexandre Pires Fagundes, filho do saudoso Anselmo Fagundes, cujo violino outrora marcou época e moldou a trajetória da antiga Tuna Terceirense.
Hoje, a linhagem desse afeto sonoro ganha novas vozes e mãos. Alexandre, ao lado de seu filho João Vitor e de seu primo Pedro Fagundes, personifica a continuidade de uma herança familiar moldada entre partituras e acordes.
É pelas mãos de Pedro, no entanto, que o tempo parece suspender o fôlego: ele mantém viva uma história de profunda sensibilidade ao dedilhar o mesmíssimo violino que pertenceu a Anselmo. Nas cordas daquele instrumento ressuscitado pelo carinho, a madeira gasta pelo tempo prova que a saudade também pode cantar, fazendo com que a alma de Anselmo continue ali, viva, contando histórias através da música.
Reconhecimento àqueles que preservam a identidade açoriana
Um dos momentos mais tocantes da solenidade foi a homenagem prestada pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Por iniciativa do vereador Rafael Aloisio Freitas, a Casa dos Açores recebeu uma Moção de Louvor e Reconhecimento, um tributo de papel e afeto que oficializa o valor da instituição para a engrenagem cultural da cidade.
A noite também ganhou contornos de profunda gratidão com a entrega do título de Grande Açoriano a duas personalidades que carregam a essência dessa herança em suas trajetórias: Manoel Luis Ventura e Maria Durvalina Borba.
No centro das celebrações, o presidente da Casa dos Açores, João Leonardo Soares, foi justamente aplaudido pelo trabalho que vem desenvolvendo à frente da instituição. Conduzindo a entidade com a sensobilidade do diálogo, a força da dedicação e o compromisso inabalável de manter viva a memória açoriana além-mar, João Leonardo fez questão de partilhar os louros. Em seu discurso, ressaltou a atuação dos que o antecederam e o valor de toda a diretoria. Dedicou um agradecimento caloroso e especial ao departamento feminino - a alma sensível que costura os bastidores e os sucessos da instituição.
Bom Jesus do Itabapoana presente na celebração
O jornal O Norte Fluminense e a TV Alcance, de Bom Jesus, marcaram presença na solenidade dos 74 anos da Casa dos Açores do Rio de Janeiro, levando mais do que homenagens: levaram o abraço simbólico do Vale do Itabapoana à comunidade açoriana. Durante a celebração, foram entregues à Casa dos Açores e à Tuna Açoriana Certificados de Reconhecimento e produtos da terra bonjesuense, fortalecendo os laços culturais entre duas histórias que, embora separadas pelo oceano e pela geografia, permanecem unidas pela memória, pela arte e pela amizade.
Essa aproximação nasceu da sensibilidade e da dedicação do açoriano Francisco Amaro Borba Gonçalves, verdadeiro elo entre as culturas. Com sua capacidade de construir pontes de afeto, ele aproximou Bom Jesus do Itabapoana e os Açores, mostrando que a cultura é uma estrada de encontros, onde tradições, pessoas e sentimentos caminham juntos para preservar a identidade de um povo.
O sabor da memória
A gastronomia encarregou-se de completar essa viagem sensorial além-mar, transformando o paladar em mais um território de descoberta cultural. Os convidados puderam saborear verdadeiras joias da doçaria açoriana, como a delicadeza da Queijada da Graciosa e a riqueza da Queijada Dona Amélia, doces conventuais que guardam em suas receitas secretas séculos de história, especiarias e afeto.
Rodolfo e Márcia Pessanha
A celebração teceu-se também com o brilho de presenças ilustres. Entre os que foram saudar a data, estava Rodolfo Graziano Sinforoso, guardião de uma icônica banca de jornais na Tijuca - um santuário que, há décadas, teima em manter viva a chama sagrada da leitura. Ao lado de sua esposa, Rosemery Fernandes da Costa Moreira, ele carregava o orgulho de fazer ecoar a voz do jornal O Norte Fluminense nas terras cariocas, fruto da feliz iniciativa de Francisco Amaro Borba Gonçalves. A noite tornou-se ainda mais nobre com a presença de Márcia Maria de Jesus Pessanha. Escritora, semeadora de saberes e gestora da nossa identidade cultural, ela hoje rege os destinos da Academia Fluminense de Letras (AFL), a centenária casa fundada em 1917 que guarda, com afeto oficial, a memória literária de todo o Estado do Rio de Janeiro.
Setenta e quatro anos de uma história que transcende o tempo e se eterniza na alma da comunidade
Quando a noite finalmente se recolheu, uma certeza unânime permaneceu viva no peito de cada um dos presentes: a de que os 74 anos da Casa dos Açores do Rio de Janeiro cruzaram a barreira dos números. Essa trajetória não cabe nas folhas frias de um calendário; ela é um organismo vivo, uma chama que continua a queimar e a iluminar o futuro da identidade lusa em solo carioca.
Uma instituição cultural não se ergue apenas com tijolos e paredes. Ela é esculpida no tempo por vozes, memórias, canções e, acima de tudo, pelas pessoas que se recusam a deixar apagar a centelha de suas origens.
Foi assim que, sob o céu dessa noite inesquecível, o Rio de Janeiro silenciou para ouvir, mais uma vez, o palpitar forte e apaixonado do coração dos Açores.