Por Gino Martins Borges Bastos
Que a vida me encontre plantando
Há uma paz difícil de alcançar na imagem evocada por Montaigne: que a morte o encontre plantando seus repolhos. Um homem inclinado sobre a terra, ocupado com uma tarefa simples, enquanto o tempo segue seu caminho.
Penso nas mãos desse homem. Nas unhas escurecidas, no cuidado de abrir espaço para a muda, na água derramada devagar. Talvez lhe doessem as costas. Talvez uma nuvem anunciasse chuva e ele erguesse os olhos, agradecido por poder guardar o regador. A vida inteira caberia naquela pequena cena.
Plantar exige uma confiança que raramente confessamos. Enterramos uma semente sem receber garantias. Ignoramos se a chuva chegará na hora certa, se o sol será generoso, se estaremos à mesa quando a colheita vier. Ainda assim, preparamos o chão.
Existem dias em que o medo nos faz abandonar o canteiro antes mesmo de começar. Adiamos a visita, guardamos a palavra carinhosa, deixamos o livro fechado sobre a mesa. Queremos uma segurança que o calendário nunca soube oferecer. E, enquanto esperamos, a tarde passa pela janela.
Aquela imagem nos convida a voltar às pequenas tarefas pelas quais sentimos afeto. Regar a roseira. Escrever a alguém distante. Aprender uma canção, embora os dedos já tenham perdido a agilidade. Fazer planos para o domingo e escolher, com alguma alegria, o que haverá no almoço.
Conheci, em minhas entrevistas, pessoas que envelheceram assim: sempre havia alguma coisa por fazer. Uma receita a ensinar, uma fotografia a identificar, uma história que precisava ser contada antes que seus personagens se apagassem da memória. Conversávamos com elas e saíamos levando uma encomenda de vida.
Também os nossos mortos continuam nos ocupando as mãos. Plantamos uma flor de que gostavam, repetimos um gesto aprendido na infância, cuidamos de alguém como eles cuidariam. Às vezes, no meio de uma tarefa banal, percebemos que uma antiga ternura encontrou maneira de permanecer.
Por isso me comove o homem dos repolhos. Ele tem uma ocupação para aquela manhã. Conhece a fragilidade das folhas e, mesmo assim, lhes oferece cuidado. Ao redor, talvez haja pássaros, ruídos de uma casa, o cheiro de comida chegando da cozinha. Há tanto a que pertencer enquanto se vive.
Quando chegar minha última tarde, desejo que ainda exista em mim essa disposição singela. Que haja uma página começada, uma visita combinada, uma muda esperando lugar no jardim.
E que alguém, tempos depois, passando por aquele chão, encontre alguma coisa verde.






















