segunda-feira, 30 de março de 2026

A ligação entre Varre-Sai e Bom Jesus: Arraial Novo, terra de café, água e herança italiana

 

Arraial Novo integra a Região Serrana de Bom Jesus na divisa com Varre-Sai


Em Arraial Novo, área rural de Bom Jesus do Itabapoana, a geografia deixa de ser apenas traço cartográfico para se afirmar como experiência sensível. Próximo à divisa com Varre-Sai, o território revela uma continuidade que desafia a rigidez das fronteiras administrativas, uma continuidade feita de terra, água, café e memória.

Ali, a terra respira café, e também história.

A região está inserida em uma faixa serrana de altitude, com clima propício à produção de grãos de alta qualidade. Varre-Sai é reconhecida como a Capital Estadual do Café,  e carrega uma marca decisiva em sua formação: a colonização italiana. Foram famílias vindas da Itália que, ao longo de gerações, moldaram a paisagem agrícola, introduziram técnicas, organizaram pequenas propriedades e consolidaram uma cultura profundamente ligada ao café.

Essa presença não se encerra na divisa.

Arraial Novo também guarda, em suas encostas e em suas casas, a herança italiana. Sobrenomes, modos de cultivo, tradições familiares e o próprio ritmo do trabalho no campo revelam a continuidade dessa influência. Ali, descendentes de imigrantes mantêm viva uma relação íntima com a terra, uma agricultura de base familiar, marcada pelo cuidado manual e pela persistência.

Arraial Novo funciona como elo. Mais do que ponto de passagem, é território de ligação: pequenas propriedades cultivam café em terrenos inclinados, córregos descem formando microbacias e a paisagem alterna, sem ruptura, lavoura e serra. Nesse cenário, a divisa deixa de ser linha, torna-se transição. Morros, plantações e águas seguem contínuos, indiferentes às delimitações humanas.

O café, aqui, não é apenas cultura agrícola. É identidade. É herança, italiana e brasileira,  transmitida entre gerações. Cultivado muitas vezes à mão, em encostas íngremes, ele carrega o tempo longo das famílias que aprenderam a ler o relevo, a respeitar as estações e a transformar adversidade em permanência.

Essa dinâmica conecta sistemas naturais maiores. As águas que nascem nas partes altas de Varre-Sai percorrem silenciosamente o território, atravessam lavouras, alimentam vales e integram-se à bacia do Rio Itabapoana. São cursos discretos, mas essenciais, fios líquidos que costuram a paisagem e sustentam a vida.

Ao amanhecer, a neblina repousa sobre os cafezais como um véu breve. Sob ela, a água corre sem alarde. O dia se inicia cedo, como exige o cultivo, e cada grão amadurece guardando em si mais do que sabor: guarda origem, travessia e pertencimento.

Em Arraial Novo, a leitura do espaço é outra. A fronteira política existe, mas não se impõe. O que prevalece é um sistema integrado, onde geografia, água, café e herança cultural formam uma unidade viva.

Ali, a divisa não separa, apenas sugere que, do outro lado, a história continua.

No encontro silencioso entre as encostas de Varre-Sai e os vales de Bom Jesus do Itabapoana, Arraial Novo se afirma como mais do que passagem: é elo vivo. Ali, o café não apenas sustenta a economia, ele costura histórias, une territórios e perpetua a herança deixada por italianos e seus descendentes, que transformaram a terra em permanência e trabalho em identidade. 

No meio de lavouras e memórias, Arraial Novo é o ponto onde a produção encontra a cultura, e onde duas cidades, separadas no papel, seguem unidas pelo mesmo chão, pelas mesmas mãos e pelo mesmo destino.





Velho Moinho, em Varre-Sai, se Ilumina para uma Noite Inesquecível

 

No coração de Varre-Sai, onde a noite ganha um brilho especial e a música encontra abrigo, o Velho Moinho se prepara para mais um capítulo memorável.

No próximo sábado, 04 de abril, a partir das 20h, o espaço se transforma em palco de emoções ao som envolvente da Banda Albatroz. No meio de acordes que atravessam o tempo e melodias que despertam lembranças, o público é convidado a mergulhar em uma atmosfera de nostalgia, alegria e encontros.

A proposta é simples, mas irresistível: boa música, ambiente acolhedor e a companhia certa para viver momentos que ficam. Mesas para até quatro pessoas estarão disponíveis por R$ 120, garantindo conforto e uma experiência ainda mais especial.

Mais do que um evento, a noite promete ser um refúgio para quem busca sentir, cantar e celebrar. As reservas já estão abertas pelo WhatsApp (22) 99867-1227.

Porque algumas noites não são apenas vividas, são lembradas. 




Um dia histórico para Varre-Sai, por Isabel Menezes




A inauguração do terminal rodoviário municipal marca um novo capítulo na história de Varre-Sai. A partir de agora, o município se conecta de forma mais efetiva ao mundo por meio das vias rodoviárias, ampliando oportunidades, encurtando distâncias e fortalecendo o desenvolvimento local.

Essa conquista é importantíssima, pois facilita o deslocamento da população, impulsiona o comércio, incentiva o turismo e garante mais dignidade a quem depende do transporte coletivo no dia a dia. Além disso, cria novas possibilidades de integração regional, permitindo que Varre-Sai esteja cada vez mais presente no mapa econômico e social do estado.

O prefeito Lauro Fabri teve papel fundamental nessa realização, ao articular essa ação e oferecer o respaldo físico necessário para que as linhas de ônibus pudessem, de fato, se concretizar. Seu empenho demonstra compromisso com o progresso e com a melhoria da qualidade de vida da população.

O  terminal rodoviário representa um símbolo de avanço e esperança.

Porque quando caminhos se abrem, sonhos também encontram direção. 

Isabel Menezes - Professora e historiadora.

Fotos: rádio Líder








domingo, 29 de março de 2026

Mudança, por Rogério Loureiro Xavier

 


Olá 🖐 pessoa amiga e do bem. 


*" Mudança "*


A mudança chega sem pedir licença, mas sempre com um propósito. Ela bagunça o que parecia seguro, rompe hábitos antigos  e nos convida a sair do lugar onde já não cabíamos mais. 


No início assista, porque mudar é deixar para trás versões nossas que um dia foram necessárias.


Mas é na mudança que a vida respira. É ali que aprendemos a nós reinventar, a fortalecer o que antes era frágil, a enxergar novos caminhos onde só havia medo. 


Mudar é um ato de coragem silenciosa. É confiar que, mesmo sem saber exatamente para onde vamos, estamos seguindo na direção certa para crescer, florescer e viver com mais verdade.


*"✍️ ... Rogerio Loureiro Xavier"*

A jornada das águas de Varre-Sai a Bom Jesus: Da Serra ao Vale

 

Quando os córregos de Varre-Sai se tornam o rio Itabapoana

Há rios que são apenas água em movimento. E há outros, como o Itabapoana, que são uma espécie de memória líquida, reunindo em seu curso não só as chuvas e as vertentes, mas também a vida dispersa de uma região inteira.

Em Bom Jesus do Itabapoana, ele passa com a autoridade silenciosa de quem sabe seu destino. Não se apressa, não hesita. Carrega consigo margens, histórias, pontes, vozes. Ali, o rio se mostra inteiro, visível, quase solene, como um texto já escrito.

Mas o que poucos veem é que esse texto começa muito antes, em letras miúdas, quase ilegíveis.

Lá no alto, em Varre-Sai, o rio ainda não é rio. É um sussurro,  multiplicado. No Córrego Santa Cruz serve de fonte à sede da vida urbana; percorre o Ribeirão da Onça, insinuando-se entre morros e lavouras; desliza pelo Córrego da Boa Sorte, como se o próprio nome já anunciasse sua vocação; e segue pelo Ribeirão Água Doce, onde a paisagem parece beber de si mesma.

Há ainda outros fios d’água, discretos, persistentes, como o Córrego Bom Jardim, o Córrego Palmital, o já repetido e ramificado Boa Sorte, e o Córrego Alegre, que na divisa do município parece sorrir ao encontro inevitável das águas.

Cada um desses cursos é pequeno, quase anônimo no grande mapa. Mas nenhum é insignificante.

Descem pelas encostas como pensamentos dispersos, atravessam lavouras de café, contornam cercas, refletem pedaços de céu. São águas que não disputam nome nem glória, apenas seguem. E, sem saber, vão se reunindo.

Porque cada curva, cada desnível, cada confluência é um gesto de aproximação. O ribeirão encontra o córrego, o córrego encontra outro, e assim, pouco a pouco, o que era disperso se torna unidade. O que era murmúrio se torna voz.

Até que, mais adiante, já não se distingue o que veio de onde.

O Rio Itabapoana, ao banhar Bom Jesus, carrega em si essa soma invisível. Está ali, largo e contínuo, mas feito de mil origens. Cada gota traz consigo uma vertente de Varre-Sai: o frescor do Santa Cruz, a sombra do Onça, a doçura do Água Doce, a esperança do Boa Sorte. Tudo converge, tudo se transforma.

É essa a unidade verdadeira da região: não a dos mapas políticos, nem a das fronteiras traçadas à régua, mas a das águas que se reconhecem.

O rio não separa, reúne.

E os córregos, ainda que modestos, são como veias discretas de um mesmo corpo, conduzindo a vida para um centro comum. Sem eles, o rio não seria rio. Sem o rio, eles seriam apenas promessas interrompidas.

Há, nisso, uma lição que escorre sem alarde: tudo o que parece isolado está, de algum modo, em trânsito para o encontro.

E assim, no meio do sussurro das nascentes e a voz cheia do curso principal, a região inteira se escreve em água,  contínua, paciente, indivisível.

A usurpação dos versos do Açoriano Padre Mello em uma das principais revistas nacionais


Rimas em Litígio: o escândalo em uma das mais importantes revistas do país

No Brasil febril das primeiras décadas do século XX, onde a imprensa era palco e tribunal, a pena ainda carregava o peso da honra, e a poesia, esse território sagrado da sensibilidade, não admitia profanações sem resposta. Foi assim que, em abril de 1924, nas páginas da revista O Malho, uma das principais revistas de circulação nacional no início do século XX, ergueu-se um caso que misturava lirismo, ironia e denúncia: o plágio das poesias do padre açoriano Antônio Francisco de Mello.

Filho de camponês, nascido sob o céu austero dos Açores, Padre Mello havia feito da palavra sua lavoura mais fértil. Cultivara versos como quem semeia trigo em solo ingrato, com paciência, fé e uma confiança quase mística na eternidade do espírito. Décadas antes, publicara em Ponta Delgada o livro Matutinas, onde depositara sua alma em estrofes de devoção, amor e contemplação.

Eis, porém, que o tempo - esse guardião caprichoso - trouxe-lhe de volta seus próprios versos, não como eco, mas como usurpação.

Nas edições 1.123 e 1.124 de O Malho, surgiam dois poemas: “Os meus amores” e “A Rodolpho Machado, na sua morte”, assinados por um certo Antonio Gomes Smith. Não fossem as mínimas alterações - duas palavras aqui, uma inversão ali - seriam espelhos quase perfeitos da criação original do padre-poeta.

A denúncia veio em forma de carta, mas com o timbre de uma peça literária. Padre Mello não brandiu a indignação em gritos: preferiu a lâmina fina da ironia. “Com tão pequeno capital”, escreveu, “não tem o Sr. Smith direito à sociedade.” E sugeriu, com elegante veneno, que ao menos o imitador apresentasse “o cartão da casa” - isto é, reconhecesse a autoria legítima.

A redação de O Malho, experiente nos dramas humanos que atravessam a imprensa, respondeu com admiração: nenhuma palavra editorial poderia superar a precisão e o espírito da carta recebida. O caso, entretanto, estava longe de se encerrar.

Chamado à tribuna pública, Antonio Gomes Smith apresentou sua defesa. Alegou ser vítima de uma intriga, vítima de mãos ocultas que teriam manipulado seus versos e sua assinatura. Invocou honra, amizade e até perseguição - como se a autoria fosse uma entidade volátil, capaz de se deslocar entre homens como sombra ao entardecer.

Mas a poesia, como a verdade, deixa rastros.

E quando se pensava que o episódio já se dissiparia nas brumas do esquecimento, um novo golpe: outro poema, “Semelhanças”, também de lavra do padre, aparecia novamente sob o nome do mesmo autor. A reincidência dissolvia qualquer resquício de dúvida e dava ao caso contornos quase farsescos - um teatro de máscaras mal ajustadas.

Padre Mello retornou, mais uma vez, às páginas da revista. E sua resposta, longe de inflamada, era ainda mais cortante. Comparou o plagiador a um rato que rói o fundo do saco onde se guardam as poesias - imagem doméstica e devastadora, que traduzia não apenas o furto, mas a sordidez do gesto.

Havia, no entanto, algo de profundamente simbólico nesse episódio.

De um lado, um sacerdote-poeta, moldado na humildade rural, cuja obra nascera do silêncio, da contemplação e do tempo longo. De outro, a pressa - essa ânsia moderna de ser visto, lido, celebrado - ainda que à custa da voz alheia.

O plágio, nesse contexto, não era apenas crime literário: era um sintoma. Revelava uma sociedade em transformação, onde o brilho da fama começava a rivalizar com o valor da criação, e onde a autoria - antes sagrada - passava a ser, para alguns, apenas um detalhe negociável.

Mas, no fim, permaneceu aquilo que sempre sobrevive: a palavra verdadeira.

Porque versos podem ser copiados, mas não recriados em sua origem. E a poesia de Padre Mello, nascida entre ilhas, fé e memória, conservava algo que nenhuma usurpação poderia alcançar - a autenticidade silenciosa de quem escreve não para o aplauso imediato, mas para a eternidade.

Assim, nas páginas amareladas de O Malho, ficou registrado não apenas um escândalo, mas uma lição: há glórias que se improvisam, e há outras que resistem ao tempo - intactas, como a própria alma da poesia.


AS POESIAS PLAGIADAS DE PADRE MELLO


A Gabriel de Almeida, na sua morte

Morrer é triste como a tua idade!
E tu contaste o derradeiro dia
quando tudo no mundo te sorria:
esposa e filhos, gloria e eternidade.
Esposa e filhos!... Dois idolatrados
carceres lindos onde livremente
captivos collocaste eternamente
teu coração, tua alma e teus cuidados.
Ella a esposa - conquista do passado,
os filhos - esperança do futuro.
Que dor perder tão cedo o affecto puro
que os extremos da vida tinha alliados!
Eternidade e gloria!... quanto é raro
ganhar dos homens um louvor ingente
e das cinzas do tumulo silente
revindicar ovante um nome claro.
Tudo alcançaste; mas é triste, triste,
cerrar tão cedo a pagina da Historia!...
Gosa no céo da immaculada Gloria
já que da terra poucou tempo viste.


OS MEUS AMORES

​Não ha ninguem sem affectos,

(nem primavera sem flor)

que o coração que dá vida

precisa a vida do amor.

​Porém se as flores são varias

o amor que não será?

como os meus lindos amores

outros amores não ha!

​São como as rosas de espinhos

muitos amores que eu sei;

agora encantos dos olhos,

logo tormentos sem lei.

​O doce objecto que eu amo

de todo o meu coração

para mim só tem sorrisos

quer na ventura quer não.

​Outros que chorem saudades

por ausencias do seu bem;

meu amor sempre me assiste,

para onde eu vou vae tambem.

​Sorri na face da aurora,

brilha no sol a raiar,

em qualquer fonte murmura,

brinca na areia do mar.

​E quando o sol é já posto

e briga a sombra co'a luz

contempla os astros do céo,

pousa o olhar no horizonte

onde mysterios traduz.

​Na flor do campo recende,

vê com transporte os destroços

das suas furias do escarcéo.

​Emfim meu bem, minha amada

onde eu estou ella está,

como os meus lindos amores

outros amores não ha.

​Mas pergunta a mocidade:

 - Esses amores quem são?

 - Quem? A Poesia que eu amo

de todo o meu coração.


LAMENTAÇÕES

A’ Amanda:

Tu vês o lyrio que do vil monturo
ergue a corolla de nevada côr ?
E’ a innocencia neste mundo impuro,
da mocidade o virginal pudor.
Tu vês a estrella na calada noite
rompendo as trevas, derramando luz ?
E’ da descrença o glorioso açoite,
o facho accessso triumphal da cruz.
Tu vês a aurora a despontar sorrindo,
dourando o berço para o sol nascer ?
E’ a esperança de um porvir mais lindo,
formosa palma para quem soffrer.
Cultiva, sempre, da pureza o lyrio,
tua alma vista da piedade o véo;
e se a virtude te exigir martyrio
eterna palma te dará no céo.



sábado, 28 de março de 2026

Bom Jesus revive herança açoriana: O Pão do Padre



Em Bom Jesus do Itabapoana, onde a memória atravessa gerações e se mistura aos aromas da cozinha, uma tradição de raízes açorianas ressurge como elo entre passado e presente. Tudo começou em 18 de junho de 1899, com a chegada do Padre Antônio Francisco de Mello, trazendo consigo não apenas fé, mas também costumes que ajudariam a moldar a identidade local.

Ao lado dele, sua irmã, Maria Júlia de Mello, e a açoriana Dona Cândida transformavam farinha, água e afeto em um pão caseiro de sabor inesquecível. Preparado com dedicação, o alimento era vendido diariamente às três da tarde, e sua renda ajudava a erguer as paredes e os sonhos da Igreja Matriz. Assim nascia uma tradição simples, mas carregada de significado: o “Pão do Padre”.

Mais do que uma iguaria, o pão tornou-se símbolo de união e devoção, perpetuando-se na memória afetiva da cidade. A tradição será mantida no próximo dia 25 de abril, à tarde, na Casa dos Açores do Espírito Santo, em Apiacá, quando o Grupo Imperial Português de Conceição do Castelo visitará o município. O evento ocorre dentro da programação do Mês de Padre Mello.

A tradição açoriana, que um dia floresceu em Bom Jesus do Itabapoana, atravessa agora as margens do tempo e do rio para renascer na vizinha Apiacá, onde encontra novo chão, mas carrega a mesma alma.

CAES, Casa dos Açores do Espírito Santo