sexta-feira, 8 de maio de 2026

Pedras que Guardam, Portões que Abrem: O Sol que Aquece o Varal no Novo Oriente, por Adalto Boechat Jr.




O muro de pedras irregulares, encaixadas como um quebra-cabeça de silêncios, guarda mais do que a estrutura de uma casa; guarda a memória de quem sabe que a vida se constrói no detalhe. Naquela manhã de domingo, o céu decidiu vestir-se de um azul tão limpo que parecia lavado à mão, com nuvens brancas estendidas ao sol como lençóis prontos para o uso.

​O letreiro sobre a imagem anuncia: "Varal Solidário". É um convite que subverte a lógica da posse. No dia dez de maio, um dia tradicionalmente voltado para o seio da família, o Centro Espírita A Novo Oriente decide abrir seus portões para que a família seja o outro. O varal, que costuma exibir a intimidade de uma casa, ali se torna o palco da dignidade.

​Imagine as mãos que chegam. Há a mão que pendura, com o cuidado de quem oferece um abraço em forma de tecido, garantindo que o agasalho esteja alinhado, que o botão esteja firme. E há a mão que retira, uma mão que muitas vezes hesita entre a necessidade e o pudor, mas que encontra, no toque do algodão, o calor de uma promessa cumprida.

O Sagrado no Cotidiano

​A arquitetura da casa, com seu telhado simples e as grades que desenham sombras geométricas no asfalto molhado, sugere um refúgio. A vassoura encostada ao muro é o rastro da prontidão; a calçada foi limpa para receber os passos de quem vem buscar o que lhe falta.

​No Dia das Mães, a solidariedade ganha um contorno materno. Não se trata apenas de dar o que sobra, mas de oferecer o que acolhe. O "Varal Solidário" é uma metáfora visual da proteção:

As pedras são a base sólida da fé e do trabalho comunitário.

O céu aberto é a esperança que não conhece teto.

O portão aberto é a certeza de que, naquele dia, ninguém é estrangeiro.

​Ficar aberto "o dia todo" é um gesto de paciência. É dizer ao tempo que ele pode correr devagar, que a caridade não tem pressa e que o sol de maio é suficiente para aquecer todos os que passarem por ali.

​Ao olhar para essa imagem, percebemos que a verdadeira beleza não está no brilho das pedras ou na nitidez do dia, mas na linha invisível que une quem doa a quem recebe. No "Novo Oriente", o sol nasce para todos, mas brilha mais forte no varal onde a roupa estendida é, na verdade, um pedaço de amor secando ao vento para ser vestido por quem mais precisa.

Dia da Poesia Bonjesuense: o legado de Elcio Xavier

 



O Dia da Poesia Bonjesuense, celebrado em 3 de maio, no Espaço Cultural Luciano Bastos, foi mais do que uma homenagem. Foi um reencontro entre o passado e o futuro das letras de Bom Jesus. Uma tarde em que a poesia caminhou entre as pessoas como quem retorna ao seu lugar de origem, trazendo nos olhos a memória e no peito a eternidade.

Para o Dia da Poesia Bonjesuense vieram especialmente do Rio de Janeiro Rogério Loureiro Xavier, filho e guardião da memória de Elcio Xavier, acompanhado de sua esposa, Eloisa, e da filha, Elaine. Rogerio foi um dos homenageados com o Certificado de Honra e Louvor.

E sobre todos os versos pairava o nome de Elcio Xavier, o eterno Príncipe dos Poetas. Homem de palavras iluminadas, que fez da delicadeza um estilo e da sensibilidade um reino. Seu legado não repousa apenas nos livros ou nas lembranças: permanece vivo nas novas gerações de escritores e poetas que continuam transformando Bom Jesus numa terra de inspiração.

Elcio jamais deixou para trás a Serra do Tardin, as paisagens da infância, o cavalo Ventania. Levava consigo a simplicidade das montanhas, o silêncio dos rios e a grandeza invisível das coisas humildes. E talvez seja exatamente por isso que sua poesia continue tão humana e tão eterna.

A poetisa e escritora Jandira Xavier Moreira, uma das homenageadas do dia, trouxe para o Espaço Cultural Luciano Bastos o soneto “O Voo do Pioneiro”, em que transforma Elcio em ave de luz e permanência. Seus versos fizeram do poeta uma presença suspensa entre o céu e a memória, como alguém que não partiu, apenas atravessou o horizonte.

Também veio de Laje do Muriaé, RJ, a voz sensível da poetisa Maria Beatriz Silva, trazendo palavras de profunda ternura em homenagem ao “Poeta Maior”. Seu texto lembrou que a poesia desconhece distâncias e que há homens cuja existência continua ecoando muito além do tempo. Em cada linha, Maria Beatriz fez da saudade um jardim iluminado pela gratidão.

E havia ainda os filhos da velha Pirapetinga de Bom Jesus igualmente homenageados: Lauro Amaral, Adalto Boechat Jr. e a própria Jandira Xavier Moreira. Todos carregando consigo as lembranças do torrão natal, os encantos da infância e o orgulho silencioso de pertencer àquela geografia afetiva onde a palavra nasce junto com o vento das montanhas.

A ABIJAL, Academia Bonjesuense Infantojuvenil  de Letras,  foi uma das grandes protagonistas do evento, ao lado do jornal O Norte Fluminense. A juventude literária mostrou que a chama acesa por Elcio Xavier continua viva e ardente. A jovem Beatriz Magalhães, filha de Giselle Magalhães, uma das homenageadas da tarde, brilhou durante toda a celebração, conduzindo homenagens ao lado de Rogério Loureiro Xavier, filho do Príncipe dos Poetas. Com ela estiveram os jovens Ana Alice Sátolo, Matheus Pimentel e Felipe. Suas presenças simbolizavam a continuidade da memória e da cultura.

A Tuna Luso Bonjesuense levou música e emoção ao encontro, enquanto o açoriano Francisco Amaro Borba Gonçalves trouxe palavras comoventes sobre Elcio Xavier, atravessando oceanos para participar daquele instante de comunhão poética. Também emocionou a presença de Lenice Xavier, com sua filha Renata. Lenice é prima de Elcio e sua trajetória literária igualmente honra a tradição das letras bonjesuenses. E no meio de acordes e memórias, destacou-se ainda Marise Figueiredo Xavier, fundadora da Escola de Música Cristo Rei, responsável pela formação musical de centenas de alunos ao longo dos anos. Sua presença iluminou a celebração, e sua delicada apresentação ao piano transformou o ambiente num instante de rara sensibilidade, como se a própria música dialogasse com a poesia e conduzisse, em notas suaves, a memória de Elcio Xavier através do tempo.

Livros circularam como sementes. “O Véu da Manhã”, “Rosaquarium”, e "Lembranças", de Elcio Xavier, além de “Saudades”, de Gedália Loureiro Xavier, foram distribuídos ao público, juntamente com "A Saudade que Não Passa", de Rogério Loureiro Xavier e "Alma Inquieta", da saudosa Raquel Loureiro Xavier Soares. Mais do que páginas impressas, eram fragmentos de memória entregues às mãos do povo.

Naquela tarde, Bom Jesus pareceu compreender algo raro: um povo sem poesia empobrece a alma; um povo que reverencia seus poetas constrói eternidade.

E assim, no Dia da Poesia Bonjesuense, Elcio Xavier foi elevado à condição de rei, não um rei de coroas e palácios, mas daquilo que realmente permanece: a palavra, a beleza, a cultura e a esperança.

Porque enquanto houver alguém declamando um verso às margens do Itabapoana, enquanto houver um jovem descobrindo a força de um poema, enquanto a memória da Serra do Tardin sobreviver no coração de seus filhos, Elcio Xavier continuará vivo.

Não apenas como poeta.

Mas como destino literário de Bom Jesus.


O Voo do Pioneiro

Jandira Xavier Moreira


Um século de luz em cada traço,

Rasgando “O véu da manhã, cortando o silêncio,

Quem conhece da alma, o seu imenso,

Não teme a curva, o tempo ou o cansaço.


Elcio, pioneiro da terra e desses espaços,

Colheu das palavras o brilho mais intenso,

Deixando o rastro de um olhar suspenso,

No rio que corre e acalma o nosso passo.


Agora é voz que o vento transmigra,

Poeta solto em céu itinerante,

Onde a saudade, em gratidão, se abriga.


Não é partida, é voo de diamante:

A carne finda, mas a rima intriga,

Fazendo o ontem ser o hoje: adiante.

(Olhares de Branca.Jandira)



ONDE A PALAVRA PERMANECE!

Maria Beatriz da Silva 


Hoje não caminho entre vocês,

mas envio minha voz em forma de verso

porque a poesia não conhece distâncias

 ela atravessa o tempo, o silêncio

e encontra morada no coração.


Dizem que há dias que passam

mas há outros que permanecem

e este não é um dia qualquer:

é daqueles que florescem dentro da gente,

onde a poesia respira

e a memória se faz presente.


Homenagear um poeta

é mais do que lembrar seu nome 

é reconhecer que ele ainda fala

em cada verso que nos atravessa

em cada emoção que não conseguimos dizer

até que a poesia fale por nós.


Hoje, ecoa entre nós

o nome de Elcio Xavier,

meu poeta maior,

aquele que fez da palavra abrigo

e do sentimento eternidade.


Há almas que não partem,

apenas se transformam em luz

espalhada nas entrelinhas do mundo.

E hoje, entre vozes, encontros e lembranças,

Elcio Xavier vive 

no sopro de cada verso dito com amor.


Que cada poesia aqui declamada

carregue um pouco dessa eternidade.

Que cada verso seja ponte,

semente, abrigo e emoção.


E que, mesmo eu estando ausente 

eu esteja presente naquilo que mais importa:

no sentir que nos une,

na poesia que nos guarda,

e no silêncio bonito

onde o Poeta Maior continua vivo entre nós.











































quinta-feira, 7 de maio de 2026

Cristiana Ana Lima engrandece o Dia da Poesia Bonjesuense em homenagem a Elcio Xavier

 

No coração de Bom Jesus do Itabapoana, onde a poesia floresce como herança e destino, o Dia da Poesia Bonjesuense ganhou um brilho singular com a presença marcante de Cristiana Ana Lima. Vinda de Vitória, a escritora atravessou caminhos e fronteiras para prestar tributo a Elcio Xavier, um dos grandes nomes da literatura brasileira. Na ocasião, teve a oportunidade de conhecer e estreitar vínculos com Rogério Loureiro Xavier, filho de Elcio e dedicado guardião da memória e do legado do pai.

O encontro aconteceu no Espaço Cultural Luciano Bastos, transformado naquela tarde em verdadeiro templo da palavra e da memória. No meio de versos, aplausos e emoções, Cristiana não apenas participou do evento: engrandeceu a celebração com sua trajetória luminosa e com a força de uma literatura comprometida com a educação, a cultura e a dignidade humana.

Comendadora, Mestre do Saber e da Cultura Popular, Cristiana Ana Lima construiu uma caminhada literária marcada pela pluralidade e pela coragem. Participou de importantes coletâneas, como Nordeste em Letras, Antologia Vozes Nordestinas e Dante Alighieri, além de obras voltadas ao debate sobre assédio moral, que ecoam como denúncia e resistência no universo educacional.

Sua atuação ultrapassou fronteiras nacionais, alcançando reconhecimento internacional por meio da participação na Exposição Internacional Literarte, na Romênia, de atividades acadêmicas na Itália e da consagração no Prêmio Pan-Americano de Literatura 2026, em Cartagena das Índias.

Em 2024, teve o nome inscrito entre os cem melhores poetas da língua portuguesa durante a FLIP, reconhecimento que reafirma a relevância de sua escrita e sua contribuição à literatura contemporânea.

Ao celebrar Elcio Xavier, Cristiana levou consigo não apenas versos e prosas, mas um universo inteiro de experiências literárias. Sua voz encontrou eco na obra do autor de O Véu da Manhã e Rosaquarium, livros que eternizaram o poeta bonjesuense como um dos grandes expoentes da poesia brasileira.

Educadora, psicopedagoga, pesquisadora e autora de vasta produção acadêmica e literária, Cristiana Ana Lima representa a união entre conhecimento e sensibilidade. Sua sólida formação em pedagogia, gestão escolar, teologia, alfabetização e artes na educação revela uma intelectual comprometida com a transformação humana através da palavra.

Naquela celebração poética, sua presença foi mais do que uma homenagem: simbolizou o encontro entre duas grandezas da literatura. De um lado, a memória eterna de Elcio Xavier; do outro, a voz viva e palpitante de Cristiana Ana Lima, que segue levando a literatura brasileira além das fronteiras, fazendo da poesia e da prosa uma ponte entre povos, culturas e corações.

























O Dia da Poesia Bonjesuense e os Gigantes da Memória



No Dia da Poesia Bonjesuense, quando Bom Jesus celebrava o nascimento de Elcio Xavier, o Príncipe dos Poetas, três gigantes atravessaram as portas do Espaço Cultural Luciano Bastos e fizeram o passado voltar a respirar.

Não eram apenas bonecos.

Eram lembranças de pano, madeira e sonho.

Vieram conduzidos por Rondinelli Jesus de Paula, filho de Toninho do Tupy, acompanhado de Joana, sua mãe, trazendo consigo não apenas figuras enormes, mas uma herança inteira. Ao entrarem no auditório, pareciam antigos guardiões regressando ao templo da memória para assistir, em silêncio, à celebração da cultura que ajudaram a construir.

E ali permaneceram durante toda a programação.

Assistiram à Folia de Reis entoando versos ancestrais. Viram a capoeira desenhar liberdade no ar. Escutaram o piano delicado de dona Marise Figueiredo Xavier, fundadora da Escola de Música Cristo Rei, como quem acaricia o tempo com as mãos. Ouviram os instrumentos das crianças e jovens da Sociedade Musical da Usina Santa Maria ecoarem como promessa de continuidade. 

Observaram Rogério Loureiro Xavier, filho de Elcio Xavier e dedicado guardião da memória do pai, acompanhado de sua esposa, Eloisa Xavier, e da filha, Elaine Xavier, que vieram do Rio de Janeiro para viver aquele momento de celebração e afeto. Observaram também o açoriano Francisco Amaro Borba Gonçalves, que atravessou distâncias especialmente para o evento, assim como Cristiana Ana, integrante de diversas academias culturais, vinda de Vitória para prestigiar o encontro. Viram ainda Lenice Xavier, prima escritora da família Xavier, reunida entre escritores, acadêmicos, músicos, artistas e o povo, todos unidos como uma só família espiritual.

Naquela tarde, o que se viu foi mais do que um evento.

Foi um encontro de mundos que nunca deveriam estar separados.

A cultura popular entrou de mãos dadas com a cultura clássica. A sanfona abraçou o piano. A caixa da Folia dialogou com os instrumentos de orquestra. Os bonecos gigantes caminharam ao lado dos livros. A ABIJAL, Academia Bonjesuense de Artes e Letras, e a Tuna Luso-Bonjesuense juntaram suas presenças a esse grande mosaico de afetos e manifestações culturais.

E então compreendeu-se algo precioso: identidade não nasce da exclusão, mas do encontro.

Somos feitos desse mosaico.

Da cantoria da Folia.

Do toque do piano.

Do corpo gingando na capoeira.

Do verso escrito.

Do clarim das bandas.

Do boneco gigante atravessando a rua como se a infância nunca tivesse ido embora.

Toninho do Tupy compreendeu isso antes de muitos.

Filho de João de Dão e Rosa Maria da Conceição, ele transformou a vida em festa e a festa em pertencimento. Criou clubes, levantou carnavais, inventou gigantes. Fez da rua um palco onde o povo podia reconhecer a própria alegria. Seus bonecos não eram apenas alegorias, eram espelhos aumentados da alma popular.

Careca Barrigudo, a Boneca, a Mula Rosada e tantos outros não caminhavam apenas pelas ruas das duas Bom Jesus; caminhavam pela imaginação coletiva de gerações inteiras.

E agora, graças ao filho Rondinelli Jesus de Paula, a técnica de construir esses gigantes permanece viva. Ao fundar uma associação dedicada à preservação da memória de seu pai, Toninho, da cultura e de seus heróis, Rondinelli compreendeu que tradição não é saudade parada: é continuidade.

Os bonecos ainda respiram porque alguém decidiu não deixar morrer o encantamento.

Naquela tarde memorável, enquanto os gigantes observavam silenciosos cada apresentação, parecia que também eles se emocionavam ao perceber que o legado deixado por Toninho continuava florescendo diante de novas gerações.

E talvez essa tenha sido a maior poesia do dia.

Mais do que homenagear Elcio Xavier, Bom Jesus homenageou a si mesma. Reconheceu-se em suas múltiplas vozes. Descobriu que sua verdadeira riqueza não está apenas em monumentos ou prédios antigos, mas naquilo que o povo consegue preservar em conjunto: a memória, a arte, a fraternidade e o sentimento de pertencimento.

Porque um povo só se torna inteiro quando consegue enxergar beleza em todas as formas de cultura que o constituem.

E naquela tarde, no meio de versos, bonecos, músicas e bandeiras, Bom Jesus viu seu próprio coração palpitando diante dos seus olhos.

Os gigantes de Toninho não ocupavam apenas o auditório.

Ocupavam a eternidade.