quinta-feira, 16 de julho de 2026

A Dor da Fome e a Esperança do Amor



Michael foi um jovem irlandês condenado por roubar algumas espigas de milho para alimentar sua família. Por isso, ele deixa de ser apenas um personagem. Torna-se o rosto de todos os homens e mulheres que, diante da miséria, descobriram que a fome pode transformar um gesto de amor em crime. Mary, que permanece na terra natal enquanto o marido segue para o exílio, representa todas as despedidas que jamais conheceram um reencontro.

Há algo profundamente humano nessa narrativa. A justiça dos homens condena; a justiça da consciência absolve. O delito de Michael não nasceu da ganância, mas do amor. E talvez por isso sua história tenha atravessado o tempo até transformar-se em canto coletivo.

É comovente perceber que, décadas depois de composta por Pete St. John, The Fields of Athenry, a canção tenha adquirido a alma das velhas baladas irlandesas. Quando milhares de vozes a entoam nos estádios antes de uma partida de futebol ou de rugby, já não se canta apenas por uma vitória esportiva. Canta-se pelos que partiram, pelos que morreram de fome, pelos que cruzaram oceanos levando na bagagem apenas a saudade e a esperança de dias melhores.

Os campos de Athenry permanecem deitados sob o céu da Irlanda, mas a canção fez com que eles florissem em todos os continentes. Cada imigrante irlandês levou consigo um pedaço desses campos invisíveis, cultivados não pela terra, mas pela memória.


Histórica Sociedade Musical da Usina Santa Maria renasce e emocionará público na Praça Governador Portela, na 4ª FLICBonjê

 

O som que Bom Jesus esperava: o retorno triunfal da banda da Usina Santa Maria


Havia um silêncio antigo guardado nas dobras do tempo, um silêncio que pesava sobre as cinzas frias e a poeira acumulada nos velhos instrumentos de sopro e percussão. 

Na Usina Santa Maria, as melodias pareciam ter adormecido sob o mesmo manto que por anos cobriu o icônico Teatro Cinema Conchita de Moraes. 

Mas a arte é fogo que teima em não apagar sob as cinzas. Sob a liderança obstinada de Betinho Milão, o Conchita de Moraes abriu novamente suas portas, reluzente, devolvendo à comunidade o seu templo de sonhos. E, como se uma faísca divina saltasse do palco recém-inaugurado diretamente para a alma da comunidade, a histórica Sociedade Musical da Usina Santa Maria renasceu, encontrando abrigo eterno em sua sede no próprio teatro.

​Eis que, sob o céu de agosto de 2026, no encerramento da IV FLICBonjê - magistralmente organizada por Alessandra Abreu, unindo corações e letras - , a praça Governador Portela testemunhará o milagre do restabelecimento. 

O cenário não poderia ser mais poético: o burburinho dos livros, o aroma da gastronomia local, o colorido do artesanato e o reencontro das gentes de Bom Jesus do Itabapoana. Mas haverá uma expectativa suspensa no ar, um calafrio de saudade que correrá a espinha dos presentes à espera do primeiro acorde da lendária banda.

​Sob a presidência zelosa de Maria de Lourdes Sá, guardiã deste patrimônio de afetos, os músicos se perfilarão como soldados da harmonia. À frente deles, o Maestro Alessandro Azevedo erguerá a batuta. Naquele milésimo de segundo que anteceder o som, a praça inteira prenderá a respiração. E então, o metal brilhará ao sol de fim de tarde e a música fluirá.

​Não será apenas som; será história em estado puro, líquida e vibrante, correndo pelas artérias da praça. Cada nota soprada parecerá saudar os operários de outrora, os poetas de hoje e as crianças que corriam ao redor do coreto imaginário, descobrindo ali o poder da tradição. O som da Sociedade Musical preencherá o espaço, curando as feridas da ausência, celebrando o apoio inestimável de Betinho Milão e a resiliência de um povo que não aceita o silêncio como destino.

​Ao final, quando o último acorde ecoar em direção ao leito do rio Itabapoana e o Maestro abaixar os braços, a praça explodirá. Não em meros aplausos, mas em lágrimas de júbilo e sorrisos largos. A música haverá voltado para casa. A Sociedade Musical da Usina Santa Maria estará viva, eterna e soberana, sob as bênçãos da cultura que, no meio de livros, vozes e encontros, fará a nossa história, mais uma vez, florir.


Música de Café Costa Amalfitana


 

Carl Doy


 

BACH


 

ADAGIOS


 

Obras Primas da Música Clássica