A escritora bonjesuense Jandira Xavier Moreira desponta no cenário nacional com seu livro “Uma Professora no Amazonas: o Rio Voador”, conquistando leitores com a força e sensibilidade de suas crônicas, como a que segue.
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| Jandira Xavier Moreira |
A empresária voltava da universidade no final da manhã,caminho rural já conhecido por suas viagens de sábado: fazendas, matas, animais da terra, árvores, bibelôs da penteadeira da vovó, fascinação. Na metade do caminho ela viu uma mulher um pouco mais jovem pedindo carona em frente a um posto de gasolina. Manobrou o carro e abriu a porta para que a outra entrasse.
“Boa tarde”. “Oi, entra.” “Prefiro ir no banco de trás se a senhora não se importa”, o que surpreendeu a motorista.
Essa brincou dizendo que não era tão má motorista assim.
A resposta chegou simples: não, senhora, não posso sentar com você. Como? “Sou mulher da vida”. Houve um instante de confusão. “O que a incomoda?”. Ora! A “senhora” aqui também é mulher da vida sou mulher da vida. Sobe aí, vai. A moça insistiu: senhora não está entendendo. Não importa. Sente aqui comigo, é bom ter companhia na estrada. Um passeio de vinte minutos, onde a sororidade -empatia e solidariedade- substituem costumes e conceitos.
Conversaram sobre a variedade de verde nas montanhas, o cheiro do campo, as vantagens de quem vive ali. Trivialidades. Vinte minutos com uma mulher da vida - ou, talvez, consigo mesma. A singularidade das duas se encontrou como se fossem amigas há muitos anos. O ontem e o amanhã não pertence a esse encontro. Quem sorriu também foi a estrada -doce figura da ilusão - Ela é indiferente. Sua totalidade basta-se. Apenas vontade de enfeitar fotograficamente a mulher, a natureza e o nós. A paisagem apenas está ali. Perfeita, completa, com seus cheiros e cores, o calor do asfalto e os buracos na estrada.
O vento quente da manhã atravessava a relva, o cheiro da mata acompanhava o caminho e as luzes do sol da manhã brincavam de esconde-esconde. Uma pintura de Renoir, luz e cor, pincéis ágeis para capturar a essência e simplicidade que nela é contida. Instantes, claridades, paz; fugazes e fugidias, exibindo-se.
Por alguns minutos, simples alegria de estar quase em casa depois de semana cansativa. Quem sorriu também foram a estrada e seus pincéis precisos.
Foram duas mulheres que se perderam de si mesmas para se encontrarem no trajeto. Sem passado, sem promessas de reencontro, apenas o compartilhamento do cansaço e do alívio de quem volta para casa, em um final de semana. Duas mulheres da vida. A estrada, com seus buracos e sua poeira, testemunhas discretas. Ali, sob o sol de Renoir, elas não eram rótulos. Era, apenas, vida passando, iluminada e breve, como deve ser qualquer manhã que vale a pena."
Branca.Jandira
Bom Jesus do Itabapoana, 2026
A resenha da crônica
A crônica “Duas mulheres na estrada” parte de um episódio simples - uma carona oferecida numa estrada de sábado - para revelar uma percepção delicada sobre os encontros humanos. O diálogo entre a empresária e a mulher que se apresenta como “mulher da vida” cria um momento de estranhamento inicial que rapidamente se dissolve em naturalidade. A força do texto está justamente nessa suspensão breve dos papéis sociais: durante alguns minutos, duas desconhecidas compartilham a paisagem, a conversa trivial e a leveza de um trajeto comum.
O estilo da autora revela forte sensibilidade para os elementos do ambiente. A paisagem não aparece apenas como cenário, mas como presença viva: o verde das montanhas, o cheiro da relva, o vento quente da manhã e a própria estrada adquirem valor simbólico. Essa atenção aos sentidos produz o que se poderia chamar de memória de paisagem, na qual o espaço natural participa da experiência humana e guarda o instante vivido. A referência final a uma “manhã de Renoir” reforça essa atmosfera luminosa, aproximando o episódio cotidiano de uma cena pictórica.
Mais do que um relato de viagem, a crônica sugere uma reflexão discreta sobre a condição humana: quando duas pessoas se encontram fora dos rótulos sociais, resta apenas a simplicidade do convívio momentâneo. A autora evita grandes discursos e privilegia a observação do instante, permitindo que a cena fale por si. Assim, o texto alcança um efeito característico da boa crônica: transformar um encontro breve e aparentemente banal em uma pequena revelação sobre a leveza possível da vida.