No tabuleiro do tempo, cada rosto guarda uma história
À luz de uma lamparina, dois homens se inclinam sobre um tabuleiro. Ao redor, os livros guardam histórias de outros homens, outras ambições, outros tempos. Uma mão suspende uma peça, enquanto o velho jogador acompanha o movimento com os olhos. Por um instante, tudo parece depender daquela escolha.
Assim também vivemos. Há dias em que avançamos confiantes; em outros, permanecemos imóveis, receosos de perder o pouco que conseguimos proteger. Fazemos planos, defendemos posições, procuramos uma saída onde a vida parece ter fechado todas as portas.
Sobre o tabuleiro, o rei carrega a importância de sua coroa. O peão segue a pé, uma casa depois da outra, exposto aos perigos do caminho. Talvez por isso tenhamos ternura pelos peões: conhecem a distância pelo esforço de atravessá-la. Cada pequeno avanço lhes custa alguma coisa.
Mas chega a hora de encerrar a partida.
A mão que recolhe as peças já não precisa respeitar hierarquias. Deita o rei ao lado do peão, aproxima os adversários, guarda na mesma caixa aqueles que, minutos antes, pareciam separados por destinos inconciliáveis.
“Ao fim do jogo, o rei e o peão voltam para a mesma caixa.”
Há uma tristeza serena nessa imagem. Ela nos lembra que os lugares ocupados durante a vida são provisórios. A cadeira de honra será oferecida a outro. O nome chamado com reverência poderá, um dia, soar estranho aos que vierem depois. A casa continuará recebendo a luz da manhã quando já não estivermos à janela.
Talvez nos fizesse bem recordar isso enquanto ainda podemos abrir uma porta, atender um telefonema, pedir perdão.
Quem compreende a brevidade de sua passagem encontra menos motivos para humilhar alguém. Aprende a olhar nos olhos de quem lhe serve o café, de quem varre a rua, de quem espera uma oportunidade. Descobre que uma pessoa não cabe no cargo que ocupa nem na roupa que veste. Há dores silenciosas sob os tecidos mais finos; há grandeza em mãos marcadas pelo trabalho.
E há uma espécie de vitória que o tabuleiro não registra.
É a do homem que poderia ferir e escolhe poupar. A de quem chega mais longe e volta para ajudar alguém no caminho. A de quem escuta uma história já contada muitas vezes porque sabe que, para aquele velho, contá-la é ainda permanecer um pouco entre os seus.
Pensamos então na caixa fechada, no silêncio das peças, na lamparina que alguém apagará. A partida terminou, mas os dois jogadores talvez continuem à mesa. Um oferece ao outro um pouco de vinho. Conversam sobre a infância, lembram um amigo, sorriem de um erro cometido muitos anos atrás.
E o tabuleiro, agora vazio, deixa espaço para aquilo que a disputa havia suspendido: a companhia.
Quando chegar nossa hora de ser recolhidos pelo tempo, alguém se lembrará de como se sentia perto de nós. Talvez esqueça nossas vitórias, mas guarde a tarde em que lhe fizemos companhia, a palavra que lhe devolveu coragem, o abraço em que pôde finalmente chorar.
O rei e o peão repousarão juntos.
E, do lado de fora da caixa, o amor que oferecemos ainda terá a quem aquecer.





