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| Arte: Claudia Borges Bastos do Carmo |
Os mapas e o traçado urbano de Bom Jesus do Itabapoana mantêm relação direta com o trabalho técnico e a visão estratégica do Padre Mello, que exerceu, na prática, as funções de urbanista e agrimensor em uma época em que tais profissionais eram raros no interior fluminense.
Mais do que registrar o espaço, ele o pensou, e, ao pensá-lo, ajudou a moldar o futuro da cidade.
O primeiro mapa do município
Autor do primeiro mapa detalhado de Bom Jesus do Itabapoana, Padre Mello produziu um documento técnico fundamentado em observações de campo e sólidos conhecimentos de agrimensura.
O traçado destacava o curso do Rio Itabapoana e a topografia local, elementos decisivos para definir áreas seguras de expansão urbana, afastadas das cheias e de terrenos instáveis.
O mapa também ofereceu base para a organização administrativa, permitindo à gestão pública delimitar fronteiras e estruturar o território em fase de consolidação política.
O alinhamento das ruas e a lógica da ordem
Como agrimensor, Padre Mello participou do alinhamento de diversas ruas do núcleo central. Utilizando um teodolito, hoje preservado no Espaço Cultural Luciano Bastos, assegurava retidão às vias e proporcionalidade aos lotes.
O traçado urbano revela preocupação com simetria e ordem, refletindo a mesma racionalidade aplicada à construção da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus.
O Largo da Matriz, situado em ponto elevado e articulado à atual Praça Governador Portela, consolidou-se como eixo central da cidade, de onde as ruas irradiam. Trata-se de uma concepção alinhada ao urbanismo colonial e eclético: a cidade organizada em torno do templo, integrando fé, comércio e convivência social.
Soluções urbanas criativas
Entre as intervenções técnicas atribuídas a Padre Mello destaca-se a solução para o desnível do terreno em frente à igreja.
Para que a Matriz avançasse até a rua com imponência monumental, ele projetou a construção de pontos comerciais na base inferior, criando um platô artificial. A solução integrou o edifício religioso ao fluxo urbano, harmonizando arquitetura e atividade econômica, proposta moderna para o início do século XX.
No caso da Praça Governador Portela, o platô artificial não foi apenas solução de engenharia. Foi decisão urbanística que permitiu:
a) conferir monumentalidade à igreja;
b) integrar o templo à malha urbana;
c) organizar o centro da cidade;
d) consolidar sua identidade visual.
O que poderia parecer simples ajuste de terreno revela-se parte de um projeto maior: transformar Bom Jesus do Itabapoana em uma cidade planejada, ordenada e simbolicamente estruturada.
Diálogo entre gerações de gênios
Décadas depois, a configuração da praça central motivou reflexões do genial cenógrafo, médico, músico e memorialista Raul Travassos, um dos nomes mais expressivos da cultura bonjesuense e nacional, responsável, com recursos próprios, pela construção da Igreja Nossa Senhora de Fátima.
Travassos questionou o rebaixamento da praça diante da Matriz. Segundo sua análise, a área originalmente elevada estendia-se da igreja até as proximidades do antigo Big Hotel. Pela lógica construtiva, argumentava que o rebaixamento teria ocorrido em período anterior a 1900, pois edifícios históricos como o antigo Bar Central e os prédios da família Seródio não poderiam ter sido erguidos em acentuado desnível.
Consultado à época, o memorialista e Príncipe dos Portas bonjesuense Elcio Xavier, responsável pela doação do mapa de Padre Mello ao Espaço Cultural Luciano Bastos, apresentou interpretação complementar. Segundo ele, houve rebaixamentos em trechos distintos, tanto na área próxima à Igreja quanto na região que margeia o antigo hotel. Pesquisas posteriores indicam que a intervenção inicial foi realizada por outro personagem central da história local: o açoriano Padre Antônio Francisco de Mello, que chegou ao município em 18 de junho de 1899.
O debate demonstra que a paisagem urbana é resultado de camadas sucessivas de inteligência e trabalho, verdadeiro diálogo entre gerações.
Ao conhecer os resultados das novas pesquisas, Raul Travassos sintetizou com lirismo a dimensão do legado: Padre Mello, além de sacerdote, poeta e agrimensor, foi um urbanista apaixonado por sua terra e o arquiteto da incomparável Matriz do Senhor Bom Jesus.
Preservação da memória cartográfica
Hoje, manuscritos e mapa encontram-se preservados no Espaço Cultural Luciano Bastos.
O conjunto documental demonstra que Bom Jesus do Itabapoana não cresceu ao acaso. Houve método, visão e planejamento. Houve quem medisse o solo com rigor e sonhasse a cidade como uma verdadeira cidade-jardim, organizada e integrada, distante do crescimento desordenado que marcou tantas vilas do interior.
No meio de régua e oração, entre cálculo e inspiração, Padre Mello desenhou não apenas ruas, mas horizontes.
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| Elcio Xavier, o Príncipe dos Poetas |
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| Raul Travassos é a fachada da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus, edificada por Padre Mello |





















































