quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A vida inteira é uma longa despedida



Para aquele velho, o domingo começava na segunda-feira. Era quando ele perguntava, ainda no café da manhã, quantos dias faltavam para domingo. Às vezes, não lembrava o nome das pessoas, confundia as datas, esquecia onde havia colocado os óculos, mas havia uma coisa que a memória, mesmo já tão cheia de vazios, ainda guardava com uma precisão quase sagrada: a neta viria no domingo.

E ele esperava.

Esperava sentado junto à janela, como quem vigia a estrada por onde a vida ainda poderia regressar.

O envelhecimento havia levado dele muitas coisas. Primeiro, os pequenos detalhes: nomes, datas, lugares. Depois, pedaços inteiros de histórias. Algumas lembranças permaneciam como fotografias desbotadas; outras desapareciam sem deixar endereço. Havia dias em que o avô olhava para a própria casa como se fosse um visitante.

Mas o afeto resistia.

Essa é a última fortaleza humana diante do esquecimento: aquilo que o coração reconhece mesmo quando a cabeça já não consegue nomear.

Do outro lado daquela história havia a neta, ainda criança, que trazia consigo a delicadeza de quem não compreendia inteiramente a dimensão das perdas, mas sabia que algumas pessoas precisam simplesmente de companhia para continuar existindo.

Entre os dois formava-se, silenciosamente, uma espécie de pacto contra a solidão.

O avô tinha as lembranças.

A neta tinha a esperança e tempo, esse bem precioso que os adultos quase sempre descobrem tarde demais.

Quando ela chegava aos domingos, alguma coisa se iluminava naquela casa. O velho já não sabia explicar quem ela era. Perguntava a mesma coisa duas ou três vezes. Repetia uma história contada na semana anterior. Mas seus olhos sabiam.

Havia reconhecimento naquele olhar.

E havia amor.

Um amor que não precisava de memória para existir.

A neta sentava-se ao lado dele. Às vezes falavam. Às vezes ficavam em silêncio. O silêncio dizia mais do que qualquer conversa.

Há momentos em que amar alguém é simplesmente permanecer.

Permanecer quando a doença chega.

Permanecer quando a memória parte.

Permanecer quando a infância se desfaz.

É curioso como a existência humana parece construída sobre perdas sucessivas. Perdemos a infância sem perceber. Perdemos pessoas que julgávamos eternas. Perdemos lugares, casas, vozes, fotografias, costumes. Perdemos até versões de nós mesmos.

Um dia, percebemos que a vida inteira é uma longa despedida.

Mas não é somente isso.

Entre uma ausência e outra, existem presenças que permanecem.

Uma mão segurada.

Uma visita no domingo.

Uma história contada novamente.

Um sorriso.

Um olhar.

Uma neta que se aproxima de um velho e não desiste de visitá-lo.

E assim, em meio à doença e à finitude, nasce uma amizade improvável,  luminosa, delicada, quase secreta.

O avô e a neta tornam-se personagens de um pequeno universo onde a fragilidade não é sinônimo de derrota.

Ali, ninguém é completamente saudável, ninguém é completamente forte, ninguém é completamente inteiro.

Mas todos têm algo para oferecer.

O velho oferece suas histórias, mesmo quando já não consegue contá-las direito.

A neta oferece a pureza de quem ainda olha o mundo como possibilidade. Oferece aquilo que é o mais raro dos presentes: presença.

No fundo, é isso que nos salva do esquecimento.

Não aquilo que conseguimos lembrar, mas aquilo que alguém se recusa a esquecer por nós.

O avô pode esquecer o domingo.

Pode esquecer a data.

Pode esquecer o nome.

Pode até, um dia, esquecer quem é aquela menina que entra pela porta.

Mas haverá alguma coisa mais profunda que permanecerá.

Uma sensação.

Uma ternura.

A paz de uma presença conhecida.

O amor possui uma memória própria, diferente da memória da razão.

E quando todas as palavras se perdem, é o afeto que continua falando.

Não se trata de uma história sobre envelhecer.

É uma história sobre aquilo que permanece quando quase tudo desaparece.

Sobre a infância que passa.

Sobre a velhice que chega.

Sobre a doença que nos lembra que somos frágeis.

Sobre a morte que, silenciosamente, aguarda no fim da estrada.

Mas, sobretudo, sobre a coragem de amar diante de tudo isso.

Cada ausência carrega, escondida, a marca de uma presença que um dia nos fez felizes.

E esse é o nosso maior patrimônio: as pessoas que amamos e que, mesmo quando já não estão conosco, continuam habitando alguma parte de nós.

O avô espera o domingo.

A neta espera a próxima visita e abre a porta.

E, por alguns instantes, o tempo suspende sua marcha.

Naquela pequena sala, ninguém envelhece.

Ninguém adoece.

Ninguém parte.

Existe apenas o amor, essa delicada forma de eternidade que, contra todas as leis do tempo, insiste em continuar.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Fotos de Elcio Xavier, o Príncipe dos Poetas, na CAES

 Enviadas por Rosete Xavier



Pessoas, por Rogério Loureiro Xavier

 

Olá 🖐 pessoa amiga e do bem. 


*Pessoas*


E existem aquelas pessoas que por mais distantes que estejam, ainda continuam perto. Aquelas que, passe o tempo que passar, serão sempre lembradas por algo que fizeram, falaram, mostraram, pelo que nos fizeram sentir. 


É isso... As pessoas são lembradas pelos sentimentos que despertaram em nós... E quanto maior o sentimento, maior se torna a pessoa. 


*✍️ ... Rogerio Loureiro Xavier*

Hoje, 19 de agosto, é o Dia do Historiador.

 


Como historiadora, sempre procurei registrar momentos por meio da escrita e da fotografia. Desde muito cedo, gostei de ler, escrever, guardar registros históricos e fotografar momentos que, com o passar do tempo, tornam-se memória.

Tive a oportunidade de cursar História pela UFMG, uma conquista que agarrei com muito esforço, dedicação e amor pelo conhecimento. Ainda na década de 1980, comecei a escrever para jornais e, em 2005, dei início à produção dos meus livros. Desde então, venho encontrando na escrita uma maneira de preservar histórias, pessoas, lugares e acontecimentos que não podem se perder com o tempo, principalmente histórias da nossa cidade de Varre-Sai.

Talvez por isso, esta semana tenha começado de maneira tão triste e saudosa. A notícia da partida de duas grandes atrizes brasileiras, Laura Cardoso, aos 98 anos, e Glória Menezes, aos 91, nos faz refletir justamente sobre o valor da memória.

Duas mulheres que dedicaram décadas à arte, emocionaram gerações e deixaram seus nomes registrados na história da televisão, do teatro e da cultura brasileira. Ambas partiram no aconchego de seus lares, cercadas pelo carinho de seus familiares.

A vida terrena passa para todos. Até as estrelas, um dia, se apagam. Mas ficam os registros, as lembranças, as histórias e o legado que cada pessoa deixa pelo caminho.

E é também para isso que existe o historiador: para ajudar a impedir que o tempo apague aquilo que merece ser lembrado.

No final de nossa passagem terrena, que possamos ter a serenidade de olhar para trás e dizer: missão cumprida. E que, depois de cumprirmos nossa missão neste mundo, possamos alcançar a verdadeira vida, que esperamos na eternidade.

Neste Dia do Historiador, sigo fazendo aquilo que sempre amei: escrever, fotografar, preservar e contar histórias,  porque quem registra a história ajuda a mantê-la viva para as próximas gerações.

Isabel Menezes - professora e historiadora

A Culpa que Procura um Nome

 

Somos responsáveis pela maneira como tratamos o outro


O suicídio não pode servir para absolver a nossa indiferença


Quem deixou de perceber que alguém estava morrendo por dentro?


Todos podemos escolher ser abrigo ou tempestade na vida daqueles que atravessam nossos caminhos


Que não nos falte amor antes que seja tarde


Que não nos falte escuta antes do silêncio definitivo


E o maior gesto de compaixão é justamente aquele que parece pequeno demais para merecer lembrança: perguntar, de verdade, “Como você está?”, e permanecer por perto para ouvir a resposta



Algumas perguntas nascem depois da tragédia e permanecem, por muito tempo, rondando a consciência dos que ficam.

Quais são as causas de um suicídio?

Qual é a responsabilidade de uma mulher que se separou do marido e, algum tempo depois, viu-o tirar a própria vida?

Qual é a responsabilidade dos pais diante do suicídio de um filho?

E a do credor diante do desespero de um devedor?

A do namorado diante da morte da namorada?

São perguntas dolorosas porque, diante de uma vida que se apaga, o coração humano procura desesperadamente um culpado.

Mas o suicídio raramente cabe numa única explicação. Ele costuma ser o ponto extremo de uma história que ninguém consegue conhecer por inteiro. Há sofrimentos silenciosos, perdas, rejeições, solidões, desesperanças, conflitos íntimos e feridas que, muitas vezes, permanecem invisíveis até para aqueles que estavam mais próximos.

Por isso, não é justo transformar automaticamente em culpa aquilo que, muitas vezes, é apenas proximidade.

Uma separação pode ferir profundamente, mas ninguém deve carregar sozinho a responsabilidade pela decisão extrema do outro. Pais podem errar, podem ser ausentes, podem não perceber o sofrimento de um filho, e esses erros precisam ser reconhecidos, mas a morte por suicídio não pode ser reduzida à sentença de que “a culpa foi dos pais”. Um credor pode cobrar uma dívida, mas a cobrança, por si só, não explica a complexidade de uma vida que chega ao desespero. Um namorado pode abandonar, trair ou ser indiferente, e esses atos podem produzir feridas profundas; ainda assim, não se pode transformar uma relação inteira numa causa única para uma morte.

Há, entretanto, uma verdade que é ainda mais difícil de encarar.

Não somos responsáveis pela vida inteira do outro, mas somos responsáveis pela maneira como tratamos o outro.

Há palavras que humilham.

Há indiferenças que congelam.

Há abandonos que deixam uma pessoa sozinha no escuro.

Há amores que deixam de amar muito antes de dizer adeus.

Há pessoas que pedem socorro sem pronunciar a palavra “socorro”.

E é nesse território silencioso que a humanidade de cada um de nós é colocada à prova.

Não devemos confundir responsabilidade moral com responsabilidade causal. Uma coisa é ter participado de uma história de sofrimento; outra, muito diferente, é afirmar que alguém causou sozinho a morte de outra pessoa.

O suicídio não deve ser usado para distribuir culpas como quem distribui sentenças.

Mas também não pode servir para absolver a nossa indiferença.

A pergunta mais importante não é : “Quem matou?”

É:  “Quem deixou de perceber que alguém estava morrendo por dentro?”

Há pessoas que continuam respirando enquanto, silenciosamente, vão desaparecendo.

E o maior gesto de compaixão é justamente aquele que parece pequeno demais para merecer lembrança: perguntar, de verdade, “Como você está?”, e permanecer por perto para ouvir a resposta.

No fim, ninguém pode ser dono da vida de ninguém. Mas todos podemos escolher ser abrigo ou tempestade na vida daqueles que atravessam nossos caminhos.

E, quando uma vida se perde, deveríamos procurar menos um culpado e mais uma lição.

Que não nos falte amor antes que seja tarde.

Que não nos falte escuta antes do silêncio definitivo.

Que não nos falte compaixão enquanto ainda houver alguém pedindo, mesmo sem palavras, para ser visto.

Quando um lindo casamento terminou na tragédia de um suicídio


 No grande tabuleiro da existência, ninguém conhece a próxima jogada


Há abismos escondidos atrás de paisagens aparentemente tranquilas



A festa do casamento foi linda.

Havia flores, música, sorrisos e aquela espécie de felicidade que parece capaz de durar para sempre. Os pais dos noivos estavam talvez ainda mais felizes do que os próprios filhos. Para eles, naquele instante, o futuro parecia uma estrada aberta, iluminada e segura.

Na igreja, tomado pela emoção, o pai do noivo resumiu sua alegria numa frase espontânea:

- Meu filho casou bem!

Era uma frase simples, mas carregada de esperança. Naquele momento, ninguém poderia imaginar que o tempo haveria de transformar completamente o significado daquela afirmação.

Anos depois, o filho tiraria a própria vida.

E então, diante da tragédia, todas as certezas daquela dia de casamento pareceriam frágeis. Não porque alguém tivesse sido necessariamente enganado, mas porque a vida possui caminhos que os nossos olhos não conseguem enxergar.

Há uma espécie de arrogância involuntária em nossas previsões. Olhamos para uma fotografia do presente e imaginamos conhecer o filme do futuro.

Não conhecemos.

No xadrez, há uma palavra que traduz bem essa insuficiência humana: variantes. Diante de uma posição, o jogador procura calcular as possibilidades, imagina respostas, antecipa movimentos, tenta encontrar o caminho mais seguro. Mas nem mesmo o melhor enxadrista consegue dominar todas as variantes.

A vida é um tabuleiro infinitamente mais complexo.

Há movimentos que não previmos. Há peças que desaparecem. Há circunstâncias que surgem de onde nada parecia existir. Há decisões tomadas por outras pessoas, acontecimentos inesperados, sofrimentos silenciosos e abismos escondidos atrás de paisagens aparentemente tranquilas.

Às vezes acreditamos estar caminhando por uma estrada segura.

E estamos.

Até que, numa curva qualquer, percebemos que a estrada termina.

O mais doloroso é que, muitas vezes, aqueles que estão ao redor também não conseguem perceber o perigo. O sofrimento pode se esconder atrás de um sorriso, de uma fotografia de família, de uma festa bonita, de um casamento celebrado com pompa, de palavras aparentemente felizes.

Por isso, diante de uma tragédia como o suicídio, talvez devêssemos ser ainda mais humildes em nossos julgamentos.

O pai que disse “meu filho casou bem” não estava errado naquela igreja.

Ele apenas não possuía o futuro.

Ninguém possuía.

Essa é uma das mais duras lições da existência: não somos senhores das consequências de nossos próprios caminhos, muito menos dos caminhos daqueles que amamos.

Podemos amar profundamente alguém e, ainda assim, não conhecer completamente suas dores.

Podemos estar ao lado de uma pessoa e não perceber a tempestade que acontece dentro dela.

Podemos acreditar que tudo está bem porque, naquele instante, tudo parece estar bem.

E, de repente, a vida nos apresenta uma realidade para a qual não estávamos preparados.

Então percebemos, tarde demais, que a felicidade também é vulnerável.

Que nenhum casamento é garantia de eternidade.

Que nenhuma fotografia consegue registrar aquilo que se passa no interior de uma alma.

Que nenhuma previsão humana é suficientemente poderosa para impedir todos os desastres.

Essa é a dimensão mais desesperadora da existência: caminhamos tentando escolher as melhores variantes, calculando movimentos, construindo certezas, acreditando que conhecemos o tabuleiro.

Mas o futuro permanece oculto.

E, às vezes, a tragédia está justamente na casa seguinte.

Não há retorno.

Não há lance capaz de desfazer o movimento.

Resta aos que ficam a pergunta que nenhuma resposta consegue confortar completamente: como não percebemos?

Essa pergunta permanece para sempre sem resposta.

A vida, diferentemente do xadrez, não nos entrega todas as peças, todas as regras e todas as possibilidades.

Vivemos no escuro, iluminados apenas por pequenos clarões.

Um casamento.

Um abraço.

Um sorriso.

Uma palavra.

Uma promessa.

E seguimos.

Até que descobrimos, algumas vezes da maneira mais cruel, que a felicidade que julgávamos definitiva era apenas um instante.

E que, no grande tabuleiro da existência, ninguém conhece a próxima jogada.

O Encanto de uma Cantiga de Maria Beatriz Silva