O NORTE FLUMINENSE, Bom Jesus do Itabapoana (RJ)
Jornal fundado por Ésio Martins Bastos em 25 de dezembro de 1946 e dirigido por Luciano Augusto Bastos no período 2003-2011. E-mail: onortefluminense@hotmail.com
terça-feira, 28 de abril de 2026
A Estrela de Warlem: O Brilho que o Tempo Não Apaga
Há luzes que não se acendem com eletricidade, mas com o óleo sagrado da memória e o pavio da devoção. Em Bom Jesus do Itabapoana, quando o bairro Santa Rosa se cala para ouvir o som da caixa e o lamento harmonioso da sanfona, é a história de uma linhagem que volta a caminhar.
Tudo começou em 1981, num sopro de fé. O senhor Carlos Rodrigues de Ávila, avô e patriarca, não fundou apenas uma Folia; ele ergueu um altar itinerante fruto de uma promessa. Era a Folia Irmandade Estrela Guia nascendo do íntimo de um homem que sabia que a cultura, quando regada com espiritualidade, torna-se eterna.
Mas o tempo, esse mestre às vezes severo, testou a chama. Com a partida do fundador, a bandeira repousou no silêncio. Passou por mãos herdeiras que não sentiram o mesmo chamado e por mãos amigas, como as de José Antônio, que guardaram o fogo para que ele não se extinguisse nas cinzas do esquecimento. A tradição, contudo, tem um magnetismo próprio: ela sempre volta para o sangue que a viu nascer.
Há treze anos, o destino bateu à porta de Warlem Rodrigues Souza. Ao assumir o bastão, ou melhor, ao abraçar a Bandeira, Warlem não aceitou apenas um cargo de mestre; ele aceitou o diálogo com o seu passado. Ser Mestre da Estrela Guia é, para ele, um exercício diário de amor e resgate. É olhar para o céu de Santa Rosa e saber que, cada vez que o grupo entoa seus versos, o avô Carlos sorri de algum lugar onde a folia nunca termina.
Sob a liderança de Warlem, a Irmandade não é apenas um grupo folclórico; é um organismo vivo. São treze anos de madrugadas, de poeira na estrada e de encontros de fé. Ele conduz seus foliões como quem carrega um tesouro de cristal: com a firmeza de quem conhece as raízes e a delicadeza de quem sabe que a cultura precisa de carinho para florescer nas novas gerações.
Neste maio de 2026, a Estrela Guia volta a brilhar na quadra do Colégio Otília Viera Campos. E ali, no meio de fardas coloridas e o brilho dos instrumentos, veremos que a promessa feita em 81 continua sendo cumprida. Warlem é o guardião desse portal, o homem que transformou a herança do avô em um compromisso com o futuro. Porque, enquanto houver um mestre dedicado e uma estrela a guiar, a tradição de Bom Jesus do Itabapoana jamais conhecerá a escuridão.
Mensagens, amigos verdadeiros, vida, por Rogério Loureiro Xavier
Olá 🖐 pessoa amiga e do bem.
*Mensagens, amigos verdadeiros, vida.*
O Tempo passa.
A vida acontece.
A distância separa..
As crianças crescem.
Os empregos vão e vêm.
O amor fica mais frouxo.
As pessoas não fazem o que deveriam fazer.
O coração se rompe.
Os pais morrem.
Os colegas esquecem os favores.
As carreiras terminam.
Os filhos seguem a sua vida como você tão bem ensinou.
MAS... os verdadeiros amigos estão lá, não importa quanto tempo e quantos quilômetros estão entre vocês.
Um amigo nunca está mais distante do que o alcance de uma necessidade, torcendo por você, intervindo em seu favor e esperando você de braços abertos, e abençoando sua vida!
E quando a velhice chega, não existe papo mais gostoso do que o dos velhos amigos... As histórias e recordações dos tempos vividos juntos, das viagens, das férias, das noitadas, das paqueras...
Ah!!! tempo bom que não volta mais... Não volta, mas pode ser lembrado numa boa conversa debaixo da sombra de uma árvore, deitado na rede de uma varanda confortável ou à mesa de um restaurante, regada a bom vinho, não com um desconhecido, mas com os velhos amigos.
Quando iniciamos esta aventura chamada VIDA, não sabíamos das incríveis alegrias ou tristezas que estavam adiante, nem sabíamos o quanto precisaríamos uns dos outros.
*"Amigos ajudam a dar sentido à vida."*
*✍️ ... Rogerio Loureiro Xavier*
segunda-feira, 27 de abril de 2026
O Ineditismo da JEMAJ: um Torneio de Xadrez que Nasceu da Música
Haverá um dia em que as notas musicais, cansadas de flutuar entre as cordas de um violino e as teclas de um piano, decidirão repousar sobre as casas pretas e brancas de um tabuleiro. Esse dia tem data marcada em Bom Jesus do Itabapoana. Sob o selo do "Sarau da Emoção", a Escola de Música JEMAJ propõe algo que, à primeira vista, soa como um acorde dissonante, mas que revela uma harmonia profunda: um torneio de xadrez.
É curioso e poético. Geralmente, de uma escola de música, espera-se o barulho sagrado, o ensaio, a melodia que preenche o vazio. No entanto, o xadrez é a música do silêncio. Cada movimento de um peão é um semitom; cada xeque é um crescendo que acelera o peito. Ao organizar esse torneio, a JEMAJ nos lembra que a matemática da música e a lógica do tabuleiro bebem da mesma fonte: a busca pela beleza através da estrutura.
Na Praça Governador Portela, o tempo não será marcado por metrônomos, mas pelo tique-taque frenético do relógio de Blitz. Cinco minutos. É o tempo de uma canção curta, mas intensa. Os jogadores, como maestros de um exército de madeira, precisarão de dedos ágeis e mentes afinadas. Não haverá partituras, mas sim aberturas e finais, coreografados pela urgência do tempo.
O ineditismo reside nesse abraço cultural. Ver o apoio da Lei Aldir Blanc e de órgãos públicos unindo o fomento às artes com o esporte da mente é um alento. Mostra que a cultura não é uma gaveta estanque, mas um rio que transborda.
Quem diria que, entre uma canção e outra, a melhor jogada seria um sacrifício de Rainha? No dia 16 de maio, a música não será apenas ouvida, será jogada. E, ao final, o maior prêmio não será a medalha ou o kit de madeira, mas a percepção de que, seja no palco ou no tabuleiro, a vida é a arte de saber o momento exato de agir, respirar e, finalmente, encantar.
Lira Santa Cecília de Varre-Sai comemora 109 anos de história
Na tarde em que a Lira Santa Cecília de Varre-Sai celebrou seus 109 anos, a música dividiu espaço com a memória e a tradição. A comemoração reuniu não apenas a comunidade local, mas também sete liras e bandas da região, que se uniram em um encontro marcado por dobrados, reencontros e reverência à história musical de Varre-Sai.
No meio das apresentações, um momento em especial silenciou o público: a homenagem ao personagem tão conhecido quanto querido da cidade, Antônio Alberto Monteiro, o Coim. Foi pelos versos da escritora Isabel Menezes que a celebração ganhou contornos mais íntimos e emocionais.
Em forma de crônica lírica, o poema resgatou não apenas a figura de Coim, mas sua essência dentro da história da banda. Descrito como “guardião da Lira”, ele foi lembrado como presença constante, daqueles que não apenas acompanham, mas sustentam o espírito coletivo. Mesmo diante de limitações, evocadas com delicadeza, sua permanência era movida por um vínculo profundo com a música e com a instituição.
A homenagem também destacou seu papel como incentivador de jovens músicos, alguém que, com gestos simples, ajudava a formar talentos e fortalecer laços. Mais do que memória individual, tratava-se do reconhecimento de um legado vivo, construído no cotidiano.
O prefeito Lauro Fabri, presente na celebração, anunciou a intenção de ampliar o alcance da data. Segundo ele, o objetivo é transformar o aniversário da Lira em um evento de caráter nacional, reunindo corporações musicais de diferentes regiões e consolidando Varre-Sai como referência nesse cenário, em respeito à trajetória histórica da instituição.
Já a secretária de turismo Shoraya Alonso Ridolphi destacou o envolvimento coletivo para a realização da festa. De acordo com ela, todos os órgãos da administração municipal contribuíram para a organização do evento, que já se firmou como uma das celebrações mais tradicionais do calendário local no mês de abril.
Dr Silvestre Gorini, ex-prefeito e ícone de Varre-Sai, esteve presente, e se emocionou ao relembrar sua trajetória na Lira Santa Cecília. Lembrou que o avô de Baden Powel foi o primeiro maestro da Lira Santa Cecília.
Emocionante também foi a homenagem a Giuseppe Tupini, fundador da Lira Santa Cecília. A homenagem foi endereçada à Tia Lúcia Tupini, que representou a família e foi coroada como Rainha da Lira.
A respeito de Giuseppe Tupini, o jornal O Norte Fluminense traz aqui um depoimento de seu neto, o saudoso Orlando Tupini, que viveu seus últimos anos em Bom Jesus.
Giuseppe relatava que, durante a viagem ao Brasil, os italianos se dedicavam a entoar canções de esperança, como a seguinte:
"Noi, italiani lavoratori,
Allegri andiamo nel Brasile
E voi altri, d'Italia signore
Lavoratelo il vostro badile
Se volete mangiare"
Segundo informa Orlando, "alguns italianos foram para Minas Gerais. Meus avós, contudo, foram até o Porto de Santos, permanecendo em São Paulo por cerca de um ano. Posteriormente, um emissário de Varre-Sai (RJ) foi a São Paulo contratar italianos para trabalharem na plantação de café. Meu avô concordou com a proposta e veio trabalhar na Fazenda Paraíso, de propriedade dos antepassados de minha esposa Margessi".
Os imigrantes vieram de trem para a região Noroeste Fluminense, onde havia uma estação em Natividade (RJ). A partir daí se deslocaram para Varre-Sai a pé, em lombo de burros ou mesmo em carros de boi.
Giuseppe Tuppini fixou-se, em primeiro lugar, na região da Cruz da Ana, exercendo as atividades de ferreiro e lavrador.
Apaixonado por música e por sanfona, Giuseppe Tupini fundou a banda de música Lira Santa Cecília de Varre-Sai".
Ao final da comemoração, no meio de discursos, músicas e lembranças, prevaleceu a sensação de continuidade. A Lira segue, fortalecida pelo passado e impulsionada pelo presente. E, como ressaltou a poetisa em sua homenagem, figuras como Coim não se despedem, permanecem, conduzindo, mesmo em silêncio, cada nova nota que ecoa pelas ruas de Varre-Sai.
O Guardião da Lira
(Poesia em homenagem ao Coim (Antônio Alberto Monteiro), feita a pedido do professor de música Gabriel Rampazio)
Hoje o silêncio se curva em respeito,
e a música, ainda que toque, chora baixinho.
No compasso da saudade, lembramos de você, Coim,
não com tristeza da ausência, mas com muito carinho.
Ia à frente, como quem abre portas invisíveis,
anunciando a nossa banda, anunciando alegria.
E cada passo seu, firme ou já cansado,
era coragem vestida de melodia.
Mesmo quando o corpo pedia descanso,
sua alma insistia em permanecer.
Quantas vezes a fraqueza o alcançou,
mas nunca foi capaz de te vencer.
Guardião das chaves, não só da sede,
mas do coração da Lira inteira.
Carregava no peito um orgulho bonito,
de quem guarda um tesouro e o reverencia.
Incentivador dos pequenos sonhos,
acolhia cada menino com olhar de luz.
E no elogio simples, sincero,
semeava pautas, plantava músicos.
Sentia-se dono, e era, de certo modo,
pois só pertence assim quem ama de verdade.
Um menino eterno, num corpo de homem,
feito de pureza, afeto e lealdade.
Lembro de suas mãos cheias de livros,
espalhando minha poesia no centenário da Lira
E no gesto generoso, multiplicava cultura,
fazendo da arte sua eterna vida.
Pelas ruas de Varre-Sai, era guia, era abrigo,
um anjo atento no centro da cidade.
E entre perguntas sobre novos livros,
me ensinava, sem saber, o valor da simplicidade.
Mas quando à frente da Lira se colocava,
já não era apenas o menino sonhador:
era um pequeno grande homem, sério e altivo,
batendo o bumbo, com o peito inflado de amor.
Hoje, teu bumbo repousa, mas não silencia,
tua foto sorri, mas não se despede.
Porque quem viveu como você viveu, Coim,
não parte: permanece.
E neste encontro, entre notas e memórias,
a Lira Santa Cecília te eterniza assim:
não como alguém que se foi cedo demais,
mas como alguém que ficou para sempre em nós.
Descansa, guardião.
A banda segue… mas agora, guiada por ti.
(Isabel Menezes - Professora e Historiadora de Varre-Sai)
O Horizonte de Pirapetinga de Bom Jesus, por Adalto Boechat Jr
Onde o horizonte se dobra em curvas, a tarde em Pirapetinga de Bom Jesus ganha um peso diferente. Não é o peso do cansaço, mas o da reverência. Ali, quando o sol se esconde atrás das serras, o mundo parece pedir licença para silenciar.
A imagem é o retrato desse fôlego suspenso. No alto, uma lua discreta, quase um pingo de luz, observa o vale. Mas a alma da cena está nos pés, onde o mato se veste de gala para o crepúsculo. Essas pequenas flores brancas, que em bando parecem espuma de mar em terra firme, são a moldura perfeita para a quietude de Pirapetinga. São as senhoras do tempo-parado, balançando ao sabor de um vento que traz o cheiro do mato e a umidade que começa a subir do riacho.
O Contraste do Lugar
O Céu: Um degradê absoluto que vai da claridade do dia que se foi ao azul profundo da noite que chega.
A Terra: O relevo acidentado de Bom Jesus, onde cada morro parece guardar uma história de família ou um causo antigo.
As Flores: Um exército de delicadeza, protegendo a encosta com sua textura de algodão selvagem.
Estar ali, no meio do chão florido e a lua de Pirapetinga, é entender que a beleza não precisa de artifícios. Ela se revela na simplicidade de uma planta de beira de estrada que, sob a luz certa, torna-se uma constelação. É o interior falando baixo, lembrando-nos que, enquanto a lua vigia Pirapetinga, a vida segue seu ritmo de prece, florescendo em silêncio antes que a primeira estrela decida aparecer.
Nesse recanto de Bom Jesus, o lírico não é um texto; é o próprio ar que se respira.





























































