quinta-feira, 18 de junho de 2026

Roberto Silveira bebia água da bica em folha de inhame-rosa

 

Ismélia Saad Silveira e Dora Silveira repetiram o gesto de Roberto Silveira na inauguração do Memorial Governadores Roberto e Badger Silveira


Ismélia Saad Silveira 


Há gestos simples que atravessam o tempo e se transformam em memória.

Sempre que retornava ao Sítio Rio Preto, terra onde nasceu e deu os primeiros passos, Roberto Silveira fazia questão de reviver uma tradição da infância: beber a água cristalina da bica em uma folha de inhame-rosa. Era mais do que matar a sede; era reencontrar as raízes, renovar os laços afetivos com a terra que moldou sua história.

Na inauguração do Memorial Governadores Roberto e Badger Silveira, esse gesto carregado de simbolismo foi compartilhado por familiares, amigos e admiradores. Entre eles, a saudosa Ismélia Saad e Dora Silveira também beberam da mesma água, perpetuando uma lembrança que une gerações.

No próximo dia 7 de agosto, quando o Memorial Governadores Roberto e Badger Silveira celebrar seus 10 anos de fundação, todos terão novamente a oportunidade de repetir esse gesto singelo e emocionante. 

Ao levar aos lábios a água da bica colhida na folha de inhame-rosa, cada visitante poderá sentir um pouco da essência de Roberto Silveira: o amor pela terra natal, o respeito às origens e a certeza de que a memória permanece viva quando é compartilhada.


                                     

Dora Silveira 




quarta-feira, 17 de junho de 2026

ADAGIO

 


Concurso de Trovas sobre a Copa do Mundo 2026

 


A paixão pelo futebol e o encanto da poesia se unem em uma iniciativa especial: o Concurso de Trovas sobre a Copa do Mundo 2026, envolvendo os alunos da turma 2001 do CN.

A proposta teve como objetivo estimular a criatividade, a leitura, a escrita e o interesse pela cultura popular, utilizando a trova, uma das mais belas expressões da literatura brasileira,  para celebrar o maior evento esportivo do planeta.

O concurso foi uma realização da escritora Isabel Menezes, com a participação dos alunos orientados pela professora da turma 2001 CN, Isabel Faria.

A iniciativa contou com o apoio da ACLAPTCTC e da Editora Possideli, além da parceria do CIEP Marlene Abib de Oliveira Fabri e da Biblioteca Lindolpho Nunes Vieira.

Os participantes concorreram à premiação com diplomas de 1º, 2º e 3º lugares, além de exemplares do livro Arábica, um conto da terra do café, gentilmente doados pela própria escritora Isabel Menezes.

Mais do que uma competição, o concurso foi uma oportunidade de valorizar os talentos dos estudantes, incentivando-os a transformar em versos a emoção, a união e a alegria que a Copa do Mundo desperta em povos de todas as nações. Que vençam a criatividade, o espírito esportivo e o amor pela literatura!





terça-feira, 16 de junho de 2026

Grupo Musical Amantes da Arte: Trinta e Seis Anos de Alma e Melodia

 


O compasso do tempo é misterioso, mas quando medido pela música, ele se transforma em pura poesia. Hoje, as paredes daquela sala de ensaio não apenas testemunharam o alinhamento das vozes e acordes; elas vibraram com o peso doce de uma história que completa trinta e seis anos de pura entrega. 

O Grupo Musical Amantes da Arte, que desde 1990 embala a alma de Bom Jesus do Itabapoana sob o legado eterno de Ana Maria Teixeira Baptista, celebrou mais um ciclo da forma mais genuína possível: cantando, sorrindo e resistindo pelo afeto.

​Havia uma eletricidade diferente no ar durante o ensaio de hoje. Uma emoção que não se explica, apenas se sente no arrepio da pele a cada nota sustentada. Olhar para o grupo reunido é enxergar uma tapeçaria viva de amizade, onde cada linha representa anos de dedicação à cultura bonjesuense. As mãos erguidas, um gesto de celebração, de vitória e de "estamos aqui", traduzem o espírito inabalável dessas mulheres que fazem da arte o seu oxigênio.

​E se a música tem o poder de romper barreiras, a tecnologia hoje serviu de serva para o coração. O momento mais comovente do ensaio vestiu-se de cumplicidade e saudade contida: a presença da ilustre e querida Alba Travassos. Mesmo se recuperando de uma cirurgia, Alba não permitiu que a distância física a silenciasse. Através da tela de uma videoconferência, seus olhos marejados encontraram os olhos do grupo. Ali, no brilho daquela tela, ficou provado que para os Amantes da Arte não existem fronteiras ou pós-operatórios capazes de calar o pertencimento. Ela estava ali, inteira, somando sua força à harmonia do coro. Houve lágrimas, sim, mas daquelas que lavam a alma e renovam os votos de união.

​Trinta e seis anos não são trinta e seis dias. É uma vida inteira dedicada a transformar partituras em pontes, a colorir os dias cinzentos da rotina com as cores vibrantes da melodia nacional e regional. No bolo que adoçou o ensaio, as velas podiam marcar os anos passados, mas o que se via no rosto de cada integrante era a juventude eterna de quem ama o que faz.

​Parabéns, Grupo Musical Amantes da Arte! Que as vozes continuem ecoando, que os braços continuem se erguendo em festa e que a querida Alba, em breve, troque a tela do computador pelo calor do abraço presencial. Bom Jesus do Itabapoana aplaude de pé a sua mais bela melodia.



































O Silêncio do Clube de Xadrez Bom Jesus do Norte Move o Mundo

 



​O frio da noite lá fora não ousa cruzar a soleira da porta. Ali, onde trinta anos de história se assentam sobre as mesas coloridas, o tempo corre de outra forma. Não é o tempo cronológico das pressões externas, mas o tempo tático, medido pelo clique seco dos relógios e pelo peso invisível de cada decisão

​Nas mãos dessas novas gerações, guiadas pelo mestre que planta sementes em solo fértil, o xadrez deixa de ser apenas um jogo e se torna trincheira. Enquanto o mundo exterior celebra o eco oco dos discursos vazios e o barulho ensurdecedor do consumo rápido, esses jovens operam na frequência da resistência. 

Cada peão que avança é um passo contra a ignorância; cada xeque planejado é a prova de que a mente popular, quando cultivada, é soberana e inabalável.

​O barulho das "latas vazias" pode até tentar ditar o ritmo das ruas, mas a verdadeira revolução humana se faz assim: em silêncio, de casa em casa, de lance em lance, onde o pensamento se recusa a ser subjugado.

​O trabalho do professor Fabio Sousa Vargas e a dedicação desses jovens em Bom Jesus do Norte são a prova viva de que a cultura raiz resiste.


A Garapa Centenária

 


No pasto do sô Maneco,

onde o gado permanecia,

a grande garapa guardava

nossas brincadeiras de cada dia.


Os primos vinham de Bom Jesus,

a gata criava seus filhotes,

e nós corríamos pelos campos

até sua sombra acolhedora.


Quando abriram estradas no sítio

para o café plantar naquele  chão,

sô Maneco pediu aos filhos:

— Poupem a garapa, ela merece proteção.


E assim ficou, firme e altaneira,

vencendo o passar dos anos.

Hoje reencontrei a velha amiga,

centenária, bela e serena,

sombreando o Sítio Bela

entre lavandas e cafezais.


Quem descansa sob seus galhos

sente que o tempo passa,

mas as boas lembranças jamais. 


Isabel Menezes - Professora e historiadora





A Doce Herança da Barra do Pirapetinga

   O Gosto que Bom Jesus Não Esquece



Há doces que alimentam o corpo, mas há outros que sustentam a memória. Na delicada arquitetura de um canudinho, cabe muito mais do que o recheio cremoso que espreita pelas bordas douradas; cabe uma linhagem inteira de afetos. Quando Sonia Maria e sua irmã, Silvia Maria, repetem o gesto preciso de moldar a massa, elas não estão apenas cozinhando. Estão folheando, com as mãos enfarinhadas, as páginas de uma história que começou há sete décadas, sob o olhar atento da matriarca Maria José Borges.

​Tudo evoca a Barra do Pirapetinga, esse berço de águas e ramificações familiares onde o sobrenome Borges fincou raízes ainda no século XIX, pelas mãos de Francisco José. O canudinho ali nascido carrega a força do interior, o ritmo de um Brasil que se moldava entre a tradição da terra e a promessa do progresso. Imaginar a mãe, Dona Maria José Borges, vendendo esses mesmos doces na Usina Franca Amaral, aquele projeto piloto que trazia nos olhos do governador Roberto Silveira o sonho de uma Bom Jesus industrial, é compreender que a doçura também caminha junto com a história. Enquanto as turbinas e as promessas de Rosal desenhavam o futuro da região, era o aroma da massa frita e do doce apurado que acalentava o cotidiano dos trabalhadores.

​O tempo passou, o tabuleiro de doces de Sonia reduziu-se em variedade, mas agigantou-se em essência. Ao optar exclusivamente pelos canudinhos, ela escolheu guardar o que há de mais sagrado na memória afetiva de sua clientela. Não se trata de comércio; trata-se de um pacto de fidelidade. Quem busca esses canudinhos na tradicional Lanchonete Guariza, no coração da cidade, não procura apenas um lanche para o final da tarde. Procura a infância perdida em um domingo de festa, o estalar crocante que ecoa em batizados e casamentos de outrora, o sabor exato daquilo que não muda em um mundo que gira depressa demais.

​Olhar para o pote transparente, cheio desses pequenos cilindros perfeitos e polvilhados de açúcar, é ver a Europa dos cannoli sicilianos e dos conventos portugueses desaguando no interior fluminense. Mas, acima de tudo, é ver a vitória da persistência. Setenta anos depois, a maior riqueza da Barra do Pirapetinga não se mede em indústrias, mas sim na doçura perene que Sonia e Silvia teimam em preservar, canudinho por canudinho, mantendo viva a chama de Dona Maria José.


Sonia Maria da Costa Azevedo