sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

"De aluna a professora da Escola João Catarina. De moradora a historiadora da Fazenda das Areias", por Adalto Boechat Júnior

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Bernadete da Silva Ribeiro

Assim se desenha a trajetória de Bernadete da Silva Ribeiro, mulher feita de memória, coragem e raízes profundas. É da família Vitó, família muito estimada em Vargem Alegre!

Criada em uma casinha de pau a pique, de chão batido, onde o banheiro ficava a alguns metros da porta, e, nas noites frias da quaresma ou sob a chuva insistente, ir até lá parecia o maior dos castigos,  Bernadete aprendeu cedo que a vida exige resistência. Nascida em uma família de cinco filhas, todas mulheres, filha de agricultores da Fazenda das Areias, cresceu entre o trabalho da terra e os sonhos que insistiam em nascer mesmo em solo duro.

Foi aluna do MOBRAL em escola rural e, depois, enfrentou uma daquelas batalhas silenciosas que poucos veem: continuar estudando quando tudo parece conspirar contra. Cada passo adiante foi conquista, cada página virada, uma vitória.

Formou-se em História pela Faculdade Fundação São José, em Itaperuna. Nascida e criada em um verdadeiro berço histórico, fez questão de transformar sua própria origem em pesquisa. Sua monografia e trabalho de campo contaram a história da Fazenda das Areias com olhar atento e humano: os senhores feudais, os escravizados, o cotidiano marcado por dor e resistência, as formas de vida na senzala, os tratamentos impostos e as marcas deixadas pelo tempo.

Enquanto a casa-grande ostentava tapeçarias, cristais, porcelanas e pratarias, outras histórias eram escritas em silêncio, histórias que Bernadete decidiu revelar.

Descobriu que o solo onde nasceu, cresceu e colheu seu alimento era também território sagrado de ancestralidades africanas e europeias. Muitas vezes temeu ser apenas mais uma menina da zona rural destinada ao roteiro esperado: casar, ter filhos, um cachorro e cumprir o padrão do que diziam ser uma mulher realizada. Mas Bernadete escolheu outro caminho.

Correu atrás. Estudou. Persistiu.

Continuou sendo a menina de pés fincados em Pirapetinga, agora formada, pós-graduada, professora e empresária.

Quantas barreiras surgiram diante desse sonho. Quantas madrugadas, à luz de lamparina, passou examinando papéis antigos ainda guardados na fazenda, documentos que hoje repousam, em grande parte, no museu.

Foi assim que descobriu o título de Barão de Aquino, com carta assinada por Dom Pedro II. Foi assim que revelou a história de Nego Godêncio, escravo reprodutor e provável patriarca de grande parte da comunidade negra atual.

Quantas vezes brincou de ser a Baronesa de Aquino pelos corredores da fazenda que, até pouco tempo, ainda permanecia de pé, enquanto seus avós eram zeladores. Seu rosto refletiu-se no mesmo espelho que um dia pertenceu à nobreza, e seus pés tocaram o chão erguido com a força e o sofrimento de seus ancestrais.

A fazenda foi potência econômica e social. Mais tarde, com Chichico das Areias, continuou símbolo de progresso, recebendo luz elétrica e até uma moderna máquina de lavar roupas, luxo raro para a época. Trouxe também consigo a devoção católica: imagens de São Judas Tadeu, São Sebastião e Nossa Senhora das Graças, que ainda hoje permanecem como testemunhas vivas da história.

Nossa Senhora das Graças repousa na igreja quase centenária que leva seu nome. São Judas Tadeu encontra-se hoje no Museu da Imagem de Pirapetinga.

O artigo e o trabalho de campo dessa pirapetinguense, que lutou, enfrentou limitações financeiras, rompeu preconceitos e transformou memória em conhecimento, agora também farão parte do museu, para que outras pessoas conheçam essa história e compreendam suas raízes.

Bernadete da Silva Ribeiro, é para você que hoje batemos palmas de pé.

Porque sua história não é apenas lembrança.

É resistência.

É identidade.

É legado.

A Fazenda das Areias, em Pirapetinga de Bom Jesus, foi um importante polo de desenvolvimento econômico da região: hoje está em ruínas

Adalto Boechat Júnior é pirapetinguense

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Pão e mar

 

Não há momento mais inteiro quando um açordescendente encontra um açoriano numa padaria com aroma do pão quente que mistura-se ao sal antigo das ilhas.

Por um instante, a padaria torna-se ilha  cercada não de água, mas de memória viva que fermenta, cresce e nunca deixa de unir.


Simples Atitude, por Rogério Loureiro Xavier


 Olá 🖐 pessoa amiga e do bem. 


*"Simples Atitude"*


Algumas pessoas a gente arquiva como um livro que já foi lido, mas que não podemos jogar fora. Elas ficam ali, entre as páginas da nossa vida, com histórias que não se repetem, mas que não conseguimos apagar.

Com o tempo, o contato diminui, a presença se torna apenas lembranças empoeiradas, mas elas continuam ali, registradas!

*"Assim como uma vírgula muda uma frase. Uma simples atitude. Muda uma história."*


*"✍️ ... Rogerio Loureiro Xavier "*

Bom Jesus, a Cidade-Jardim, em Debate: O Papel do Urbanismo de Padre Mello e as Reflexões de Raul Travassos e Elcio Xavier

 

Arte: Claudia Borges Bastos do Carmo


Os mapas e o traçado urbano de Bom Jesus do Itabapoana mantêm relação direta com o trabalho técnico e a visão estratégica do Padre Mello, que exerceu, na prática, as funções de urbanista e agrimensor em uma época em que tais profissionais eram raros no interior fluminense.

Mais do que registrar o espaço, ele o pensou, e, ao pensá-lo, ajudou a moldar o futuro da cidade.

O primeiro mapa do município

Autor do primeiro mapa detalhado de Bom Jesus do Itabapoana, Padre Mello produziu um documento técnico fundamentado em observações de campo e sólidos conhecimentos de agrimensura.

O traçado destacava o curso do Rio Itabapoana e a topografia local, elementos decisivos para definir áreas seguras de expansão urbana, afastadas das cheias e de terrenos instáveis.

O mapa também ofereceu base para a organização administrativa, permitindo à gestão pública delimitar fronteiras e estruturar o território em fase de consolidação política.

O alinhamento das ruas e a lógica da ordem

Como agrimensor, Padre Mello participou do alinhamento de diversas ruas do núcleo central. Utilizando um teodolito, hoje preservado no Espaço Cultural Luciano Bastos, assegurava retidão às vias e proporcionalidade aos lotes.

O traçado urbano revela preocupação com simetria e ordem, refletindo a mesma racionalidade aplicada à construção da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus.

O Largo da Matriz, situado em ponto elevado e articulado à atual Praça Governador Portela, consolidou-se como eixo central da cidade, de onde as ruas irradiam. Trata-se de uma concepção alinhada ao urbanismo colonial e eclético: a cidade organizada em torno do templo, integrando fé, comércio e convivência social.

Soluções urbanas criativas

Entre as intervenções técnicas atribuídas a Padre Mello destaca-se a solução para o desnível do terreno em frente à igreja.

Para que a Matriz avançasse até a rua com imponência monumental, ele projetou a construção de pontos comerciais na base inferior, criando um platô artificial. A solução integrou o edifício religioso ao fluxo urbano, harmonizando arquitetura e atividade econômica, proposta moderna para o início do século XX.

No caso da Praça Governador Portela, o platô artificial não foi apenas solução de engenharia. Foi decisão urbanística que permitiu:

a) conferir monumentalidade à igreja;

b) integrar o templo à malha urbana;

c) organizar o centro da cidade;

d) consolidar sua identidade visual.

O que poderia parecer simples ajuste de terreno revela-se parte de um projeto maior: transformar Bom Jesus do Itabapoana em uma cidade planejada, ordenada e simbolicamente estruturada.

Diálogo entre gerações de gênios

Décadas depois, a configuração da praça central motivou reflexões do genial cenógrafo, médico, músico  e memorialista Raul Travassos, um dos nomes mais expressivos da cultura bonjesuense e nacional, responsável, com recursos próprios, pela construção da Igreja Nossa Senhora de Fátima.

Travassos questionou o rebaixamento da praça diante da Matriz. Segundo sua análise, a área originalmente elevada estendia-se da igreja até as proximidades do antigo Big Hotel. Pela lógica construtiva, argumentava que o rebaixamento teria ocorrido em período anterior a 1900, pois edifícios históricos como o antigo Bar Central e os prédios da família Seródio não poderiam ter sido erguidos em acentuado desnível.

Consultado à época, o memorialista e Príncipe dos Portas bonjesuense Elcio Xavier, responsável pela doação do mapa de Padre Mello ao Espaço Cultural Luciano Bastos, apresentou interpretação complementar. Segundo ele, houve rebaixamentos em trechos distintos, tanto na área próxima à Igreja quanto na região que margeia o antigo hotel. Pesquisas posteriores indicam que a intervenção inicial foi realizada por outro personagem central da história local: o açoriano Padre Antônio Francisco de Mello, que chegou ao município em 18 de junho de 1899.

O debate demonstra que a paisagem urbana é resultado de camadas sucessivas de inteligência e trabalho,  verdadeiro diálogo entre gerações.

Ao conhecer os resultados das novas pesquisas, Raul Travassos sintetizou com lirismo a dimensão do legado: Padre Mello, além de sacerdote, poeta e agrimensor, foi um urbanista apaixonado por sua terra e o arquiteto da incomparável Matriz do Senhor Bom Jesus.

Preservação da memória cartográfica

Hoje, manuscritos e mapa encontram-se preservados no Espaço Cultural Luciano Bastos.

O conjunto documental demonstra que Bom Jesus do Itabapoana não cresceu ao acaso. Houve método, visão e planejamento. Houve quem medisse o solo com rigor e sonhasse a cidade como uma verdadeira cidade-jardim, organizada e integrada, distante do crescimento desordenado que marcou tantas vilas do interior.

No meio de régua e oração, entre cálculo e inspiração, Padre Mello desenhou não apenas ruas,  mas horizontes.





Elcio Xavier, o Príncipe dos Poetas 

Raul Travassos é a fachada da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus, edificada por Padre Mello


 



 


 


 


 


 


A primeira avenida de Bom Jesus e o Desenho do Futuro Urbano de Bom Jesus do Itabapoana por Padre Mello

 

Primeiro mapa de Bom Jesus foi confeccionado por Padre Mello em 1940 (Acervo do Espaço Cultural Luciano Bastos, doado por Elcio Xavier, o Príncipe dos Poetas)

As contribuições do Padre Mello para a cartografia de Bom Jesus do Itabapoana permanecem como um dos capítulos mais sólidos da história urbana do município. Seus mapas não são apenas relíquias: continuam a servir de referência para historiadores, arquitetos e urbanistas que buscam compreender como a cidade foi pensada, e não simplesmente ocupada.

Mais do que desenhar ruas, ele projetou o crescimento.

O mapa de 1940: um marco documental

Entre os documentos preservados no Espaço Cultural Luciano Bastos (ECLB), destaca-se o mapa datado de 15 de março de 1940,  uma peça histórica de notável precisão técnica.

Elaborado com base em medições realizadas com seu teodolito, o documento delimita áreas urbanas e divisas de grandes fazendas, oferecendo um retrato fiel da organização territorial do período.

Mais do que registro, o mapa foi instrumento de gestão pública. Às vésperas das celebrações do centenário da cidade, em 1942, ele forneceu base concreta para o planejamento de estradas e infraestrutura rural, consolidando um ordenamento que dialogava com o futuro.

A primeira avenida e a disputa do nome

A influência de Padre Mello no traçado urbano tornou-se literal na concepção da primeira grande avenida da cidade,  hoje conhecida como Avenida Padre Mello.

O projeto previa uma via mais larga e alinhada que as ruas estreitas então predominantes, antecipando o aumento do tráfego e a expansão urbana. Visionário, o sacerdote desejava chamá-la “Avenida da Mocidade”, expressão de esperança no porvir.

Entretanto, uma disputa na imprensa local, liderada pelo jornalista Silvio Fontoura,  levou à consagração popular de seu próprio nome. Em gesto de humildade, ele resistiu à homenagem, mas a vontade coletiva prevaleceu. Hoje, a avenida é uma das principais artérias da cidade, abrigando inclusive a Secretaria de Cultura e sendo ponto de proximidade com o próprio ECLB.

O coração urbano: praça e matriz

Raul Travassos, um dos gênios de nossa cultura, sempre pontuou, cotejando fotos de épocas antigas,  a respeito do rebaixamento da praça Governador Portela. Hoje, as pesquisas trazem luz sobre esse rebaixamento. No desenho do centro histórico, Padre Mello consolidou o Largo da Matriz como ponto mais alto e irradiador do traçado urbano. Ali, fé e geografia se encontram.

A partir desse eixo monumental, que dialoga com a atual Praça Governador Portela, as ruas foram organizadas de forma lógica e integrada. A igreja não permaneceria isolada: estaria conectada ao comércio e às residências, criando fluxo contínuo e definindo o centro vital da cidade até os dias de hoje.

Cadernos de geografia viva

Além dos mapas oficiais, sobrevivem cadernos técnicos que funcionam como verdadeiro diário geográfico da região. Neles, encontram-se medições das margens e profundidades do Rio Itabapoana, anotações destinadas à prevenção de cheias e registros que ajudaram a fixar a toponímia local, muitos nomes ainda oficialmente utilizados.

O mapa de Padre Mello é, em essência, a certidão de nascimento do ordenamento urbano de Bom Jesus do Itabapoana. Impressiona que um homem dedicado ao altar tenha exercido, com igual rigor, o papel de agrimensor e planejador.

No meio da fé e cálculo, ele desenhou não apenas ruas e divisas,  desenhou o futuro físico de uma cidade inteira.

Festa Italiana de Arte e Cultura

 


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Aproveite cada segundo sua vida, por Rogério Loureiro Xavier

 



*"Olá 🖐 pessoa amiga e do bem."*


*"O melhor dia da sua vida é sempre aquele que está começando!"*

Nessa vida não somos donos de nada. Nem da alma, nem do coração, nem da própria vida. 

Tudo é passageiro, tudo é empréstimo do tempo. 

Somos donos apenas dos momentos que escolhemos viver, das escolhas que fazemos enquanto estamos aqui,  dos sentimentos que cultivamos e do amor que deixamos pelo caminho. 

Porque no fim, não levamos posses ... levamos histórias, memórias e tudo aquilo que sentimos de verdade. 

*"Reflita..."*

*"Aproveite cada segundo sua vida, pois na vida não há retorno, apenas recordações... "*


*"✍️ ... Rogerio Loureiro Xavier"*