quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Plantar, mesmo sem saber da colheita

 

Por Gino Martins Borges Bastos 


Que a vida me encontre plantando



Há uma paz difícil de alcançar na imagem evocada por Montaigne: que a morte o encontre plantando seus repolhos. Um homem inclinado sobre a terra, ocupado com uma tarefa simples, enquanto o tempo segue seu caminho.

Penso nas mãos desse homem. Nas unhas escurecidas, no cuidado de abrir espaço para a muda, na água derramada devagar. Talvez lhe doessem as costas. Talvez uma nuvem anunciasse chuva e ele erguesse os olhos, agradecido por poder guardar o regador. A vida inteira caberia naquela pequena cena.

Plantar exige uma confiança que raramente confessamos. Enterramos uma semente sem receber garantias. Ignoramos se a chuva chegará na hora certa, se o sol será generoso, se estaremos à mesa quando a colheita vier. Ainda assim, preparamos o chão.

Existem dias em que o medo nos faz abandonar o canteiro antes mesmo de começar. Adiamos a visita, guardamos a palavra carinhosa, deixamos o livro fechado sobre a mesa. Queremos uma segurança que o calendário nunca soube oferecer. E, enquanto esperamos, a tarde passa pela janela.

Aquela imagem nos convida a voltar às pequenas tarefas pelas quais sentimos afeto. Regar a roseira. Escrever a alguém distante. Aprender uma canção, embora os dedos já tenham perdido a agilidade. Fazer planos para o domingo e escolher, com alguma alegria, o que haverá no almoço.

Conheci, em minhas entrevistas, pessoas que envelheceram assim: sempre havia alguma coisa por fazer. Uma receita a ensinar, uma fotografia a identificar, uma história que precisava ser contada antes que seus personagens se apagassem da memória. Conversávamos com elas e saíamos levando uma encomenda de vida.

Também os nossos mortos continuam nos ocupando as mãos. Plantamos uma flor de que gostavam, repetimos um gesto aprendido na infância, cuidamos de alguém como eles cuidariam. Às vezes, no meio de uma tarefa banal, percebemos que uma antiga ternura encontrou maneira de permanecer.

Por isso me comove o homem dos repolhos. Ele tem uma ocupação para aquela manhã. Conhece a fragilidade das folhas e, mesmo assim, lhes oferece cuidado. Ao redor, talvez haja pássaros, ruídos de uma casa, o cheiro de comida chegando da cozinha. Há tanto a que pertencer enquanto se vive.

Quando chegar minha última tarde, desejo que ainda exista em mim essa disposição singela. Que haja uma página começada, uma visita combinada, uma muda esperando lugar no jardim.

E que alguém, tempos depois, passando por aquele chão, encontre alguma coisa verde.

André Luiz de Oliveira: Bom Jesus na cadeira da memória

 


Existem nomes que, ao atravessarem as fronteiras de sua cidade, levam consigo uma paisagem inteira. Levam o rumor das ruas, o afeto dos encontros, as histórias ouvidas à sombra de uma varanda. André Luiz de Oliveira leva Bom Jesus do Itabapoana assim: na dedicação à cultura e no cuidado com as lembranças que dão alma à nossa terra.

Sua indicação para a ACLAPTCTC,Academia Capixaba de Letras e Artes de Poetas Trovadores, ganha agora um anúncio que alegra os bonjesuenses: seu nome figura entre os novos acadêmicos, destinado à cadeira 179, com posse prevista para 19 de novembro, na Serra, no Espírito Santo. Ao lado de seu nome, está o de Bom Jesus do Itabapoana. Uma identificação breve no programa da solenidade, mas imensa para quem compreende o significado de representar o lugar ao qual pertence.

É um merecido reconhecimento a André e à sua participação na vida cultural bonjesuense. A cultura permanece porque há pessoas dispostas a oferecer tempo, sensibilidade e trabalho para que uma história seja contada, uma lembrança encontre abrigo, uma voz antiga volte a ser ouvida.

Sua participação no documentário sobre o Padre Preto, de Calheiros, expressa esse compromisso. Como assistente de produção e intérprete do Padre João Mendes Ribeiro, André ajudou a aproximar do presente uma figura guardada na memória de nossa gente. Emprestar o próprio rosto a alguém que viveu em outro tempo exige escuta: é preciso abrir espaço dentro de si para acolher os gestos, as inquietações e a humanidade de outra existência.

Diante da câmera, a memória de Calheiros encontrou em André uma presença. E o cinema pôde realizar uma de suas mais belas vocações: reunir, numa mesma luz, aqueles que partiram e aqueles que ainda precisam conhecer suas histórias.

Há uma delicada justiça nesse encontro entre sua atuação e o reconhecimento acadêmico. Quem contribui para preservar a memória de uma comunidade também passa a integrar, com maior nitidez, a história que essa comunidade escreverá sobre si.

Quando André ocupar a cadeira 179, levará consigo o carinho dos que acompanham sua caminhada. Levará Calheiros, a lembrança do Padre Preto e a força cultural de um município que tem muito a oferecer ao mundo.

E podemos imaginar que, ao ser anunciado seu nome na solenidade, muitos bonjesuenses sentirão uma alegria íntima, dessas que dispensam grandes palavras. Porque reconhecer André Luiz de Oliveira é também iluminar o trabalho cultural feito entre nós, com os recursos possíveis e a grandeza de quem acredita.

Bom Jesus do Itabapoana estará ali, junto de André. Como a terra que acompanha os passos de um filho e se alegra ao vê-lo chegar.



É LOUCURA, por Rogério Loureiro Xavier

 


Olá 🖐 pessoa amiga e do bem. 


*"É LOUCURA"*


Odiar todas as rosas, porque uma te espetou...

Entregar todos os teus sonhos, porque um deles não se realizou...

Perder a fé em todas as orações, porque numa não foste atendido(a)...

Desistir de todos os esforços, porque um deles fracassou...

Condenar todas as amizades, porque uma te traiu...

Descrer de todo amor, porque um deles te foi infiel...

Jogar fora todas as chances de ser feliz, porque uma tentativa não deu certo...

Espero que na tua caminhada não cometa estas loucuras, lembrando que sempre...

Há uma outra Chance.

Uma outra Amizade.

Um outro Amor.

Uma nova Força.


É só ser perseverante e procurar ser mais feliz a cada dia.


*"A glória não consiste em jamais cair, mas sim de erguer-se toda vez que for necessário!"*


*✍️ ... Rogerio Loureiro Xavier*

A velhinha que oferecia pouso à vida

 

"Tenho medo de que minha vida passe nessa corrida interminável para ter o mesmo que todo mundo.”



No meio da cidade, uma senhora sorri com um pombo sobre a cabeça.

Atrás dela, os carros ocupam a rua, as fachadas guardam suas janelas e o mundo parece seguir aquele compromisso antigo de estar sempre atrasado. Mas, naquele pequeno espaço de banco, casaco e asas, ninguém precisa chegar primeiro.

Um pombo encontrou pouso sobre seu lenço. Outros se aproximam de suas mãos. Ela sorri com o rosto inteiro, deixando que as rugas participem da alegria.

Sobre a imagem, uma frase revela um medo que talvez muitos carreguem sem confessar: deixar a vida passar enquanto se corre para ter o mesmo que os outros.

É uma corrida curiosa. A chegada muda de lugar toda vez que alguém a alcança. Há sempre outra casa, outra roupa, outra conquista a exibir. E assim vamos adiando a tarde tranquila, a conversa demorada, o prazer de estar onde estamos.

A senhora da fotografia parece ter encontrado um intervalo.

Não sabemos seu nome, suas perdas, o que a espera quando voltar para casa. Uma imagem não conta uma existência inteira. Mas permite reconhecer aquele instante: há alegria em seu rosto e uma ave tão à vontade que lhe confia o próprio repouso.

Talvez ela tenha levado alimento aos pombos. Talvez volte àquele banco todos os dias. Gostamos de imaginar que já reconheçam seus passos, que a esperem entre o movimento dos carros e a impaciência dos pedestres.

Um pequeno encontro marcado com a ternura.

O tempo, que tantas vezes sentimos como coisa levada embora, ali ganha corpo: é o peso leve de um pássaro, o movimento de uma asa, a mão que permanece estendida. Aquela tarde está sendo vivida.

Olhamos seu sorriso e pensamos nas alegrias que deixamos para depois, como se precisassem de uma vida inteiramente resolvida para acontecer. Enquanto esperamos, os dias continuam passando pela janela.

A senhora sorri. O pombo se acomoda.

E, por um momento, dá vontade de abandonar a pressa, sentar um pouco e descobrir o que ainda pode se aproximar de nós quando permanecemos.

Atuação em “A Outra Margem” leva André Luiz de Oliveira à indicação para a ACLAPTCTC

 

No papel do Padre Preto, André Luiz de Oliveira aproximou cinema e história de Calheiros




Certas pessoas ajudam a contar uma história trabalhando nos bastidores. Outras lhe emprestam o rosto, os gestos e a emoção. No documentário bonjesuense A Outra Margem, André Luiz de Oliveira assumiu essas duas responsabilidades: foi assistente de produção e atuou na representação do Padre João Mendes Ribeiro, conhecido como Padre Preto, em Calheiros. Agora, sua participação na obra fundamenta a indicação para integrar, como membro correspondente, a ACLAPTCTC, Academia Capixaba de Letras e Artes de Poetas Trovadores, de Vitória.

A indicação será avaliada pela comissão da entidade. Antes mesmo dessa apreciação, porém, ela lança luz sobre uma contribuição que merece ser conhecida: o trabalho de quem se dispôs a servir à memória regional tanto na construção do filme quanto diante das câmeras.

Representar uma personalidade ligada à história de uma comunidade exige sensibilidade. Ao interpretar o Padre Preto, André participou de um encontro entre o audiovisual e as lembranças de Calheiros, distrito onde ocorreram as filmagens. Emprestou sua presença à tarefa de aproximar o público de uma figura que pertence ao patrimônio humano do lugar.

O reconhecimento de sua atuação sucede outra distinção recebida pela obra. Em 2025, o 1º CineFest Rosal concedeu ao diretor Philip Arvid Johnston o Prêmio Especial de Reconhecimento Paulo Tardin, destacando sua dedicação à arte e à cultura audiovisual da região. Realizado nos dias 13 e 14 de junho, o festival apresentou A Outra Margem em seu encerramento.

Com direção de Philip Johnston, produção executiva de Rocio Salazar, do Rio de Janeiro, produção associada de Gino Martins Borges Bastos e assistência de produção de André Luiz de Oliveira, o documentário reuniu esforços em torno das histórias de Bom Jesus do Itabapoana, território ao qual Philip tem dedicado seu olhar de realizador.

Organizado pelo ativista cultural, ator, autor e ceramista Israel Sadias, o CineFest Rosal abriu espaço para obras capazes de estimular a reflexão e revelar a humanidade de seus personagens. O encontro contou com a presença dos atores Igor Cotrim e Dudu de Oliveira e do produtor Ricardo Resende Valle, fortalecendo a celebração do cinema na região.

Nesse percurso coletivo, a indicação de André ganha significado próprio. Evidencia o valor de uma participação que atravessou os bastidores e alcançou a interpretação, unindo disposição para o trabalho e compromisso com a história local.

Enquanto aguarda a avaliação da ACLAPTCTC, André Luiz de Oliveira já tem seu nome inscrito nessa realização do audiovisual bonjesuense. Em A Outra Margem, ajudou a construir uma ponte entre tempos: de um lado, a memória de Calheiros; do outro, os olhos de quem ainda terá a oportunidade de conhecê-la.





Casa dos Açores celebra os 93 anos do Maestro Nilo Rodrigues em encontro musical

 


Eliton Polverini, o Muchacho, filho do Maestro Nilo Rodrigues, que recebeu o Certificado de Embaixador da Acorianidade 

A Casa dos Açores do Espírito Santo (CAES), presidida pelo dr Nino Moreira Seródio, realizou ontem, terça-feira, 20 de outubro, um encontro musical em comemoração ao Mês dos Idosos. A programação reuniu apresentações instrumentais e vocais e homenageou os 93 anos do Maestro Nilo Rodrigues, em uma noite de valorização da vida, da memória e das tradições culturais.

Realizado na sede da instituição, na estrada que liga Apiacá a Bom Jesus do Norte, o encontro contou com a apresentação da Lira Operária Bonjesuense e a presença de seu presidente de honra, Dr. Antônio Borges.

Em relato aos membros da CAES, o Dr. Pedro Antônio de Souza destacou o significado da celebração, que definiu como “um louvor à VIDA, expressada na sua longevidade”. Segundo ele, o encontro foi memorável e teve na homenagem ao maestro um de seus momentos especiais.

A identidade açoriana também ganhou destaque com a execução dos hinos do Divino Espírito Santo e dos Açores. Para Pedro Antônio, essas apresentações reforçaram os vínculos culturais cultivados pela instituição.

Outro destaque foi a participação do Coral Vozes do Tempo, de Apiacá, formado por idosos e conduzido pelo organista e regente Pedro Poubel. A apresentação integrou a proposta de celebrar a longevidade por meio da música e da convivência.

O encerramento ficou por conta da viagem musical com o consagrado cantor José Antônio Borges Alvarenga e a participação especial da cantora Beatriz Magalhães, cujas interpretações foram elogiadas por Pedro Antônio.

No meio das homenagens, cantos e lembranças, a Casa dos Açores reuniu diferentes gerações em uma celebração da cultura e das histórias que permanecem vivas pela música.















Há uma tarde esperando por nós

 

O tempo que deixamos para depois



Há uma cadeira vazia na varanda. Sobre a mesa, o café esfria enquanto alguém termina uma tarefa, responde a uma mensagem, procura um papel. Do lado de fora, a tarde oferece seus últimos dourados. Quando finalmente erguemos os olhos, a sombra já alcançou o jardim.

Assim passam muitos dos nossos dias.

A reflexão de Sêneca sobre o tempo nos alcança nesse instante doméstico: quando percebemos que estivemos ocupados demais para acompanhar a luz descendo pela parede. E talvez nos lembremos de uma visita adiada, de uma conversa interrompida, de alguém a quem prometemos telefonar assim que a vida ficasse mais tranquila.

Guardamos tantas coisas para esse dia.

Um dia teremos tempo para sentar ao lado de nossa mãe e ouvi-la contar novamente uma história da infância. Um dia procuraremos o amigo de quem sentimos saudade. Um dia abriremos aquele livro, faremos aquela viagem, diremos com todas as letras o amor que supomos tão evidente.

Enquanto isso, os rostos mudam. As mãos ganham manchas. A voz que chamava da cozinha se torna mais baixa. E nós continuamos acreditando que haverá outra tarde, com o mesmo café, a mesma cadeira, a mesma pessoa esperando.

Até que uma ausência nos ensina o valor de uma porta que antes podíamos simplesmente abrir.

Então compreendemos quanto cabia naquilo que parecia pequeno: o ruído dos talheres no almoço de domingo, uma risada no corredor, os passos conhecidos chegando à casa. Gostaríamos de voltar por alguns minutos. Não para corrigir o rumo do mundo, mas para permanecer um pouco mais à mesa.

Há uma dor particular em descobrir que fomos felizes com pressa.

Nem todo tempo, porém, precisa ser preenchido. A vida também amadurece nas pausas. Há tardes em que descansar a cabeça no colo de alguém é tudo o que precisamos fazer. Há manhãs cujo melhor acontecimento é uma conversa demorada, sem utilidade alguma além da alegria de estarmos juntos.

Poderemos começar por aí: dando lugar, no dia de hoje, a alguma coisa que amamos.

O telefone está ao alcance da mão. Ainda podemos fazer aquela visita. Há alguém que receberia com alegria uma palavra nossa, alguém cujo rosto se iluminaria ao nos ver chegando sem pressa.

Na varanda, a cadeira continua vazia. Podemos nos sentar por um instante, chamar quem está dentro de casa e repartir o que resta da tarde.

O café pode ser feito outra vez.

A luz ainda está no jardim.