quinta-feira, 7 de maio de 2026

Cristiana Ana Lima engrandece o Dia da Poesia Bonjesuense em homenagem a Elcio Xavier

 

No coração de Bom Jesus do Itabapoana, onde a poesia floresce como herança e destino, o Dia da Poesia Bonjesuense ganhou um brilho singular com a presença marcante de Cristiana Ana Lima. Vinda de Vitória, a escritora atravessou caminhos e fronteiras para prestar tributo a Elcio Xavier, um dos grandes nomes da literatura brasileira. Na ocasião, teve a oportunidade de conhecer e estreitar vínculos com Rogério Loureiro Xavier, filho de Elcio e dedicado guardião da memória e do legado do pai.

O encontro aconteceu no Espaço Cultural Luciano Bastos, transformado naquela tarde em verdadeiro templo da palavra e da memória. No meio de versos, aplausos e emoções, Cristiana não apenas participou do evento: engrandeceu a celebração com sua trajetória luminosa e com a força de uma literatura comprometida com a educação, a cultura e a dignidade humana.

Comendadora, Mestre do Saber e da Cultura Popular, Cristiana Ana Lima construiu uma caminhada literária marcada pela pluralidade e pela coragem. Participou de importantes coletâneas, como Nordeste em Letras, Antologia Vozes Nordestinas e Dante Alighieri, além de obras voltadas ao debate sobre assédio moral, que ecoam como denúncia e resistência no universo educacional.

Sua atuação ultrapassou fronteiras nacionais, alcançando reconhecimento internacional por meio da participação na Exposição Internacional Literarte, na Romênia, de atividades acadêmicas na Itália e da consagração no Prêmio Pan-Americano de Literatura 2026, em Cartagena das Índias.

Em 2024, teve o nome inscrito entre os cem melhores poetas da língua portuguesa durante a FLIP, reconhecimento que reafirma a relevância de sua escrita e sua contribuição à literatura contemporânea.

Ao celebrar Elcio Xavier, Cristiana levou consigo não apenas versos e prosas, mas um universo inteiro de experiências literárias. Sua voz encontrou eco na obra do autor de O Véu da Manhã e Rosaquarium, livros que eternizaram o poeta bonjesuense como um dos grandes expoentes da poesia brasileira.

Educadora, psicopedagoga, pesquisadora e autora de vasta produção acadêmica e literária, Cristiana Ana Lima representa a união entre conhecimento e sensibilidade. Sua sólida formação em pedagogia, gestão escolar, teologia, alfabetização e artes na educação revela uma intelectual comprometida com a transformação humana através da palavra.

Naquela celebração poética, sua presença foi mais do que uma homenagem: simbolizou o encontro entre duas grandezas da literatura. De um lado, a memória eterna de Elcio Xavier; do outro, a voz viva e palpitante de Cristiana Ana Lima, que segue levando a literatura brasileira além das fronteiras, fazendo da poesia e da prosa uma ponte entre povos, culturas e corações.

























O Dia da Poesia Bonjesuense e os Gigantes da Memória



No Dia da Poesia Bonjesuense, quando Bom Jesus celebrava o nascimento de Elcio Xavier, o Príncipe dos Poetas, três gigantes atravessaram as portas do Espaço Cultural Luciano Bastos e fizeram o passado voltar a respirar.

Não eram apenas bonecos.

Eram lembranças de pano, madeira e sonho.

Vieram conduzidos por Rondinelli Jesus de Paula, filho de Toninho do Tupy, acompanhado de Joana, sua mãe, trazendo consigo não apenas figuras enormes, mas uma herança inteira. Ao entrarem no auditório, pareciam antigos guardiões regressando ao templo da memória para assistir, em silêncio, à celebração da cultura que ajudaram a construir.

E ali permaneceram durante toda a programação.

Assistiram à Folia de Reis entoando versos ancestrais. Viram a capoeira desenhar liberdade no ar. Escutaram o piano delicado de dona Marise Figueiredo Xavier, fundadora da Escola de Música Cristo Rei, como quem acaricia o tempo com as mãos. Ouviram os instrumentos das crianças e jovens da Sociedade Musical da Usina Santa Maria ecoarem como promessa de continuidade. 

Observaram Rogério Loureiro Xavier, filho de Elcio Xavier e dedicado guardião da memória do pai, acompanhado de sua esposa, Eloisa Xavier, e da filha, Elaine Xavier, que vieram do Rio de Janeiro para viver aquele momento de celebração e afeto. Observaram também o açoriano Francisco Amaro Borba Gonçalves, que atravessou distâncias especialmente para o evento, assim como Cristiana Ana, integrante de diversas academias culturais, vinda de Vitória para prestigiar o encontro. Viram ainda Lenice Xavier, prima escritora da família Xavier, reunida entre escritores, acadêmicos, músicos, artistas e o povo, todos unidos como uma só família espiritual.

Naquela tarde, o que se viu foi mais do que um evento.

Foi um encontro de mundos que nunca deveriam estar separados.

A cultura popular entrou de mãos dadas com a cultura clássica. A sanfona abraçou o piano. A caixa da Folia dialogou com os instrumentos de orquestra. Os bonecos gigantes caminharam ao lado dos livros. A ABIJAL, Academia Bonjesuense de Artes e Letras, e a Tuna Luso-Bonjesuense juntaram suas presenças a esse grande mosaico de afetos e manifestações culturais.

E então compreendeu-se algo precioso: identidade não nasce da exclusão, mas do encontro.

Somos feitos desse mosaico.

Da cantoria da Folia.

Do toque do piano.

Do corpo gingando na capoeira.

Do verso escrito.

Do clarim das bandas.

Do boneco gigante atravessando a rua como se a infância nunca tivesse ido embora.

Toninho do Tupy compreendeu isso antes de muitos.

Filho de João de Dão e Rosa Maria da Conceição, ele transformou a vida em festa e a festa em pertencimento. Criou clubes, levantou carnavais, inventou gigantes. Fez da rua um palco onde o povo podia reconhecer a própria alegria. Seus bonecos não eram apenas alegorias, eram espelhos aumentados da alma popular.

Careca Barrigudo, a Boneca, a Mula Rosada e tantos outros não caminhavam apenas pelas ruas das duas Bom Jesus; caminhavam pela imaginação coletiva de gerações inteiras.

E agora, graças ao filho Rondinelli Jesus de Paula, a técnica de construir esses gigantes permanece viva. Ao fundar uma associação dedicada à preservação da memória de seu pai, Toninho, da cultura e de seus heróis, Rondinelli compreendeu que tradição não é saudade parada: é continuidade.

Os bonecos ainda respiram porque alguém decidiu não deixar morrer o encantamento.

Naquela tarde memorável, enquanto os gigantes observavam silenciosos cada apresentação, parecia que também eles se emocionavam ao perceber que o legado deixado por Toninho continuava florescendo diante de novas gerações.

E talvez essa tenha sido a maior poesia do dia.

Mais do que homenagear Elcio Xavier, Bom Jesus homenageou a si mesma. Reconheceu-se em suas múltiplas vozes. Descobriu que sua verdadeira riqueza não está apenas em monumentos ou prédios antigos, mas naquilo que o povo consegue preservar em conjunto: a memória, a arte, a fraternidade e o sentimento de pertencimento.

Porque um povo só se torna inteiro quando consegue enxergar beleza em todas as formas de cultura que o constituem.

E naquela tarde, no meio de versos, bonecos, músicas e bandeiras, Bom Jesus viu seu próprio coração palpitando diante dos seus olhos.

Os gigantes de Toninho não ocupavam apenas o auditório.

Ocupavam a eternidade.




























O Dia da Poesia Bonjesuense e a Folia de Reis Irmandade da Estrela Guia



A chama que não se apaga: o guardião da memória

Há presenças que não chegam, revelam-se.

No calendário afetivo de Bom Jesus do Itabapoana, o dia 3 de maio não é apenas uma data, é um marco de poesia e memória. Nesse dia nasceu Elcio Xavier, o eterno Príncipe dos Poetas, cuja palavra ainda ressoa como canto antigo nas almas sensíveis.

E não é por acaso que, ao celebrar o Dia da Poesia Bonjesuense, os versos parecem ganhar corpo e caminhar entre o povo. Eles ecoam nas rimas da Folia de Reis, misturam-se ao som da sanfona, ao compasso da caixa e à cadência das vozes que entoam fé e tradição.

Na cantoria da Irmandade Estrela Guia, liderada pelo Mestre Warlem Rodrigues Souza, há algo mais do que música: há poesia viva. Como se, em cada verso improvisado, em cada rima entoada sob o céu do interior, a presença de Elcio Xavier se fizesse sutil, não como lembrança distante, mas como essência incorporada.

Assim, a Folia canta, e o poeta permanece.

Naquele 3 de maio, no Espaço Cultural Luciano Bastos, não foi apenas um grupo que atravessou o auditório: foi a própria memória de um povo que entrou em cortejo, vestida de cores, fé e música.

A Folia de Reis Irmandade Estrela foi a primeira a chegar. E não entrou, inundou. Como maré serena que avança sobre a areia, trouxe consigo a bandeira erguida, o riso enigmático do palhaço, o compasso da caixa, o sopro da sanfona e vozes que pareciam costurar o presente ao passado. Não era espetáculo. Era permanência.

Naquele espaço, outrora Colégio Rio Branco, fundado em 1920,  a cultura encontrou abrigo em sua própria essência. Um lugar que respira história acolheu outra história viva, feita de passos, promessas e devoção.

E então algo silencioso aconteceu: muitos ali deixaram de ser apenas espectadores. Voltaram a ser crianças. Crianças que corriam atrás das Folias pelas ruas, que acreditavam no encanto, que viam no som dos instrumentos um portal para o sagrado e o mágico. A infância, por um instante, regressou inteira.

A Estrela Guia foi a última a sair.

Mas, na verdade, não saiu.

Permaneceu, nos olhos marejados, nas mãos que aplaudiam com reverência, nos corações que reconheceram ali não apenas uma tradição, mas uma herança viva.

Porque há luzes que não dependem de eletricidade.

Acendem-se com memória. Sustentam-se com devoção.

E essa luz começou em 1981, quando Carlos Rodrigues de Ávila, mais que fundador, foi semeador. Não criou apenas uma Folia, ergueu um altar em movimento, nascido de uma promessa e alimentado pela fé. Ele compreendia o que poucos compreendem: que a cultura, quando tocada pelo sagrado, não envelhece, eterniza-se.

O tempo, porém, provou sua força. Com a partida do patriarca, o silêncio tentou ocupar o lugar da cantoria. A bandeira repousou. Passou por mãos que não escutaram o chamado, por outras que a protegeram com respeito, mantendo acesa, ainda que tímida, a chama da tradição.

Mas há heranças que não se perdem, apenas aguardam.

E há treze anos, o destino encontrou seu guardião.

Ao assumir a Folia, Warlem Rodrigues Souza não aceitou um título, aceitou um legado. Não empunhou apenas a bandeira, abraçou sua própria história. Ser mestre, para ele, é mais que conduzir: é dialogar com o passado, honrar o presente e semear o futuro.

Sob sua liderança, a Estrela Guia respira. Vive. Caminha.

É estrada, é poeira, é madrugada, é canto que ecoa onde há fé. Warlem conduz seus foliões como quem carrega um relicário: com firmeza nas mãos e ternura no coração.

E talvez, em cada verso entoado, em cada passo ritmado, haja um sorriso invisível, o de seu avô, que, em algum lugar onde a folia nunca termina, reconhece que a promessa segue sendo cumprida.

Neste 3 de maio de 2026, a Estrela Guia volta a brilhar.

E seu brilho não está apenas nos trajes ou nos instrumentos, mas naquilo que representa: a resistência da cultura, a força da memória e a beleza de quem se dedica a manter viva a alma de um povo.

Porque enquanto houver um mestre que se lembre, uma bandeira que se erga, e uma estrela que guie, a tradição jamais conhecerá a escuridão.