quinta-feira, 25 de junho de 2026

"Trabalhadores do mundo: pensem muito antes votar", por Yelmo Papa


Não sei se sorrio ou choro com o artigo acima. É claro que qualquer coisa imposta (por uma ditadura) não é boa, o debate deve ser livre. Só que no capitalismo tupiniquim só há um lado beneficiado na chamada "livre negociação": o dos patrões. Empregados por aqui têm o direito de aceitar calados ou cumprir o velho ditado de que "a porta da rua é serventia da casa", com poucas exceções. O Congresso Nacional é uma casa do povo (ou deveria ser). O cidadão ainda tem a "arma" mais poderosa em suas mãos, que só as democracia permitem usar: O VOTO. 

Os dignos professor e juiz, autores do artigo, com certeza têm muito mais conhecimento do que esse desconhecido jornalista que vos escreve, mas eu tenho uma receita simples para jamais o trabalhador virar refém dos interesses dos poderosos: leiam, informem-se e jamais se dirijam às urnas achando que só os cargos executivos (presidente, governador e prefeito) são importantes. Não joguem seu voto para a Câmara, o Senado e a Assembleia Legislativa fora; não votem no(a) cidadão(ã) só porque mora no seu bairro, na sua cidade, frequenta a sua igreja, torce pelo seu time ou é bonito(a). 

Conheça as ideias das pessoas que pretendem ocupar uma cadeira nas casas legislativas, se têm projetos ou apenas querem lacrar nas redes sociais, odiar adversários, espalhar fake news ou beneficiar parentes e amigos. Não sei se criei esta frase, por isso a escrevo entre aspas: "Não faça na urna aquilo que você faz no banheiro. O botão verdinho (CONFIRMA) não é o da descarga". 

Um abraço.

A Casa do Artesão ARTEBOM em Bom Jesus do Norte

 


À beira da ponte que une dois destinos, Bom Jesus do Norte e Bom Jesus do Itabapoana, existe um lugar onde o tempo ganhou novas cores. Onde antes funcionava o antigo posto fiscal do Estado do Espírito Santo, hoje florescem linhas, agulhas e sonhos tecidos pelas mãos de artesãs que transformam matéria simples em arte.

Ali trabalha Maria Adélia Pereira Barreto Vaillant, conhecida carinhosamente como Gelza. Filha de Gerson Barreto e Vivaldina Pereira da Silva, ela carrega na história até uma curiosidade de nascimento: o pai queria que se chamasse Geiza, mas a mãe preferiu outro caminho. Como os fios que escolhem novos desenhos, a vida também teceu sua própria trama.

Nascida em Bom Jesus do Itabapoana e radicada em Bom Jesus do Norte, Gelza encontrou no artesanato mais que um ofício. Há mais de trinta anos dedica suas mãos ao crochê e ao tricô. Aprendeu pontos e segredos no Rio de Janeiro, mas foi no interior que transformou o aprendizado em paixão permanente.

E paixão, para ela, não conhece descanso. Quem a observa percebe: está sempre criando. A cada hora surge uma nova peça, uma nova flor, uma nova ideia. As mãos parecem conversar com as linhas, transformando novelos em beleza.

Entre suas realizações mais marcantes está a confecção de 500 flores para a Feira dos Municípios em Carapina, neste ano, trabalho que levou junto o orgulho de sua terra e o hino de Bom Jesus, como se cada pétala carregasse um pouco da identidade de seu povo.

Há cinco anos, Gelza e outras quatro artesãs ocupam o espaço cedido pelo Governo do Estado no antigo posto fiscal. O contrato garantiu vida nova ao prédio, que deixou de fiscalizar mercadorias para acolher criatividade, cultura e tradição.

A associação é presidida por Lucinete Proveti e reúne mulheres que compartilham talento e perseverança: Juliana Amâncio, Maria do Carmo, Eliana, Maria das Graças Carvalho e Gelza. Em sistema de revezamento, elas atendem visitantes e mantêm as portas abertas para quem chega em busca de lembranças, presentes ou simplesmente de uma boa conversa.

As vendas seguem seu curso, às vezes mais tranquilas, às vezes mais animadas. Mas elas já aprenderam um segredo que o artesanato ensina todos os dias: quando saem para feiras e eventos, encontram novos olhares e novas oportunidades. E, acima de tudo, aprenderam a não desistir.

Porque cada peça exposta ali conta uma história. Cada ponto de crochê guarda paciência. Cada flor revela cuidado. E cada artesã sabe que, assim como uma ponte liga margens diferentes, o artesanato também une passado e futuro, tradição e esperança.

Na beira da ponte, onde antes havia barreiras e fiscalização, hoje há acolhimento. E no meio de fios, flores e mãos dedicadas, segue sendo tecida a mais bonita das obras: a valorização da cultura de Bom Jesus do Norte.























quarta-feira, 24 de junho de 2026

Apiacá: Um Mar de Histórias na CAES (Casa dos Açores do Espírito Santo)

 



Apiacá (ES) - No extremo sul do Espírito Santo, onde as montanhas se encontram com as águas do Itabapoana e a divisa com o Rio de Janeiro se desenha no horizonte, uma cidade de pouco mais de 7.500 habitantes viveu uma noite que ultrapassou os limites de uma simples celebração. No dia 23 de junho, Apiacá transformou-se em porto de chegada para memórias centenárias, reafirmando sua vocação como guardiã da herança açoriana no interior capixaba.

Foi uma noite de cultura, amizade, boa música e identidade. Mas houve algo além da programação oficial. Pairava sobre a cidade uma sensação de pertencimento renovado, como se uma delicada névoa vinda das Ilhas dos Açores envolvesse ruas, vozes e lembranças. Era a bruma simbólica da Açorianidade, presente na música do açoriano Francisco Borba Gonçalves, no trabalho da Casa dos Açores do Espírito Santo (CAES) e no entusiasmo daqueles que compreendem a cultura como elo permanente entre gerações.

Há mistérios que atravessam oceanos sem jamais perder a direção. Quando os primeiros açorianos chegaram ao Espírito Santo, trouxeram consigo muito mais do que pertences. Vieram carregados de saudade, fé, tradições e histórias que resistiram ao tempo. Séculos depois, o vínculo entre as ilhas atlânticas e o solo capixaba continua vivo, sustentado pela força silenciosa da memória coletiva.

Neste contexto, a celebração do Dia do Imigrante Açoriano ganhou um significado especial. Apiacá não apenas comemorou uma data. Celebrou uma conquista histórica. A instituição da data no calendário oficial do município, por meio da Lei Municipal nº 1.242, de 10 de dezembro de 2025, consolidou o reconhecimento da contribuição açoriana para a formação cultural, social e espiritual da região.

De autoria da vereadora Rubia Rezende de Figueiredo, a legislação estabelece o dia 18 de junho como o Dia Municipal do Imigrante Açoriano. A data remete à passagem do Padre Antônio Francisco de Mello, natural da Ilha de São Miguel, por Apiacá em 1899, episódio que fortaleceu os laços históricos entre os Açores e o Vale do Itabapoana. A lei também prevê ações educativas, culturais e históricas destinadas à valorização da presença açoriana no município e ao fortalecimento das relações entre Apiacá, a Casa dos Açores do Espírito Santo e comunidades açorianas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo.

Às 19h30, a sede da Casa dos Açores abriu suas portas para um reencontro de tempos e afetos. O Coral Vozes do Tempo, do CRAS de Apiacá, emocionou o público ao reunir diferentes gerações em torno da música. As vozes experientes e sensíveis demonstraram que a memória não envelhece quando encontra abrigo na arte.

Um dos momentos mais marcantes da programação foi protagonizado por Francisco Borba Gonçalves. Com o violão nos braços, o músico transformou o salão em oceano. Cada acorde parecia desenhar no ar as paisagens das chamadas Ilhas de Bruma. As distâncias desapareceram. Apiacá tornou-se mar. Os Açores tornaram-se presença. E a música fez aquilo que somente a arte é capaz de realizar: aproximou geografias separadas por milhares de quilômetros e uniu corações em uma mesma emoção.

Sob a liderança do presidente da CAES, Dr. Nino Moreira Seródio, e com o empenho da professora Maria Cristina Borges, a instituição reafirmou seu papel como referência da cultura açoriana no Espírito Santo. Fundada em Apiacá e inaugurada em 25 de julho de 2022, durante as comemorações dos 210 anos da imigração açoriana para o Espírito Santo e dos 180 anos do povoamento açoriano do Vale do Itabapoana, a Casa dos Açores tornou-se um marco cultural para toda a região.

O reconhecimento da importância desse trabalho ultrapassou fronteiras. Em mensagem oficial enviada dos Açores, o Diretor Regional das Comunidades, Dr. José Andrade, destacou a relevância da iniciativa do município e manifestou a satisfação da Região Autónoma dos Açores diante da criação do Dia Municipal do Imigrante Açoriano.

"Estamos longe na geografia e na história, mas ficamos perto no pensamento e no coração", escreveu o representante do Governo dos Açores, sintetizando em uma frase o sentimento que dominou a celebração.

Ao final da noite, ficou a certeza de que Apiacá avançou mais um passo na afirmação de sua identidade açoriana. Entre canções, discursos, reencontros e lembranças, a cidade viveu uma experiência de memória coletiva. Mais do que um evento cultural, foi a confirmação de que a herança dos antigos navegadores continua encontrando porto seguro às margens do Itabapoana.

E assim, na Casa dos Açores do Espírito Santo, um mar de histórias voltou a ser contado. Histórias que vieram do outro lado do Atlântico, atravessaram séculos e permanecem vivas porque encontraram morada permanente no coração de um povo.