O Tempo Guardará Esses Nomes
Quando a última página da IV FLICBonjê foi simbolicamente virada, não se encerrou apenas uma programação literária: inscreveu-se, para sempre, mais um capítulo na memória cultural de Bom Jesus do Itabapoana. O tempo, juiz sereno dos grandes acontecimentos, haverá de recordar a dedicação de Alessandra Abreu, cuja liderança inspiradora encontrou sólido amparo na sensibilidade e no incansável trabalho de Anizia Maria Pimentel e Maria Clara Visotto. Unidas pelo mesmo ideal, essas três mulheres fizeram da literatura um gesto de amor e da cultura um exercício permanente de fraternidade. Como três estrelas de uma mesma constelação, irradiaram luz sobre a cidade, reunindo escritores, artistas, crianças, jovens e famílias em torno do poder transformador da palavra. Graças ao seu idealismo, Bom Jesus reafirmou sua vocação humanista, fortaleceu sua identidade cultural e lançou, no fértil solo de sua história, as sementes de uma geração mais leitora, mais sensível e mais consciente de que os livros, a arte e a memória são patrimônios capazes de engrandecer um povo e perpetuar sua mais nobre herança.
Os Comendadores que a História Consagrou
Jamais, nos anais da cultura bonjesuense, tantos símbolos de reconhecimento estiveram reunidos em uma única solenidade. Pela primeira vez, dez personalidades de Bom Jesus do Itabapoana foram agraciadas simultaneamente com o título de Comendador e Comendadora conferido pela ACLAPTCTC - Academia Capixaba de Letras e Artes de Poetas Trovadores, transformando a histórica Praça Governador Portela em um verdadeiro templo da inteligência, da sensibilidade, da arte e da gratidão. A honraria distinguiu Adalto Boechat Jr., Luan Veiga de Oliveira Silvano, Ademir Francisco de Souza, Jandira Xavier Moreira, Matheus Brazil Castro Silva Rego, Dr. Gino Martins Borges Bastos, Maria Clara Fonseca Visotto, Beatriz de Fátima Magalhães Dias, Rogério Loureiro Xavier e Carolina Xavier Mirandola, cujas trajetórias passam, a partir desse momento, a integrar, com ainda maior brilho, o patrimônio humano e cultural de Bom Jesus do Itabapoana.
Ali, música, literatura e reconhecimento caminharam de mãos dadas.
O Retorno Triunfal da Sociedade Musical da Usina Santa Maria
A Música chegou conduzida pela tradicional e respeitadíssima Sociedade Musical da Usina Santa Maria, um dos mais preciosos patrimônios culturais de Bom Jesus do Itabapoana, magistralmente regida pelo Maestro Alessandro Azevedo, acompanhado do presidente da Associação de Moradores da Usina Santa Maria, Paulo Vitorino, e do presidente do Teatro Cinema Conchita de Moraes, Jorge Roberto de Almeida. Os instrumentos pareciam conversar com o vento, enquanto cada acorde fazia da praça uma imensa catedral sonora. Foi a primeira vez que a agremiação se apresentou na praça Governador Portela após décadas de inatividade.
O Encontro de Academias e Escritores: o Triunfo da Literatura
A Palavra se fortaleceu no Encontro de Academias e Escritores, reunindo intelectuais, poetas, cronistas e memorialistas de diversas cidades. As vozes eram muitas, mas a mensagem era uma só: a literatura continua sendo um dos mais nobres caminhos para a construção da cidadania, da memória e da esperança.
A Honra manifestou-se na solene entrega das Comendas. Mais do que medalhas, elas simbolizaram vidas dedicadas à cultura, ao conhecimento e ao serviço da sociedade, convertendo o reconhecimento público em verdadeira celebração da inteligência humana.
A IV FLICBonjê transformou-se num extraordinário encontro de talentos. Coube ao cerimonialista Fábio Silva, elegante e seguro como de costume, conduzir a solenidade com leveza e distinção.
Entre os convidados, destacaram-se Cristiana Ana Lima, premiada escritora da ACLAPTCTC e autora de diversas obras; Isabel Menezes, historiadora, professora e escritora de Varre-Sai, com dezessete livros publicados; Sol Figueiredo (Solange da Silva Figueiredo), poeta, artista plástica, ativista cultural e presidente da Academia de Letras do Brasil, de Campos dos Goytacazes, cuja atuação no Canal Sororidade e no movimento Mulheres Maravilhosas faz ecoar, em todo o país, a potência da voz feminina; e a Dra. Nísia Campos, do Instituto de Letras e Artes Dr. José Ronaldo do Canto Cyrillo (ILA), de Bom Jesus do Itabapoana, verdadeiro baluarte da cultura bonjesuense.
A literatura e a educação ganharam destaque com as trajetórias de Jandira Xavier Moreira, Adalto Boechat Jr. e Maria Clara Visotto. Jandira, educadora, pesquisadora e escritora de projeção internacional, une inovação pedagógica, preservação ambiental e valorização da memória cultural em sua obra e projetos, com destaque para o livro Uma Professora no Amazonas - O Rio Voador e a metodologia Phonobridge. Adalto Boechat Jr., cronista e pesquisador da memória histórica de Pirapetinga, transforma histórias, personagens e tradições locais em registros literários que preservam a identidade de sua terra, seguindo a inspiração de seu mestre Norberto Boechat. Já Maria Clara estreou na literatura com Vozes de Maria (Editora Litteralux), obra marcada pela poesia, pela reflexão social e pelo universo feminino, na qual transforma experiências e sentimentos em palavras de coragem, autoconhecimento e libertação.
Entre os ilustres participantes, destacaram-se Beatriz Magalhães, presidente da ABIJAL - Academia Bonjesuense Infantojuvenil de Artes e Letras e premiada trovadora, símbolo do incentivo à nova geração literária; o jovem poeta Matheus Brazil Castro Silva Rego, também da ABIJAL, cuja sensibilidade e talento representam a renovação da poesia bonjesuense; e Aldiney Sá, vice-presidente da Academia de Letras do Brasil, que emocionou o público com uma inspirada declamação poética, transformando seus versos em momentos de beleza e encantamento.
Um dos momentos mais comoventes da tarde pertenceu novamente à Dra. Nísia Campos: sua interpretação do imortal poema Desiderata silenciou a praça. Enquanto sua voz percorria os versos de Max Ehrmann, parecia lembrar a todos que, mesmo entre as inquietações do mundo, a serenidade continua sendo um ato de coragem e que, apesar das sombras do tempo, "este ainda é um mundo belo".
ACLAPTCTC: Cristiana Ana Lima e Isabel Menezes, duas mulheres para a eternidade da cultura
Quando, no futuro, os memorialistas percorrerem as páginas dedicadas à história cultural de Bom Jesus do Itabapoana, encontrarão, entre os acontecimentos que dignificaram o nosso tempo, a presença luminosa da ACLAPTCTC - Academia Capixaba de Letras e Artes de Poetas Trovadores. Sob a liderança firme, idealista e visionária de Clério José Borges, a Academia ultrapassou fronteiras geográficas para construir pontes de amizade, literatura e fraternidade entre os povos, deixando marcas que o tempo não apagará.
Nesse capítulo de realizações permanecerão gravados, com igual destaque, suas representantes, os nomes de Cristiana Ana Lima, de Vitória, e Isabel Menezes, de Varre-Sai. Mulheres que sabem que a cultura não se ergue apenas nos palcos ou sob os aplausos, mas, sobretudo, no trabalho discreto de quem dedica horas, inteligência e coração para que os sonhos coletivos se tornem realidade.
Movidas por um amor genuíno aos livros, às letras e à promoção da arte, ambas fizeram da dedicação um sacerdócio silencioso. Nos bastidores da FLICBonjê e da FLICPir, onde poucos percebem o esforço de muitos, semearam entusiasmo, cultivaram amizades, venceram obstáculos e ajudaram a transformar duas feiras literárias em patrimônios afetivos da comunidade.
A história ensina que os grandes feitos nunca pertencem a uma única pessoa. Eles crescem pela soma de mãos generosas, de inteligências comprometidas e de corações idealistas. É por isso que a ACLAPTCTC, através de Cristiana Ana Lima e Isabel Menezes já não ocupa apenas um lugar na lembrança dos que viveram esses dias memoráveis; conquistou um espaço definitivo na memória cultural de Bom Jesus do Itabapoana. Elas permanecerão como testemunho de que a verdadeira grandeza nasce da generosidade, da perseverança e da convicção de que a literatura continua sendo uma das mais belas formas de eternizar o espírito humano.
A Magia e a Arte na Tenda da Tati: O Brilho Criativo da IV FLICBonjê
Sob a lona azul que filtra a luz solar e protege os tesouros de uma artesã, a Tenda da Tati, plantada como um oásis criativo na praça Governador Portela durante a IV FLICBonjê, foi um convite a um mundo tátil e palpitante. Isac Nascimento coordenou as peças de decoração roxas, como flores místicas desabrochando em superfícies planas, que misturaram-se com o ciano brilhante de suportes e o carmesim ardente das chamas esculpidas ao centro. Ao lado, um carrossel giratório de chaveiros pareceu dançar em miniatura, uma profusão de cores como um caleidoscópio de bolso, cada um deles um segredo esperando ser revelado em anéis de metal. Sob os olhares acolhedores e orgulhosos de Tati e Isac, a Tenda não foi apenas um ponto de venda, mas um pequeno universo que enriqueceu a feira literária de Bom Jesus.
A Memória que Permanece
A IV FLICBonjê também encontrou, na gratidão, um dos mais belos capítulos de sua história. Um elegante banner reverenciou o inesquecível Elcio Xavier, para sempre consagrado como o Príncipe dos Poetas, ao lado de seu filho, Rogério Loureiro Xavier, cuja sensível produção literária e musical mantém acesa a chama do amor por Bom Jesus do Itabapoana, perpetuando um legado de beleza, sensibilidade e devoção à terra natal.
A Editora O Norte Fluminense brindou o público com uma cuidadosa mostra de obras que preservam parte expressiva da memória histórica, literária e cultural do Vale do Itabapoana. Mais do que uma exposição de livros, apresentou um testemunho vivo do compromisso que, há décadas, o tradicional jornal mantém com a preservação da identidade bonjesuense e com a valorização de seus escritores, artistas e memorialistas. A presença da Editora Revidreams, de Vitória, ampliou ainda mais os horizontes da feira, estreitando os laços de fraternidade entre as culturas capixaba e fluminense e reafirmando que a literatura desconhece fronteiras.
Entre os momentos de maior significado esteve a apresentação da obra Vozes de Maria, da escritora bonjesuense Maria Clara Visotto, expressão da vitalidade da literatura produzida em Bom Jesus do Itabapoana e da crescente presença feminina na construção do patrimônio intelectual da região. Igualmente indispensável foi o apoio da Prefeitura Municipal, por intermédio das Secretarias de Cultura e Turismo, Educação e Saúde, cuja parceria tornou possível a realização de um evento que já se incorpora ao calendário afetivo e cultural do município.
O Livro Que o Tempo Não Apagará: a Feira se Tornou Eternidade
Quando as luzes da Praça Governador Portela se apagaram e os últimos acordes da festa literária se dissolveram na suavidade da noite, e constatou-se que nada, verdadeiramente, havia terminado. Permaneceram as vozes dos escritores, os risos das crianças encantadas pelos livros, os abraços entre velhos e novos amigos, as páginas autografadas, os versos declamados e a silenciosa emoção daqueles que testemunharam a força transformadora da cultura.
A IV FLICBonjê ultrapassou os limites de uma feira literária. Converteu-se em um marco da história cultural de Bom Jesus do Itabapoana, reafirmando sua vocação de terra de escritores, poetas, educadores e sonhadores. O tempo, que tudo depura e eterniza, haverá de guardar esta edição entre os acontecimentos que dignificaram a vida intelectual do município.
E aqueles que tiveram o privilégio de vivê-la perceberam que uma cidade se torna verdadeiramente grande não apenas pelas obras que ergue em pedra, mas, sobretudo, pelos livros que inspira, pelas memórias que preserva, pelos talentos que acolhe e pelas gerações que educa. Assim, a IV FLICBonjê encerrou-se apenas no calendário. Na alma de Bom Jesus do Itabapoana, ela continuará aberta como um livro precioso, cujas páginas o tempo jamais ousará fechar.
DESIDERATA
(escrito por Max Ehrmann em 1927)
Siga tranquilamente entre a pressa e a inquietude, lembrando-se de que há sempre paz no silêncio.
Tanto quanto possível, sem se humilhar, mantenha boas relações com todas as pessoas. Fale a sua verdade mansa e claramente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes, pois eles também têm sua própria história.
Evite as pessoas escandalosas e agressivas. Elas afligem o nosso espírito.
Se você se comparar com os outros, tornar-se-á presunçoso e magoado, pois haverá sempre alguém superior e alguém inferior a você.
Aproveite as suas realizações e os seus planos. Mantenha-se interessado em sua própria carreira, por mais humilde que seja; ela é um bem real na fortuna cambiante do tempo.
Tenha cautela nos negócios, pois o mundo está cheio de astúcia, mas não se torne um cético, porque a virtude sempre existirá. Muita gente luta por altos ideais e em toda a parte a vida está cheia de heroísmo.
Seja você mesmo, principalmente. Não simule afeição. Nem seja cínico em relação ao amor, porque, diante de tanta aridez e tanto desencanto, ele é tão perene quanto a relva.
Aceite com carinho o conselho dos anos, abandonando com dignidade as coisas da juventude.
Norteie a força do espírito para protegê-lo em caso de súbita desgraça. Mas não se angustie com imaginações sombrias. Muitos temores nascem do cansaço e da solidão.
Além de uma disciplina salutar, seja gentil para consigo mesmo.
Você é filho do Universo, irmão das estrelas e das árvores; você tem o direito de estar aqui. E, seja-lhe claro ou não, o Universo certamente desdobra-se como deve.
Portanto, esteja em paz com Deus, qualquer que seja a ideia que você tenha d'Ele. E quaisquer que sejam os seus trabalhos e aspirações, na fatigante confusão da vida, mantenha a paz com a sua alma.
Com toda a sua falsidade, fadigas e sonhos desfeitos, este ainda é um mundo belo.
Seja prudente. Faça tudo para ser feliz.