Pensar antes de ter certeza
Sócrates teve sorte de viver no século V antes de Cristo.
Se tivesse nascido em nosso tempo, provavelmente já teria sido bloqueado por metade dos amigos, expulso de alguns grupos de WhatsApp e acusado de ser inconveniente por fazer perguntas justamente quando todos estavam confortavelmente instalados em suas certezas.
Sócrates possuía um defeito gravíssimo para os padrões contemporâneos:
perguntava demais.
E pior: perguntava exatamente aquilo que ninguém queria responder.
Imagine a cena.
Alguém escreve:
- Isso é um absurdo! Todo mundo sabe!
Sócrates aparece:
- Quem é todo mundo?
Silêncio.
- Bem... todo mundo!
- Você perguntou a todos?
- Claro que não!
- Então como sabe que todos sabem?
Pronto.
Bloqueado.
O problema de Sócrates nunca foi possuir respostas demais. Era justamente o contrário. Enquanto muita gente caminhava por Atenas carregando toneladas de certezas, ele circulava com uma humilde pergunta debaixo do braço.
Era a famosa ironia socrática.
Diante daquele que se apresentava como proprietário da verdade, Sócrates fazia-se de aprendiz:
- Que maravilha! Então você sabe o que é justiça? Ensine-me.
O sujeito estufava o peito.
Explicava.
Sócrates perguntava.
Ele respondia.
Sócrates perguntava novamente.
Ele começava a gaguejar.
Mais uma pergunta.
E, depois de algum tempo, aquela verdade absoluta que chegara montada num cavalo terminava procurando discretamente um táxi para voltar para casa.
Era uma tragédia para os vaidosos.
Sócrates possuía o inconveniente hábito de obrigar as pessoas a pensar antes de continuar falando.
Hoje seria considerado radical demais.
Desenvolvemos métodos muito mais modernos de discussão.
Quando alguém discorda de nós, não perguntamos:
- Por que você pensa assim?
Perguntamos:
- De que lado você está?
É muito mais eficiente.
Depois colocamos uma etiqueta no adversário, escolhemos uma gaveta ideológica, fechamos a gaveta e pronto: economizamos o terrível trabalho de pensar.
Sócrates certamente estragaria tudo.
Perguntaria:
- Mas o argumento dele é verdadeiro ou falso?
- Não importa, Sócrates! Veja quem falou!
- Mas quem falou altera a verdade daquilo que foi dito?
Pronto.
Expulso do grupo outra vez.
Depois da ironia vinha a maiêutica, palavra relacionada ao ofício das parteiras.
A mãe de Sócrates era parteira. Ajudava mulheres a dar à luz crianças.
Sócrates resolveu dedicar-se a parto mais complicado:
fazer certas pessoas darem à luz uma ideia.
Convenhamos: algumas gestações intelectuais podem durar décadas.
O filósofo não colocava o conhecimento dentro da cabeça do interlocutor. Fazia perguntas para que ele próprio descobrisse as contradições de seu pensamento e construísse uma compreensão mais consistente.
Era uma espécie de obstetrícia filosófica.
Primeiro vinham as contrações:
- Tem certeza?
Depois aumentavam:
- Como você sabe?
Começava o sofrimento:
- Qual é a prova?
E finalmente chegava a pergunta quase insuportável:
- E se você estiver errado?
Nesse momento, muitos prefeririam cancelar o parto.
Admitir que podemos estar errados tornou-se uma das experiências mais dolorosas da civilização contemporânea.
Estamos vivendo a extraordinária época dos especialistas universais.
Há especialistas em política internacional que nunca abriram um livro de relações internacionais.
Especialistas em economia que confundem inflação com aumento de preço no supermercado.
Especialistas em direito que concedem habeas corpus no grupo da família.
Especialistas em história que aprenderam o século XX num vídeo de quarenta segundos.
E todos absolutamente seguros.
Sócrates, coitado, dizia:
- Só sei que nada sei.
Hoje perderia imediatamente para alguém que declarasse:
- Eu sei tudo. Vi ontem na internet.
Por isso a filosofia socrática permanece tão necessária.
A ironia derruba a arrogância.
A maiêutica reconstrói o pensamento.
Uma destrói a falsa certeza; a outra ajuda a nascer uma compreensão.
Sócrates descobriu que, antes de ensinar alguma coisa a alguém, às vezes é necessário libertá-lo daquilo que ele acredita já saber.
E aí está sua atualidade.
Se aparecesse hoje entre nós, provavelmente não escreveria longos discursos.
Sentaria calmamente diante das nossas certezas políticas, religiosas, morais e ideológicas.
Esperaria terminarmos aquela exposição maravilhosa em que demonstramos, com absoluta segurança, que estamos certos e todos os outros são idiotas.
Então sorriria.
E perguntaria:
- Como você chegou a essa conclusão?
Explicaríamos.
Ele faria outra pergunta.
Responderíamos um pouco menos confiantes.
Viria a terceira.
Começaríamos a consultar o celular.
Na quarta, talvez mudássemos de assunto.
Na quinta, atacaríamos Sócrates pessoalmente.
Na sexta, bloquearíamos o filósofo.
E sairíamos satisfeitos.
Afinal, preservaríamos intacta a nossa certeza.
E Sócrates continuaria caminhando tranquilamente por Atenas, ou pelas redes sociais, procurando alguém disposto a cometer uma das maiores ousadias intelectuais de todos os tempos:
pensar antes de ter certeza.