terça-feira, 14 de julho de 2026

Iniciativa "Rosal Sustentável" Propõe Agenda Comum para a Resiliência Hídrica na Bacia do Rio Itabapoana

 

Maria Aparecida Vargas e Eduardo de Araújo Rodrigues


ROSAL - Em meio aos crescentes desafios impostos pelas mudanças climáticas e à necessidade urgente de conservar os mananciais, o Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (CEIVAP) e a Agência de Bacia do Rio Paraíba do Sul (AGEVAP) apresentaram o projeto "Rosal Sustentável" durante a programação comemorativa dos 104 anos da Lira 14 de Julho, no distrito de Rosal.

A palestra principal foi ministrada por Maria Aparecida Vargas, diretora do CEIVAP - Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul - e membro do Conselho Nacional de Recursos Hídricos. Também participou Eduardo de Araújo Rodrigues, coordenador do Grupo de Trabalho de Educação Ambiental do CEIVAP e gerente regional de Outorgas do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM), que apresentou as ações e os grupos de trabalho desenvolvidos pelo Comitê.

A iniciativa tem como eixo central o fortalecimento da resiliência hídrica, promovendo a integração entre a gestão dos recursos hídricos e a geração de energia na Bacia do Rio Itabapoana, localizada na divisa entre os estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

Uma bacia estratégica sob pressão climática

A Bacia do Rio Itabapoana desempenha papel essencial no abastecimento público, na agricultura, na conservação ambiental e no desenvolvimento regional de diversos municípios. Entretanto, enfrenta desafios cada vez mais complexos, como a preservação das nascentes, a garantia da segurança hídrica e a crescente vulnerabilidade aos eventos climáticos extremos.

Nesse contexto, a Usina Hidrelétrica (UHE) Rosal assume importância que vai além da produção de energia. Operada pela CEMIG desde 1999, a usina possui potência instalada de 55 MW e um reservatório com capacidade de 14,5 hm³, abrangendo uma área de 277 hectares. No mesmo curso d'água também operam a PCH Calheiros (19 MW), a PCH Pirapetinga (20 MW) e a AHE Franca Amaral (4,5 MW).

O projeto "Rosal Sustentável" defende que a operação da UHE Rosal esteja em sintonia com os múltiplos usos da água. Conforme destaca o documento-base da iniciativa, "cuidar da água é cuidar do território", reforçando que uma gestão integrada do reservatório é fundamental para reduzir riscos e assegurar a sustentabilidade ambiental e operacional de toda a região.

Investimentos que retornam para a bacia

O modelo de gestão adotado pelo CEIVAP prevê que os recursos arrecadados com a cobrança pelo uso da água sejam reinvestidos diretamente na própria bacia hidrográfica, financiando programas estruturantes como:

PROTRATAR – voltado ao saneamento e à melhoria da qualidade da água;

Programa Mananciais – destinado à recuperação e proteção de nascentes;

Monitoramento Hidrológico – para acompanhamento contínuo dos recursos hídricos e apoio à tomada de decisões;

Plano e Programa de Educação Ambiental (PPEA-CEIVAP) – responsável por ações de conscientização e mobilização social.

Na área de educação ambiental, o PPEA reúne atualmente sete projetos e 29 ações, entre elas a elaboração de um Atlas Hidrográfico Educativo, o Podcast CEIVAP, cursos de educação a distância (EAD) e o projeto Guardiões da Paraíba do Sul.

Compensação financeira e adaptação climática

Outro tema de destaque foi a utilização da Compensação Financeira pela Utilização de Recursos Hídricos (CFURH). Em 2025, os repasses totalizaram R$ 273.757,98.

A proposta é direcionar esses recursos para ações que ampliem a resiliência ambiental dos municípios da bacia, priorizando:

restauração florestal e reflorestamento de encostas;

proteção de nascentes e matas ciliares;

implantação de sistemas de drenagem urbana sustentável;

monitoramento permanente da qualidade e da disponibilidade da água;

medidas locais de adaptação às mudanças climáticas.

Construindo um futuro compartilhado

O projeto "Rosal Sustentável" propõe a construção de uma agenda permanente de cooperação entre prefeituras, sociedade civil, comitês de bacias hidrográficas e a administração da UHE Rosal.

A iniciativa parte da compreensão de que água, energia e natureza formam um único sistema interdependente. Ao fortalecer as parcerias institucionais e ampliar as ações de conservação ambiental, o projeto busca preparar a Bacia do Rio Itabapoana para enfrentar os desafios das mudanças climáticas, assegurando a segurança hídrica, a proteção dos ecossistemas e um desenvolvimento regional sustentável para as futuras gerações.


André Almeida, da Lira 14 de Julho, entregou troféu aos palestrantes 

*

 

"104 anos de sonhos", por João Caetano Vargas

 


Ainda era madrugada.

O silêncio de Rosal parecia dormir mais um pouco quando, ao longe, surgiam os primeiros acordes da alvorada. Havia quem apenas mudasse de lado na cama para aproveitar mais alguns minutos de sono. Mas havia também um menino que fazia sempre a mesma coisa.

Levantava num salto.

Corria até a janela.

E esperava.

Primeiro vinha o som. Depois, aos poucos, surgiam as silhuetas dos músicos iluminadas pelas luzes amareladas dos postes e pela luz do Cruzeiro, no alto do morro, que parecia velar as noites e madrugadas da vila. Logo apareciam os instrumentos refletindo aquela claridade tímida, o uniforme azul rompendo a escuridão e o brasão azul e amarelo que, para aquele menino, brilhava como se anunciasse que aquele seria um dia diferente.

Ele assistia por poucos segundos.

Não resistia.

Saía correndo de casa e seguia atrás da banda pelas ruas de Rosal.

Talvez nem soubesse explicar o motivo.

Apenas caminhava atrás daquele som que parecia conhecer o caminho de todas as ruas, de todas as casas e de todos os corações.

Enquanto a banda seguia seu percurso, ele imaginava como seria estar ali. Sonhava que um dia também vestiria aquele uniforme azul, carregaria um instrumento e faria parte daquela música que acordava a vila antes mesmo do nascer do sol.

E esse nunca foi um sonho impossível.

Durante cento e quatro anos, esse sonho continuou vivo porque muitas mãos decidiram sustentá-lo.

A Lira 14 de Julho não atravessou mais de um século apenas por causa dos dobrados que executou ou das festas que abrilhantou. Ela chegou até aqui porque incontáveis pessoas ofereceram um pouco de si para que a música nunca deixasse de ecoar por Rosal.

Alguns hoje se chamam saudade.

Foram músicos, maestros, presidentes, professores, colaboradores, apoiadores e tantos outros que dedicaram parte de suas vidas à banda e hoje permanecem apenas nas lembranças, nas fotografias e, principalmente, nas notas que ainda parecem ressoar pela memória da vila.

A todos eles, nossa eterna gratidão.

Há também aqueles que seguem firmes nessa caminhada. Pessoas que carregam consigo décadas de história e continuam oferecendo tempo, dedicação e amor para que a Lira permaneça viva, como quem entende que preservar uma banda é também preservar a identidade de um povo.

E há os que estão chegando agora.

É bonito ver tantas crianças e jovens descobrindo a música em um tempo em que quase tudo parece efêmero. Num mundo onde as telas disputam cada minuto de atenção, elas escolhem aprender um instrumento, dedicar horas aos ensaios, descobrir o sabor da arte, da convivência e do comprometimento.

Talvez o mais bonito seja saber que essas aulas acontecem por pura generosidade.

Sem qualquer contrapartida.

São pessoas que doam gratuitamente seu tempo, seu conhecimento e sua experiência simplesmente porque amam a Lira e acreditam que a música merece continuar encontrando novos corações.

Esse talvez seja um dos sons mais bonitos produzidos pela banda: o som da solidariedade.

Quem viveu as antigas festas de Rosal também guarda outra lembrança inesquecível.

O Baile da Saudade atravessava a madrugada.

Quando o relógio já se aproximava das cinco da manhã, a festa parecia caminhar para o fim. Mas era justamente ali que um novo espetáculo começava.

Ao longe, surgiam novamente os primeiros acordes.

A Lira chegava em alvorada até a porta do baile.

As portas se abriam.

E quem havia passado a noite inteira dançando esquecia o cansaço. Em vez de ir para casa, seguia atrás da banda pelas ruas da vila, como se todos voltassem a ser crianças outra vez.

O destino era sempre o mesmo.

A padaria.

Ali, entre o cheiro do café recém-passado e do pão saindo do forno, a madrugada se despedia enquanto o sol começava a iluminar Rosal. Conversas, risos e abraços encerravam mais uma noite que jamais seria esquecida.

Talvez seja justamente isso que explique os cento e quatro anos da Lira 14 de Julho.

Ela nunca foi apenas uma banda de música.

Sempre foi um encontro.

Um abraço coletivo.

Uma memória compartilhada.

Um patrimônio construído por rosalenses presentes e ausentes, por aqueles que permanecem na vila e por aqueles que partiram, mas jamais deixaram Rosal partir de dentro deles. Todos, de alguma forma, continuam ajudando a manter vivo esse sonho.

E aquele menino da janela?

Talvez ele ainda exista.

Talvez more em alguma casa da vila e, sempre que a alvorada romper o silêncio da madrugada, corra novamente para ver a banda passar.

Ou talvez ele já tenha crescido, vestido o uniforme azul que tanto admirava e descoberto que caminhar dentro da Lira era ainda mais bonito do que sonhar com ela.

Porque algumas coisas mudam com o tempo.

As ruas mudam.

As casas mudam.

As gerações se renovam.

Mas há sons que permanecem.

Há cento e quatro anos, a alvorada da Lira 14 de Julho não desperta apenas Rosal.

Ela desperta sonhos.

E enquanto houver uma criança correndo para a janela ao ouvir os primeiros acordes, enquanto houver alguém disposto a ensinar, alguém disposto a aprender e uma comunidade inteira disposta a proteger esse patrimônio, a Lira jamais será apenas uma banda centenária.

Será, para sempre, a mais bela trilha sonora da história de Rosal.

Vila Velha - 14/07/2026




segunda-feira, 13 de julho de 2026

Varre-Sai amplia celebração da imigração e transforma desfile em homenagem às etnias formadoras do município

 


Varre-Sai (RJ) – O tradicional Desfile das Famílias Italianas de Varre-Sai ganha, em 2026, uma dimensão ainda mais abrangente. A festa passa a homenagear também os demais povos que participaram da formação histórica do município: indígenas, negros, portugueses e libaneses.

O anúncio foi feito pela chefe do Departamento de Cultura, Margareth Vargas, que convida todas as famílias descendentes dessas etnias a integrarem o cortejo, transformando o evento em uma verdadeira celebração da diversidade cultural que caracteriza Varre-Sai.

A proposta abre espaço para um encontro simbólico entre diferentes tradições. É possível imaginar, ao longo do desfile, o revezamento de manifestações culturais que representam cada povo: os descendentes de italianos entoando a alegre "La Bella Polenta"; a cultura afro-brasileira presente no samba, no maculelê e na capoeira; a herança portuguesa lembrada pelo fado; a comunidade libanesa exibindo a energia do tradicional dabke; e os povos indígenas evocando suas raízes por meio das flautas de taquara e de outras expressões ancestrais.

Mais do que um desfile, a iniciativa pretende lembrar que a história de Varre-Sai foi construída pelo encontro de culturas. Cada povo trouxe seus costumes, sua fé, sua música, sua gastronomia e sua forma de compreender o mundo, formando um mosaico que continua vivo na identidade do município.

A Prefeitura de Varre-Sai mantém o convite para que todas as famílias participem da celebração. O desfile será realizado no sábado, 25 de julho, a partir das 15 horas. Os interessados podem obter informações junto ao Departamento de Cultura pelo telefone (22) 99954-3507, com Margareth Vargas.

Como resume o convite oficial da administração municipal: "Benvenuti alla festa!". Neste ano, porém, a saudação italiana parece ganhar um significado ainda mais amplo: sejam todos bem-vindos à Festa das Etnias que fizeram nascer e crescer Varre-Sai.

O Evento do Ano: a Lira 14 de Julho inaugura Espaço Cultural em Rosal

 

A Noite em que Rosal Ouviu a Voz da Própria História e Inaugurou o Amanhã




Na noite de 10 de julho de 2026, a velha e sempre jovem Lira 14 de Julho não inaugurou apenas um espaço cultural. Abriu um novo capítulo de sua própria biografia. O Espaço Cultural Dadá e Dionísio nasceu como nascem as grandes obras: da gratidão. Gratidão a dois homens que compreenderam que a música não é apenas uma sucessão de notas, mas uma delicada e poderosa maneira de ensinar uma comunidade a amar a si mesma.

A cerimônia teve início sob o manto de um silêncio profundo. Não o silêncio da ausência, mas o recolhimento reverente que apenas a saudade verdadeira sabe inspirar. Conduzido por Anselmo Jr. Borges Nunes, vice-presidente da Lira 14 de Julho, o minuto de silêncio em homenagem ao saudoso tio, Antônio Rezende Nunes, recordou aos presentes que a memória também possui sua liturgia sagrada. Há homens que partem, mas permanecem; tornam-se presença invisível na alma das instituições que ajudaram a construir.

Anselmo desponta como uma das figuras mais representativas da história recente da Lira 14 de Julho. Seu compromisso, porém, não nasceu por acaso. É herança de família. Na década de 1940, seus avós paternos, Francisco Nunes e Amélia Rezende Nunes, doaram o terreno onde seria erguida a primeira sede da corporação musical, gesto de extraordinária generosidade que permanece gravado na memória de Rosal.

Décadas depois, em 23 de março de 2015, ao lado de músicos rosalenses e de outros idealistas, Anselmo esteve entre os protagonistas do movimento que devolveu vigor à tradicional banda. A revitalização da Lira não foi apenas administrativa ou artística; foi, sobretudo, uma reconstrução afetiva, florescida do profundo sentimento de pertencimento cultivado pela própria comunidade.

Em seu pronunciamento, o vice-presidente ressaltou a dimensão histórica da solenidade. O Espaço Cultural Dadá e Dionísio passa oficialmente a integrar o patrimônio histórico-cultural de Bom Jesus do Itabapoana, consolidando-se como o 11.º espaço de memória do município. Soma-se, assim, ao Museu da Imagem, em Pirapetinga; ao Espaço Cultural Luciano Bastos; ao Memorial Governadores Roberto e Badger Silveira, no Sítio Rio Preto, em Calheiros; ao Espaço Cultural Cafézin; ao Museu da Serra do Tardin; ao Museu da Ascendina, em Calheiros; ao Memorial Coronel Quinca Bento, em Arraial Novo; ao Teatro Cinema Conchita de Moraes, na Usina Santa Maria; à Escola de Música JEMAJ; e à Escola de Música MusicArt. Cada um desses espaços guarda fragmentos da identidade bonjesuense; juntos, compõem um grande mosaico de memória, cultura e pertencimento.

À frente do Coral das Crianças, Anselmo exerce a regência em perfeita sintonia com a secretária do coral, Sandra Regina. Juntos, não apenas orientam vozes: despertam sensibilidades, cultivam sonhos e inauguram um novo e promissor ciclo lírico na centenária trajetória da Lira 14 de Julho. Em cada ensaio, semeiam futuros músicos; em cada apresentação, fortalecem os laços invisíveis que unem gerações.

Talvez poucos percebam que uma banda de música realiza uma missão muito maior do que executar dobrados, valsas ou hinos. Ela fabrica pertencimento. Ensina crianças a respirar no mesmo compasso, transforma disciplina em beleza, converte o talento individual em harmonia coletiva e faz uma comunidade reconhecer sua própria alma em cada acorde. Quando uma banda toca, não ressoam apenas instrumentos: ecoa a história de um povo, a esperança de seu presente e a promessa silenciosa de seu futuro.

Foi exatamente sobre essa dimensão da música que refletiu Gino Martins Borges Bastos. Ao revisitar a trajetória da Lira 14 de Julho, mostrou que a música instrumental ultrapassa os limites da arte para alcançar a sociologia da convivência humana. Quem cresce ouvindo uma banda aprende, muitas vezes sem perceber, que pertence a uma história maior do que si mesmo. Talvez seja esse o segredo de Rosal: uma comunidade que aprendeu a escutar antes mesmo de aprender a falar sobre cultura.

Ao recordar o sucesso dos Festivais de Chorinho, ressaltou que a música instrumental dialoga diretamente com a inteligência, estimulando a memória, a concentração e a sensibilidade. Lançou, ainda, duas sementes voltadas ao futuro: a criação de um Acervo Musical da Lira 14 de Julho, destinado a preservar partituras, fotografias, documentos e composições, e mostrar que Rosal, além de ser uma comunidade de músicos, é também de compositores; e a formação de um Grupo de Chorinho de Rosal, capaz de levar a identidade musical do distrito aos mais diversos palcos do Brasil.

Antes de concluir sua fala, Gino Martins Borges Bastos fez questão de lembrar que a história de uma instituição centenária não é escrita apenas por aqueles que ocupam o palco ou empunham os instrumentos. Ela também é tecida, dia após dia, por homens e mulheres que trabalham nos bastidores, onde o aplauso quase nunca chega, mas de onde nasce a permanência das grandes obras.

Ao mencionar, um a um, os integrantes da diretoria da Lira 14 de Julho,  o presidente Geraldo Roseira Soares; o vice-presidente Anselmo Júnior Borges Nunes; as secretárias Sandra Regina Rodrigues Dowsley e Maria Auxiliadora Glória de Almeida; os tesoureiros André Almeida dos Santos e José Soares Calheiro Filho; o orador João Caetano Pimentel Vargas; a diretora de Patrimônio Fabiana de Oliveira Morais Vargas; a diretora Especial para Artes e Assistência Social Carmélia de Fátima Ourique dos Santos; o diretor de Cultura e História Luis Otávio Glória de Almeida Soares; e o maestro Aldemir de Oliveira Morais,  ressaltou que preservar seus nomes é um ato de justiça e de gratidão. Afinal, as instituições atravessam o tempo porque existem pessoas que, longe dos holofotes, dedicam suas vidas a sustentar o brilho que todos contemplam. São esses servidores silenciosos que impedem a memória de desafinar e garantem que a música da história continue ecoando pelas gerações.

Em seguida, a música falou por si. O pianista Thadeu Almeida fez do piano uma extensão da emoção coletiva ao interpretar quatro obras que encantaram o público: Cinema Paradiso, de Ennio Morricone, tema especialmente querido pela comunidade local; Lua Branca, de Chiquinha Gonzaga; Confidências, de Ernesto Nazareth; e Quebra, Quebra, Minha Gente, de Henrique Alves de Mesquita, três composições fundamentais da história do choro e da música brasileira.

Mas aquela noite pertencia, sobretudo, a Dadá e Dionísio.

Dionísio Pimentel, lavrador de mãos calejadas, dedicou cerca de meio século à Lira, primeiro como trompetista e, posteriormente, como trombonista. Dadá, Dário Xavier de Almeida, dividiu sua existência entre o serviço público, a família e a música, tornando-se uma dessas pessoas cuja grandeza jamais precisou fazer barulho. Ambos compreenderam que uma vida não se mede pelo que se acumula, mas pelo que se oferece aos outros.

As emocionadas palavras de Sofia Glória, neta de Dadá, e de Aparecida Pimentel Vargas, neta de Dionísio, revelaram que os verdadeiros patrimônios não cabem em cofres. Permanecem vivos na lembrança dos filhos, dos netos, dos amigos e de todos aqueles que aprenderam a amar a Lira por meio de seus exemplos.

O Grupo Musical Eber Figueiredo Teixeira, sob a regência da maestra Martha Salim, acrescentou delicadeza e emoção à solenidade.

E, quando o maestro Anselmo Jr. Borges Nunes, acompanhado pelo coral das crianças da Turma de Musicalização da Lira e pela secretária do coral, Sandra Regina Rodrigues Dowsley, ocupou o palco, tornou-se impossível não perceber que o futuro já havia chegado.

Enquanto as crianças cantavam, parecia que os antigos fundadores sorriam em algum lugar invisível. Talvez estivessem ali Luiz Tito de Almeida, Custódio Soares, Elias Borges, Durval Tito de Almeida, Elpídio de Sá Viana e Sebastião Magalhães, aqueles homens que, em 1922, adquiriram instrumentos com recursos próprios, sem imaginar que estavam comprando algo infinitamente maior: a identidade cultural de Rosal. Ou ainda Ezechias Tito de Almeida, o inesquecível Tuca, cuja partida, em 1992, não interrompeu sua presença na memória coletiva da comunidade.

Entre as personalidades presentes destacou-se também Maria Aparecida Pereira Vargas, aos 91 anos, filha do maestro Octacílio de Pereira, fundador da Sociedade Musical União dos Artistas, de Muriaé (MG), criada em 11 de abril de 1936 e reconhecida como um dos maiores patrimônios culturais daquele município.

Ao final da noite, compreendia-se que o novo espaço cultural não possui apenas paredes, janelas e fotografias. Possui alma.

Existem edifícios que abrigam pessoas.

E existem lugares, como a Lira 14 de Julho, que abrigam gerações inteiras.

Nessa noite de inverno, Rosal não inaugurou apenas um espaço cultural.

Inaugurou mais uma página de sua eternidade.


Homenagem a Dadá e Dionísio 

Por Dodora (Maria Auxiliadora), esposa de Geraldo Mulinha e filha do Dadá


Com muito carinho, um agradecimento merece traduzir toda a emoção, a gratidão e o significado dessa homenagem a todos nós familiares.

​Há gestos que ultrapassam o tempo e se transformam em eternidade.

​Receber com profunda emoção, a notícia de que a sala de música da Lira 14 de Julho passará a eternizar os nomes de Dário Xavier de Almeida e Dionísio Pimentel, é sentir o coração transbordar de gratidão.

​Mais do que uma homenagem, este gesto representa o reconhecimento de duas vidas inteiramente dedicadas à musica, ao aprendizado, ao ensino, à amizade e à construção de uma história que pertence a todos nós.

​Dadá e Dionísio fizeram da música a sua linguagem mais genuína. Desde a infância, entregaram seus talentos, seu tempo e seu amor à Lira, transformando notas em ensinamentos, ensaios em encontros e melodias em memórias afetivas para inúmeras gerações.

​Hoje, seus nomes deixam de habitar apenas nossas lembranças para ocupar, de forma definitiva, um espaço físico e simbólico dentro de uma instituição que tanto amaram e à qual dedicaram grande parte de suas vidas.

​À Corporação Musical nossa mais sincera e profunda gratidão pela sensibilidade, pelo respeito à memória e pelo reconhecimento deste legado tão precioso.

Ela guardará memórias, afetos e a presença silenciosa daquele que fez da música a razão de sua vida.

Que cada criança, jovem ou músico que aqui ingressar possa sentir a força desta herança cultural e compreender que a verdadeira grandeza está na generosidade de aprender, no compromisso de servir e no amor dedicado à arte.

Nossa eterna gratidão à Lira 14 de Julho por preservar não apenas nomes, mas histórias de vida, exemplos e memória que continuarão inspirando gerações.

Com emoção, carinho e sincero reconhecimento,

Família de: Írisio Xavier de Almeida

​"Em cada sinfonia, ecos da história

encontram a emoção do presente."

A música transforma o silêncio

em beleza e

permanência!

"As cordas sussurram,

os metais anunciam,

e a alma escuta"

Que esta sala seja, para sempre, um lugar onde suas presenças continuem a ecoar suavemente entre partituras, instrumentos e sonhos, um lugar onde as futuras gerações possam compreender que a verdadeira grandeza de um músico não está apenas na excelência de sua arte, mas, sobretudo, na capacidade de inspirar vidas.

​Porque há pessoas que não se despedem. Permanecem.

​Permanecem no som dos instrumentos, na emoção das apresentações, nos ensinamentos compartilhados e no silêncio reverente de cada memória.

​Dionísio e Dario seguem vivos.

Vivos na música.

Vivos na história.

Vivos, para sempre, no coração da Lira 14 julho.



Homenagem a Dadá

Por Sofia Glória 

Rosal, 10 de julho de 2026

​Dário Xavier de Almeida nasceu em Rosal, no dia 09 de agosto de 1928. Filho de Durval Tito de Almeida e Dorvina Xavier de Almeida, cresceu num lar com muitos irmãos, sete ao todo. Uma das irmãs, nossa querida Iaiá, está presente e acaba de completar 93 anos esta semana. Desde a infância, Dadá, como era conhecido, apresentou grande interesse e aptidão pela música, e logo se tornou parte integrante da Lira 14 de Julho como trombonista e mais tarde, como bombardinista.

​No dia 1º de julho de 1954, aos 26 anos, casou-se com Maria Glória dos Santos na Capela Sant'Ana, em Rosal. Juntos, construíram um lar feliz, onde logo chegaram os cinco filhos: José Geraldo, Maria Auxiliadora, Mauricio, Maria do Carmo e Marcelo. Aos filhos, somaram-se doze netos e dois bisnetos.

​Trabalhou como escrivão da Comarca de Bom Jesus do Itabapoana, nos cartórios de Rosal e Calheiros, trabalho no qual se aposentou.

​Após uma vida dedicada a Deus, ao trabalho, à família e à música, envelheceu tranquilo em Rosal, seu lugar preferido no mundo. Faleceu em 05 de agosto de 2011, prestes a completar 83 anos.

​Dário, Dadá, Almeida... o que vocês acabaram de ouvir é a história oficial desse homem que hoje relembramos com carinho e admiração. Peço licença para, a partir de agora, contar uma outra história, extra-oficial, da vida tão bonita desse homem a quem eu chamo de avô. E como contar histórias é bem uma coisa de avós e netos, recomeço essa minha história: minha mãe é a quarta filha desse casal e eu, a quarta neta. Tive a alegria de conviver com meu avô por alegres vinte anos, um convívio próximo, estreito, de vir passar basicamente todos os fins de semana da infância na casa deles em Rosal, casa que cheirava a doce de fruta, broa e café. Rosal pra mim tem cheiro de aconchego e infância.

​Ainda na juventude, ao se tornar pai de família, sua vida não foi fácil ao lado da minha avó. Juntos, eles passaram por muitas dificuldades e não raro meu avô se afligia preocupado, por exemplo, com a comida dos filhos no dia seguinte. Mas o amor e o trabalho sempre andaram juntos nessa casa, sempre prevaleceram. Atrás da mesa do cartório, mexendo o tacho de goiabada, servindo na igreja como ministro da Eucaristia ou tocando valsas e boleros para os filhos nas manhãs de domingo, ele estava sempre lá, com seu jeito peculiar de ser sereno. Imagino que a fé e a necessidade de seguir em frente renovavam seu ânimo a cada manhã e o faziam continuar sonhando com a vida que aos poucos ia escrevendo, compasso por compasso.

​Ao longo desta semana, me peguei pensando na passagem do tempo e nos possíveis modos de medi-lo. A caminho de um compromisso corriqueiro, percebi que cheguei ao meu destino na duração de uma canção, e diante de algo que considero bonito, me questionei: Por que medimos o tempo em segundos, minutos, horas, anos, décadas, séculos, milênios? Por que não experimentar, viver o tempo, de vários modos. Pra mim, a música é um desses modos únicos de fazer isso, experimentar o tempo, estendê-lo, encurtá-lo, suspendê-lo. A música é um jeito de habitar o tempo.

Alguns versos de Adília Lopes fazem ecoar em mim essa dinâmica tão própria do meu avô, de viver a vida em um ritmo diferente, e vivo um reencontro com ele nas páginas do livro que leio. Cito os versos: "Gosto de ouvir a casa em silêncio. Mas também gosto de ouvir música. Eu tinha escrito uma coisa farfalhuda: A minha casa é fundada no silêncio como a música." Ele amava o silêncio, mas também amava o som dos passarinhos cantando. Sentava na varanda da frente, cruzava as pernas (uma ficava sempre pendente, balançando ao ritmo da música do toca-discos na sala) e fechava os olhos, como que para ver e ouvir melhor.

​Gostava de ouvir, de escutar, na verdade, pois a escuta exige um estado de atenção e cuidado nem sempre presentes no ouvir. Acessava o tempo no canto de uma sabiá ou no bater das asas de um bem-te-vi, ou no picolé que ele não conseguia terminar de apreciar porque derretia antes... Meu avô era um homem das coisas simples. Poucas palavras ditas, é verdade, mas muitas lidas, já velhinho, com a lupa, que socorria os olhos cansados, mas ainda interessados nas notícias esportivas do jornal. Aos meus olhos de menina, vê-lo vestido com o uniforme azul da 14 de Julho era sinal de festa: acordar cedinho nas manhãs frias de antigamente pra abrir a janela e ouvi-lo tocar nas alvoradas. Mais tarde, era hora de ir pra praça e vê-lo novamente, feliz e realizado entre seus pares nos encontros de bandas.

​Se recordar é "passar novamente pelo coração" (que para os romanos era a sede das emoções e da memória), hoje fazemos um bonito exercício de honrar o legado de mãos e fôlegos destas duas figuras queridas por nossa comunidade: Dadá e Dionísio. Inaugurar este espaço é abrir ainda mais portas para manter viva a tradição da cultura rosalense no coração dessa instituição que há 104 anos promove as pessoas dessa terra através da criatividade, da cidadania e das sensibilidades. Em nome da família de Dadá Almeida, agradeço a homenagem e parabenizo a Lira 14 de Julho por mais essa iniciativa.

Viva a música! Viva a cultura, viva a arte!

Muito obrigada!


Homenagem a Dionísio Pimentel 

Por João Caetano Pimentel Vargas (bisneto)

Boa noite a todos.

​Hoje não estamos apenas inaugurando um espaço físico. Estamos inaugurando um lugar onde a memória, a cultura e a música estão presentes.

​E poucas homenagens poderiam representar melhor esse propósito do que dar a este espaço o nome de dois homens que dedicaram parte de suas vidas à Lira 14 de Julho: Dadá e Dionísio.

​Falar de Dionísio Pimentel é falar de uma história que se confunde com a história da própria vila de Rosal e da Lira 14 de Julho.

​Ele nasceu em 6 de dezembro de 1913, na Fazenda Barra Funda, em Varre-Sai, onde viveu a infância e estudou em uma pequena escola particular da Fazenda Dona Tereza.

​Foi ali que também nasceu outra paixão que o acompanharia por toda a vida: a música.

​Aprendeu com o mestre Chico Gomes e passou a integrar sua banda. Anos depois, quando esse grupo veio para Rosal sob a liderança de Seu Lulu de Almeida, ajudou a formar aquela que se tornaria a nossa querida Lira 14 de Julho. E ali permaneceu por cerca de cinquenta anos.

​Primeiro como trompetista. Depois como trombonista. Até que o peso da idade o obrigou a guardar o instrumento, mas jamais a abandonar o amor pela música.

​São poucas as pessoas que conseguem dedicar cinquenta anos da própria vida a uma mesma instituição. Mais do que tocar notas, Dionísio ajudou a construir uma tradição que atravessou gerações e chegou viva aqui.

​Mas sua vida não era feita apenas de música.

​Era homem da terra.

​Trabalhou na lavoura, cultivando café e produzindo leite, primeiro ao lado do pai e, depois, em sua própria propriedade.

​Quando percebeu que os filhos precisavam estudar, tomou uma decisão que revela muito do homem que era. Vendeu o sítio, mudou-se para Rosal e comprou sua chácara, onde viveu até seus últimos dias, colocando a família acima de qualquer patrimônio.

​Hoje esse lugar continua pertencendo à família e carrega um nome que diz muito sobre esse legado: “Recanto Dionísio e Filó”.

​Ao lado de sua esposa, Filomena Pimentel, construiu uma bela família, formada pelos filhos Heliton, Paulo, Luiz e Nitinha, além de uma geração de netos, bisnetos e tataraneto que até hoje mantém viva essa história de amor à Rosal e à Lira 14 de Julho.

​Mas quem conheceu Dionísio talvez se lembre também de uma outra característica marcante em sua personalidade. O homem de sorriso franco e olhar calmo era um extraordinário contador de causos.

​Gostava de narrar as histórias antigas da região, especialmente as aparições da lendária Luz do Monte Azul. Com brilho nos olhos, contava que havia visto aquela misteriosa luz algumas vezes, iluminando as estradas para quem caminhava ou seguia a cavalo pelas noites das redondezas.

​Talvez essas histórias expliquem um pouco quem ele era.

​Um homem que sabia preservar a memória de um povo.

​Que compreendia o valor das tradições.

​Que transformava lembranças em patrimônio.

​Por isso esta homenagem faz tanto sentido.

​Hoje, quando este espaço passa a levar seu nome, não estamos apenas lembrando um músico.

​Estamos eternizando um homem simples.

​Um trabalhador.

​Um pai de família.

​Um contador de histórias.

​Um homem que dedicou grande parte da vida à música e à Lira 14 de Julho.

​As notas que ele tocou jamais silenciarão.

​Ainda ecoam na memória de cada rosalense e permanecem vivas no legado deixado por ele, por Dadá Almeida, além de tantos outros que por essa briosa corporação militaram.

​Enquanto houver ensaios nesta sede...

​Enquanto houver uma criança aprendendo seu primeiro instrumento...

​Enquanto a música continuar ecoando pelas ruas de Rosal...

​Haverá sempre um pouco de Dionísio presente entre nós.

​Que este Espaço Cultural seja muito mais do que um prédio.

​Que seja um lugar onde a história continue sendo contada, onde a cultura continue sendo cultivada e onde novas gerações descubram que homens como Dionísio ajudaram a construir tudo aquilo que hoje temos orgulho de chamar de nossa tradição.

​Muito obrigado.

​Rosal, 10 de julho de 2026.