Pedra, fé e herança açoriana: o legado do Padre Mello em Varre-Sai
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| O prédio localizado em Varre-Sai (RJ) é um belo exemplar da arquitetura eclética brasileira com fortes raízes na tradição açoriana-brasileira |
Pesquisa revela raízes lusas na arquitetura histórica de Varre-Sai e Bom Jesus do Itabapoana
Pesquisa sobre a Igreja Matriz bonjesuense lança novo olhar sobre edifício histórico de Varre-Sai e revela conexões inesperadas na arquitetura regional.
À primeira vista, as cidades de Varre-Sai e Bom Jesus do Itabapoana parecem contar histórias distintas. Uma guarda no sotaque e nos sobrenomes a forte presença da imigração italiana; a outra cresceu sob a influência açoriana que marcou o interior fluminense no final do século XIX. No entanto, quando se observa com atenção suas fachadas antigas, percebe-se que as pedras, silenciosamente, narram uma história comum.
Essa descoberta ganha novo significado às vésperas do Simpósio Cultural Intermunicipal que reunirá as duas cidades no dia 16 de abril, no Seminário de Varre-Sai. A partir de recentes estudos sobre a arquitetura regional, começam a emergir vínculos estéticos e históricos que aproximam ainda mais os dois municípios.
O ponto de partida dessa investigação está no trabalho do jovem pesquisador brasileiro arquiteto Victor Hugo Paolucci Vieira. Mineiro e membro do Instituto Brasileiro de Arquitetura Tradicional, ele tem reunido arquitetura, história e religiosidade em estudos voltados à documentação do patrimônio cultural regional. É também autor do consagrado livro “100 Templos de Barbacena - Conhecendo o Universo Religioso através dos Tempos da Cidade” (2022).
Foi justamente a partir de sua análise da arquitetura da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus, que novas conexões começaram a surgir. Pesquisadores bonjesuenses ampliaram o olhar para edificações históricas de Varre-Sai, revelando afinidades arquitetônicas que até então permaneciam discretas na paisagem urbana.
Uma herança além da imigração italiana
Embora Varre-Sai seja amplamente reconhecida por sua forte herança da imigração italiana, sua arquitetura pública e institucional preserva, em muitos casos, o padrão luso-brasileiro que predominou na estética urbana do Estado do Rio de Janeiro durante o ciclo do café, entre o final do século XIX e o início do século XX.
Um exemplo expressivo encontra-se em um prédio histórico da cidade, erguido em 1917. Quando comparado à fachada da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus, surgem paralelos arquitetônicos que sugerem uma mesma linguagem construtiva.
Tudo indica que a fachada foi edificada sob a orientação do açoriano Padre Antônio Francisco de Mello. Padre Mello chegou a Bom Jesus do Itabapoana em 18 de junho de 1899, assumindo funções paroquiais que se estendiam também a Varre-Sai, responsabilidade que perduraria até 1924.
Mais do que sacerdote, Padre Mello era também agrimensor, condição que o colocava em contato direto com medições, traçados e organização do espaço, aspectos frequentemente ligados à própria concepção arquitetônica das edificações.
Assim, não é difícil imaginar que, além de sua missão espiritual, ele tenha contribuído para difundir referências culturais e estéticas vindas do outro lado do Atlântico: memórias de vilas açorianas, igrejas voltadas para o mar e procissões conduzidas ao som dos sinos.
Um testemunho silencioso do tempo
O prédio varre-saiense permanece hoje como um testemunho discreto do tempo. Suas janelas alinhadas em rigorosa simetria sugerem ordem e equilíbrio; os arcos plenos das portas convidam mais à contemplação do que à pressa.
Nas quinas, cunhais brancos desenham limites elegantes sobre o fundo amarelo da fachada, evocando as antigas vilas portuguesas transplantadas simbolicamente para o interior fluminense.
Varre-Sai nasceu italiana no sotaque, na lavoura e na memória dos sobrenomes que atravessaram o oceano carregando esperança e saudade. No meio de ruas tranquilas e fachadas antigas, revela-se ali uma alma inesperadamente lusa.
Análise arquitetônica
O edifício histórico de Varre-Sai representa uma interessante transição entre o colonial tardio e o ecletismo característico do início do século XX.
Elementos de influência portuguesa
A base compositiva revela clara inspiração lusa, perceptível em diferentes aspectos:
a. Simetria rigorosa
A disposição regular de portas e janelas segue o ritmo clássico herdado da tradição arquitetônica portuguesa.
b.Vãos em arco pleno
Aberturas com a parte superior arredondada, comuns nas construções civis portuguesas do século XIX.
c. Cunhais e molduras
O uso de pilastras brancas nas quinas e molduras destacadas ao redor das janelas, contrastando com o fundo amarelo da fachada, reproduz a estética típica das vilas portuguesas.
O edifício de Varre-Sai aproxima-se mais do estilo colonial imperial em transição para o ecletismo, evidenciado por elementos como:
a. Frontão decorado
O coroamento recortado no topo da edificação revela influência urbana ligada ao período imperial fluminense.
b. Falsas sacadas
Os balustres decorativos sob as janelas superiores refletem o gosto eclético da época, que buscava conferir às construções civis a aparência elegante de pequenos palacetes.
O diálogo silencioso das cidades
Em Bom Jesus do Itabapoana, a Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus repete gestos arquitetônicos semelhantes, como se as pedras dialogassem entre cidades vizinhas. As fachadas tornam-se, assim, parentes distantes, unidas por uma mesma linguagem de proporção, luz e fé.
Talvez seja essa a mais bela revelação da arquitetura antiga: as cidades também conversam entre si. Mesmo separadas por quilômetros de estrada, elas trocam memórias através de suas janelas, de seus arcos e de seus frontões.
E assim, no meio do silêncio das paredes centenárias e a passagem inevitável do tempo, permanece gravada uma verdade simples e profunda: as cidades são feitas de pessoas, mas também de lembranças. E algumas dessas lembranças, quando esculpidas em pedra, aprendem a atravessar os séculos.
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