sábado, 22 de agosto de 2026

A Semente e o Ouro: O Legado de Monsenhor Apoliano e Madre Virgínia

 

Cinquenta anos de fé, serviço e amor



A celebração do Imaculado Coração de Maria e São Miguel Arcanjo, pertence a duas dimensões: tem dia, altar, flores, cânticos e orações, mas possui também uma geografia secreta. Acontece naquele lugar invisível da alma onde depositamos nossas dores, nossas esperanças e tudo aquilo que, muitas vezes, não conseguimos dizer.

E neste ano a celebração possui um significado ainda mais profundo.

Há cinquenta anos, no dia 22 de agosto de 1976, nascia em Bom Jesus do Itabapoana o Instituto Imaculado Coração de Maria e São Miguel Arcanjo, no seio do Abrigo dos Idosos José Lima. Ali começava uma história que atravessaria meio século, conduzida pela fé e pelo desejo de servir.

Na origem dessa caminhada estão Monsenhor Francisco Apoliano e Madre Virgínia Alves, fundadores do Instituto. Dois nomes que pertencem não apenas à memória de uma instituição, mas à história de uma obra construída sobre os alicerces da espiritualidade, da caridade e do cuidado com o próximo.

Eles não poderiam contemplar, naquele distante 1976, todos os caminhos que nasceriam daquele primeiro gesto. Quem planta uma árvore raramente conhece todas as pessoas que um dia descansarão sob sua sombra.

Monsenhor Francisco Apoliano e Madre Virgínia plantaram.

O tempo cuidou de fazer crescer.

E agora, cinquenta anos depois, chega o aniversário de ouro.

O ouro, porém, não está apenas na data. Está nas vidas tocadas ao longo do caminho. Está nas religiosas que chegaram jovens e envelheceram servindo; nas orações pronunciadas quando ninguém mais estava ouvindo; nos corredores percorridos silenciosamente; nas lágrimas enxugadas; nos idosos acolhidos; nas mãos seguradas; nas vocações descobertas e nas incontáveis manhãs em que alguém simplesmente decidiu continuar.

Cinquenta anos não cabem numa fotografia.

Diante da imagem de Maria, cercada pelas religiosas, parece haver um instante em que o tempo diminui seus passos. As flores deixam de ser apenas flores. As mãos postas deixam de ser apenas um gesto. Os olhos voltados para a Mãe tornam-se pequenas janelas abertas para o infinito.

É isso que o coração de uma mãe representa: um lugar onde sempre podemos voltar.

Maria conheceu a alegria, mas conheceu também a aflição. Guardou no coração palavras que não compreendia inteiramente, acompanhou o Filho pelos caminhos da esperança e permaneceu perto dele quando quase todos haviam partido. Seu coração não foi preservado da dor. Tornou-se sagrado porque soube transformar a dor em amor, a incerteza em confiança e o sofrimento em continuidade.

Por isso, contemplar o Imaculado Coração de Maria é contemplar também a misteriosa força daqueles que amam sem abandonar.

É assim que uma instituição atravessa meio século.

Não apenas pelas paredes que construiu ou pelas datas que registrou, mas pelo bem invisível que deixou no caminho.

Ninguém consegue contabilizar quantas pessoas foram consoladas nesses cinquenta anos. Nem quantas encontraram esperança numa palavra, numa oração, num sorriso ou simplesmente na presença silenciosa de uma religiosa.

Existem obras humanas que podem ser medidas em números.

As obras do amor, não.

Elas continuam acontecendo muito depois do gesto que lhes deu origem.

Por isso, diante das religiosas reunidas ao redor da imagem de Maria, compreendemos que aquela fotografia registra mais do que uma solenidade. Registra uma linhagem de fidelidade iniciada há meio século. Mulheres diferentes, histórias diferentes, idades diferentes, reunidas pelo mesmo chamado e sob o mesmo olhar materno.

Algumas daquelas mãos seguraram muitas outras mãos ao longo da vida.

Alguns daqueles olhos já choraram despedidas que jamais conheceremos.

E, no entanto, permanecem ali.

Rezando.

Servindo.

Esperando.

Amando.

No mundo apressado em que vivemos, permanecer fiel durante décadas tornou-se quase uma forma de resistência.

Por esse motivo, o Jubileu de Ouro do Instituto Imaculado Coração de Maria e São Miguel Arcanjo tem uma beleza ainda maior. Ele nos recorda que, em 1976, no seio do Abrigo dos Idosos José Lima, uma pequena semente foi lançada à terra de Bom Jesus do Itabapoana.

Passaram-se cinquenta anos.

A semente tornou-se história.

Ao centro permanece Maria.

Não como quem deseja ser o centro, mas justamente como aquela que aponta para além de si mesma.

Para Cristo.

Quando a festa terminar, as flores um dia murcharão. Os cânticos cessarão. As luzes do altar serão apagadas e cada religiosa retornará aos pequenos deveres cotidianos.

Mas alguma coisa permanecerá.

Permanecerá a memória de Monsenhor Francisco Apoliano e Madre Virgínia Alves.

Permanecerão as religiosas que escreveram e continuam escrevendo essa história.

Permanecerão as vidas que receberam cuidado e esperança.

E permanecerá aquela pequena chama acesa em Bom Jesus do Itabapoana no distante ano de 1976.

Que o Imaculado Coração de Maria continue sendo morada para aqueles que procuram consolo, escola para aqueles que desejam aprender a amar e refúgio para aqueles que atravessam as noites difíceis da existência.

E que São Miguel Arcanjo continue guardando os caminhos dessa obra nascida para servir.

Hoje, portanto, não celebramos apenas cinquenta anos.

Celebramos cinquenta anos de mãos estendidas.

Cinquenta anos de oração.

Cinquenta anos de fidelidade.

Cinquenta anos de amor.

1976–2026.

Um aniversário de ouro.

Algumas histórias são escritas com tinta.

Outras são escritas com o coração e fé, e essas o tempo jamais consegue apagar.




Existem muitas maneiras de matar uma pessoa

 

Uma sociedade verdadeiramente humana não deveria apenas impedir que alguém morra. Deveria criar condições para que ninguém precise viver como se já estivesse morto.



Existem muitas maneiras de matar uma pessoa.

Algumas fazem barulho. Outras acontecem em silêncio.

Há a violência que rasga a carne, o tiro que interrompe uma vida, a guerra que transforma homens em números e cidades em ruínas. Mas existem mortes que não deixam sangue nas paredes, apenas um vazio crescendo lentamente dentro de alguém.

Mata-se também quando se tira de uma pessoa a possibilidade de sonhar. Quando se nega o pão. Quando a doença é ignorada. Quando a miséria deixa de ser vista como uma injustiça e passa a ser tratada como destino.

Mata-se quando se humilha alguém todos os dias, quando se destrói sua dignidade, quando o trabalho deixa de ser caminho de realização e se transforma em instrumento de exaustão. Há vidas que vão desaparecendo aos poucos, esmagadas pela indiferença.

E uma das formas mais cruéis de violência é aquela que ninguém percebe.

Um corpo pode continuar caminhando enquanto a alma, em silêncio, já pede socorro.

Vivemos numa sociedade que aprendeu a condenar o golpe visível, mas ainda tem dificuldade de reconhecer os golpes invisíveis. Condenamos a mão que fere, mas muitas vezes somos indiferentes à palavra que humilha, à porta que se fecha, ao abandono que se prolonga.

A vida humana não é destruída apenas quando o coração para.

Ela vai sendo apagada quando desaparecem a esperança, o afeto, a dignidade e a sensação de pertencimento.

É necessário aprender uma nova forma de resistência: cuidar.

Cuidar é perguntar.

É ouvir.

É perceber o silêncio de quem sempre foi alegre.

É oferecer um pedaço de pão antes que a fome se transforme em desespero.

É tratar a doença antes que ela se torne sentença.

É estender a mão antes que alguém conclua que está sozinho no mundo.

Uma sociedade verdadeiramente humana não deveria apenas impedir que alguém morra. Deveria criar condições para que ninguém precise viver como se já estivesse morto.

Há muitas maneiras de matar uma pessoa.

Mas também há muitas maneiras de salvá-la.

Às vezes, basta uma palavra.

Um abraço.

Uma presença.

Um gesto de humanidade.

E, sobretudo, a coragem de não passar indiferente diante da dor do outro.

2ª Festa da Praça da Rodinha

 


A memória de Alex e o abismo de Napoleão Teixeira


Por Gino Martins Borges Bastos


Sempre nos lembraremos com afeto daqueles que nos trataram bem


A  reflexão sobre o suicídio deixa de ser apenas uma reflexão sobre a morte, e passa a ser uma defesa da vida


Diante do mistério da morte, a nossa resposta mais humana continuará sendo a defesa incansável da vida


 A maior homenagem que podemos prestar aos que partiram seja aprender a enxergar melhor os que ainda estão conosco


O que podemos fazer para que a pessoa encontre o caminho antes que seja tarde demais?


Existem pessoas que, mesmo depois de partir, continuam caminhando conosco



Existem acontecimentos diante dos quais as palavras parecem perder a força. O suicídio é um deles.

Quando a notícia chega, quase sempre vem acompanhada de uma pergunta que permanece suspensa no ar:

- Como é possível que Alex tenha se suicidado?

E logo surgem outras: que dores carregava? Que motivos o levaram a tomar uma decisão que, para os que ficaram, parece impossível de compreender? Haveria algum pedido de socorro escondido em seus silêncios? Algum gesto que não percebemos? Alguma tristeza que passou diante de nossos olhos sem que soubéssemos reconhecê-la?

Nunca saberemos.

Alex era, para mim, uma pessoa de fino trato. Alguém que sempre demonstrou bondade e educação. É justamente por isso que sua partida causou ainda maior perplexidade. A notícia não combinou com a imagem que guardamos dele. E talvez seja essa uma das faces mais dolorosas do suicídio: ele nos coloca diante daquilo que não conseguimos enxergar na alma do outro.

Antes de partir, Alex deixou uma carta, escrita com caligrafia sóbria.

Uma carta.

Às vezes, poucas palavras deixadas sobre o papel carregam um peso maior do que uma vida inteira de conversas. Não sabemos exatamente o que se passa no coração de alguém quando ele decide interromper a própria existência. Sabemos apenas que, naquele instante extremo, alguma coisa dentro dele tornou-se insuportavelmente pesada.

Acompanhei Alex até a sepultura.

Segurei a alça de seu caixão. Algumas vezes precisei parar. O peso era grande demais para que eu conseguisse levá-lo sozinho até o fim.

Existe uma metáfora involuntária nesse gesto.

Há pessoas que carregamos por um trecho da vida. Depois, quando chega a hora da despedida, percebemos que não conseguimos carregar sozinhos todo o peso da ausência.

Mas carregamos a memória.

E essa ninguém nos tira.

Sempre nos lembraremos com afeto daqueles que nos trataram bem. O tempo pode apagar detalhes, modificar paisagens, levar embora fotografias e objetos, mas há pessoas que permanecem na delicada região da lembrança onde o afeto resiste.

Esta crônica é, portanto, uma homenagem à memória de Alex.

Que sua memória seja eternizada não pela circunstância de sua morte, mas pela pessoa que foi.

Talvez por uma dessas coincidências misteriosas da vida, há na biblioteca de meu pai um livro antigo que parece conversar silenciosamente com essa história.

É "O suicídio em face da psicopatologia, da literatura, da filosofia e do direito", de Napoleão Lyrio Teixeira, intelectual bonjesuista, irmão da professora Amália Teixeira, que foi professora do ex-governador Roberto Silveira.

Publicado em Curitiba pela Editora Guaíra, entre 1947 e 1948, o livro possui 176 páginas e revela, já no título, a amplitude da investigação de seu autor. Napoleão não quis olhar o suicídio por uma única janela. Procurou compreendê-lo pela psicopatologia, pela literatura, pela filosofia e pelo Direito, acrescentando ainda as perspectivas psiquiátrica, médico-legal e profilática.

O livro de Napoleão Teixeira atravessa o tempo porque ousou olhar para onde quase ninguém queria olhar. 

Nascido em 11 de abril de 1905, no Sítio do Limoeiro, município de São José do Calçado, no Espírito Santo, filho de Regina Carvalho e João Manoel Teixeira, Napoleão teve sua formação inicial em Bom Jesus do Itabapoana. Foi uma infância marcada pela simplicidade e pelas dificuldades econômicas agravadas pela crise de 1929.

Mas havia nele uma inquietação maior que as circunstâncias.

Foi para o Rio de Janeiro, ingressou na Faculdade de Medicina e formou-se em 1933. Depois de atuar em diferentes áreas, encontrou na Psiquiatria um território que lhe permitiria aproximar-se de uma das regiões mais misteriosas do ser humano: a mente.

Trabalhou no Serviço do professor Henrique Roxo e, em 1941, foi convocado para o Serviço Médico do Exército. Serviu em Curitiba, onde acabou radicando-se e construindo uma extraordinária trajetória intelectual e acadêmica.

Em 1944, conquistou a livre-docência em Psiquiatria e, também naquele ano, apresentou a tese O Suicídio em Face da Psicopatologia, da Literatura, da Filosofia e do Direito.

É impressionante pensar que um homem nascido em nossa região tenha se debruçado, há mais de sete décadas, sobre um tema que continua nos interrogando.

Napoleão Teixeira foi médico, psiquiatra, professor, especialista em Medicina Legal, jornalista e literato. Viajou por mais de setenta países, teria dominado onze idiomas e deixou uma produção jornalística extraordinária. Seu filho João Regis Fassbender Teixeira chegou a estimar em mais de vinte mil o número de crônicas publicadas no Brasil, além de mais de mil no exterior.

Era um homem de muitos caminhos.

Seu livro sobre o suicídio é um dos caminhos mais difíceis que percorreu.

Estudar o suicídio é aproximar-se de uma fronteira onde a ciência encontra seus próprios limites.

A psicopatologia procura compreender a mente.

A Medicina Legal procura interpretar as circunstâncias.

O Direito pergunta pelos limites da responsabilidade.

A filosofia pergunta pelo sentido da existência.

A literatura tenta dar palavras àquilo que, muitas vezes, permanece indizível.

É como se Napoleão tivesse colocado cinco lanternas diante de uma mesma noite.

E nenhuma delas, sozinha, fosse capaz de iluminá-la inteiramente.

Hoje sabemos que o suicídio não pode ser explicado por uma única causa. Não existe uma fórmula capaz de traduzir a complexidade de uma vida humana em uma resposta definitiva.

Há sofrimento psíquico, circunstâncias sociais, perdas, conflitos, vulnerabilidades, acontecimentos inesperados e dimensões existenciais que podem se entrelaçar de maneiras que nem sempre conseguimos perceber.

A grande lição que podemos retirar de um livro escrito em meados do século XX seja justamente a necessidade de olhar o ser humano em sua inteireza.

Por trás de uma estatística existe uma pessoa.

Por trás de uma notícia existe uma história.

Por trás de uma carta existe uma vida.

E por trás de uma vida existem afetos, sonhos, medos, lembranças e silêncios que jamais conheceremos completamente.

Napoleão Lyrio Teixeira morreu em Curitiba, em 14 de maio de 1978.

Mas seu livro persiste.

E, tantos anos depois, ele volta a abrir suas páginas diante de nós, justamente quando a memória de Alex nos faz pensar sobre a fragilidade da existência.

É estranho o destino dos livros: permanecerem silenciosos durante anos, até que um acontecimento da vida venha novamente despertá-los.

O livro de Napoleão não nos oferece uma resposta definitiva.

Nenhum livro pode oferecer.

Ele nos oferece algo mais importante: uma pergunta.

O que acontece quando alguém deixa de enxergar um caminho possível para continuar?

E essa pergunta nos conduz, inevitavelmente, para outra:

o que podemos fazer para que a pessoa encontre esse caminho antes que seja tarde demais?

Essa é a reflexão sobre o suicídio que deixa de ser apenas uma reflexão sobre a morte.

E passe a ser uma defesa da vida.

A vida que pede escuta.

A vida que precisa de presença.

A vida que, às vezes, não consegue dizer claramente que está sofrendo.

A vida que pode esconder uma tempestade atrás de um sorriso.

A vida de Alex.

A vida de tantos outros.

Diante do túmulo, segurando a alça daquele caixão pesado, eu não carregava apenas um corpo. Carregava a perplexidade de quem perdeu alguém que lhe tratara bem. Carregava a tristeza dos que ficaram. Carregava perguntas para as quais talvez nunca exista resposta.

Hoje, olhando para o velho livro de Napoleão Lyrio Teixeira na biblioteca de meu pai, percebo que há uma ponte invisível entre aquelas páginas e aquela sepultura.

Napoleão se debruçou sobre o abismo para tentar compreendê-lo.

Nós, diante da perda de Alex, somos chamados a fazer o movimento contrário:

debruçar-nos sobre a vida.

Escutá-la.

Cuidá-la.

Ampará-la.

Estender a mão.

A maior homenagem que podemos prestar aos que partiram seja aprender a enxergar melhor os que ainda estão conosco.

E porque, diante do mistério da morte, a nossa resposta mais humana continuará sendo a defesa incansável da vida.

Alex permanecerá na memória daqueles que o conheceram.

Não pelo modo como partiu.

Mas pelo modo como passou por nossas vidas.

E existem pessoas que, mesmo depois de partir, continuam caminhando conosco.

Em silêncio.

Na lembrança.

No afeto.

Para sempre.



sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Música Instrumental


 

Música Instrumental


 

A saudade também precisa de um lugar para morar


 Todos os agostos, uma mãe transforma tecido, vento e palavras em uma pequena eternidade.



Todo ano, quando agosto chega, uma faixa aparece à beira da estrada.

Não é uma faixa de festa. Não anuncia comércio, não convida para eventos, não promete prêmios nem celebra conquistas.

É uma faixa de saudade.

Nela, poucas palavras dizem o que talvez nenhuma palavra consiga dizer inteiramente:

“Juninho - 20 anos de saudade.”

Ao lado, uma pequena cruz.

E a estrada continua.

A faixa é colocada sempre no mesmo lugar, numa curva da estrada. Uma curva que, curiosamente, também parece fazer parte da história. Quem passa depressa talvez consiga ler apenas um pedaço da mensagem. A curva impede que as palavras sejam vistas por completo.

Mas a saudade é assim mesmo.

Nunca conseguimos enxergá-la inteira.

Ela aparece em fagulhas: numa fotografia antiga, numa música, num cheiro, numa lembrança que chega sem pedir licença. Às vezes, basta passar por determinado lugar para que alguém que partiu volte, por alguns instantes, a caminhar conosco.

Dizem que é a mãe de Juninho quem, ano após ano, faz questão de colocar a faixa.

E há algo profundamente humano nesse gesto.

O tempo passa. O pano envelhece. A chuva desbota as letras. O vento castiga o tecido. A faixa vai se desfazendo aos poucos, como se a própria estrada tentasse apagar aquela lembrança.

Mas a mãe volta.

E coloca outra.

Porque existem dores que o tempo não apaga. Apenas ensina a carregá-las de outra maneira.

Aquela faixa é uma espécie de oração estendida sobre a estrada.

Uma oração que não pede nada.

Apenas diz:

Ele esteve aqui.

Ele foi amado.

Ele continua sendo lembrado.

Há quem possa perguntar por que tornar pública uma saudade tão particular.

Mas o amor também tem necessidade de testemunhas.

Aquela pequena cruz, perdida na paisagem, transforma a margem da estrada em um lugar de memória. E os que passam certamente não conheceram Juninho, talvez nunca tenham ouvido sua voz, talvez não saibam de sua história.

Ainda assim, durante alguns segundos, sabem que alguém foi amado profundamente.

E isso basta.

A curva permanece.

A estrada permanece.

Agosto retorna todos os anos.

E a faixa, mesmo quando rasgada pelo tempo, parece dizer que existem ausências que se recusam a desaparecer.

Algumas pessoas partem da vida, mas não partem da memória.

E esse é o sentido mais bonito daquela faixa na beira da estrada:

a saudade também precisa de um lugar para morar.

Para Juninho, esse lugar é uma curva.

E, todos os agostos, uma mãe transforma tecido, vento e palavras em uma pequena eternidade.