segunda-feira, 27 de abril de 2026

O Ineditismo da JEMAJ: um Torneio de Xadrez que Nasceu da Música

 


​Haverá um dia em que as notas musicais, cansadas de flutuar entre as cordas de um violino e as teclas de um piano, decidirão repousar sobre as casas pretas e brancas de um tabuleiro. Esse dia tem data marcada em Bom Jesus do Itabapoana. Sob o selo do "Sarau da Emoção", a Escola de Música JEMAJ propõe algo que, à primeira vista, soa como um acorde dissonante, mas que revela uma harmonia profunda: um torneio de xadrez.

​É curioso e poético. Geralmente, de uma escola de música, espera-se o barulho sagrado, o ensaio, a melodia que preenche o vazio. No entanto, o xadrez é a música do silêncio. Cada movimento de um peão é um semitom; cada xeque é um crescendo que acelera o peito. Ao organizar esse torneio, a JEMAJ nos lembra que a matemática da música e a lógica do tabuleiro bebem da mesma fonte: a busca pela beleza através da estrutura.

​Na Praça Governador Portela, o tempo não será marcado por metrônomos, mas pelo tique-taque frenético do relógio de Blitz. Cinco minutos. É o tempo de uma canção curta, mas intensa. Os jogadores, como maestros de um exército de madeira, precisarão de dedos ágeis e mentes afinadas. Não haverá partituras, mas sim aberturas e finais, coreografados pela urgência do tempo.

​O ineditismo reside nesse abraço cultural. Ver o apoio da Lei Aldir Blanc e de órgãos públicos unindo o fomento às artes com o esporte da mente é um alento. Mostra que a cultura não é uma gaveta estanque, mas um rio que transborda.

​Quem diria que, entre uma canção e outra, a melhor jogada seria um sacrifício de Rainha? No dia 16 de maio, a música não será apenas ouvida, será jogada. E, ao final, o maior prêmio não será a medalha ou o kit de madeira, mas a percepção de que, seja no palco ou no tabuleiro, a vida é a arte de saber o momento exato de agir, respirar e, finalmente, encantar.



Lira Santa Cecília de Varre-Sai comemora 109 anos de história



Na tarde  em que a Lira Santa Cecília de Varre-Sai celebrou seus 109 anos, a música dividiu espaço com a memória e a tradição. A comemoração reuniu não apenas a comunidade local, mas também sete liras e bandas da região, que se uniram em um encontro marcado por dobrados, reencontros e reverência à história musical de Varre-Sai.

No meio das apresentações, um momento em especial silenciou o público: a homenagem ao personagem tão conhecido quanto querido da cidade, Antônio Alberto Monteiro, o Coim. Foi pelos versos da escritora Isabel Menezes que a celebração ganhou contornos mais íntimos e emocionais.

Em forma de crônica lírica, o poema resgatou não apenas a figura de Coim, mas sua essência dentro da história da banda. Descrito como “guardião da Lira”, ele foi lembrado como presença constante, daqueles que não apenas acompanham, mas sustentam o espírito coletivo. Mesmo diante de limitações, evocadas com delicadeza, sua permanência era movida por um vínculo profundo com a música e com a instituição.

A homenagem também destacou seu papel como incentivador de jovens músicos, alguém que, com gestos simples, ajudava a formar talentos e fortalecer laços. Mais do que memória individual, tratava-se do reconhecimento de um legado vivo, construído no cotidiano.

O prefeito Lauro Fabri, presente na celebração, anunciou a intenção de ampliar o alcance da data. Segundo ele, o objetivo é transformar o aniversário da Lira em um evento de caráter nacional, reunindo corporações musicais de diferentes regiões e consolidando Varre-Sai como referência nesse cenário, em respeito à trajetória histórica da instituição.

Já a secretária de turismo Shoraya Alonso Ridolphi destacou o envolvimento coletivo para a realização da festa. De acordo com ela, todos os órgãos da administração municipal contribuíram para a organização do evento, que já se firmou como uma das celebrações mais tradicionais do calendário local no mês de abril.

Dr Silvestre Gorini,  ex-prefeito e ícone  de Varre-Sai, esteve presente, e se emocionou ao relembrar sua trajetória na Lira Santa Cecília. Lembrou que o avô de Baden Powel foi o primeiro maestro da Lira Santa Cecília. 

Emocionante também foi a homenagem a Giuseppe Tupini, fundador da Lira Santa Cecília. A homenagem foi endereçada à Tia Lúcia Tupini, que representou a família e foi coroada como Rainha da Lira.

A respeito de Giuseppe Tupini, o jornal O Norte Fluminense traz aqui um depoimento de seu neto, o saudoso Orlando Tupini, que viveu seus últimos anos em Bom Jesus. 

 "ENTREVISTA HISTÓRICA COM ORLANDO TUPINI

Os avós italianos de Orlando Tupini, Giuseppe Toppini e Enrica Moscaroli Tupini, viajaram no Vapor Colombo, desde a Itália até o porto do Rio de Janeiro, chegando ao Brasil no dia 3 de abril de 1896.

Giuseppe relatava que, durante a viagem ao Brasil, os italianos se dedicavam a entoar canções de esperança, como a seguinte: 

"Noi, italiani lavoratori,

Allegri andiamo nel Brasile

E voi altri, d'Italia signore

Lavoratelo il vostro badile

Se volete mangiare" 

Segundo informa Orlando, "alguns italianos foram para Minas Gerais. Meus avós, contudo, foram até o Porto de Santos, permanecendo em São Paulo por cerca de um ano. Posteriormente, um emissário de Varre-Sai (RJ) foi a São Paulo contratar italianos para trabalharem na plantação de café. Meu avô concordou com a proposta e veio trabalhar na Fazenda Paraíso, de propriedade dos antepassados de minha esposa Margessi".

Os imigrantes vieram de trem para a região Noroeste Fluminense, onde havia uma estação em Natividade (RJ). A partir daí se deslocaram para Varre-Sai a pé, em lombo de burros ou mesmo em carros de boi.

Giuseppe Tuppini fixou-se, em primeiro lugar, na região da Cruz da Ana, exercendo as atividades de ferreiro e lavrador.

Apaixonado por música e por sanfona, Giuseppe Tupini fundou a banda de música Lira Santa Cecília de Varre-Sai".

Ao final da comemoração, no meio de discursos, músicas e lembranças, prevaleceu a sensação de continuidade. A Lira segue, fortalecida pelo passado e impulsionada pelo presente. E, como ressaltou a poetisa em sua homenagem, figuras como Coim não se despedem, permanecem, conduzindo, mesmo em silêncio, cada nova nota que ecoa pelas ruas de Varre-Sai.

O Guardião da Lira

(Poesia em homenagem ao  Coim (Antônio Alberto Monteiro), feita a pedido do professor de música  Gabriel Rampazio)


Hoje o silêncio se curva em respeito,

e a música, ainda que toque, chora baixinho.

No compasso da saudade, lembramos de você, Coim,

não com tristeza da ausência, mas com muito carinho.


Ia à frente, como quem abre portas invisíveis,

anunciando a nossa banda, anunciando alegria.

E cada passo seu, firme ou já cansado,

era coragem vestida de melodia.


Mesmo quando o corpo pedia descanso,

sua alma insistia em permanecer.

Quantas vezes a fraqueza o alcançou,

mas nunca foi capaz de te vencer.


Guardião das chaves, não só da sede,

mas do coração da Lira inteira.

Carregava no peito um orgulho bonito,

de quem guarda um tesouro e o reverencia.


Incentivador dos pequenos sonhos,

acolhia cada menino com olhar de luz.

E no elogio simples, sincero,

semeava pautas, plantava músicos.


Sentia-se dono, e era, de certo modo,

pois só pertence assim quem ama de verdade.

Um menino eterno, num corpo de homem,

feito de pureza, afeto e lealdade.


Lembro de suas mãos cheias de livros,

espalhando minha poesia no centenário da Lira 

E no gesto generoso, multiplicava cultura,

fazendo da arte sua eterna vida.


Pelas ruas de Varre-Sai, era guia, era abrigo,

um anjo atento no centro da cidade.

E entre perguntas sobre novos livros,

me ensinava, sem saber, o valor da simplicidade.


Mas quando à frente da Lira se colocava,

já não era apenas o menino sonhador:

era um pequeno grande homem, sério e altivo,

batendo o bumbo, com o peito inflado de amor.


Hoje, teu bumbo repousa, mas não silencia,

tua foto sorri, mas não se despede.

Porque quem viveu como você viveu, Coim,

não parte: permanece.


E neste encontro, entre notas e memórias,

a Lira Santa Cecília te eterniza assim:

não como alguém que se foi cedo demais,

mas como alguém que ficou para sempre em nós.

Descansa, guardião.

A banda segue… mas agora, guiada por ti.

(Isabel Menezes - Professora e Historiadora de Varre-Sai)
















































O Horizonte de Pirapetinga de Bom Jesus, por Adalto Boechat Jr

 


​Onde o horizonte se dobra em curvas, a tarde em Pirapetinga de Bom Jesus ganha um peso diferente. Não é o peso do cansaço, mas o da reverência. Ali, quando o sol se esconde atrás das serras, o mundo parece pedir licença para silenciar.

​A imagem é o retrato desse fôlego suspenso. No alto, uma lua discreta, quase um pingo de luz, observa o vale. Mas a alma da cena está nos pés, onde o mato se veste de gala para o crepúsculo. Essas pequenas flores brancas, que em bando parecem espuma de mar em terra firme, são a moldura perfeita para a quietude de Pirapetinga. São as senhoras do tempo-parado, balançando ao sabor de um vento que traz o cheiro do mato e a umidade que começa a subir do riacho.

​O Contraste do Lugar

O Céu: Um degradê absoluto que vai da claridade do dia que se foi ao azul profundo da noite que chega.

A Terra: O relevo acidentado de Bom Jesus, onde cada morro parece guardar uma história de família ou um causo antigo.

As Flores: Um exército de delicadeza, protegendo a encosta com sua textura de algodão selvagem.

​Estar ali, no meio do chão florido e a lua de Pirapetinga, é entender que a beleza não precisa de artifícios. Ela se revela na simplicidade de uma planta de beira de estrada que, sob a luz certa, torna-se uma constelação. É o interior falando baixo, lembrando-nos que, enquanto a lua vigia Pirapetinga, a vida segue seu ritmo de prece, florescendo em silêncio antes que a primeira estrela decida aparecer.

​Nesse recanto de Bom Jesus, o lírico não é um texto; é o próprio ar que se respira.