Maria Apparecida Dutra Viestel: A Sentinela da Memória
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| Maria Apparecida Dutra Viestel, a historiadora de Bom Jesus do Itabapoana |
As crônicas do tempo em Bom Jesus do Itabapoana encontram sua guardiã definitiva. Escrever sobre
Maria Apparecida Dutra Viestel não é apenas listar datas; é percorrer as veias de uma cidade que respira através de suas memórias.
Aqui, a história deixa de ser um arquivo empoeirado para se tornar uma herança viva.
O Alvorecer de uma Guardiã: As Raízes de Maria Apparecida
Há nomes que parecem impressos no solo antes mesmo de ganharem as certidões de nascimento. Maria Apparecida Dutra Viestel é o desaguar de rios antigos que moldaram o Norte Fluminense. Pelo lado materno, carrega o sangue de Pedro Gonçalves da Silva Júnior, o primeiro Intendente, e a nobreza rústica de Isabel de Figueiredo, descendente do Alferes Silva Pinto, um dos homens que primeiro desafiou o sertão para fundar o que hoje chamamos de lar.
Pelo lado paterno, a terra clama seu nome através de Joaquim Dutra, cujas mãos cuidaram das sesmarias de Quebrados quando o horizonte ainda era uma promessa de café e suor. Filha de Alice e Antonio, Maria Apparecida recebeu, junto aos irmãos Pedrinho e Lúcia, uma herança que não se mede em alqueires: a dignidade como norte e o serviço ao próximo como destino.
O Sobrado de 1921: Onde o Tempo Repousa
Caminhar pela Rua Dr. Abreu Lima é, para muitos, um trajeto cotidiano. Para Dona Maria Apparecida, é um exercício de iluminação. Sob o seu olhar, as placas de bronze ganham rosto. Ela nos revela o médico Leônidas Peixoto de Abreu Lima, o homem que, em um gesto de amizade, costurou o destino da família Dutra ao destino de Bom Jesus.
"foi o médico Leônidas Peixoto de Abreu Lima, que morava em Bom Jesus, quem convidou meu avô, que residia em Campos dos Goytacazes (RJ), para fixar-se em nosso município, uma vez que havia amizade entre ambas as famílias. Meu avô era muito jovem, na época, contando com apenas 20 anos de idade, mas se formara na Faculdade de Farmácia em Campos. Por aqui, Manoel Camargo possuía uma farmácia chamada Normal, que desejava vender. Meu bisavô, Pedro Gonçalves da Silva, que era vereador naquela cidade fluminense, emprestou dinheiro para que seu filho adquirisse o empreendimento. Pouco depois, ocorreu seu falecimento. Dessa forma, meu avô mudou-se para Bom Jesus, em 1880, juntamente com a mãe, Maria da Costa e Silva e a irmã, viúva, Maria Cecília Lopes da Costa, que foi genitora do General Fernando Lopes da Costa, que dá nome ao Estádio do Olympico FC"
Onde hoje o sol reflete nas janelas de um sobrado imponente, Manuel da Silva Fernandes, conhecido como Silva Monarca, ergueu uma das três primeiras habitações da vila, em 1840, jumtente com o português Manoel Gomes Alves e Antônio José da Silva Neném, oriundos de Rio Novo (MG).
Em 1921, Pedro Gonçalves da Silva Jr edificou ali o imponente sobrado, o sentinela arquitetônico que ainda hoje ostenta, em seu frontão, o ano de sua conclusão, um marco de pedra e cal na história bonjesuense.
A Farmácia Normal: O Alambique das Ideias
No final do século XIX, a Farmácia Normal era mais do que um balcão de botica; era o pulmão intelectual da cidade. Ali, entre frascos de vidro e o aroma de ervas medicinais, o avô de Maria Apparecida exercia um sacerdócio científico.
1. O Médico sem Anel: Na ausência de doutores, o farmacêutico era o conselheiro das dores. Atualizado por revistas médicas que chegavam de longe, ele curava corpos e estreitava laços de gratidão.
2. O Debate das Mentes: Entre o balcão e as prateleiras, o catolicismo fervoroso do Padre Mello encontrava a erudição de Octacílio de Aquino. Ali, as divergências políticas e filosóficas não separavam homens; uniam-nos no exercício nobre do pensamento.
Dona Maria Apparecida não apenas guarda esses fatos; ela os protege do esquecimento. Ela é a ponte entre o Bom Jesus de 1880, que via chegar um jovem farmacêutico e sua família, incluindo a irmã Maria Cecília, mãe do futuro General Fernando Lopes da Costa, e o Bom Jesus de hoje, que precisa saber de onde veio para entender para onde vai.
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| O sobrado onde morou Pedro Gonçalves da Silva Jr e a antiga Farmácia Normal comprada do sr. Modesto Andrade Camargo. A Farmácia Normal era o local onde se reuniam os intelectuais da época |
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| Fachada do sobrado construído por Pedro Gonçalves da Silva Jr. |
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| Praça Governador Portela é homenagem ao dirigente que deu a Bom Jesus do Itabapoana a sua 1ª emancipação em 25/12/1890 (arte: Cláudia Borges Bastos do Carmo) |