segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Mantovani


 

 

Violão Acústico


 

Música Instrumental


 

Caetano Veloso cita leitura da obra Parditude de Beatriz Bueno

 

Quando um livro encontra outro olhar



Na fotografia, há uma delicada coincidência de tempos: de um lado, Caetano Veloso, recolhido à intimidade da leitura; de outro, Beatriz Bueno, jovem autora de Partitude, segurando o próprio livro como quem segura não apenas uma obra, mas uma parte de si mesma.

E esse é o milagre da literatura: o instante em que aquilo que nasceu dentro de alguém encontra abrigo dentro de outro.

Caetano, que tantas vezes transformou palavras em música e música em pensamento, aparece agora diante de um livro que também procura compreender o Brasil por dentro, esse país mestiço, contraditório, feito de encontros, apagamentos, heranças, dores e reinvenções. Ao escolher Partitude entre suas leituras recentes, o artista estabelece uma ponte silenciosa entre gerações: a experiência de quem há décadas pensa o Brasil e a voz de quem chega agora para interrogá-lo com outros olhos.

Há algo de profundamente simbólico nessa imagem.

O livro repousa nas mãos de Caetano, mas parece atravessar a fotografia como uma pergunta. O jaguar desenhado na capa nos observa. Animal de força e de memória, ele parece representar também a coragem necessária para penetrar nas florestas profundas da identidade brasileira, onde nem tudo é evidente, onde muitas histórias foram escondidas e onde ainda procuramos compreender quem somos.

Beatriz Bueno escreve a partir de uma experiência que não pretende caber em fórmulas prontas. Ao se declarar parda e defender uma abordagem brasileira para pensar raça e mestiçagem, ela se coloca diante de um dos temas mais complexos da nossa formação. Não para oferecer respostas definitivas, mas para abrir caminhos.

É justamente aí que a literatura se torna indispensável.

Um livro não precisa encerrar uma discussão. Às vezes, sua maior grandeza está em começar uma conversa.

A fotografia de Caetano lendo Partitude é, portanto, mais do que uma recomendação de leitura. É um encontro entre a consagração e o nascimento, entre a voz que já atravessou gerações e aquela que começa a construir seu próprio lugar no mundo das palavras.

Há uma beleza especial quando um escritor é lido por alguém que também aprendeu a transformar o mundo em linguagem.

No fundo, livros são isso: encontros que acontecem longe dos olhos de quem os escreveu.

Beatriz escreveu.

Caetano leu.

E, no meio das mãos de um e das palavras da outra, o Brasil ganhou mais uma oportunidade de olhar para si mesmo.

Essa é a verdadeira irresistibilidade de certos livros: eles não terminam quando fechamos a última página.

Continuam vivendo em nós.

Vem aí o XXIIII Congresso Brasileiro de Poetas Trovadores



 

17 de Agosto: Dia do Patrimônio Histórico


 

As irmãs que a miséria não perdoou

 

Existem irmãs que, mesmo dividindo o mesmo sangue, já não conseguem reconhecer no rosto da outra a própria infância

A miséria material pode ser vencida. A moral, entretanto, é mais silenciosa



Em Os Miseráveis, Victor Hugo conhecia profundamente uma espécie de miséria que lentamente, vai também empobrecendo os afetos, até que o sangue, que deveria ser abrigo, se transforma em distância

Não apenas a miséria que deixa os bolsos vazios, mas a que invade a alma, modifica os gestos, endurece as palavras e, algumas vezes, transforma irmãos em estranhos.

Em muitas famílias, a pobreza despoja de quase tudo, menos das lembranças. Em outras a miséria, lentamente, vai também empobrecendo os afetos, até que o sangue, que deveria ser abrigo, se transforma em distância

As irmãs que aparecem à margem da grande narrativa de Hugo não precisam ocupar o centro da cena para nos ensinar alguma coisa. Elas pertencem a esse vasto coro de personagens que carregam consigo as marcas de uma sociedade desigual, onde nascer pobre significava, muitas vezes, começar a vida já devendo ao destino.

Essa é a grandeza de Victor Hugo: ele não olha apenas para os grandes personagens. Olha para os esquecidos. Para aqueles que atravessam a história quase sem deixar nome, como se a vida lhes tivesse negado até o direito de serem lembrados.

Nas relações entre irmãos, Hugo parece nos perguntar: o que acontece com o amor quando a necessidade fala mais alto? Até onde pode resistir o afeto quando a fome, a humilhação, o abandono e o ressentimento ocupam a mesma casa?

Algumas irmãs envelhecem juntas e permanecem distantes. Outras se afastam por uma palavra, por uma herança, por uma mágoa antiga. E existem as que, mesmo dividindo o mesmo sangue, já não conseguem reconhecer no rosto da outra a própria infância.

A miséria material pode ser vencida. A moral, entretanto, é mais silenciosa. Ela não se anuncia pela falta de pão, mas pela falta de compaixão.

Por isso, ao pensar nas personagens de Victor Hugo, devemos ampliar o significado da palavra miserável. Miserável não é somente quem nada possui. Miserável pode ser também aquele que possui muito e nada consegue oferecer ao outro; aquele que guarda dinheiro, orgulho ou ressentimento, mas já não guarda ternura.

As irmãs de Hugo pertencem a esse grande espelho humano de Os Miseráveis. Nele, reconhecemos não apenas a França do século XIX, mas a nossa própria humanidade.

No fim, a verdadeira tragédia não é nascer pobre.

É perder, por dentro, a capacidade de amar.