O Gosto que Bom Jesus Não Esquece
Há doces que alimentam o corpo, mas há outros que sustentam a memória. Na delicada arquitetura de um canudinho, cabe muito mais do que o recheio cremoso que espreita pelas bordas douradas; cabe uma linhagem inteira de afetos. Quando Sonia Maria e sua irmã, Silvia Maria, repetem o gesto preciso de moldar a massa, elas não estão apenas cozinhando. Estão folheando, com as mãos enfarinhadas, as páginas de uma história que começou há sete décadas, sob o olhar atento da matriarca Maria José Borges.
Tudo evoca a Barra do Pirapetinga, esse berço de águas e ramificações familiares onde o sobrenome Borges fincou raízes ainda no século XIX, pelas mãos de Francisco José. O canudinho ali nascido carrega a força do interior, o ritmo de um Brasil que se moldava entre a tradição da terra e a promessa do progresso. Imaginar a mãe, Dona Maria José Borges, vendendo esses mesmos doces na Usina Franca Amaral, aquele projeto piloto que trazia nos olhos do governador Roberto Silveira o sonho de uma Bom Jesus industrial, é compreender que a doçura também caminha junto com a história. Enquanto as turbinas e as promessas de Rosal desenhavam o futuro da região, era o aroma da massa frita e do doce apurado que acalentava o cotidiano dos trabalhadores.
O tempo passou, o tabuleiro de doces de Sonia reduziu-se em variedade, mas agigantou-se em essência. Ao optar exclusivamente pelos canudinhos, ela escolheu guardar o que há de mais sagrado na memória afetiva de sua clientela. Não se trata de comércio; trata-se de um pacto de fidelidade. Quem busca esses canudinhos na tradicional Lanchonete Guariza, no coração da cidade, não procura apenas um lanche para o final da tarde. Procura a infância perdida em um domingo de festa, o estalar crocante que ecoa em batizados e casamentos de outrora, o sabor exato daquilo que não muda em um mundo que gira depressa demais.
Olhar para o pote transparente, cheio desses pequenos cilindros perfeitos e polvilhados de açúcar, é ver a Europa dos cannoli sicilianos e dos conventos portugueses desaguando no interior fluminense. Mas, acima de tudo, é ver a vitória da persistência. Setenta anos depois, a maior riqueza da Barra do Pirapetinga não se mede em indústrias, mas sim na doçura perene que Sonia e Silvia teimam em preservar, canudinho por canudinho, mantendo viva a chama de Dona Maria José.
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| Sonia Maria da Costa Azevedo |









