A memória, quando bem cuidada, é ponte. E foi justamente uma ponte documental que a memorialista varre-saiense, açordescendente, Maria da Conceição Vargas, lançou sobre o passado - graças à eficiente pesquisa do dr. José Luiz Teixeira, hemeroteca BN - precioso registro histórico localizado no jornal A Capital, de Niterói, edição de 11 de outubro de 1902, envolvendo o açoriano Padre Antônio Francisco de Mello.
A notícia descreve o casamento do “distincto moço José Moreira” com “a Exma. Sra. D. Amelia Valladão”, cerimônia celebrada em Varre-Sahe, grafia da época, pelo Revdmo. Padre Mello, que, segundo o texto, discursou “com a eloquencia que lhe é propria, sobre os deveres da vida conjugal”. A solenidade foi seguida por jantar sumptuoso, mesa de doces “ornada de acordo com o stylo moderno” e animada soirée que atravessou a madrugada ao som da banda regida pelo maestro Ramos Baeta.
O registro vai além da crônica social. Ele confirma a atuação de Padre Mello não apenas em Bom Jesus do Itabapoana, onde sua presença é marcante, mas também em Varre-Sai, numa ação pastoral conjunta que se estendeu até 1924, conforme as pesquisas de Maria da Conceição.
O documento reforça um dado essencial: os laços culturais e religiosos entre Bom Jesus e Varre-Sai não são circunstanciais, são fundadores. Desde os primórdios da formação dos municípios, a fé, as celebrações e as famílias entrelaçaram destinos.
Há, ainda, um aspecto identitário de grande relevância: a confluência das culturas açoriana e italiana, que moldaram o tecido social das duas cidades. A tradicional Festa do Divino Espírito Santo, trazida por açordescendentes a Bom Jesus no século XIX, integra hoje o calendário religioso e cultural de Varre-Sai, sinal inequívoco dessa herança compartilhada.
O passado, portanto, respira no presente.
E esse sopro histórico ganhará novo fôlego no Encontro Intermunicipal entre Varre-Sai e Bom Jesus, marcado para o dia 16 de abril, dentro das comemorações do Mês de Padre Mello. O evento se projeta como palco simbólico de reafirmação das raízes comuns, religiosas, culturais e afetivas.
Mais que um casamento noticiado em 1902, o que se descortina é a celebração de uma identidade compartilhada. No meio de sinos, bandas e doces finamente ornados, o que permanece é o elo invisível que une dois municípios vizinhos pela fé, pela história e pela memória.
Segue a transcrição do conteúdo visível na imagem, que é um recorte do jornal "A CAPITAL", de Niterói, de 11 de Outubro de 1902. O texto está em português antigo (ortografia da época).
A CAPITAL — Sabbado, 11 de Outubro de 1902
Coluna 2
- Em Varre-Sahe realisou-se o consorcio do distincto moço José Moreira, com a Exma. Sra. D. Amelia Valladão, dilette filha do meu amigo Norberto Valladão.
Após o acto religioso, falou com a eloquencia que lhe é propria, sobre os deveres da vida conjugal, o Revdmo. Padre Mello.
Sumptuoso jantar foi gentilmente servido aos convivas pelo Sr. Valladão, que se manifestou francamente jovial e atencioso para com todos.
A mesa de doces achava-se perfeitamente ornada de acordo com o stylo moderno. Doces de diversas qualidades e caprichosamente preparados achavam-se esparsos pela mesa.
Tocou durante as cerimonias civil e religiosa e por occasião do jantar, a banda de musica local, sob a regencia do applaudido maestro Ramos Baeta.
Após a refeição começou animadissima soirée, que prolongou-se imperturbavel até ás 9 horas da manhã do dia seguinte.








