quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

UM CAUSO DE ANA MARIA SILVEIRA

 

Ana Maria Teixeira 


O vô Boanerges contou que um dia foram chegando para abrir a venda e notaram um aguaceiro saindo por baixo das portas.  Quando se aproximaram perceberam cheiro de álcool. Ao abrirem a porta viram caídos no chão dois indivíduos em sono profundo. Ao lado de cada um, sacos de estopa carregados de mantimentos (arroz, batatas, milho, tudo misturado), fumo de rolo, panelas, laços e ferraduras e nem me lembro mais o quê.

Depois do saque resolveram tomar a deliciosa cachacinha do  "sô Bornéis". Exageraram na dose e ainda largaram a torneira do barril aberta!!!


Ana Maria Silveira é filha do ex-governador Badger Silveira 


Assim Surgiram as “Silveiradas”


Ana Maria Silveira

  Roberto era um jovem de 24 anos, terminando o curso de Direito. Já era muito conhecido no ambiente estudantil pela liderança nata em movimentos desde secundarista, pela simpatia que irradiava, pelo enorme espírito de solidariedade.
Pelo PTB de Getúlio Vargas, conseguiu uma vaga para se candidatar a Deputado Federal. Imediatamente os estudantes lhe dispensaram apoio, mas era pouco para Roberto conseguir se eleger dentro de um partido incipiente, tendo à frente os já solidificados PSD do Amaral Peixoto ou a UDN do Brigadeiro Eduardo Gomes. 
O candidato não se intimidou e abraçou o desafio com alegria e seriedade, características que nunca o abandonaram.

    Dalton Gonçalves na época começava sua carreira de professor. Contava-nos, que certo dia estava lecionando numa sala em frente ao Jardim São João, no centro de Niterói. Percebeu pela janela um jovem, magrinho como um graveto, aparentando ter uns 18 anos, colocando no meio da praça um caixote que pediu para um desocupado e subindo em cima.

    De repente, um vozeirão vindo da praça: - Meu nome é Roberto Silveira...sou candidato a deputado e vou precisar de todos vocês ao meu lado...
Um aluno deu um salto da cadeira e disse, afobado:- Professor, é o Roberto! Peço licença...

    Saiu e, atrás dele, mais da metade da turma. Dalton logo conclamou os demais para assistirem ao discurso desse fenômeno que o intrigou. Narrava o fato com a mesma emoção que nos narrou desde a primeira vez. Disse que enquanto o candidato discursava a praça foi acolhendo os transeuntes curiosos, mas que, uma vez ouvindo Roberto, permaneciam magnetizados pelas suas palavras e não arredavam mais o pé de perto do futuro deputado. No final, uma multidão empolgada o aplaudia e gritava seu nome, como se fossem velhos amigos!

  Roberto sabia que a luta seria árdua. Ligou para, Boanerges, que se encontrava em Bom Jesus, dizendo:
-Papai, precisamos alavancar minha candidatura!
Para tal, Boanerges reuniu familiares e amigos e Roberto foi à cidade natal se fazer conhecido como candidato. Apesar da aparência franzina, tinha 23 anos.

  Contando com parentes e amigos, Roberto foi alavancando sua candidatura pelo Estado do Rio afora. O evento foi tomando esse nome.
-Vamos alavancar a candidatura do Roberto em Duque de Caxias! Logo os familiares e amigos do primo Moacyr do Carmo, se fizeram cabos eleitorais.
De Paracambi, a turma do querido primo Tuneca, o Antônio Botelho.
O irmão Zequinha partiu de São José de Ubá e redondezas. Badger contou com muitos amigos em Resende, onde era delegado e já estava movimentando a criação do PTB, e nas vizinhas Barra Mansa e Volta Redonda.

    Essa alavancada terminou como uma bola de neve: Roberto eleito a despeito dos políticos tradicionais e largamente conhecidos.

  Como a carreira política do Roberto não terminou por aí, “outras alavancadas” aconteceram.
As campanhas políticas se faziam por comícios em praças públicas, com os candidatos discursando. Era comum uma banda de música para chamar a atenção e atrair curiosos. Aquilo incomodava o Roberto: músicas tristes, hinos pesados, um fomforonfom muito desagradável. Apenas homens se aglomeravam em volta dos palanques.

    Rapidamente Roberto decidiu que comício deveria ser uma coisa empolgante para atrair também mulheres e crianças. Principalmente as eleitoras. Um eleitor comprometido com o Amaral Peixoto era difícil demover, mas ao conseguir o voto feminino, concorria de igual para igual!

    Chamou o compositor Vicente Amar e juntos compuseram as primeiras músicas alegres para campanhas eleitorais, que logo cairiam no gosto das crianças e das eleitoras dos votos cobiçados.

    O tempo se passou. Sobreveio a tragédia da morte do Roberto, tão amado.
Na eleição seguinte para governador, Badger foi eleito por aclamação dentro do Partido, para dar continuidade ao reconhecido trabalho político que Roberto não pôde terminar.

    A alavancada, tocada por Boanerges, foi em Jurujuba, bairro de Niterói, na casa de Elizabete Silveira, perfilhada, já adolescente, por Biluca e Boanerges. Este fez um belíssimo e emocionado discurso, dizendo que só poderíamos homenagear o Roberto com alegria, que era a sua marca, embora os corações estivessem destroçados pela saudade. Garantiu que as políticas públicas do filho não poderiam cessar e que o esforço de Roberto para fazer um grande governo iria continuar com Badger , “com o apoio do povo e a proteção de Deus!”.

    Comandou a festa, deixou todos à vontade com as marchinhas da campanha compostas pelo Rutinaldo e Vicente.

    Anos mais tarde foi a vez de “alavancar” a primeira campanha do nosso Jorge Roberto Silveira, filho de Roberto e Ismélia, igualmente amado. 

  Saiu candidato a Deputado Estadual quando Badger logo bradou: - Junta a Silveirada! Vamos alavancar a candidatura do Jorge!

  Foi a volta da alegria de se fazer uma campanha!

A Silveirada abrangia os amigos, vizinhos, estudantes, correligionários, amigos dos amigos e todos os primos e tios e os Silveiras, claro, que não eram poucos.
O Jorge nos proporcionou muitas e alegres Silveiradas!
Até que, em uma delas, tia Dinah observando a animação da festa, comentou entusiasmada: -Quando juntamos a Silveirada, é só política e gargalhada!Assim Surgiram as “Silveiradas”.


Ana Maria Silveira é filha do ex-governador Badger Silveira
 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Wilma Martins Teixeira Coutinho: uma trajetória nos governos de Roberto e Badger Silveira

Wilma Martins Teixeira Coutinho


Saudade do tempo em que, feliz, participava do Serviço Público sob a batuta, primeiro do grande governo de Roberto Silveira e segundo do não menos grande Badger Silveira. Não era um só Governo era uma grande família que com os mesmos ideais trabalhávamos  com amor pelo bem público.

Tudo era paz no começo, até o Golpe Militar que golpeou com os canhões da política extirpando os sonhos de um governo que só queria paz e melhoria para o RJ .

Os sonhos foram desfeitos, felizmente sem vítimas e provando a honradez dos Mandatários do Estado do Rio de Janeiro. Os Silveiras: dois Governadores, irmãos ilustres,  que deixaram nomes por onde passaram. 

Eu os acompanhei por dois governos, até o Golpe Militar, quando tive que me retirar para minha função de origem na Secretaria de Educação e Cultura.

A eles minha dedicação e amizade fiel que dura até hoje. 

🌺💕

Memorialista Açordescendente Maria da Conceição Vargas descobre registro de casamento celebrado por Padre Mello em Varre-Sai no ano de 1902

 



A memória, quando bem cuidada, é ponte. E foi justamente uma ponte documental que a memorialista varre-saiense, açordescendente, Maria da Conceição Vargas, lançou sobre o passado - graças à eficiente pesquisa do dr. José Luiz Teixeira, hemeroteca BN - precioso registro histórico localizado no jornal A Capital, de Niterói, edição de 11 de outubro de 1902,  envolvendo o açoriano  Padre Antônio Francisco de Mello.

A notícia descreve o casamento do “distincto moço José Moreira” com “a Exma. Sra. D. Amelia Valladão”, cerimônia celebrada em Varre-Sahe, grafia da época,  pelo Revdmo. Padre Mello, que, segundo o texto, discursou “com a eloquencia que lhe é propria, sobre os deveres da vida conjugal”. A solenidade foi seguida por jantar sumptuoso, mesa de doces “ornada de acordo com o stylo moderno” e animada soirée que atravessou a madrugada ao som da banda regida pelo maestro Ramos Baeta.

O registro vai além da crônica social. Ele confirma a atuação de Padre Mello não apenas em Bom Jesus do Itabapoana, onde sua presença é marcante, mas também em Varre-Sai, numa ação pastoral conjunta que se estendeu até 1924, conforme as pesquisas de Maria da Conceição.

O documento reforça um dado essencial: os laços culturais e religiosos entre Bom Jesus e Varre-Sai não são circunstanciais, são fundadores. Desde os primórdios da formação dos municípios, a fé, as celebrações e as famílias entrelaçaram destinos.

Há, ainda, um aspecto identitário de grande relevância: a confluência das culturas açoriana e italiana, que moldaram o tecido social das duas cidades. A tradicional Festa do Divino Espírito Santo, trazida por açordescendentes a Bom Jesus no século XIX, integra hoje o calendário religioso e cultural de Varre-Sai, sinal inequívoco dessa herança compartilhada.

O passado, portanto, respira no presente.

E esse sopro histórico ganhará novo fôlego no Encontro Intermunicipal entre Varre-Sai e Bom Jesus, marcado para o dia 16 de abril, dentro das comemorações do Mês de Padre Mello. O evento se projeta como palco simbólico de reafirmação das raízes comuns, religiosas, culturais e afetivas.

Mais que um casamento noticiado em 1902, o que se descortina é a celebração de uma identidade compartilhada. No meio de sinos, bandas e doces finamente ornados, o que permanece é o elo invisível que une dois municípios vizinhos pela fé, pela história e pela memória.

Segue a transcrição do conteúdo visível na imagem, que é um recorte do jornal "A CAPITAL", de Niterói,  de 11 de Outubro de 1902. O texto está em português antigo (ortografia da época).

A CAPITAL — Sabbado, 11 de Outubro de 1902

​Coluna 2

 - Em Varre-Sahe realisou-se o consorcio do distincto moço José Moreira, com a Exma. Sra. D. Amelia Valladão, dilette filha do meu amigo Norberto Valladão.

Após o acto religioso, falou com a eloquencia que lhe é propria, sobre os deveres da vida conjugal, o Revdmo. Padre Mello.

Sumptuoso jantar foi gentilmente servido aos convivas pelo Sr. Valladão, que se manifestou francamente jovial e atencioso para com todos.

A mesa de doces achava-se perfeitamente ornada de acordo com o stylo moderno. Doces de diversas qualidades e caprichosamente preparados achavam-se esparsos pela mesa.

Tocou durante as cerimonias civil e religiosa e por occasião do jantar, a banda de musica local, sob a regencia do applaudido maestro Ramos Baeta.

Após a refeição começou animadissima soirée, que prolongou-se imperturbavel até ás 9 horas da manhã do dia seguinte.




A Família Silveira Sob o Céu de Bom Jesus

Por Gino Martins Borges Bastos

Boanerges Borges da Silveira, Maria do Carmo Teixeira da Silveira e os filhos Badger, Roberto, José Teixeira, o Zequinha, e Dinah, em 1925

Há cidades que guardam histórias.

E há cidades que geram destinos.

Bom Jesus do Itabapoana, entre o verde das montanhas e o murmúrio do rio, viu nascer uma família que transformaria o espaço doméstico em semente de vida pública. No centro dessa constelação estavam Boanerges Borges da Silveira e Maria do Carmo Teixeira da Silveira, a doce e firme Biluca.

Boanerges tinha o porte dos homens que entendem o peso da palavra. Açordescendente, seu nome atravessou o tempo como quem atravessa pontes: com passo seguro e visão adiante. Era homem de convicções, de compromisso com a terra e com sua gente. Ao seu lado, Biluca era o coração da casa, presença de serenidade, fé e estrutura invisível. Se ele representava o rumo, ela era o alicerce.

Da união dos dois nasceu mais que uma família: nasceu um capítulo da história fluminense.

Roberto Silveira e Badger Silveira, governadores, levaram para além das divisas de Bom Jesus o eco das primeiras lições aprendidas no lar. Governar, para eles, não era apenas exercer poder, era honrar uma origem. Em seus gestos públicos, havia sempre algo da educação doméstica: o senso de dever, a escuta, o compromisso com o coletivo.

Zequinha Silveira, deputado federal pelo Paraná, seguiu a trilha da representação política, voz que atravessa plenários mas que tem raiz no quintal da infância. A política, ali, parecia extensão natural da mesa da família, onde se aprendia a dialogar, ponderar e decidir.

E as filhas, Dinah Silveira e Maria da Penha Silveira, completavam o círculo com a mesma dignidade herdada. Em tempos em que a presença feminina na vida pública era menos comum, carregaram consigo a elegância do nome e a força silenciosa de Biluca.

Tudo começou ali, na cidade pequena que ensinou grandeza.

Imagino a casa dos Silveira, no Sítio Rio Preto e na Fazenda São Tomé, como um lugar onde as conversas iam além das paredes, onde o futuro era discutido à luz de lamparinas e sonhos. O pai falando de responsabilidade; a mãe ensinando que firmeza pode caminhar com ternura. E as crianças, ainda sem saber, ensaiando seus próprios papéis na história.

Bom Jesus não lhes deu apenas o berço, deu-lhes horizonte. E eles devolveram à cidade reconhecimento, memória e identidade.

Hoje, quando se pronunciam os nomes Roberto, Badger, Zequinha, Dinah ou Maria da Penha, há sempre um eco que nos leva de volta a Boanerges e Biluca. Porque antes dos cargos vieram os valores. Antes da tribuna, a educação. Antes da história pública, a história íntima.

Algumas famílias constroem casas.

Outras constroem legado.

E sob o céu de Bom Jesus do Itabapoana, o nome Silveira permanece como árvore antiga: raízes profundas na terra natal, ramos que tocaram o Estado inteiro, e sombra que ainda hoje abriga a memória de um tempo em que política era, antes de tudo, vocação.


No dia 7 de agosto, celebraremos os 10 anos do Memorial Governadores Roberto e Badger Silveira, uma década preservando a memória, a história e o legado de homens públicos que marcaram o Rio de Janeiro.

Será também dia de homenagear a grande família Silveira, carinhosamente conhecida como a Silveirada: raízes firmes em Bom Jesus do Itabapoana, galhos que se estenderam pela vida pública e frutos que continuam a inspirar gerações.

Uma celebração de memória, gratidão e pertencimento. 


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Convite da CAES: os 213 anos da chegada dos imigrantes açorianos ao Espírito Santo




 

Exclusivo da TV Alcance,: a entrevista histórica com Antônio Carlos Pereira Pinto, em 26/08/2023