Michael foi um jovem irlandês condenado por roubar algumas espigas de milho para alimentar sua família. Por isso, ele deixa de ser apenas um personagem. Torna-se o rosto de todos os homens e mulheres que, diante da miséria, descobriram que a fome pode transformar um gesto de amor em crime. Mary, que permanece na terra natal enquanto o marido segue para o exílio, representa todas as despedidas que jamais conheceram um reencontro.
Há algo profundamente humano nessa narrativa. A justiça dos homens condena; a justiça da consciência absolve. O delito de Michael não nasceu da ganância, mas do amor. E talvez por isso sua história tenha atravessado o tempo até transformar-se em canto coletivo.
É comovente perceber que, décadas depois de composta por Pete St. John, The Fields of Athenry, a canção tenha adquirido a alma das velhas baladas irlandesas. Quando milhares de vozes a entoam nos estádios antes de uma partida de futebol ou de rugby, já não se canta apenas por uma vitória esportiva. Canta-se pelos que partiram, pelos que morreram de fome, pelos que cruzaram oceanos levando na bagagem apenas a saudade e a esperança de dias melhores.
Os campos de Athenry permanecem deitados sob o céu da Irlanda, mas a canção fez com que eles florissem em todos os continentes. Cada imigrante irlandês levou consigo um pedaço desses campos invisíveis, cultivados não pela terra, mas pela memória.
