quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Bom Jesus, a Cidade-Jardim, em Debate: O Papel do Urbanismo de Padre Mello e as Reflexões de Raul Travassos e Elcio Xavier

 

Arte: Claudia Borges Bastos do Carmo


Os mapas e o traçado urbano de Bom Jesus do Itabapoana mantêm relação direta com o trabalho técnico e a visão estratégica do Padre Mello, que exerceu, na prática, as funções de urbanista e agrimensor em uma época em que tais profissionais eram raros no interior fluminense.

Mais do que registrar o espaço, ele o pensou, e, ao pensá-lo, ajudou a moldar o futuro da cidade.

O primeiro mapa do município

Autor do primeiro mapa detalhado de Bom Jesus do Itabapoana, Padre Mello produziu um documento técnico fundamentado em observações de campo e sólidos conhecimentos de agrimensura.

O traçado destacava o curso do Rio Itabapoana e a topografia local, elementos decisivos para definir áreas seguras de expansão urbana, afastadas das cheias e de terrenos instáveis.

O mapa também ofereceu base para a organização administrativa, permitindo à gestão pública delimitar fronteiras e estruturar o território em fase de consolidação política.

O alinhamento das ruas e a lógica da ordem

Como agrimensor, Padre Mello participou do alinhamento de diversas ruas do núcleo central. Utilizando um teodolito, hoje preservado no Espaço Cultural Luciano Bastos, assegurava retidão às vias e proporcionalidade aos lotes.

O traçado urbano revela preocupação com simetria e ordem, refletindo a mesma racionalidade aplicada à construção da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus.

O Largo da Matriz, situado em ponto elevado e articulado à atual Praça Governador Portela, consolidou-se como eixo central da cidade, de onde as ruas irradiam. Trata-se de uma concepção alinhada ao urbanismo colonial e eclético: a cidade organizada em torno do templo, integrando fé, comércio e convivência social.

Soluções urbanas criativas

Entre as intervenções técnicas atribuídas a Padre Mello destaca-se a solução para o desnível do terreno em frente à igreja.

Para que a Matriz avançasse até a rua com imponência monumental, ele projetou a construção de pontos comerciais na base inferior, criando um platô artificial. A solução integrou o edifício religioso ao fluxo urbano, harmonizando arquitetura e atividade econômica, proposta moderna para o início do século XX.

No caso da Praça Governador Portela, o platô artificial não foi apenas solução de engenharia. Foi decisão urbanística que permitiu:

a) conferir monumentalidade à igreja;

b) integrar o templo à malha urbana;

c) organizar o centro da cidade;

d) consolidar sua identidade visual.

O que poderia parecer simples ajuste de terreno revela-se parte de um projeto maior: transformar Bom Jesus do Itabapoana em uma cidade planejada, ordenada e simbolicamente estruturada.

Diálogo entre gerações de gênios

Décadas depois, a configuração da praça central motivou reflexões do genial cenógrafo, médico, músico  e memorialista Raul Travassos, um dos nomes mais expressivos da cultura bonjesuense e nacional, responsável, com recursos próprios, pela construção da Igreja Nossa Senhora de Fátima.

Travassos questionou o rebaixamento da praça diante da Matriz. Segundo sua análise, a área originalmente elevada estendia-se da igreja até as proximidades do antigo Big Hotel. Pela lógica construtiva, argumentava que o rebaixamento teria ocorrido em período anterior a 1900, pois edifícios históricos como o antigo Bar Central e os prédios da família Seródio não poderiam ter sido erguidos em acentuado desnível.

Consultado à época, o memorialista e Príncipe dos Portas bonjesuense Elcio Xavier, responsável pela doação do mapa de Padre Mello ao Espaço Cultural Luciano Bastos, apresentou interpretação complementar. Segundo ele, houve rebaixamentos em trechos distintos, tanto na área próxima à Igreja quanto na região que margeia o antigo hotel. Pesquisas posteriores indicam que a intervenção inicial foi realizada por outro personagem central da história local: o açoriano Padre Antônio Francisco de Mello, que chegou ao município em 18 de junho de 1899.

O debate demonstra que a paisagem urbana é resultado de camadas sucessivas de inteligência e trabalho,  verdadeiro diálogo entre gerações.

Ao conhecer os resultados das novas pesquisas, Raul Travassos sintetizou com lirismo a dimensão do legado: Padre Mello, além de sacerdote, poeta e agrimensor, foi um urbanista apaixonado por sua terra e o arquiteto da incomparável Matriz do Senhor Bom Jesus.

Preservação da memória cartográfica

Hoje, manuscritos e mapa encontram-se preservados no Espaço Cultural Luciano Bastos.

O conjunto documental demonstra que Bom Jesus do Itabapoana não cresceu ao acaso. Houve método, visão e planejamento. Houve quem medisse o solo com rigor e sonhasse a cidade como uma verdadeira cidade-jardim, organizada e integrada, distante do crescimento desordenado que marcou tantas vilas do interior.

No meio de régua e oração, entre cálculo e inspiração, Padre Mello desenhou não apenas ruas,  mas horizontes.





Elcio Xavier, o Príncipe dos Poetas 

Raul Travassos é a fachada da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus, edificada por Padre Mello


 



 


 


 


 


 


A primeira avenida de Bom Jesus e o Desenho do Futuro Urbano de Bom Jesus do Itabapoana por Padre Mello

 

Primeiro mapa de Bom Jesus foi confeccionado por Padre Mello em 1940 (Acervo do Espaço Cultural Luciano Bastos, doado por Elcio Xavier, o Príncipe dos Poetas)

As contribuições do Padre Mello para a cartografia de Bom Jesus do Itabapoana permanecem como um dos capítulos mais sólidos da história urbana do município. Seus mapas não são apenas relíquias: continuam a servir de referência para historiadores, arquitetos e urbanistas que buscam compreender como a cidade foi pensada, e não simplesmente ocupada.

Mais do que desenhar ruas, ele projetou o crescimento.

O mapa de 1940: um marco documental

Entre os documentos preservados no Espaço Cultural Luciano Bastos (ECLB), destaca-se o mapa datado de 15 de março de 1940,  uma peça histórica de notável precisão técnica.

Elaborado com base em medições realizadas com seu teodolito, o documento delimita áreas urbanas e divisas de grandes fazendas, oferecendo um retrato fiel da organização territorial do período.

Mais do que registro, o mapa foi instrumento de gestão pública. Às vésperas das celebrações do centenário da cidade, em 1942, ele forneceu base concreta para o planejamento de estradas e infraestrutura rural, consolidando um ordenamento que dialogava com o futuro.

A primeira avenida e a disputa do nome

A influência de Padre Mello no traçado urbano tornou-se literal na concepção da primeira grande avenida da cidade,  hoje conhecida como Avenida Padre Mello.

O projeto previa uma via mais larga e alinhada que as ruas estreitas então predominantes, antecipando o aumento do tráfego e a expansão urbana. Visionário, o sacerdote desejava chamá-la “Avenida da Mocidade”, expressão de esperança no porvir.

Entretanto, uma disputa na imprensa local, liderada pelo jornalista Silvio Fontoura,  levou à consagração popular de seu próprio nome. Em gesto de humildade, ele resistiu à homenagem, mas a vontade coletiva prevaleceu. Hoje, a avenida é uma das principais artérias da cidade, abrigando inclusive a Secretaria de Cultura e sendo ponto de proximidade com o próprio ECLB.

O coração urbano: praça e matriz

Raul Travassos, um dos gênios de nossa cultura, sempre pontuou, cotejando fotos de épocas antigas,  a respeito do rebaixamento da praça Governador Portela. Hoje, as pesquisas trazem luz sobre esse rebaixamento. No desenho do centro histórico, Padre Mello consolidou o Largo da Matriz como ponto mais alto e irradiador do traçado urbano. Ali, fé e geografia se encontram.

A partir desse eixo monumental, que dialoga com a atual Praça Governador Portela, as ruas foram organizadas de forma lógica e integrada. A igreja não permaneceria isolada: estaria conectada ao comércio e às residências, criando fluxo contínuo e definindo o centro vital da cidade até os dias de hoje.

Cadernos de geografia viva

Além dos mapas oficiais, sobrevivem cadernos técnicos que funcionam como verdadeiro diário geográfico da região. Neles, encontram-se medições das margens e profundidades do Rio Itabapoana, anotações destinadas à prevenção de cheias e registros que ajudaram a fixar a toponímia local, muitos nomes ainda oficialmente utilizados.

O mapa de Padre Mello é, em essência, a certidão de nascimento do ordenamento urbano de Bom Jesus do Itabapoana. Impressiona que um homem dedicado ao altar tenha exercido, com igual rigor, o papel de agrimensor e planejador.

No meio da fé e cálculo, ele desenhou não apenas ruas e divisas,  desenhou o futuro físico de uma cidade inteira.

Festa Italiana de Arte e Cultura

 


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Aproveite cada segundo sua vida, por Rogério Loureiro Xavier

 



*"Olá 🖐 pessoa amiga e do bem."*


*"O melhor dia da sua vida é sempre aquele que está começando!"*

Nessa vida não somos donos de nada. Nem da alma, nem do coração, nem da própria vida. 

Tudo é passageiro, tudo é empréstimo do tempo. 

Somos donos apenas dos momentos que escolhemos viver, das escolhas que fazemos enquanto estamos aqui,  dos sentimentos que cultivamos e do amor que deixamos pelo caminho. 

Porque no fim, não levamos posses ... levamos histórias, memórias e tudo aquilo que sentimos de verdade. 

*"Reflita..."*

*"Aproveite cada segundo sua vida, pois na vida não há retorno, apenas recordações... "*


*"✍️ ... Rogerio Loureiro Xavier"*

A homenagem a Florbela Espanca, Sublime Voz da Literatura Portuguesa

"Tenho em mim todos os sonhos do mundo” (Florbela Espanca)


No silêncio delicado da tarde, quando a luz parece pousar como rendilha sobre os ombros da cidade, ergue-se a memória viva de Florbela Espanca, uma das mais elevadas vozes da Literatura Portuguesa, chama intensa que ardeu em verso e fez da palavra um espelho da alma.

Florbela não escreveu apenas poemas; escreveu confidências. Deu voz à alma feminina quando o mundo ainda lhe pedia silêncio. Transformou dor em beleza, saudade em música, desejo em eternidade. Nos seus sonetos, o amor é febre e vertigem; a solidão, um jardim crepuscular; e o sentir, sempre profundo, transbordante, quase indomável.

É sob essa atmosfera lírica que o Grupo Florbeliano, dedicado ao estudo e à divulgação de sua obra, convida todos os amantes da poesia para um encontro especial, um tributo à poeta que eternizou sentimentos em verso e fez do coração matéria literária.

O encontro realizar-se-á no Consulado Geral de Portugal, no Rio de Janeiro, espaço de cultura e identidade, onde a palavra portuguesa encontra abrigo e ressonância.

📜 26 de fevereiro

🕰 Das 14h30 às 17h

Que seja uma tarde de partilha, de leitura e de redescoberta,  como se, por instantes, a própria Florbela nos sussurrasse ao ouvido seus versos inquietos e eternos.

Porque há poetas que passam.

E há aquelas que permanecem, vivas, intensas, necessárias.


Os 213 Anos da Chegada dos Açorianos ao Espírito Santo e a Nomeação dos Embaixadores da Açorianidade pela CAES







Sob o céu morno e chuvoso de fevereiro, a memória atravessou o Atlântico e ancorou novamente em solo capixaba. No dia 24 de fevereiro de 2026, a Casa dos Açores do Espírito Santo celebrou os 213 anos da chegada dos imigrantes açorianos em Viana, no Espírito Santo, e não foi apenas uma data, mas um reencontro com as próprias raízes.

Era terça-feira, às 19 horas, quando o salão se encheu de vozes, cumprimentos e sobrenomes que carregam mares no som. A homenagem aos açordescendentes concedeu o título de Embaixadores da Açorianidade ao Dr. Pedro Antônio de Souza, a Eraldo Salotto de Rezende e ao Dr. Gino M. Borges Bastos, nomes que agora se entrelaçam oficialmente à história que ajudam a preservar.

A saudação aos novos Embaixadores, conduzida por Maria Dolores Pimentel, foi magnífica. Não apenas pelas palavras escolhidas, mas pelo sentimento que percorreu o ambiente. Escritora de São José do Calçado, terra de montanhas e tradições no sul capixaba, Maria Dolores levou ao púlpito mais que protocolo: levou literatura viva. Poetisa, escritora e historiadora, tem o dom de enxergar história onde muitos veem apenas datas. Sua saudação foi página aberta e verso falado, ponte entre São José do Calçado e as ilhas açorianas, unidas pelo fio invisível da cultura e da palavra.

Os novos Embaixadores agradeceram a homenagem e assumiram o compromisso de serem guardiões da açorianidade. Em momento de grande emoção, o Dr. Pedro Antônio de Souza tomou a palavra e, com a voz embargada, abriu uma janela para a própria infância. Recordou que, ainda menino, ouvira de sua mãe a revelação singela e decisiva: suas origens eram açorianas. A informação, então, foi como semente lançada ao solo da inocência. Jamais imaginaria que, na maturidade, integraria uma entidade dedicada justamente à preservação dessa herança.

E completou, com simplicidade profunda:

— É em memória de minha mãe que também estou aqui.

A frase pairou no ambiente como prece. Não era apenas declaração; era reencontro. Como se o passado tivesse atravessado o tempo para ocupar uma cadeira no salão. Compreendeu-se, então, que a açorianidade vive sobretudo na memória afetiva que une mães e filhos, gerações e destinos. Em seguida, declamou uma linda poesia da poetisa são-pedrense Maria Antonieta Tatagiba.

Presente ao memorável evento esteve Francisco Amaro, açoriano da Ilha Terceira, poeta, escritor, memorialista, cantor e compositor, apaixonado por tudo o que vem dos Açores. Pediu licença para ler palavras em homenagem aos 213 anos da chegada dos açorianos em Viana, no Espírito Santo, emocionando dois importantes nomes da cultura açoriana: João Vieira Jerônimo, reconhecido na Ilha de São Miguel como grande incentivador dos valores culturais daquela ilha onde nasceu o Padre Antônio Francisco de Mello; e a poetisa Maria Francisca Bettencourt, fundadora do Grupo da Canção Regional Terceirense, na Ilha Terceira.

Cumprimentou ainda os novos Embaixadores da Açorianidade e reconheceu a atuação do Dr. Nino Moreira Seródio, presidente da Casa dos Açores do Espírito Santo, e de sua esposa, Dra. Samira, pelo esforço e dedicação na condução da instituição.

Em seguida, apresentou uma canção. A música chegou como bruma suave. Ao violão, interpretou “Ilhas de Bruma”, e cada acorde pareceu redesenhar paisagens açorianas na imaginação dos presentes, falésias, vento salgado e o infinito azul que separa e une continentes. Em seu olhar percebia-se que a música não era apenas som, mas território. Cada nota encontrava eco em sua travessia interior, como se as ilhas fossem destino inscrito na alma.

A noite também foi de conhecimento. Foi lembrada a professora Fabiene Passamani, que apresentou sua tese de doutorado em História Social pela Universidade Federal do Espírito Santo, intitulada Dos Açores ao povoamento da Colônia de Santo Agostinho  - Viana/ES. A pesquisa revelou nuances políticas e sociais da presença açoriana na formação de Viana, reafirmando que identidade não é apenas herança: é construção contínua.

Em seguida, a “Viagem Musical” foi conduzida por José Antônio Borges Alvarenga, vice-presidente da Casa e cantor consagrado. Generoso em sua arte, possui repertório vasto, como oceano onde cada canção é ilha e cada verso, porto seguro. Sua origem açoriana transparece nos gestos: numa das mãos, a taça de vinho português erguida em brinde à memória dos antepassados; na outra, o microfone firme, transformando lembrança em canto. Sua voz, naquela noite, não apenas ecoou - navegou.

Na dedicada função de secretária, Maria Cristina Borges exerce papel essencial na engrenagem silenciosa que sustenta a instituição. Com organização e sensibilidade, transforma rotinas administrativas em alicerces firmes para que a cultura açoriana floresça.

À frente da Casa está o Dr. Nino Moreira Seródio, cuja presença serena traduz compromisso com a preservação da memória açoriana em terras capixabas. Sob sua presidência, a instituição é porto de identidade, espaço onde tradições encontram continuidade e onde o passado dialoga com o presente.

O evento reuniu diversas personalidades, entre elas o consagrado historiador capixaba Gerson França, presente a convite do Dr. Antônio Pedro de Souza. 

Na ocasião, também foram comemorados os quatro anos de fundação da Casa dos Açores do Espírito Santo, com o tradicional bolo e o canto de “Parabéns”.

TV Alcance, sob a direção de Isac Nascimento, realizou mais uma expressiva cobertura do evento, registrando os principais momentos da solenidade e contribuindo para a divulgação da cultura açoriana no Espírito Santo.

No meio de cumprimentos e memórias compartilhadas, percebia-se que aquela celebração não era apenas institucional, mas profundamente afetiva. A açorianidade ali celebrada não é apenas lembrança do que foi, é permanência, é identidade, é mar que continua a tocar a terra capixaba.