sábado, 3 de outubro de 2026

O velho enxadrista e os enigmas da vida

 

No tabuleiro do tempo, cada rosto guarda uma história



À luz de uma lamparina, dois homens se inclinam sobre um tabuleiro. Ao redor, os livros guardam histórias de outros homens, outras ambições, outros tempos. Uma mão suspende uma peça, enquanto o velho jogador acompanha o movimento com os olhos. Por um instante, tudo parece depender daquela escolha.

Assim também vivemos. Há dias em que avançamos confiantes; em outros, permanecemos imóveis, receosos de perder o pouco que conseguimos proteger. Fazemos planos, defendemos posições, procuramos uma saída onde a vida parece ter fechado todas as portas.

Sobre o tabuleiro, o rei carrega a importância de sua coroa. O peão segue a pé, uma casa depois da outra, exposto aos perigos do caminho. Talvez por isso tenhamos ternura pelos peões: conhecem a distância pelo esforço de atravessá-la. Cada pequeno avanço lhes custa alguma coisa.

Mas chega a hora de encerrar a partida.

A mão que recolhe as peças já não precisa respeitar hierarquias. Deita o rei ao lado do peão, aproxima os adversários, guarda na mesma caixa aqueles que, minutos antes, pareciam separados por destinos inconciliáveis.

“Ao fim do jogo, o rei e o peão voltam para a mesma caixa.”

Há uma tristeza serena nessa imagem. Ela nos lembra que os lugares ocupados durante a vida são provisórios. A cadeira de honra será oferecida a outro. O nome chamado com reverência poderá, um dia, soar estranho aos que vierem depois. A casa continuará recebendo a luz da manhã quando já não estivermos à janela.

Talvez nos fizesse bem recordar isso enquanto ainda podemos abrir uma porta, atender um telefonema, pedir perdão.

Quem compreende a brevidade de sua passagem encontra menos motivos para humilhar alguém. Aprende a olhar nos olhos de quem lhe serve o café, de quem varre a rua, de quem espera uma oportunidade. Descobre que uma pessoa não cabe no cargo que ocupa nem na roupa que veste. Há dores silenciosas sob os tecidos mais finos; há grandeza em mãos marcadas pelo trabalho.

E há uma espécie de vitória que o tabuleiro não registra.

É a do homem que poderia ferir e escolhe poupar. A de quem chega mais longe e volta para ajudar alguém no caminho. A de quem escuta uma história já contada muitas vezes porque sabe que, para aquele velho, contá-la é ainda permanecer um pouco entre os seus.

Pensamos então na caixa fechada, no silêncio das peças, na lamparina que alguém apagará. A partida terminou, mas os dois jogadores talvez continuem à mesa. Um oferece ao outro um pouco de vinho. Conversam sobre a infância, lembram um amigo, sorriem de um erro cometido muitos anos atrás.

E o tabuleiro, agora vazio, deixa espaço para aquilo que a disputa havia suspendido: a companhia.

Quando chegar nossa hora de ser recolhidos pelo tempo, alguém se lembrará de como se sentia perto de nós. Talvez esqueça nossas vitórias, mas guarde a tarde em que lhe fizemos companhia, a palavra que lhe devolveu coragem, o abraço em que pôde finalmente chorar.

O rei e o peão repousarão juntos.

E, do lado de fora da caixa, o amor que oferecemos ainda terá a quem aquecer.

Carnaval no Fogo: a estreia do Cine Monte Líbano, vivida por Roberto e Ismélia Silveira

 

Carnaval no Fogo: o primeiro filme do Cine Monte Líbano e o início de uma história de amor com Bom Jesus


 Ismélia e Roberto Silveira assistiram juntos à exibição do primeiro filme do Cine Monte Líbano, por ocasião de sua inauguração


Existem luzes que continuam acesas dentro de uma cidade, mesmo depois que as portas se fecham e o silêncio ocupa as salas. A luz do Cine Monte Líbano permaneceu assim: guardada na memória de quem, diante de sua tela, aprendeu a rir, a se emocionar e a sonhar.

Em sua inauguração, em 14 de agosto de 1950, o primeiro filme exibido foi Carnaval no Fogo, com Anselmo Duarte, Eliana Macedo, Oscarito e Grande Otelo. Naquela primeira sessão, Bom Jesus do Itabapoana recebia o encanto daqueles artistas e começava a escrever sua própria história dentro do cinema.

Podemos imaginar a expectativa diante da tela, as conversas baixando de volume, os olhos atentos ao instante em que a projeção começaria. Depois, o riso encontrando caminho entre as poltronas, aproximando pessoas que talvez nem se conhecessem. Cada espectador levaria para casa alguma coisa daquela noite, uma cena, uma graça, uma emoção, e o desejo de voltar.

Entre as lembranças preciosas do Cine Monte Líbano está a de Ismélia Saad e Roberto Silveira, que ali assistiram juntos a Carnaval no Fogo. Ela, filha de Merhige Hanna Saad, o homem que construíra aquele espaço; ele, açordescendente, que também inscreveria seu nome na história de nossa terra e do estado do Rio de Janeiro, e se projetou para ocupar a presidência do país.

Essa imagem comove pela simplicidade: Ismélia e Roberto lado a lado, acompanhando o mesmo filme, compartilhando o mesmo instante. Hoje, ao recordá-los, sentimos quanto da vida permanece nos lugares por onde passamos. Uma sala de cinema pode guardar, por décadas, a delicadeza de uma presença, a alegria de um encontro, a memória de um amor.

Para Ismélia, aquele prédio tinha ainda uma dimensão íntima. Era uma realização de seu pai. Nas paredes do Monte Líbano, havia o trabalho de Merhige Hanna Saad, sua coragem e o sonho que oferecera à cidade. O nome de sua terra de origem encontrava morada em Bom Jesus, enquanto a tela abria janelas para tantos outros mundos.

O tempo passou. Vieram novas gerações, outros costumes, outras maneiras de assistir a filmes. Mas quem conheceu o Monte Líbano sabe que certas emoções pertencem também ao lugar: à entrada, à sala, à espera, à experiência de se comover junto com os outros.

Por isso, a aquisição do prédio Monte Líbano e de seu cinema pela UniFAMESC toca tão profundamente nossa memória. Por meio de seu visionário sócio-proprietário, Carlos Henrique Medeiros, abre-se a perspectiva de resgatar uma parte relevante da história e da cultura bonjesuenses.

Há uma beleza especial nesse encontro entre educação e memória. Os jovens que vierem a frequentar aquele espaço poderão conhecer o nome de Merhige, descobrir as histórias de Ismélia e Roberto e compreender por que tantas pessoas ainda pronunciam “Monte Líbano” com carinho. E poderão, sobretudo, acrescentar suas próprias lembranças às que já vivem ali.

É essa possibilidade que nos enche de esperança: ver o antigo cinema acolher novamente passos, vozes, encontros e aplausos. Ver seu passado tornar-se presença na vida da cidade.

Quando a luz voltar a atravessar aquela sala, muitos de nós sentiremos vontade de olhar ao redor, como quem procura alguém querido. Na memória, estarão Merhige Hanna Saad, Ismélia, Roberto Silveira e tantos bonjesuenses que fizeram daquele cinema uma parte de suas vidas.

E, diante da tela, haverá novos olhos.

Que eles possam brilhar como brilharam os olhos daquela primeira plateia. Que o sonho de Merhige encontre, no trabalho de Carlos Henrique Medeiros e da UniFAMESC, caminhos para continuar.

Bom Jesus ainda tem muitas histórias para viver no Monte Líbano.



Reflexão Sobre a Vida, por Rogério Loureiro Xavier

 


Olá 🖐 pessoa amiga e do bem.


*"Reflexão Sobre a Vida"*


Às vezes pensamos que nos falta alguma coisa para sermos verdadeiramente felizes.


Mas, com o tempo, percebemos que a felicidade nasce quando aprendemos a valorizar o que já temos e agradecemos  pelo simples privilégio de estarmos vivos.


A vida não se torna bonita porque desaparecem os problemas.


Ela se torna mais leve quando escolhemos enxergar motivos para continuar, cultivar esperança, sorrir e seguir em frente nos dias mais difíceis.


*✍️ ... Rogerio Loureiro Xavier*

MI UNICORNIO AZUL


 

LOCURAS


 

Xadrez nas Américas: o Brasil em quarto lugar com média de 2492 pontos

 


O levantamento apresentado para outubro de 2026, baseado na média Elo dos dez melhores jogadores de cada federação na categoria Open, desenha um retrato dessa América enxadrista. Os Estados Unidos aparecem à frente, com 2723 pontos. Depois vêm Argentina, Cuba, Brasil e Peru; México, Canadá, Colômbia, Chile e Venezuela completam os dez primeiros lugares.

Os números organizam a classificação. A vida que os produziu, porém, espalha-se por milhares de mesas: clubes, escolas, praças, salas de estudo. Antes de chegar a uma lista, cada ponto passou por uma partida. Houve quem encontrasse uma combinação luminosa quando o tempo já escasseava; houve quem voltasse para casa com uma derrota e, mesmo cansado, abrisse o tabuleiro para compreender onde havia errado.

O Brasil ocupa a quarta posição continental, com média de 2492 pontos. É uma colocação que convida a olhar com carinho para nossos jogadores e com atenção para o caminho de quem está começando. Em algum lugar do país, uma criança aprende hoje que o cavalo salta. Outra descobre que um peão, depois de uma longa travessia, pode transformar-se em dama. Talvez nenhuma delas conheça ainda a palavra rating. Conhecem, contudo, a alegria de fazer um bom lance, e essa alegria merece encontrar portas abertas.

Para que o talento amadureça, é preciso haver quem ensine, quem organize torneios, quem mantenha um clube funcionando, quem ajude um jovem a viajar. Há muito trabalho discreto por trás de uma bandeira bem colocada. Às vezes, o futuro de um jogador começa no gesto de um professor que fica alguns minutos a mais para explicar uma posição.

Da Argentina à Venezuela, passando por cada país dessa lista, o xadrez reúne histórias diferentes em torno de uma experiência comum: pensar, escolher e aceitar as consequências de um movimento. O adversário sentado à nossa frente também carrega seus sonhos. Ao fim da partida, o aperto de mãos devolve humanidade à disputa.

Essa classificação é uma fotografia. Amanhã, outras peças estarão em outras casas. Que, até lá, mais crianças encontrem um tabuleiro, mais mestres encontrem condições para ensinar e mais talentos possam seguir adiante.

O próximo grande lance da América talvez esteja sendo ensaiado agora, numa mesa simples, sob o olhar paciente de alguém que acredita.

Olimpíada de Xadrez 2028: sob o céu de Abu Dhabi, um encontro entre povos


Essa é a esperança que a imagem desperta: a de que cada pessoa encontre espaço para desenvolver aquilo que traz consigo
 


No cartaz, Abu Dhabi se ergue entre o azul e o ouro, como uma cidade que recolheu a luz do poente para guardá-la em suas torres. À frente, um tabuleiro parece prolongar-se até as águas. Sobre ele, as peças aguardam: há nessa quietude a promessa de milhares de histórias prestes a se encontrar.

A imagem anuncia a Olimpíada de Xadrez de 2028. Mas, antes mesmo de qualquer lance, já nos convida a imaginar a chegada dos jogadores. Cada um levará na bagagem alguma coisa que não aparece nas fotografias: o primeiro tabuleiro, a voz de um professor, as derrotas que custaram o sono, o sacrifício de uma família, a alegria de descobrir uma combinação.

Quantos caminhos serão necessários para chegar àquela mesa! Alguns terão começado em clubes tradicionais; outros, numa escola pequena, diante de peças gastas pelo uso. Talvez um futuro representante de seu país esteja agora aprendendo a mover um cavalo, sem suspeitar de que aquele salto poderá levá-lo tão longe.

Emociona ver, no mesmo cartaz, o anúncio da Olimpíada para pessoas com deficiência. A presença desses jogadores pede condições de participação e reconhecimento de seu talento. Diante do tabuleiro, estarão pessoas com ambições, estilos e histórias próprias, desejosas de competir, aprender e conquistar.

Pensamos nas mãos que conduzirão aquelas peças. Mãos jovens, mãos experientes, mãos que talvez tremam nos segundos finais. Cada movimento carregará uma decisão; cada decisão, a coragem de assumir suas consequências. Mesmo no silêncio de uma sala de jogos, a vida se manifesta com intensidade.

E pensamos também em nossos estudantes de Bom Jesus, descobrindo o xadrez, abrindo um livro, repetindo uma partida, aprendendo a esperar. Há uma ligação delicada entre esses pequenos gestos e a grande reunião anunciada na imagem. O mundo do xadrez cresce assim: alguém ensina, alguém se encanta, alguém decide continuar.

No brilho dourado do cartaz, o rei parece imponente. Nosso olhar, porém, procura os peões. São eles que avançam devagar, casa por casa, expostos às dificuldades do caminho. Às vezes, um deles chega à última fileira, e aquele pequeno corpo, que parecia destinado a tão pouco, ganha uma nova possibilidade.

Essa é a esperança que a imagem desperta: a de que cada pessoa encontre espaço para desenvolver aquilo que traz consigo.

Sob o céu de Abu Dhabi, no meio de bandeiras e tabuleiros, haverá partidas memoráveis. Mas haverá também um instante discreto, repetido muitas vezes, que merece ser guardado: dois desconhecidos estendendo as mãos antes do primeiro lance.

Nesse gesto, o mundo inteiro poderá caber.