terça-feira, 25 de agosto de 2026

Música Instrumental


 

Carl Doy


 

A açorianidade no Espírito Santo, por José Andrade

 




COLÉGIO ESTADUAL PADRE MELLO: O XADREZ COMO ESCOLA DO PENSAMENTO

 

"Em nosso tempo, promover o xadrez entre crianças e jovens assume quase a dimensão de uma obrigação moral" (Leontxo García)



Em uma época marcada pela velocidade, pela dispersão e pelo consumo de conteúdos cada vez mais breves, ensinar uma criança a parar, observar, refletir e somente depois mover uma peça pode representar muito mais do que ensinar um jogo. Pode significar ensinar a pensar.

É justamente essa reflexão que ganha força nas palavras de Leontxo García Olasagasti, uma das maiores referências mundiais do jornalismo enxadrístico. Jornalista, escritor, conferencista e comentarista espanhol, García trabalha na cobertura do xadrez desde 1983 e escreve para o jornal El País desde 1985. Antes do jornalismo, foi jogador semiprofissional e alcançou o título de Mestre FIDE. Hoje é conselheiro sênior da Comissão de Xadrez na Educação da Federação Internacional de Xadrez (FIDE). Segundo a própria FIDE, já participou da formação de mais de 30 mil professores em 31 países para a utilização pedagógica do xadrez. É também autor de Ajedrez y ciencia, pasiones mezcladas e recebeu importantes reconhecimentos por sua contribuição à difusão do jogo.

Em artigo publicado no El País em 22 de agosto de 2026, Leontxo lança uma provocação particularmente oportuna. Segundo ele, há “sérios indícios de que cada vez mais gente pensa menos”, enquanto o xadrez, respaldado por estudos e experiências educacionais, amplia sua presença como instrumento educativo e exercício mental. O jornalista recorda ainda a presença do jogo na vida de personalidades do esporte, da política e das artes, mostrando como as 64 casas continuam atravessando gerações e diferentes campos da atividade humana.

A reflexão de Leontxo conduz a uma conclusão poderosa: em nosso tempo, promover o xadrez entre crianças e jovens assume quase a dimensão de uma obrigação moral. Não porque todos devam tornar-se campeões, mas porque todos deveriam ter a oportunidade de desenvolver a capacidade de pensar com autonomia, avaliar consequências, exercitar a paciência e compreender que decisões exigem responsabilidade.

É nesse horizonte que ganha significado especial o trabalho desenvolvido pelo Colégio Estadual Padre Mello, em Bom Jesus do Itabapoana.

 O Colégio Estadual Padre Mello demonstra compreender a diferença entre transmitir conteúdos e perceber que possui uma missão ainda maior: preparar seres humanos para pensar, escolher, perseverar e construir o futuro.

É nesse terreno que o xadrez encontra espaço para lançar raízes.

Sob a condução da diretora Nathyara Teixeira dos Santos e da diretora adjunta Renata Pacheco Francisco, com a atuação do coordenador pedagógico Dr. Marcos Cândido Mendonça e o trabalho do professor Fabio Sousa Vargas, o educandário compreende uma verdade essencial: nenhuma grande construção começa pelo alto. Sem base não existe pirâmide, e o primeiro e mais importante elo dessa construção é a escola.

O xadrez educativo não deve ser compreendido apenas como caminho para descobrir futuros campeões, mestres ou grandes jogadores. Antes de formar enxadristas, pode ajudar a formar cidadãos. Diante do tabuleiro, a criança aprende que toda decisão produz consequências; que é necessário pensar antes de agir; que perder não significa desistir; que vencer exige respeito; e que paciência, concentração, disciplina e perseverança são conquistas que ultrapassam as fronteiras das 64 casas.

A própria Comissão de Xadrez na Educação da FIDE sustenta essa concepção ao apresentar o jogo como uma poderosa ferramenta educacional para o desenvolvimento de capacidades intelectuais e competências importantes para a vida dentro e fora da escola.

É essa dimensão humana que torna particularmente significativa a iniciativa do Colégio Estadual Padre Mello. Ao abrir espaço para o xadrez, a escola não está simplesmente colocando tabuleiros diante dos alunos. Está colocando possibilidades diante deles.

Cada peça movimentada pode despertar uma descoberta. Cada partida pode ensinar uma lição. Cada derrota pode ensinar a recomeçar. E cada criança que aprende a pensar alguns lances adiante no tabuleiro talvez comece também a enxergar alguns passos adiante em sua própria existência.

Existe uma verdadeira visão de futuro nessa proposta: um xadrez que chegue justamente aonde mais pode fazer diferença; que abra portas; que acolha; que revele talentos, mas que jamais se limite à procura dos vencedores. O maior título conquistado pelo xadrez escolar nunca será gravado em um troféu. Ele estará na formação de jovens mais atentos, responsáveis, criativos, perseverantes e preparados para enfrentar os desafios da vida.

Nesse sentido, merece reconhecimento a comunidade dirigente e pedagógica do Colégio Estadual Padre Mello. Nathyara, Renata, Dr. Marcos e Fabio representam diferentes funções reunidas em torno de uma mesma obra: direção, organização pedagógica, compromisso educacional e conhecimento enxadrístico colocados a serviço das novas gerações.

Quando gestores e educadores acreditam numa ideia e trabalham conjuntamente para concretizá-la, uma sala deixa de ser apenas uma sala. Pode transformar-se em laboratório de inteligência, cidadania e sonhos.

E está aí a imagem mais bonita de todas: enquanto, sobre os tabuleiros, pequenos peões avançam casa após casa, dentro da escola uma geração inteira também começa a avançar.

As grandes transformações raramente começam sob os refletores dos grandes campeonatos. Começam silenciosamente numa sala de aula, diante de uma criança, de um professor e de um tabuleiro.

Os pódios consagram campeões.

Mas é a escola que ensina a pensar, e constrói o futuro.



Cachaça Bousquet, uma das melhores Cachaças do Mundo: o sabor de Bom Jesus dentro de uma garrafa


Da cana à arte: Bom Jesus também se revela em cachaça

Bousquet e Três Praias: o sabor de Bom Jesus que conquistou fronteiras

Um pedaço de Bom Jesus guardado em cada garrafa

Bom Jesus em uma garrafa: tradição, arte e sabor




Bom Jesus do Itabapoana possui uma cachaça que já conquistou reconhecimento e premiações, projetando para além de suas fronteiras uma tradição nascida entre canaviais, antigas usinas e histórias familiares. As cachaças Bousquet e Três Praias, produzidas no município, são mais do que bebidas: carregam consigo um pouco da terra bonjesuense.

Existem produtos que guardam muito mais do que um sabor. Guardam a terra onde nasceram, a memória das famílias, o trabalho de gerações e uma pequena geografia afetiva que cabe dentro de uma garrafa. É assim com as tradicionais cachaças Bousquet e Três Praias, encontradas, entre outros pontos, no Empório da CAVIL, localizado na Avenida Geraldo Magela Rodrigues. Na prateleira, suas diferentes apresentações formam quase uma exposição de um patrimônio genuinamente bonjesuense.

Da história das usinas nasceu um novo caminho

A história nos conduz à Fazenda Monte Castelo, de propriedade de João Luis Bousquet, onde está instalado o Alambique Bousquet, no caminho que leva à antiga Usina Santa Isabel.

É significativo que uma bebida ligada à cana-de-açúcar tenha encontrado morada justamente numa região profundamente marcada pela história dessa cultura. Segundo João Luis Bousquet, quando as usinas Santa Isabel e Santa Maria encerraram suas atividades, seu irmão, que lhes fornecia cana-de-açúcar, decidiu estabelecer o alambique.

Existe nessa passagem algo que ultrapassa a simples história de um empreendimento. Quando as grandes usinas silenciaram suas máquinas, a cana continuou brotando da terra. E o homem do campo encontrou outro caminho.

O que poderia representar apenas o encerramento de um ciclo transformou-se no nascimento de outro.

A cana que antes seguia para as usinas passou a alimentar uma produção artesanal, cuidadosa e profundamente identificada com seu lugar de origem. É uma história comum às terras que sabem resistir: quando uma porta se fecha, o trabalho abre outra.

Tradição, ciência e qualidade

A produção da Bousquet nasceu desse encontro entre tradição e conhecimento técnico. Segundo João Luis Bousquet, a bebida é produzida a partir de uma levedura selecionada da melhor cepa de cana-de-açúcar da plantação.

O alambique utiliza ainda uma técnica destinada a assegurar maior homogeneidade à bebida, buscando evitar variações de paladar entre as produções. É a ciência entrando discretamente no antigo universo dos alambiques, não para expulsar a tradição, mas para ajudá-la a alcançar regularidade e excelência.

E há o tempo.

Falar de boa cachaça é também falar dessa matéria invisível que nenhum homem consegue fabricar ou apressar. O tempo repousa nos barris, trabalha silenciosamente sobre a bebida e acrescenta aquilo que a pressa jamais poderia oferecer.

Entre os produtos da Fazenda Monte Castelo destaca-se também o Licor de Cachaça Cravo e Canela, elaborado exclusivamente com cachaça envelhecida em barril de carvalho. Há algo de quase poético nessa combinação: a força da cana encontra o perfume das especiarias e a paciência da madeira.

Gift of Gods: a arte bonjesuense em cachaça
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Há o caso da impressionante da garrafa Gift of Gods - Brazilian Spirit - Arte em Cachaça.

A garrafa alongada e elegante desafia o olhar. Seu corpo de vidro começa largo, como se estivesse firmemente plantado na terra, e depois se eleva lentamente até alcançar um pescoço extraordinariamente fino e comprido. Dentro dela, a bebida repousa em tons de âmbar, atravessada pela luz, lembrando a cor do entardecer quando o sol se despede dos canaviais.

Não é uma simples garrafa sobre uma prateleira.

É uma escultura.

O próprio nome inscrito no vidro, Gift of Gods, “presente dos deuses”, acompanhado das expressões Brazilian Spirit e Arte em Cachaça, revela a intenção de transformar a bebida também em objeto de contemplação.

E não há exagero nessa associação. A cachaça bonjesuense nasceu do encontro entre a terra, a cana, o fogo, o engenho, as mãos humanas e o tempo. Antes de chegar ao cálice, atravessa uma história profundamente ligada ao próprio Brasil.

Existe ainda algo especialmente belo na forma como essa garrafa foi concebida. Sua longa haste de vidro parece apontar para o alto, enquanto a base conserva a bebida junto à terra. É quase uma metáfora: a cana nasce no chão, recebe o sol, passa pelas mãos humanas e, depois de transformada, alcança outra dimensão.

Da terra para o alto. Do canavial para a arte

Ao lado das embalagens negras e douradas, a garrafa parece uma joia retirada de seu estojo. O dourado das inscrições conversa com o âmbar da bebida, enquanto a transparência do vidro permite que o verdadeiro protagonista permaneça visível.

Não se esconde o conteúdo. Exibe-se a cor do tempo.

Esssa é uma das maiores virtudes da cachaça artesanal bonjesuense: transformar simplicidade em distinção. Tudo começa com uma planta aparentemente comum, balançando ao vento em algum canavial. Depois vêm o corte, a moagem, a fermentação, a destilação, a paciência e o conhecimento acumulado ao longo dos anos.

E, ao final desse caminho, surge uma garrafa como esta.

Quem a observa pode ver apenas uma bebida cuidadosamente apresentada. Mas quem demora um pouco mais o olhar poderá enxergar outra coisa: um pedaço de Bom Jesus guardado no vidro, dourado como o sol, forte como a terra e elegante como aquilo que o tempo soube aperfeiçoar.

Bousquet e Três Praias: sabores de uma terra

Bousquet e Três Praias são mais do que nomes estampados em rótulos. Representam uma atividade produtiva nascida no território bonjesuense e capaz de levar consigo, para além das fronteiras municipais, o nome da terra onde tudo começou.

Num tempo em que tantas cidades procuram símbolos capazes de expressar sua identidade, Bom Jesus possui riquezas que, muitas vezes, estão diante de nossos olhos, ou, neste caso, cuidadosamente guardadas dentro de garrafas.

A imagem das cachaças no Empório da CAVIL ganha, assim, significado maior. Essas garrafas contam silenciosamente uma história: a história da cana-de-açúcar, das antigas usinas Santa Isabel e Santa Maria, da Fazenda Monte Castelo, do Alambique Bousquet, do trabalho de uma família e da capacidade de transformar tradição, conhecimento e perseverança em um produto de qualidade.

Certas cachaças, afinal, não foram feitas apenas para serem degustadas. Foram feitas também para contar histórias.

E no fundo de cada garrafa permanece um pouco da paisagem onde tudo começou.

Esse é o segredo das coisas verdadeiramente nossas: elas podem viajar, conquistar reconhecimento, receber premiações e atravessar fronteiras, mas conservam no sabor, na história e na memória o endereço de onde partiram:

Bom Jesus do Itabapoana.


João Luís Bousquet (arquivo)












Sede da Fazenda Monte Castelo 



O Enigma do Amanhecer



Antes mesmo que o dia se abrisse por inteiro, João acordou com a estranha sensação de que trouxera algo da fronteira invisível entre o sonho e a vigília. Diante de seus olhos interiores surgiu uma placa colorida, semelhante a um mosaico de vidro iluminado pelo sol, onde uma frase, escrita em letras maiúsculas, parecia pedir para não ser esquecida: "TERMINOU UMA GERAÇÃO SEM NOTA." Era uma inscrição enigmática, sem explicação, como se tivesse sido deixada por um viajante do inconsciente à margem do caminho da consciência. João percebeu que algumas mensagens não chegam para serem entendidas de imediato, mas para despertar a capacidade de contemplá-las.

Em vez de correr atrás de um significado apressado, decidiu observar a cena como um arqueólogo da própria alma. Primeiro fixou cada detalhe: a placa, suas cores, o brilho semelhante ao de vitrais antigos, a disposição das palavras, o silêncio que as envolvia. Sabia que, muitas vezes, o essencial não habita apenas a frase, mas o cenário em que ela aparece, os pequenos elementos que parecem periféricos e que, mais tarde, revelam ser as verdadeiras chaves do enigma. O inconsciente raramente fala por discursos; prefere a linguagem dos símbolos.

Em seguida, João voltou-se para a tarefa mais difícil: perguntar a si mesmo o que aquela mensagem desejava revelar. Poderia anunciar o fim de um tempo, talvez fosse apenas um fragmento sem destino, ou talvez representasse uma inquietação ainda sem nome. Percebeu, contudo, que a resposta não era o mais importante. O verdadeiro acontecimento estava no exercício de investigar a própria mente logo nos primeiros instantes da manhã, quando os pensamentos ainda não haviam sido ocupados pelas urgências do mundo. Era como afiar o espírito antes de enfrentar o dia.

Ao final, a frase já começava a desaparecer da memória, dissolvendo-se como a névoa que abandona os campos ao nascer do sol. Se não a tivesse registrado imediatamente, talvez jamais voltasse a existir. João sorriu ao perceber que sua maior descoberta não era decifrar o sentido de "Terminou uma geração sem nota", mas compreender que a mente desperta precisa acolher, com respeito, as pequenas centelhas que emergem do invisível. Algumas delas não foram feitas para oferecer respostas; foram feitas para manter viva a capacidade humana de perguntar.