O NORTE FLUMINENSE, Bom Jesus do Itabapoana (RJ)
Jornal fundado por Ésio Martins Bastos em 25 de dezembro de 1946 e dirigido por Luciano Augusto Bastos no período 2003-2011. E-mail: onortefluminense@hotmail.com
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Feliz aniversário, Maestro Alessandro Azevedo!
Hoje, as páginas de O Norte Fluminense se enchem de música para celebrar a vida do Maestro Alessandro Azevedo, responsável pelo glorioso restabelecimento da Sociedade Musical da Usina Santa Maria.
Sua trajetória não se escreve apenas com notas, compassos e melodias. Ela se revela, sobretudo, nas novas gerações de músicos que o senhor vem formando com dedicação, sensibilidade e amor. Cada criança que aprende a tocar um instrumento leva consigo muito mais do que o domínio da música: aprende disciplina, convivência, respeito, beleza e esperança.
Sob sua regência, antigos sonhos santamarienses voltaram a respirar. Instrumentos silenciados recuperaram suas vozes, a tradição reencontrou o futuro e a Usina Santa Maria voltou a ouvir a música de sua própria alma.
Ao formar músicos, o senhor também ajuda a construir uma nova sociedade, mais sensível, culta, fraterna e humana. Cada jovem músico é uma semente dessa sociedade que já começa a florescer e a encantar nossa comunidade.
O jornal O Norte Fluminense parabeniza o ilustre maestro por sua brilhante trajetória e por transformar a música em instrumento de educação, união e renovação social.
Que Deus continue abençoando sua vida, iluminando sua missão e concedendo-lhe saúde e muitos anos para reger essa admirável sinfonia de sonhos e esperança.
Feliz aniversário, Maestro Alessandro Azevedo!
Elisângela Sampaio: a arte de criar caminhos
Das mãos que criam aos caminhos que transformam
Elisângela Sampaio iniciou sua caminhada pelo artesanato. Primeiro um gesto aparentemente simples: o encontro das mãos com a matéria, o primeiro ponto bordado, a tinta tocando o tecido, a descoberta de que um pedaço de pano pode guardar sonhos
Em oficinas promovidas por projetos sociais, entre igrejas e associações de moradores, ela percebeu que aquele universo era muito maior do que imaginava. Por trás de cada linha, tecido ou pincel, existiam histórias, saberes, possibilidades de trabalho e caminhos de transformação.
A curiosidade tornou-se impulso. E Elisângela, em vez de permanecer apenas diante da porta que se abrira, decidiu atravessá-la.
A aluna logo se tornou oficineira. O conhecimento recebido passou a circular por suas mãos e a alcançar outras pessoas. Porque ensinar, para ela, nunca foi guardar respostas, mas repartir descobertas. Cada oficina se transformava em uma roda invisível de experiências: alguém aprendia um ponto, outra pessoa descobria uma habilidade e, pouco a pouco, o artesanato revelava sua força de criar não apenas objetos, mas também autonomia, dignidade e esperança.
Elisângela continuou caminhando. Buscou cursos de bordado, customização, corte e costura e modelagem industrial. Aprendeu que a mão precisa da técnica, mas a técnica também precisa do sonho. Passou pelo comércio, trabalhou em lojas e estabeleceu parcerias com empresas como Corfix e Ibirapuera Têxtil. Cada experiência acrescentou uma nova tonalidade à sua compreensão do fazer artesanal.
O artesanato já não era somente a arte delicada das mãos. Era criação, trabalho, conhecimento, identidade e desenvolvimento.
Até que, em determinado momento, a pintura chegou.
Primeiro, repousou sobre os tecidos. Depois, atravessou seus limites e alcançou a tela. Sob a orientação do professor e artista Daruich Hilal, Elisângela aprofundou sua pesquisa e encontrou na Arte Contemporânea uma nova liberdade. A tinta passou a dizer aquilo que as palavras nem sempre conseguiam explicar. Formas, cores e silêncios começaram a compor uma linguagem própria.
Mas a vida ainda lhe reservava outro caminho.
Ao assumir a presidência da Associação dos Artesãos e Artistas Raízes de Iguassu - AAARI, Elisângela passou a olhar a cultura não somente pelo ângulo de quem cria, mas também pela perspectiva de quem organiza, articula e constrói possibilidades para que outras pessoas possam criar.
Vieram os desafios institucionais, a representação dos artesãos, a realização de eventos, os espaços de discussão das políticas públicas e a elaboração de projetos para editais culturais. A artista precisou compreender documentos, planejamentos, articulações e responsabilidades. E, diante de cada dificuldade, repetiu o gesto que sempre marcou sua história: buscou aprender.
Foi assim que, da artesã que procurava um caminho, nasceram dois.
De um lado, seguiu a artista, conduzida pela sensibilidade, pela pesquisa e pela necessidade de expressão. Do outro, surgiu a gestora cultural, dedicada a transformar ideias em projetos, necessidades em propostas e sonhos coletivos em possibilidades concretas.
Os caminhos, contudo, jamais se separaram.
A artista ensina à gestora que toda política cultural precisa reconhecer a alma daqueles que criam. A gestora ensina à artista que a inspiração também necessita de organização, espaço, oportunidade e voz. Uma oferece beleza; a outra constrói pontes para que essa beleza alcance o mundo.
Hoje, Elisângela Sampaio reúne em sua caminhada o fazer artesanal, a criação artística, o ensino e a gestão cultural. Em cada uma dessas dimensões permanece a mesma mulher que, um dia, entrou em uma oficina comunitária e descobriu que havia um universo inteiro esperando para ser desbravado.
Desde então, suas mãos não deixaram de procurar novos caminhos.
Mãos que bordam, pintam e ensinam. Mãos que escrevem projetos, organizam encontros e sustentam sonhos coletivos. Mãos que aprenderam a transformar matéria em arte e conhecimento em oportunidades.
Essa é a essência de sua trajetória: Elisângela não se limita a criar obras. Ela ajuda a criar caminhos.
E, por onde passa, deixa um pouco de cor, um pouco de aprendizado e a certeza de que a cultura também é uma arte tecida por muitas mãos.
As Crianças da Sociedade Musical que Encantaram o Aniversário de Dona Silvia
Três crianças da Sociedade Musical da Usina Santa Maria levaram, hoje, mais do que instrumentos à residência de dona Silvia Helena Martins. Levaram a ternura de toda uma comunidade.
No dia em que completou 67 anos, dona Silvia foi surpreendida pelos pequenos músicos, que chegaram trazendo nas mãos seus instrumentos e, no coração, o desejo de transformar aquele aniversário em uma lembrança inesquecível. Quando as primeiras notas de “Parabéns pra Você” preencheram a casa, a emoção falou mais alto: dona Silvia não conseguiu conter as lágrimas.
Eram lágrimas de alegria, gratidão e esperança. Aquela música não celebrava somente mais um ano de sua vida. Celebrava também o renascimento de um antigo sonho da Usina Santa Maria.
Aquelas crianças tornaram-se músicos por intermédio da Sociedade Musical, regida pelo maestro Alessandro Azevedo. Cada nota que executaram carregava a paciência dos ensaios, a dedicação do maestro e o esforço coletivo de uma comunidade que voltou a acreditar na força transformadora da cultura.
Nada disso teria sido possível sem a determinação de Betinho Milão, presidente do Teatro Cinema Conchita de Moraes, que comandou o restabelecimento daquele espaço histórico e ajudou a reacender uma luz que parecia adormecida. Ao recuperar o teatro, Betinho não restaurou apenas paredes, palco e memória. Abriu novamente as portas para que crianças pudessem encontrar na música um caminho de formação, sensibilidade e pertencimento.
Os três pequenos músicos são, portanto, o resultado visível do sonho de muitos santamarienses. Representam sementes lançadas por diversas mãos e cultivadas com perseverança.
Nessa residência, diante dos olhos marejados de dona Silvia, nasceu uma cena que ficará guardada na história afetiva da comunidade. A música saiu da sala de ensaios, percorreu as ruas e bateu à porta de uma aniversariante para lhe oferecer o mais precioso dos presentes: a emoção.
É assim que uma sociedade verdadeiramente nova começa a ser gestada: quando suas crianças aprendem a tocar instrumentos e, ao mesmo tempo, a tocar corações.
Hoje foi o aniversário de dona Silvia Helena Martins. Amanhã, essas mesmas crianças poderão levar suas melodias a outras casas, outras famílias e outras celebrações. E, pouco a pouco, toda a Usina Santa Maria será envolvida por essa música que nasce do sonho coletivo.
Quando uma comunidade ensina suas crianças a fazer música, ela também começa a compor um futuro mais belo para todos.
O jornal O Norte Fluminense parabeniza dona Silvia por seu aniversário, assim como a Sociedade Musical, o Teatro-Cinema Conchita de Moraes e toda a comunidade da Usina Santa Maria. Juntos, vocês são um exemplo vivo de que vale a pena sonhar, acreditar e lutar pela realização dos nossos sonhos.
Que Deus abençoe esta data especial e continue iluminando os caminhos de dona Silvia, fortalecendo os laços de união, cultura e esperança que tornam essa comunidade tão admirável.
A Entrega dos Meus Livros de Xadrez ao Colégio Estadual Padre Mello
Por Gino Martins Borges Bastos
Livros de uma Vida Enxadrística para o Colégio Estadual Padre Mello
No dia 19 de setembro, quando for inaugurada a Sala de Xadrez do Colégio Estadual Padre Mello, não serão apenas peças, relógios e tabuleiros que encontrarão ali uma nova morada. Também chegarão livros antigos, carregando em suas páginas silenciosas uma parte de minha própria caminhada pelo fascinante reino do xadrez.
Entre os exemplares que doei hoje, há um que guarda marcas muito particulares. Suas páginas estão sublinhadas a lápis e a caneta. Nas margens, aparecem variantes, observações e sequências de lances que transcrevi pacientemente. À primeira vista, talvez alguém veja apenas riscos deixados pelo tempo. Eu, porém, reconheço ali os vestígios de muitas batalhas travadas em silêncio, enquanto procurava compreender por que um cavalo deveria ocupar determinada casa, por que um peão avançava, por que uma torre esperava o instante exato para atravessar o tabuleiro.
Eu escrevia para memorizar. Copiava os lances para que eles não permanecessem somente diante dos olhos, mas passassem pelas mãos e encontrassem morada no pensamento. Cada anotação era uma tentativa de transformar o movimento mecânico de uma peça em entendimento. Era como se, ao deslizar o lápis sobre o papel, eu também percorresse os caminhos secretos da posição.
Esse método, contudo, não nasceu propriamente do xadrez. Veio de muito antes, de uma sala de aula do querido Colégio Rio Branco e da voz inesquecível de uma professora que marcou minha infância: a icônica Dona Carmita.
Foi ela quem me ensinou que escrever é também uma forma de aprender. Quando copiamos com atenção, as palavras deixam de ser estranhas e começam a viver dentro de nós. A mão ajuda os olhos, os olhos despertam a inteligência e a repetição paciente constrói a memória. Aquela lição simples atravessou os anos e, mais tarde, sentou-se comigo diante do tabuleiro.
Ao transcrever uma partida do ex-campeao mundial Kasparov, ao sublinhar uma explicação estratégica ou ao registrar uma variante nas margens estreitas de um livro, era também a antiga professora quem, de algum modo, continuava a orientar minha mão. Dona Carmita jamais imaginaria que sua lição chegaria tão longe, atravessando décadas, escolas e tabuleiros. Mas os verdadeiros mestres são assim: permanecem ensinando mesmo depois que a aula termina.
Agora, esses livros deixaram minhas estantes e seguiram para o Colégio Estadual Padre Mello. Não os entreguei como objetos impecáveis. Entreguei-os usados, estudados, sublinhados, interrogados. Suas marcas não diminuem o seu valor; ao contrário, contam a história de alguém que buscou aprender dialogando com cada página.
Talvez algum jovem enxadrista abra um desses volumes e encontre minhas anotações. Talvez se pergunte quem escreveu tantos lances entre as linhas impressas. Quem sabe resolva acrescentar suas próprias observações, continuando aquela conversa iniciada muitos anos antes. Então o livro já não pertencerá somente ao passado: tornar-se-á uma ponte entre gerações.
No dia 19 de setembro, quando a porta da Sala de Xadrez se abrir, Dona Carmita também entrará por ela. Estará invisível, mas presente em cada lápis que correr sobre um caderno, em cada estudante que repetir uma sequência para compreendê-la e em cada jovem que descobrir que a memória também se constrói com a ponta dos dedos.
Os livros que doei carregam partidas de grandes mestres. Mas, entre todas as lições neles guardadas, talvez a mais profunda não esteja impressa em nenhuma página. Foi ensinada por uma professora do Colégio Rio Branco a um menino que ainda começava a descobrir o mundo: quando escrevemos aquilo que desejamos aprender, o conhecimento deixa o papel e passa a morar dentro de nós.

























