O NORTE FLUMINENSE, Bom Jesus do Itabapoana (RJ)
Jornal fundado por Ésio Martins Bastos em 25 de dezembro de 1946 e dirigido por Luciano Augusto Bastos no período 2003-2011. E-mail: onortefluminense@hotmail.com
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Vem aí a 5ª Feira Literária de Pirapetinga de Bom Jesus!
Dostoiévski e o Nome que Define o Ser
A escolha de um nome nunca é um ato de distração para quem decifra a alma humana; é o batismo de um destino. Quando Fiódor Dostoiévski molhou a pena na tinta para dar vida ao jovem estudante que vagaria pelas noites sufocantes de São Petersburgo, ele não escolheu apenas um som. Ele esculpiu uma chave.
Raskólnikov. Onze letras. Um edifício inteiro de angústia e redenção contido no espaço de um fôlego.
Como pode o gênio russo encerrar a imensidão de Crime e Castigo em um único sobrenome? A resposta não está na sonoridade áspera, mas no eco histórico e espiritual que a palavra carrega. Em russo, raskol significa cisão, cisma, divisão.
Ao carregar esse nome, Rodíon já nasce partido. Ele é, em si mesmo, o próprio conflito geopolítico, psicológico e existencial de uma Rússia que se debatia entre a razão fria do Ocidente e a fé mística do Oriente. Nas onze letras de seu nome, Dostoiévski plantou os cinco níveis de um abismo que o personagem, e todos nós, somos forçados a cruzar:
O Conflito Social: O estudante miserável que confronta a injustiça de um mundo onde uns têm tudo e outros, como a velha usurária, sugam o pouco que resta.
O Conflito Psicológico: A mente febril dividida entre a empáfia do "homem extraordinário" (um Napoleão que tudo pode) e o terror do homem comum, esmagado pela culpa.
O Conflito Filosófico: O embate de uma lógica puramente utilitarista contra a moral absoluta. Vale a pena um crime se dele brotarem mil boas ações?
O Conflito Biológico/Físico: O corpo que adoece, o suor frio, o delírio da febre que mostra que a carne não suporta o peso de uma ideia transgressora.
O Conflito Espiritual: A separação definitiva de Deus e dos homens. Ao erguer o machado, Raskólnikov racha a própria alma, exilando-se em uma Sibéria interior muito antes de ser condenado pelos tribunais dos homens.
Dostoiévski sabia que um homem dividido não encontra paz na teoria. Por isso, o castigo de Raskólnikov não começa na prisão, mas no instante em que ele se percebe isolado da humanidade. E o crime não é o corte do metal, mas a ilusão de que se pode caminhar sozinho, amputado do outro.
Passamos a vida tentando colar nossos próprios pedaços, tentando unificar o que em nós é raskol, a nossa própria cisão cotidiana entre o que idealizamos e o que executamos no silêncio do quarto. No fim, a genialidade da literatura não está em apontar o erro, mas em nos lembrar que, mesmo para as almas mais fragmentadas, o recomeço é possível. É preciso que o orgulho se quebre por inteiro para que, pelas rachaduras da vaidade, a luz da redenção finalmente consiga entrar.
O Sopro da Terra pelas Mãos do Mestre Artesão Daniel de Lima
O barro é matéria silente, mas guarda em si a memória do mundo. Espera, na sua humidade fria, o instante exato em que o homem decidir lhe dar um nome, um contorno, uma alma. No silêncio que antecede a forma, a terra é apenas chão; nas mãos certas, ela se transmuta em poesia viva.
Vem vindo o mês de junho, trazendo o recolhimento do inverno, e com ele o convite para um retorno às origens. Sob o teto acolhedor do Mônica La atelier, o tempo há de suspender o seu passo apressado. Ali, o Mestre Daniel de Lima conduzirá um rito antigo: uma imersão profunda no cerne daquilo que fomos e que ainda somos.
Não se trata apenas de uma oficina, mas de um encontro marcado entre a criatura e o criador que habita em cada um de nós. Durante longas e generosas horas, os dedos aprenderão a ler as texturas da argila. Entre o toque firme e a pausa necessária para o almoço, onde o afeto e a palavra também alimentam, corpos e mentes se alinharão ao ritmo telúrico da criação.
Olhar para a escultura que ganha vida na foto é testemunhar um nascimento. O semblante de barro que emerge, solene e eterno sob as árvores, parece guardar os segredos dos antigos e a serenidade dos que sabem esperar. Há uma cumplicidade sagrada no olhar do artista que molda, um respeito profundo pelo sopro que dá vida à forma.
Serão apenas oito os escolhidos para essa jornada poética. Oito pares de mãos que aceitarão o desafio de se sujar de terra para limpar a alma, transformando a argila bruta em testemunho de sua própria sensibilidade.
O barro chama. E quem ouve esse chamado, guiado pela maestria de quem conhece os segredos da terra, sabe que moldar o mundo com as próprias mãos é, no fundo, a forma mais bonita de se esculpir por dentro.
Detalhes do Encontro com a Matéria
- Atividade: Oficina de Imersão no Barro com Mestre Daniel de Lima
- Local: Mônica La atelier
- Data: Sábado ou domingo de junho (a confirmar)
- Duração: 6 a 7 horas (com pausa para almoço)
- Vagas: Estritamente limitadas a 8 participantes
- Informações e Inscrições: (22) 99228-0589
- No Instagram: @filhosdobarro | @monicalaatelier
Onde Diziam Ser Impossível: Os 10 Anos do Memorial Governadores Roberto e Badger Silveira
7 de agosto de 2026.
Dez anos do Memorial Governadores Roberto e Badger Silveira, erguido no silêncio acolhedor do Sítio Rio Preto, em Calheiros, Bom Jesus do Itabapoana. Um sonho que nasceu no meio de lembranças, resistência e amor à história. Muitos diziam ser impossível. Diziam que o tempo apagaria a memória, que as paredes não se levantariam, que o passado ficaria perdido entre o esquecimento e a descrença.
Mas o impossível, às vezes, apenas espera coragem. E foi ela que transformou esperança em alicerce, saudade em presença, memória em eternidade. Durante uma década, o memorial permaneceu como farol da história regional, guardando nomes, ideias e legados que ajudaram a construir uma terra inteira.
Ao completar dez anos, não se celebra apenas um prédio ou uma data. Celebra-se a vitória da persistência sobre o ceticismo, da memória sobre o abandono, da fé sobre a dúvida. Porque aquilo que nasce do amor à própria história nunca morre, permanece vivo no coração de cada geração que aprende a olhar para trás para entender a grandeza do caminho adiante.
domingo, 24 de maio de 2026
Oitis: as Árvores que Guardam Histórias de Bom Jesus
Em Bom Jesus do Itabapoana houve um tempo em que mãos anônimas plantaram pequenas mudas de oiti ao longo das calçadas, talvez sem imaginar a eternidade silenciosa que estavam semeando. Eram frágeis hastes verdes diante do sol forte, quase invisíveis na pressa dos dias. Hoje, porém, essas árvores erguem copas largas sobre as ruas, oferecendo sombra, frescor e memória.
Os oitis, árvores nativas do Brasil, cresceram junto com a cidade. Viram crianças correndo para a escola, namoros nas esquinas, procissões, bicicletas antigas, tardes de verão e o lento caminhar dos idosos que ainda se lembram de quando aquelas árvores cabiam na palma da mão. Cada tronco guarda uma história que não foi escrita em livros, mas permanece viva na paisagem cotidiana.
Ao passarmos por certas ruas, reconhecemos não apenas árvores, mas testemunhas do tempo. Suas sombras desenham o passado sobre o chão quente das calçadas, como se a cidade conversasse consigo mesma através das folhas que balançam ao vento.
O oiti tornou-se mais do que árvore: virou referência afetiva, abrigo de memórias e sinal de permanência. Em cada copa que se desponta, existe um elo invisível entre quem plantou ontem e quem caminha hoje. E talvez seja essa a mais bela vocação das árvores antigas: ensinar que o tempo também floresce.
209ª festa do Divino Espírito Santo em Viana: Hino Alva Pomba é tocado pela 1⁰ vez na procissão do Divino Espírito Santo
Por Dr Nino Moreira Seródio
Título de Cidadão Bonjesuense ao açoriano Francisco Amaro Borba Gonçalves celebra seu legado à Cultura
Dizem que quem nasce cercado por mar carrega o infinito nos olhos e uma saudade que antecede a própria partida. Quando o açoriano traz na bagagem o dom da palavra e o compasso do canto, a sua sina não é apenas cruzar oceanos, mas semear o seu cais interior onde quer que a vida decida ancorá-lo.
Francisco Amaro Borba Gonçalves sabe bem disso. Há uma linha invisível, mas profundamente sentida, que une os caminhos da alma. Ao devotar seu amor e seu talento a Bom Jesus do Itabapoana, ele não caminha sozinho; segue os passos luminosos de outro ilustre Francisco, também filho das ilhas de bruma, que no passado fez desta terra o seu altar de fé e poesia. É o mistério do nome e da origem que se repete, como se o Vale do Itabapoana tivesse um magnetismo secreto para os corações açorianos.
Mas Francisco Amaro não é apenas um herdeiro dessa tradição; ele é um criador de pontes. Multiplica-se em muitas vozes para cantar uma única paixão.
Como intelectual e memorialista, ele resgata o "tesouro histórico", debruçando-se sobre o passado para que o presente não se perca na poeira do tempo. Ele sabe que a identidade de um povo é um estandarte belo que precisa ser visto e compreendido. Como escritor e poeta, maneja o soneto com a precisão de quem lapida um cristal, invocando Camões e as navegações não para falar de distâncias geométricas, mas da vastidão do espírito humano.
E então, onde a palavra escrita parece alcançar o seu limite, brota o compositor e o cantor. A crônica da história se transforma em melodia. Quando ele canta que "no Brasil, terra sul-Americana / s’apaixonou por Bom Jesus do Itabapoana", a música deixa de ser apenas uma sucessão de notas e passa a ser um ato de transplante vital. As tradições açorianas, o culto aos Dons do Divino, o fervor da missão paroquiana que ecoou por Bom Jesus e Varre-Sai, tudo isso cria raízes profundas no solo fluminense.
Esse amor devotado e essa entrega profunda não passaram despercebidos pela terra que o acolheu. Em um gesto de merecido reconhecimento ao seu impacto cultural, intelectual e espiritual, o município de Bom Jesus do Itabapoana outorgou-lhe, com todas as honras e mérito, o título de Cidadão Bonjesuense. Uma honraria que apenas oficializou o que o seu coração já havia decretado: Francisco Amaro agora pertence, por direito e afeto, a este chão.
A paixão de Francisco Amaro Borba Gonçalves por Bom Jesus é de uma beleza lírica rara. Ele olha para o Vale com os mesmos olhos com que se olha para a terra lusitana natal. Não há ruptura em sua alma, há continuidade. O sotaque das ilhas harmoniza-se perfeitamente com o murmúrio das águas do Itabapoana.
Seu gênio é vitorioso justamente por isso: porque venceu a distância, venceu o esquecimento e transformou a própria vida em uma partitura de amor a uma terra que hoje o abraça orgulhosamente como um de seus filhos mais ilustres.
Segue sua poesia musicada em homenagem ao Mês de Padre Mello.
Vitorioso Gênio
Francisco Amaro Borba Gonçalves
"Soneto a um tesouro histórico"
Depois que bons cidadãos o pesquisaram,
Espalharam o seu nome e a grande arte;
Legado que em Bom Jesus, belo estandarte,
Fascínio de um “tesouro” que descobriram.
Depois de o sabê-lo, o admiraram
A quem de tão longe veio a esta parte
Que a Camões há um um pouco comparar-te;
Gênio de muitos que se civilizaram
Sem os tais acidentes da taprobana,
Por mares, por Cabral, ora navegados
Emigrou de sua terra açoriana
Com os Dons do Divino sempre lembrados;
Páraco de uma Fé que em Deus se emana
Muito fez em Bom Jesus do Itabapoana.
“No Brasil, terra sul-Americana
S’apaixonou por Bom Jesus do Itabapoana.
Como se fosse em sua terra Lusitana
Se dedicou ao Vale do Itabapoana.
Tradições de sua terra Açoriana
Enraizou na Região do Itabapoana.
S’empenhou em sua Missão Paroquiana
Em Varre-Sai e em Bom Jesus do Itabapoana..”
Letra e música de autoria de Francisco Amaro Borba Gonçalves
Concluído em 14/04/2026























