Santo Antônio é um dos santos mais amados pelos varre-saienses. Essa devoção foi trazida pelos imigrantes italianos que colonizaram nossa região e permanece viva até os dias de hoje.
No município existe uma igreja dedicada a esse grande taumaturgo, localizada na comunidade de Jacutinga. Sua construção está ligada a um milagre atribuído à intercessão de Santo Antônio, e a imagem que ocupa o altar principal veio diretamente da Itália, fortalecendo ainda mais os laços entre a fé dos colonizadores e a história local.
Nos primeiros anos do ministério do padre Antônio Alves de Siqueira em Varre-Sai, a atual Rua Santo Antônio era conhecida como "Buraco Quente". A região era afastada do centro da cidade e bastante isolada. Sensível à realidade daqueles moradores, o sacerdote procurou estreitar os laços entre a comunidade e a paróquia, especialmente na festa de Santo Antônio.
Todos os anos, após celebrar a Santa Missa na Matriz e benzer os tradicionais pães de Santo Antônio, padre Antônio convidava os fiéis para uma procissão até a Rua Santo Antônio. Crianças, jovens, adultos e idosos percorriam as ruas escuras da cidade, rezando o Terço de Nossa Senhora e entoando cânticos em honra ao santo.
Entre os hinos mais conhecidos estava este refrão:
"Graças mil sejam dadas na terra
a Jesus, nosso amado Senhor.
Se o demônio nos faz atroz guerra,
Santo Antônio é da paz o penhor.
Invocai com fervor Santo Antônio,
se milagres na terra esperais;
ele vence o furor do demônio
e defende do mal os mortais."
Ao chegarem à Rua Santo Antônio, os fiéis distribuíam os pães bentos e todos recebiam a bênção do sacerdote, transformando aquele momento em uma verdadeira manifestação de fé, fraternidade e solidariedade.
Outra tradição muito difundida em Varre-Sai era a recitação do Responsório de Santo Antônio, especialmente para ajudar a encontrar objetos perdidos. Algumas pessoas eram conhecidas por essa prática, como dona Maria, esposa do senhor Zé Vico. Quando alguém perdia algo de valor, procurava-a e pedia que ela "responsasse", isto é, que rezasse o Responsório de Santo Antônio por aquela intenção.
Muitas pessoas testemunhavam que, após a oração, os objetos desaparecidos eram encontrados. O responsório era tão respeitado pela religiosidade popular que nem todos se consideravam aptos a rezá-lo. Essa crença, porém, fazia parte da tradição popular e não de um ensinamento oficial da Igreja, que sempre ensina que qualquer pessoa pode recorrer com fé à intercessão dos santos.
A devoção a Santo Antônio também faz parte da história da minha própria família. A família de meu pai era profundamente devota do santo. Tenho uma tia, já falecida, que se chamava Maria Antônia, e um tio também falecido, chamado Antônio, nomes que testemunham o carinho e a confiança depositados na proteção do santo.
Guardo comigo, com muito carinho, um antigo livro sobre Santo Antônio, publicado no início do século passado, que pertenceu à minha tia Maria Antônia. Mais do que um livro, ele representa um elo precioso entre gerações unidas pela mesma fé.
Este ano fiz um livro infantil da coleção Curiosidades dos Santos de maior devoção em Varre-Sai, com curiosidades sobre Santo Antônio e ficou muito bom para crianças e adultos que gostam de ler e colorir.
Recordo-me que, todos os anos, meu pai levava pães para serem benzidos na igreja e depois distribuídos aos fiéis, mantendo viva uma tradição que atravessou décadas. Hoje, com emoção e gratidão, continuo fazendo o mesmo, perpetuando um gesto simples, mas carregado de significado e devoção.
Hoje fiquei muito feliz ao receber também uma foto de meu irmão Pe. José Ronaldo, benzendo pães em Campos onde exerce seu ministério sacerdotal e a foto está inserida também desta postagem.
Eis o início do tradicional Responsório de Santo Antônio, conhecido por gerações de católicos:
"Se milagres desejais,
recorrei a Santo Antônio;
vereis fugir o demônio
e as tentações infernais.
Recupera-se o perdido,
rompe-se a dura prisão,
e no auge do furacão
cede o mar embravecido."
A devoção a Santo Antônio continua viva no coração do povo de Varre-Sai, especialmente em Jacutinga, onde sua história se confunde com a própria história da comunidade. Ela permanece presente nas procissões, nos pães bentos, nas orações, nas famílias e nas lembranças transmitidas de pais para filhos.
Viva Santo Antônio de Lisboa!
Viva Santo Antônio de Pádua!
Viva Santo Antônio de Varre-Sai!
Viva Santo Antônio de Jacutinga!
(Isabel Menezes é professora e historiadora)
FOTOS: Bênção dos pães e Varre- Sai pelo pe. José Carlos, bênção dos pães em Campos pelo pe. José Ronaldo, capa do livrinho infantil Curiosidades sobre Santo Antônio e igreja de Santo Antônio em Jacutinga/Varre-Sai.