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| Bernadete da Silva Ribeiro |
Assim se desenha a trajetória de Bernadete da Silva Ribeiro, mulher feita de memória, coragem e raízes profundas. É da família Vitó, família muito estimada em Vargem Alegre!
Criada em uma casinha de pau a pique, de chão batido, onde o banheiro ficava a alguns metros da porta, e, nas noites frias da quaresma ou sob a chuva insistente, ir até lá parecia o maior dos castigos, Bernadete aprendeu cedo que a vida exige resistência. Nascida em uma família de cinco filhas, todas mulheres, filha de agricultores da Fazenda das Areias, cresceu entre o trabalho da terra e os sonhos que insistiam em nascer mesmo em solo duro.
Foi aluna do MOBRAL em escola rural e, depois, enfrentou uma daquelas batalhas silenciosas que poucos veem: continuar estudando quando tudo parece conspirar contra. Cada passo adiante foi conquista, cada página virada, uma vitória.
Formou-se em História pela Faculdade Fundação São José, em Itaperuna. Nascida e criada em um verdadeiro berço histórico, fez questão de transformar sua própria origem em pesquisa. Sua monografia e trabalho de campo contaram a história da Fazenda das Areias com olhar atento e humano: os senhores feudais, os escravizados, o cotidiano marcado por dor e resistência, as formas de vida na senzala, os tratamentos impostos e as marcas deixadas pelo tempo.
Enquanto a casa-grande ostentava tapeçarias, cristais, porcelanas e pratarias, outras histórias eram escritas em silêncio, histórias que Bernadete decidiu revelar.
Descobriu que o solo onde nasceu, cresceu e colheu seu alimento era também território sagrado de ancestralidades africanas e europeias. Muitas vezes temeu ser apenas mais uma menina da zona rural destinada ao roteiro esperado: casar, ter filhos, um cachorro e cumprir o padrão do que diziam ser uma mulher realizada. Mas Bernadete escolheu outro caminho.
Correu atrás. Estudou. Persistiu.
Continuou sendo a menina de pés fincados em Pirapetinga, agora formada, pós-graduada, professora e empresária.
Quantas barreiras surgiram diante desse sonho. Quantas madrugadas, à luz de lamparina, passou examinando papéis antigos ainda guardados na fazenda, documentos que hoje repousam, em grande parte, no museu.
Foi assim que descobriu o título de Barão de Aquino, com carta assinada por Dom Pedro II. Foi assim que revelou a história de Nego Godêncio, escravo reprodutor e provável patriarca de grande parte da comunidade negra atual.
Quantas vezes brincou de ser a Baronesa de Aquino pelos corredores da fazenda que, até pouco tempo, ainda permanecia de pé, enquanto seus avós eram zeladores. Seu rosto refletiu-se no mesmo espelho que um dia pertenceu à nobreza, e seus pés tocaram o chão erguido com a força e o sofrimento de seus ancestrais.
A fazenda foi potência econômica e social. Mais tarde, com Chichico das Areias, continuou símbolo de progresso, recebendo luz elétrica e até uma moderna máquina de lavar roupas, luxo raro para a época. Trouxe também consigo a devoção católica: imagens de São Judas Tadeu, São Sebastião e Nossa Senhora das Graças, que ainda hoje permanecem como testemunhas vivas da história.
Nossa Senhora das Graças repousa na igreja quase centenária que leva seu nome. São Judas Tadeu encontra-se hoje no Museu da Imagem de Pirapetinga.
O artigo e o trabalho de campo dessa pirapetinguense, que lutou, enfrentou limitações financeiras, rompeu preconceitos e transformou memória em conhecimento, agora também farão parte do museu, para que outras pessoas conheçam essa história e compreendam suas raízes.
Bernadete da Silva Ribeiro, é para você que hoje batemos palmas de pé.
Porque sua história não é apenas lembrança.
É resistência.
É identidade.
É legado.
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| A Fazenda das Areias, em Pirapetinga de Bom Jesus, foi um importante polo de desenvolvimento econômico da região: hoje está em ruínas |
Adalto Boechat Júnior é pirapetinguense











