sexta-feira, 28 de agosto de 2026

The Searchers

 


Escola Ottilia Vieira Campos: de Bom Jesus a Brasília levando arte e consciência

 

Quando a escola ensina a proteger a infância





É com alegria e esperança que a Escola Municipal Professora Ottília Vieira Campos acaba de conquistar uma vitória que merece ultrapassar os muros do educandário. Mais do que uma premiação, o reconhecimento anuncia que uma nova geração começa a compreender, ainda nos primeiros anos da vida, que nenhum futuro verdadeiramente humano pode ser construído sacrificando a infância.

A escola foi premiada na etapa estadual do projeto MPT na Escola, com dois de seus alunos reconhecidos por trabalhos nas categorias Poesia e Desenho. A conquista abre agora um caminho ainda mais bonito: a classificação para a etapa nacional, em Brasília.

A palavra “classificação” é pequena diante do que realmente aconteceu.

Uma criança quando escreve sobre os direitos de outra criança, algo muito importante está acontecendo dentro de uma sala de aula. A educação deixa de ser apenas transmissão de conhecimentos e passa a formar consciência, sensibilidade e compromisso com o outro.

No poema “Rap da Infância”, a pequena Analu Duarte Souza, do 4º ano, transforma palavras simples em consciência. Não precisa de discursos complicados. Sua poesia possui aquela sabedoria luminosa que tantas vezes somente as crianças conseguem expressar com absoluta clareza:

“Trabalho infantil não!
Criança merece proteção!”

E, verso após verso, Analu vai desenhando com palavras o mundo que deveria ser oferecido a todas as crianças: um mundo no qual a infância seja tempo de brincar, estudar, aprender, sonhar e crescer.

Há uma beleza especial nisso.

Enquanto os adultos discutem leis, estatísticas, políticas públicas e responsabilidades, uma estudante do 4º ano resume uma questão fundamental da humanidade: criança não nasceu para carregar prematuramente o peso do mundo. Criança nasceu para carregar livros, sonhos, brinquedos e esperanças.

E, se a poesia encontra sua força nas palavras, o desenho premiado escolhe as cores e as imagens para transmitir sua mensagem.

Muitos desenhos não cabem apenas no papel: carregam perguntas sobre o mundo e pequenas sementes de esperança. Na obra, o cinza do abandono, do lixo e do descuido parece disputar espaço com as cores vivas de uma consciência que desperta. Relógios espalhados pelo cenário lembram silenciosamente que o tempo corre, e que não podemos adiar para amanhã aquilo que precisa ser transformado hoje.

Entre o que descartamos e aquilo que ainda podemos recuperar, surge a criança como mensageira de um futuro possível.

Na parte inferior do desenho, a esperança ganha cores. Mãos aprendem, crianças separam resíduos, o símbolo da reciclagem ocupa a sala de aula e a educação abre sua porta para um mundo diferente. É como se a obra dissesse, sem precisar de palavras, que toda grande transformação começa quando alguém aprende a cuidar.

O lixo pode encontrar novo destino; a indiferença pode transformar-se em responsabilidade; e o futuro, antes acinzentado, pode novamente ganhar cores. Preservar o planeta é também uma forma de amar aqueles que ainda chegarão para habitá-lo.

E aí está uma das maiores virtudes do MPT na Escola: fazer com que os direitos deixem de existir somente nos artigos das leis e passem a habitar a consciência das novas gerações.

A premiação da Escola Municipal Professora Ottília Vieira Campos, portanto, merece todos os aplausos. A conquista pertence aos alunos premiados, mas alcança também professores, direção, famílias e toda a comunidade escolar que acredita na educação como instrumento de transformação.

Agora, Brasília surge no horizonte.

Mas, independentemente do resultado da etapa nacional, uma vitória muito maior já aconteceu dentro da escola: duas crianças descobriram que a palavra e o desenho podem ser instrumentos para transformar o mundo.

Sempre que uma escola consegue ensinar isso, ela não está apenas preparando alunos para o futuro. Está ajudando a preparar um futuro melhor para todos nós.




Laticínios Beiral: uma nova história de sabor desponta em Bom Jesus


Onde o leite vira memória




A história dos Laticínios Beiral pertence a uma ideia familiar, do conhecimento da terra e da coragem de acreditar que o trabalho, quando realizado com qualidade, pode transformar pequenos começos em grandes caminhos.

Foi em 2016, na região conhecida como Bom Jardim, nas proximidades do Córrego Seco e da divisa de Bom Jesus do Itabapoana com Itaperuna, que Paulo Beiral iniciou as atividades de um pequeno estabelecimento dedicado à produção de laticínios. 

Naquele começo modesto já existia, entretanto, aquilo que nenhuma máquina consegue fabricar: confiança no futuro. E por trás do empreendimento estava também um sonho que atravessava gerações. 

A ideia dos Laticínios Beiral nasceu de seu pai, Udenil Beiral, falecido recentemente, aos 85 anos. Ao lado da esposa, Marina Sátolo, ele ajudou a formar a família da qual brotaria essa história. Sua partida, tão recente, empresta à trajetória da empresa uma dimensão ainda mais comovente: o pai se foi, mas a ideia que plantou permanece viva, crescendo pelas mãos dos filhos.

Essa é uma das formas mais bonitas de permanecer vivo naquilo que se deixou. Alguns homens deixam propriedades; outros, objetos e fotografias. Udenil deixou também uma ideia. E ideias cultivadas com amor não conhecem sepultura: transformam-se em legado.

O pequeno estabelecimento de 2016 cresceu. A qualidade dos produtos conquistou consumidores, aumentou a procura e exigiu novos espaços. Há cerca de seis meses, a empresa transferiu-se para instalações maiores e ampliadas. O crescimento não aconteceu por acaso. Veio daquele velho e infalível mecanismo que sustenta os bons empreendimentos: alguém experimenta, gosta, recomenda, e o sabor vai fazendo sua própria propaganda.

Hoje, das instalações dos Laticínios Beiral saem queijo frescal, queijo curado tipo minas, muçarela, manteiga, iogurte e outros derivados do leite. Produtos que carregam algo da paisagem rural bonjesuense e daquele universo em que o leite deixa de ser apenas matéria-prima para tornar-se trabalho, sustento e identidade.

A fotografia de Paulo atrás do balcão, cercado pelos produtos da empresa, é quase um retrato dessa caminhada. Os dois polegares erguidos parecem dizer muito mais do que um simples “está tudo bem”. Há naquele gesto o orgulho silencioso de quem olha para aquilo que começou pequeno e percebe que o sonho ganhou paredes, equipamentos, trabalhadores, fornecedores, clientes, e horizonte.

A empresa permanece essencialmente familiar. Paulo divide sua condução com a esposa e a cunhada. Ao mesmo tempo, os Laticínios Beiral já movimentam uma pequena cadeia econômica ao seu redor: compram leite de 13 produtores e geram oito empregos diretos. Quatro vendedores percorrem de motocicleta as ruas, realizando aquele comércio tão antigo e afetivo das cidades do interior.

E assim o queijo chega à casa do freguês quase acompanhado de um cumprimento. Os produtos também conquistaram espaço em estabelecimentos de Bom Jesus do Itabapoana, podendo ser encontrados na rede de supermercados Lico King, na Padaria Roque e no Açougue Real, além da comercialização realizada pelos vendedores autônomos que percorrem a cidade.

Mas Paulo olha para além das fronteiras municipais. O projeto é ampliar a comercialização para todo o Estado do Rio de Janeiro. E existe outro sonho tomando forma: instalar, já no próximo ano, uma loja à beira da estrada, criando uma vitrine permanente para os produtos Beiral e para aquilo que Bom Jesus é capaz de produzir.

Há algo especialmente bonito nessa perspectiva. Uma loja à margem da estrada não será apenas um ponto comercial. Será uma espécie de janela de Bom Jardim para quem passa. O viajante seguirá seu caminho levando um queijo, uma manteiga ou um iogurte, mas carregará consigo também um pequeno pedaço desta terra.

O desenvolvimento verdadeiro nem sempre chega fazendo barulho. Às vezes ele chega de motocicleta pelas ruas. Às vezes está numa garrafa de leite. Às vezes repousa silenciosamente sobre um balcão na forma redonda e branca de um queijo.

E às vezes começa muitos anos antes, no coração de um pai que teve uma ideia e a entregou ao filho. Udenil Beiral partiu, mas a semente permaneceu. Paulo a cultivou. A família a abraçou. Os produtores fornecem o leite. Os trabalhadores ajudam a transformar a matéria-prima. E Bom Jesus começa a saborear os frutos.

Nos Laticínios Beiral não é somente o leite que se transforma.

Transforma-se o sonho em empreendimento, o trabalho em prosperidade e a memória de um pai em futuro.












TONY ORLANDO


 

Rosal, onde o chorinho sorri e a sanfona faz o coração dançar: o encanto do Festival de Chorinho e Sanfona


 Rosal, cercada por suas montanhas, fará aquilo que sabe fazer tão bem: encantar



Rosal pertence à música. Quando setembro se aproxima e o Festival Sesc de Chorinho e Sanfona anuncia seus acordes, o pequeno e encantador distrito de Bom Jesus do Itabapoana muda de dimensão. As ruas ganham ritmos, as casas antigas abrem suas janelas para escutar melhor, e até as montanhas que abraçam a localidade assumem a solenidade de quem sabe que ali acontecerá novamente um encontro entre tradição, arte e afeto.

Nos dias 5 e 6 de setembro, Rosal será mais uma vez território livre da música. E não poderia haver abertura mais simbólica do que a presença da centenária Lira 14 de Julho, patrimônio afetivo da comunidade, instituição que atravessa gerações ensinando que uma banda não é formada apenas por instrumentos e músicos: é feita também de lembranças, famílias, mestres, aprendizes e histórias transmitidas de ouvido em ouvido e de coração em coração. Quando a Lira toca em Rosal, de alguma maneira são os próprios antepassados que voltam à praça.

Depois, o chorinho chega com sua elegância brasileira, essa música que aprendeu o segredo de sorrir mesmo quando carrega alguma saudade. E vem a sanfona, instrumento que respira. Abre-se o fole e Rosal inspira; fecha-se o fole e toda a vila suspira. Chorinho e sanfona encontram-se como dois velhos amigos que passaram algum tempo separados e descobrem, no primeiro abraço, que jamais deixaram verdadeiramente de conversar.

A programação é uma celebração dessa diversidade. Lira 14 de Julho, Chorinho Nova Geração, Lívia Matos e Nilze Carvalho conduzem o sábado. No domingo, a música prossegue com Dixieland, Maestro Mauro, Valdeir do Acordeon e Grupo de Sanfoneiros, Bebê Kramer e Carlos Malta. Artistas, estilos e gerações diferentes reunidos sob o mesmo céu, demonstrando que tradição não significa permanecer imóvel no passado: significa trazer o passado pela mão para que ele dance com o presente.

E aí está a grandeza do Festival de Chorinho e Sanfona de Rosal. Ele não é simplesmente uma sucessão de apresentações. É um acontecimento de pertencimento. Durante dois dias, moradores recebem visitantes, amigos se reencontram, crianças descobrem instrumentos, músicos conversam através de melodias e a pequena localidade transforma-se numa imensa sala de concertos a céu aberto.

Rosal tem esse privilégio raro: não precisa de arranha-céus, avenidas monumentais ou multidões intermináveis para ser grande. Sua grandeza está na delicadeza. Está na igreja, nas montanhas, nas casas, na conversa tranquila, na memória de seu povo e nessa extraordinária capacidade de conservar tradições sem aprisioná-las no passado.

Quando soar o primeiro acorde, muitos fecharão os olhos por alguns segundos. E então já não haverá sábado nem domingo, presente nem passado. Haverá somente música.

O saxofone contará histórias. O clarinete bordará lembranças. O cavaquinho espalhará alegria. A sanfona respirará saudades.

E Rosal, cercada por suas montanhas, fará aquilo que sabe fazer tão bem: encantar.

De alguns festivais, depois do último acorde, simplesmente voltamos para casa. O Festival de Chorinho e Sanfona é diferente. Dele levamos alguma coisa conosco, uma melodia, um encontro, uma recordação,  aquela inexplicável vontade de permanecer um pouco mais.

Nos dias 5 e 6 de setembro, quem desejar encontrar Rosal não precisará procurá-la no mapa.

Bastará seguir a música.

Brotherhood of Man


 

Excerpt from a Teenage Opera