sexta-feira, 1 de maio de 2026

Viva o xadrez! Viva a cultura! Viva Bom Jesus do Norte!

 Por Gino Martins Borges Bastos 


 
Mentes em movimento: Gino Martins Borges Bastos  enfrenta múltiplos tabuleiros em simultânea histórica no antigo Colégio Estadual Antônio Honório, em 2018, a convite do professor Fábio Souza Vargas.

No dia 30 de abril, celebramos com júbilo e reverência os 30 anos do Clube de Xadrez de Bom Jesus do Norte, três décadas dedicadas não apenas ao jogo, mas à formação cultural e humana de gerações de jovens norte-bonjesuenses.

O xadrez, mais do que um tabuleiro e peças, é um exercício de pensamento, disciplina e visão de futuro. E aqui, entre nós, ele tem sido também uma escola de vida, moldando caráteres, despertando talentos e cultivando valores que ultrapassam qualquer partida.

Neste momento de exaltação, rendo uma saudação especial à memória do saudoso Major Enio Nascimento dos Reis, que transformava a sala de sua casa em um verdadeiro templo do xadrez, semeando conhecimento e paixão ao lado de seu filho, Enio Chaves dos Reis. Seu legado permanece vivo em cada jovem que hoje se debruça sobre o tabuleiro.

Recordamos também, com respeito e admiração, José Ronaldo Mascarenhas, campeão olímpico, cuja trajetória inspira e engrandece a história do nosso xadrez, deixando-nos um exemplo de dedicação e excelência.

E destacamos, com gratidão, o professor Fabio Souza Vargas, que há anos conduz o Clube com empenho admirável, sendo responsável pela formação de novas gerações de enxadristas, garantindo que essa chama continue acesa e se fortaleça ainda mais. Devemos mencionar também o apoio inestimável de sempre de Yelmo de Carvalho Toledo Papa.

Uma menção especial de agradecimento a Tino Marcos, o maior repórter esportivo da história da televisão brasileira de todos os tempos, que deu visibilidade nacional ao CXBN, com sua permanente visita ao clube.

Importa dizer que o xadrez não se encerra nas paredes do clube. Ele atravessa lares porque os jovens têm de estudar a ciência do xadrez, e assim, transforma rotinas, aproxima famílias e fortalece laços de convivência. Seu impacto é silencioso, mas profundo, alcançando não apenas crianças e jovens, mas toda a comunidade, elevando o espírito coletivo e ampliando horizontes.

Assim, celebramos não apenas uma trajetória, mas uma missão cumprida com honra.

Parabéns ao Clube de Xadrez de Bom Jesus do Norte pelos seus 30 anos de história. Que venham muitos outros, repletos de conquistas, sabedoria e inspiração.

Viva o xadrez! Viva a cultura! Viva Bom Jesus do Norte!



A mensagem de Rogério Loureiro Xavier

 


A Farsa da Pedalada: A Bicicleta de um Político




 
A Farsa do Político "Gente como a Gente": a Pedalada de Fachada

Ao surgir montado no selim, ele quer dizer: "Vejam, sou como vocês. Sou o homem comum, o pedestre, o vizinho que vai à padaria". É a tentativa desesperada de camuflar o ouro com a ferrugem, de esconder a politicagem sob o suor do esforço físico

A simplicidade, nele, é uma máscara que não adere ao rosto; é uma fantasia de "homem do povo" vestida por quem já não sabe o que é o povo

Enquanto o "político padrão" se isola em blindados e comboios, o "novo político" pedala

A pedalada do "novo político" nos ensina que não basta usar o transporte do povo para ter o coração do povo

A bicicleta não é apenas um meio de transporte; é um instrumento de marketing estético

Na cenografia do cinismo, o "novo político" é um mestre do disfarce

A simplicidade é apenas mais um produto em liquidação na prateleira do populismo


Na cenografia do cinismo, o personagem da Praça é Nossa, João Plenário é um mestre do disfarce. Ele ignora o óbvio, o terno, as notas que brotam dos bolsos, para se valer de um símbolo de pureza: a bicicleta. É a miragem do guidão: onde a humildade termina e o deboche começa.

O Populismo em Duas Rodas

​Enquanto o "político padrão" se isola em blindados e comboios, Plenário pedala. A bicicleta não é apenas um meio de transporte; é um instrumento de marketing estético. Ao surgir montado no selim, ele tenta comprar uma indulgência imediata. Ele quer dizer: "Vejam, sou como vocês. Sou o homem comum, o pedestre, o vizinho que vai à padaria". É a tentativa desesperada de camuflar o ouro com a ferrugem, de esconder a politicagem sob o suor do esforço físico.

​O Contraste que Delata

​Porém, o lirismo da cena reside no fracasso dessa camuflagem. A bicicleta, que deveria ser o emblema da vida simples, acaba por realçar a sujeira. A cada pedalada, o movimento do corpo faz o dinheiro saltar dos bolsos. É uma contradição ambulante:

O Meio é a bicicleta (humilde, sustentável, do povo).

​A Carga é o erário (vultuoso, ilícito, desviado).

​Plenário pedala para parecer "gente", mas o dinheiro que sai do bolso prova que ele é, na verdade, uma engrenagem que mói a confiança pública. A simplicidade, nele, é uma máscara que não adere ao rosto; é uma fantasia de "homem do povo" vestida por quem já não sabe o que é o povo.

A Dieta do Silêncio

​Quando ele chega à praça e oferece a "carne de graça", a bicicleta ainda está ali, encostada, servindo de testemunha muda. O convite para que o povo "morda a própria língua" é o desfecho final dessa peça de teatro. A bicicleta trouxe o político até as pessoas, mas a sua alma de político as expulsa com um insulto.

​No fim, a pedalada de João Plenário nos ensina que não basta usar o transporte do povo para ter o coração do povo. O dinheiro que sai dos bolsos pesa mais que o metal da bicicleta, e a única coisa que ele realmente transporta é a certeza de que, para o seu tipo, a simplicidade é apenas mais um produto em liquidação na prateleira do populismo.


A Lição que Vem do El Shaday e do Barro do Mestre Daniel de Lima em Casimiro




Na curva do caminho, onde o Rio de Janeiro ainda guarda o segredo das matas fechadas, uma placa se ergue como um estandarte de esperança. Não é apenas metal e tinta; é um pacto selado sob o sol de Casimiro de Abreu. No Sítio El-Shaday, de Dona Ivanilda, a terra que outrora apenas produzia, agora protege. Ela se une a outros cinco agricultores que passaram por capacitação para a proteção da espécie.

​Houve um tempo, talvez mais árido de alma, em que o agricultor e a floresta eram vistos como rivais de fronteira. Mas ali, na Fazenda Visconde, essa fronteira se dissolveu. A proprietária do sítio, com as mãos ainda sujas da terra fértil que o Mestre Daniel de Lima ensinou a moldar, compreendeu uma lição profunda: a mesma argila que ganha vida e forma nos ateliês de barro é a que sustenta as raízes por onde saltam os pequenos reis da mata.

​O Mico-Leão-Dourado, essa centelha viva de fogo que corre entre os galhos, encontrou no El-Shaday mais que um abrigo; encontrou um lar reconhecido. Ao aceitar o título de "Unidade Demonstrativa de Sistema Agroflorestal", o sítio declara que o progresso não precisa ser cinza. É possível cultivar o sustento enquanto se cultiva a vida selvagem. O sistema agroflorestal é, em essência, uma tradução da delicadeza do artesanato para a escala da paisagem: planta-se com o cuidado de quem molda uma peça de barro, respeitando as curvas, as necessidades e o tempo da natureza.

A Poesia das Mãos que Moldam

​Há uma rima invisível entre o toque da aluna no barro e o cuidado do agricultor com o mico-leão-dourado. Ambos exigem paciência, observação e reverência.

O Barro representa a tradição, o pé no chão e a arte que nasce do solo da Fazenda Visconde.

O Ouro é o brilho da pelagem do mico-leão-dourado, um tesouro que quase perdemos e que agora volta a reinar graças à generosidade de cercas que se abrem.

O Futuro é a consciência de que a salvação do planeta não virá de grandes tratados distantes, mas do exemplo de um sítio que decidiu ser o guardião de sua própria biodiversidade.

​Nesta aliança, o Mestre Daniel de Lima não ensina apenas a criar potes e esculturas; ele e seus alunos estão ajudando a remoldar a mentalidade de uma região. Cada ateliê de barro na Fazenda Visconde torna-se um posto avançado de sensibilidade.

​Quando o pequeno primata cruza as árvores do El-Shaday, ele não sabe que aquela placa existe, mas ele sente o silêncio respeitoso, a abundância de frutos e a segurança de uma terra que aprendeu a amar sua própria herança. Em Casimiro, o destino do homem e do bicho se entrelaçaram de vez. E se o mundo tem solução, ela certamente tem o cheiro de terra molhada e a cor do sol refletida nos pelos de um mico-leão-dourado.





 


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Nada impede que o herói de ontem seja o canalha de hoje

 


Há algo desconcertante na forma como o tempo reposiciona as pessoas. O herói de ontem, aquele que arrancava aplausos, que inspirava confiança, que parecia feito de uma matéria mais nobre, às vezes acorda, num dia qualquer, ocupando um lugar bem menos digno na memória coletiva. E não há anúncio, nem cerimônia de troca. Apenas acontece.

Talvez porque o heroísmo, quase sempre, seja um instante congelado. Um recorte bonito demais de uma história que ainda estava sendo escrita. A gente vê o gesto, a coragem, a entrega, mas não vê o que vem depois. Não vê as escolhas miúdas, os atalhos, os silêncios convenientes. E são justamente essas pequenas decisões, repetidas com descuido, que vão esculpindo outra versão da mesma pessoa.

Também há a nossa pressa em transformar gente em símbolo. Elevamos alguém ao posto de herói como se isso fosse definitivo, como se o caráter fosse uma fotografia e não um filme em movimento. Só que ninguém permanece no auge o tempo inteiro. E alguns, quando descem, não encontram o mesmo caminho de volta, ou simplesmente não querem encontrá-lo.

O mais inquietante é perceber que essa transição não exige grandes escândalos. Às vezes basta um desvio ético aqui, uma omissão ali, uma justificativa confortável acolá. Quando se percebe, o brilho virou sombra, e o que antes era admiração passa a ser um incômodo difícil de nomear.

Nada impede, de fato, que o herói de ontem seja o canalha de hoje. Mas talvez a crônica não seja sobre a queda dele, e sim sobre o cuidado que precisamos ter ao subir alguém alto demais. Porque quanto mais alto colocamos, maior é o estrondo quando a verdade resolve aparecer.

Bom Jesus do Norte: xeque à cultura, mate à memória!

Para a prefeitura, o brilho dos outros não conta. Interessa apenas aquilo que pode lhe conferir mérito imediato, visibilidade rápida, votos contáveis



Como se a história só tivesse valor quando rende fotografia, voto ou palco.

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O que leva uma prefeitura a ignorar a própria história? Talvez seja o receio do que não controla. Talvez a incapacidade de reconhecer grandeza onde não há holofotes. Uma cidade não se mede apenas por obras visíveis, mas pelas narrativas que escolhe preservar.

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A prefeitura, essa grande mestra das prioridades seletivas, parece ter preferido aplicar o xeque-mate do esquecimento.

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A caneta oficial decide o que merece memória.

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Ignorar um aniversário como esse não é apenas um descuido administrativo, é uma escolha simbólica. É dizer, ainda que em silêncio, que há histórias que não importam.

Há cidades que celebram fogos; outras, silenciosamente, celebram esquecimentos. Em Bom Jesus do Norte, ao que parece, a memória oficial tem prazo de validade, e curiosamente vence quando completa 30 anos.

Três décadas não são acaso. São períodos com silêncio concentrados, relógios suspensos sobre tabuleiros, jovens aprendendo que estratégia vale mais que pressa. São vitórias discretas, derrotas elegantes e um tipo raro de orgulho: aquele que não faz barulho, mas atravessa fronteiras. 

Em 1996, houve um lance eterno. O Clube de Xadrez, fundado em 30 de abril de 1996, nunca pediu desfile, banda ou palanque. Bastava um gesto simples: o reconhecimento de que ali, no meio de peças pretas e brancas, também se constrói a história da cidade.

Mas a prefeitura, essa grande mestra das prioridades seletivas, parece ter preferido aplicar o xeque-mate do esquecimento.

É curioso. O mesmo clube que leva o nome do município para além de suas ruas, que ecoa em competições e conversas pelo país, que já recebeu figuras cuja presença por si só legitima qualquer iniciativa cultural, torna-se invisível quando a caneta oficial decide o que merece memória. Como se a história só tivesse valor quando rende fotografia, voto ou palco.

Nesses trinta anos de existência do Clube de Xadrez de Bom Jesus do Norte, centenas de crianças e jovens puderam se desenvolver culturalmente, contribuindo para que a sociedade norte-bonjesuense se tornasse mais humana, mais sensível, mais consciente. Ainda assim, esse brilho parece passar despercebido pela prefeitura, que o ignora como se não fosse relevante. 

Para ela, o brilho dos outros não conta. Interessa apenas aquilo que pode lhe conferir mérito imediato, visibilidade rápida, votos contáveis.

Ignorar um aniversário como esse não é apenas um descuido administrativo, é uma escolha simbólica. É dizer, ainda que em silêncio, que há histórias que não importam. Que tradição não soma pontos. Que a cultura paciente, construída lance a lance, não compete com a urgência das agendas imediatas. E então fica a pergunta, pairando como um rei acuado no centro do tabuleiro: o que leva uma prefeitura a ignorar a própria história?

Talvez seja o receio do que não controla. Talvez a incapacidade de reconhecer grandeza onde não há holofotes. Ou talvez seja algo mais simples, e mais triste: a falta de visão para entender que uma cidade não se mede apenas por obras visíveis, mas pelas narrativas que escolhe preservar.

Enquanto isso, o Clube segue. Porque quem joga xadrez aprende cedo que nem todo movimento do adversário faz sentido, mas, ainda assim, o jogo continua.

E, ironicamente, continua vencendo.

Vida longa ao Clube de Xadrez de Bom Jesus do Norte. Três décadas de xeque, mate e, acima de tudo, vida!

O Olhar de Ricardo Soutto Mayor sobre a Usina Santa Maria

 

 Memórias da Santa Maria

​A imagem, tingida pelos tons sépia do tempo, não é apenas um registro geográfico; é um mapa afetivo de um mundo que palpitava ao ritmo das moendas. Olhar para a Usina Santa Maria dos anos 1960 é como ouvir o apito da fábrica ecoando pelo vale, chamando não apenas para o trabalho, mas para a vida que florescia em torno do açúcar e do suor.

​Ali, o progresso e a poesia caminhavam de mãos dadas.

A Geografia do Afeto

​No centro de tudo, a chaminé imponente, um dedo de concreto apontado para o céu, ditava o fôlego da vila. Mas o verdadeiro sangue da Santa Maria corria nas veias de suas ruas de terra:

O Sagrado e o Cotidiano: Entre o Cinema Antigo, onde os sonhos eram projetados em preto e branco, e a Padaria-Açougue, onde o cheiro do pão fresco se misturava ao aroma doce do melaço, a vida acontecia sem pressa.

O Alento Social: O Santa Maria Clube não era apenas um prédio; era o palco de bailes de gala e de encontros que definiram casamentos e amizades eternas. Ao lado, a Venda de Sr. Manoelzinho, com seu balcão de madeira, guardava o segredo das melhores prosas e o estalar das tesouras da barbearia.

O Futuro em Construção: No Jardim de Infância e no Grupo Escolar, as vozes infantis eram a promessa de que aquele império de cana-de-açúcar jamais feneceria.

Homens e Engrenagens

​A crônica da Santa Maria é escrita com nomes próprios. A foto nos lembra das casas de figuras como o Sr. Manoelzinho e o Sr. Zequinha. Eram mais que moradores; eram os pilares de uma comunidade onde todos se conheciam pelo sobrenome ou pelo ofício.

​Enquanto a Ponte Rolante transportava a cana pesada para o ventre das moendas e a Balança Ferroviária ditava o ritmo da exportação, nas Oficinas e Serrarias, o trabalho braçal transformava madeira e metal em sustento. Era um ecossistema perfeito: a usina alimentava a vila, e a vila, com seu amor e dedicação, mantinha a usina viva.

O Legado de Ricardo

​Graças à contribuição de Ricardo Souto Mayor, essa janela para o passado permanece aberta. Esta imagem não é apenas nostalgia; é um testemunho de uma era onde a "usina do meu tempo" era o centro do universo.

​Hoje, o melaço pode ter secado e o barulho das moendas silenciado, mas nas frestas desta fotografia, o tempo parou. Ainda podemos ouvir o riso das crianças no pátio e sentir o calor do sol de fim de tarde batendo nos telhados da Santa Maria.

A Usina Santa Maria não era feita de tijolos, mas de gentes. E enquanto houver memória, o seu apito continuará a soar em nossos corações.