O NORTE FLUMINENSE, Bom Jesus do Itabapoana (RJ)
Jornal fundado por Ésio Martins Bastos em 25 de dezembro de 1946 e dirigido por Luciano Augusto Bastos no período 2003-2011. E-mail: onortefluminense@hotmail.com
sábado, 29 de agosto de 2026
Padre Mello: um santo? - Um chamamento aos leitores
Documentos, testemunhos e memórias abrem uma investigação sobre a antiga fama de santidade do sacerdote açoriano
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Padre Mello: um santo?
Uma mensagem chegada ao Jornal O Norte Fluminense, vinda da cidade do Rio de Janeiro, trouxe uma pergunta que, embora formulada em poucas palavras, parece abrir uma porta para quase oitenta anos de história, fé e memória:
- A elevação da Igreja Matriz a Santuário teria alguma relação com Padre Mello?
E o remetente acrescentou uma observação ainda mais provocadora:
- Não me espantaria se começassem a aparecer milagres atribuídos a ele...
Depois, como quem percebe a dimensão da própria hipótese, completou:
- Já imaginava! Quem sabe daqui a algum tempo se começa a juntar documentação comprobatória... Imagina o Bem-aventurado Padre Mello...
Não sabemos o que o futuro reservará a essa indagação.
É indispensável registrar, desde logo, que a elevação da Igreja Matriz à condição de Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus e Santa Rita de Cássia não significa qualquer reconhecimento eclesiástico da santidade de Padre Antônio Francisco de Mello.
Mas a mensagem recebida pelo jornal despertou outra pergunta, esta de natureza essencialmente histórica:
Padre Mello já era considerado santo pelo povo?
Para começar a procurar a resposta, talvez seja necessário voltar a uma tarde chuvosa de agosto de 1947.
“Santo Antônio Mello de Bom Jesus!”
Padre Mello faleceu em 13 de agosto de 1947.
Naquele momento de profunda comoção, seu pupilo Octacílio de Aquino escreveu para O Norte Fluminense um texto que hoje adquire extraordinário valor documental.
Não se tratava de alguém olhando para Padre Mello à distância de muitas décadas, envolvido pelas névoas que o tempo às vezes deposita sobre os personagens históricos. Octacílio escrevia praticamente diante do túmulo recém-fechado.
E escreveu:
“Mas o Padre Mello não morreu!”
Depois de afirmar que sua matéria retornara ao pó e que seu espírito demandara o verdadeiro lugar, concluiu com palavras impressionantes:
“Se da terra desapareceu um homem, surgiu no céu mais um santo: Santo Antônio Mello de Bom Jesus!”
A frase atravessou quase oito décadas.
E chegou até nós.
Naturalmente, Octacílio de Aquino não possuía autoridade para proclamar santo quem quer que fosse. Aquela era uma manifestação de admiração, fé e afeto de um homem profundamente tocado pela vida do sacerdote.
Mas, para o historiador, existe ali algo precioso: um documento praticamente contemporâneo à morte de Padre Mello empregando explicitamente a palavra “santo” para defini-lo.
E não apenas isso.
No mesmo texto, Octacílio escreveu que naquele sacerdote haviam se enraizado os ensinamentos de Jesus e que ele repartia com seus paroquianos as graças que, por sua bondade e suas virtudes, “alcançava dos céus”.
Não é prova de milagre. Não é processo de beatificação. Não é pronunciamento da Igreja.
Mas é história.
E história escrita no calor da despedida.
A pobreza do último quarto
Há ainda uma imagem que talvez diga sobre Padre Mello mais do que muitas páginas.
O sacerdote que ajudara a erguer uma das mais belas edificações de Bom Jesus terminou seus dias num pequeno imóvel ao lado da Gruta de Nossa Senhora de Lourdes.
Um quarto.
Uma sala.
Um banheiro.
Pouco para um homem que havia realizado tanto.
Ou talvez imensamente significativo para compreender quem foi aquele homem.
Padre Mello morreu pobre em 13 de agosto de 1947.
Quem cuidou dele em seus últimos dias foi Francisca Menezes, a Chiquita Menezes.
Ruth Fragoso deixou registrado, em depoimento a O Norte Fluminense, que Chiquita era uma mulher profundamente caridosa. Cuidava dos doentes abandonados nas ruas, levava crianças ao catecismo, auxiliava a Igreja e permaneceu ao lado do velho sacerdote quando a doença chegou.
Outro depoimento, de Isabel Fragoso, ao O Norte Fluminense, acrescentou uma informação particularmente sugestiva: segundo ela, Chiquita dizia que Padre Mello tinha “ares de santidade”.
Mais uma vez, é necessário compreender exatamente o significado dessas palavras. São testemunhos de memória e de percepção religiosa popular, não declarações canônicas.
Mas os indícios começam a formar um desenho.
Octacílio de Aquino o chamou de santo em 1947.
Chiquita Menezes, segundo testemunho preservado, enxergava nele ares de santidade.
E sua memória religiosa não desapareceu com sua morte.
1947-1955: os anos que podem revelar uma fama de santidade
A pista mais importante da investigação talvez esteja agora na imprensa produzida entre 1947 e 1955.
Padre Mello morreu em 13 de agosto de 1947. Em 1953, apenas seis anos depois, houve inclusive a inauguração de seu busto e a distribuição de suas poesias.
Se surgiu espontaneamente entre os bonjesuenses uma fama popular de santidade, é bastante provável que algum vestígio tenha permanecido nas páginas daquele período.
Expressões como “santo sacerdote”, “santo padre”, “virtuoso sacerdote”, “graças”, “proteção”, “intercessão”, “milagre” ou referências a orações “junto ao seu túmulo” poderão ser pistas preciosas.
Às vezes, uma única palavra encontrada num velho jornal é capaz de iluminar décadas de silêncio.
Padre Mello: uma memória que permanece viva na fé popular
A memória do sacerdote continuou atravessando as gerações.
A Diocese de Campos registra sua presença histórica ligada à Festa da Coroa do Divino, tradição religiosa à qual Padre Mello esteve profundamente vinculado. O Vatican News, ao tratar da Festa do Divino em Bom Jesus, igualmente documenta a permanência das tradições de piedade popular introduzidas pelo sacerdote açoriano.
O homem morreu.
Algumas de suas tradições, não.
Do túmulo onde rezava ao túmulo onde se reza
Há um detalhe histórico fascinante que acrescenta outra dimensão a essa investigação.
O próprio Padre Mello tinha o hábito de rezar junto ao túmulo do sacerdote de Calheiros, Padre João Mendes Ribeiro, conhecido como Padre Preto.
Em carta datada de 5 de novembro de 1916, Padre Mello relata que, desde sua chegada a Bom Jesus, costumava ir, no Dia de Finados, às três horas da tarde, rezar junto à sepultura daquele sacerdote, lamentando o esquecimento de sua memória.
A imagem é extraordinária.
Um padre ajoelhado diante do túmulo de outro padre, recusando-se a permitir que o tempo apagasse sua lembrança.
Décadas depois, a história parece inverter delicadamente os papéis.
É o próprio túmulo de Padre Mello que se transforma em lugar especial de memória.
O túmulo que permaneceu entre o povo
Muitas pessoas morrem e lentamente desaparecem da paisagem.
Padre Mello fez o caminho inverso.
Seu corpo repousa dentro da própria Igreja Matriz, na Capela do Divino Espírito Santo.
Existe nisso uma das imagens mais belas de sua história.
O homem que durante décadas entrou naquela igreja para celebrar missas, ouvir confissões, rezar, aconselhar e conduzir seu rebanho se encontra nela depois da morte.
O pastor não foi embora.
Silenciou.
E ficou.
Gerações passaram diante daquele túmulo, na Capela do Cemitério e na Capela da Igreja Matriz. Crianças tornaram-se adultos. Adultos envelheceram. Famílias desapareceram e outras nasceram. Bom Jesus transformou-se.
E Padre Mello permaneceu.
Em 13 de agosto de 2024, quando uma Insígnia Autonômica de Reconhecimento dos Açores foi colocada junto ao seu túmulo e à Coroa do Divino Espírito Santo, aquele espaço demonstrou novamente que deixara de ser apenas o lugar onde repousam restos mortais.
Tornara-se também lugar de memória.
A Matriz também fala
Existe ainda outro testemunho.
Ele não está escrito em papel.
Está escrito em pedra.
É impossível contemplar a Igreja Matriz de Bom Jesus do Itabapoana sem encontrar Padre Mello.
O sacerdote açoriano trouxe para o coração da cidade uma espécie de poesia arquitetônica.
No ponto mais destacado da Praça Governador Portela, sua obra continua falando.
As torres parecem levantar os olhos da cidade para o céu. A fachada atravessa gerações. E cada detalhe recorda que, muito antes de sermos passageiros deste tempo, alguém sonhou que a fé poderia ganhar forma, altura, beleza e permanência.
Agora, a Matriz se prepara para uma nova etapa de sua história como Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus e Santa Rita de Cássia.
E eis que, justamente neste momento, uma mensagem chegada do Rio de Janeiro nos obriga a olhar novamente para o homem que tanto marcou aquele templo.
Coincidência?
Talvez.
A História também gosta de suas delicadas coincidências.
Faltam os milagres?
A pesquisa realizada até agora permite uma constatação fascinante, mas exige prudência.
Ainda não localizamos registro documental inequívoco de alguém afirmando:
“Pedi a intercessão de Padre Mello e alcancei esta graça.”
Também não encontramos notícia de processo formal de beatificação ou canonização.
Portanto, seria incorreto afirmar aquilo que os documentos ainda não nos permitem afirmar.
Mas encontramos algo diferente e historicamente importante: indícios de uma fama popular de santidade que remontam ao próprio momento de sua morte.
E é justamente aí que uma nova investigação deve começar.
Podem existir, guardados nas gavetas das famílias bonjesuenses, cartas, santinhos, fotografias, bilhetes e anotações.
Podem existir histórias que jamais chegaram aos jornais.
Pode haver idosos que ouviram de seus pais ou avós relatos sobre Padre Mello.
Podem existir lembranças de pessoas que visitavam seu túmulo, depositavam flores, faziam orações, cumpriam promessas ou pediam sua proteção.
A história oral, muitas vezes, dorme dentro das casas antes de chegar aos arquivos.
Talvez seja hora de acordá-la.
Padre Mello: um santo?
A Igreja Católica possui seus próprios caminhos, critérios e procedimentos para responder a uma pergunta dessa magnitude. A santidade canônica não nasce de uma crônica, de uma tradição afetiva nem simplesmente da admiração de um povo.
Mas existe também a história daquilo que o povo acreditou, sentiu, rezou e transmitiu.
E essa história merece ser investigada.
Quase oitenta anos depois daquela tarde de 13 de agosto de 1947, as palavras de Octacílio de Aquino continuam ecoando:
“Santo Antônio Mello de Bom Jesus!”
Não sabemos se algum dia a Igreja colocará diante do nome de Antônio Francisco de Mello o título de Servo de Deus, Venerável, Bem-aventurado ou Santo. Isso pertence a outro campo, a outro tempo e, para aqueles que creem, aos desígnios de Deus.
Ao jornal cabe tarefa diferente.
Procurar documentos.
Preservar testemunhos.
Ouvir os mais antigos.
Abrir arquivos.
Comparar fontes.
E impedir que a memória desapareça.
Talvez, portanto, a pergunta recebida do Rio de Janeiro não precise, por enquanto, de resposta.
Talvez precise apenas permanecer aberta.
Padre Mello: um santo?
A História começa a procurar.
E Bom Jesus talvez ainda tenha muito a contar.
Chamamento aos leitores
O Norte Fluminense convida as famílias e todos aqueles que possuam relatos antigos, documentos, fotografias, cartas, bilhetes ou testemunhos relacionados a graças alcançadas, orações, promessas, visitas ao túmulo ou à fama de santidade de Padre Antônio Francisco de Mello a entrarem em contato com o jornal pelo endereço eletrônico onorteflumimense@hotmail.com.
Também são especialmente importantes as memórias transmitidas oralmente por pais, avós e outros familiares ao longo das gerações. Mesmo um relato aparentemente simples — uma oração, uma visita ao túmulo, uma promessa, uma graça atribuída ao sacerdote ou uma história ouvida na infância — poderá representar uma peça preciosa para a reconstrução dessa memória histórica e religiosa.
Porque a memória de um povo não vive apenas nos arquivos. Vive também naquilo que as famílias guardam, geração após geração, no coração.
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| Pequeno imóvel ao lado da Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, onde Padre Mello morreu pobre: um quarto, uma sala, um banheiro |
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| Ruth Fragoso |
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| Francisca Menezes, conhecida como Chiquita Menezes |
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| Isabel Fragoso |
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| Octacílio de Aquino |
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| O açoriano Francisco Amaro Borba Gonçalves diante do túmulo de seu conterrâneo, Padre Antônio Francisco de Mello, na Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus |
Maria Beatriz Silva, a Guardiã da Memória de Laje do Muriaé
Aos 13 anos, o Centro Cultural Maria Beatriz mantém viva a história de uma cidade e planta nas crianças a certeza de que preservar o passado é também construir o futuro.
Maria Beatriz Silva pertence à estirpe de pessoas que impedem que a história da cidade passe e desapareça.
Escritora, poeta, educadora e ativista cultural, ela transformou o amor por Laje do Muriaé em missão. Durante anos, recolheu fotografias, documentos, livros, objetos, relatos e lembranças que poderiam ter desaparecido silenciosamente com o passar das gerações.
Até que, em 21 de agosto de 2013, durante o 4º Circuito Cultural Arte Entre Povos, um antigo sonho ganhou endereço e existência: nascia o Centro Cultural Maria Beatriz, CCMB.
Treze anos depois, aquele sonho continua de portas abertas.
Mais do que isso: tornou-se um lugar onde Laje do Muriaé encontra a própria Laje do Muriaé.
Atualmente instalado na Rua Alferes Bastos, 132, altos, o Centro Cultural reúne biblioteca, fotografias antigas, documentos históricos, objetos, pinturas retratando a Laje de outros tempos, a Sala Cândido Portinari e diferentes testemunhos da trajetória cultural do município.
Mas Maria Beatriz não criou um depósito de antiguidades.
Criou uma ponte.
De um lado estão aqueles que viveram antes de nós.
Do outro, as crianças que estão chegando.
E sobre essa ponte caminha a memória.
“Esta história também é minha”
É justamente quando fala das crianças que os olhos de Maria Beatriz parecem traduzir o sentido maior de sua obra.
- É uma felicidade receber crianças neste espaço.
O Centro Cultural mantém parceria informal e permanente com as escolas. Maria Beatriz acompanha projetos, sugere atividades, auxilia na elaboração de roteiros, visita estabelecimentos de ensino e realiza palestras.
Participa de iniciativas como “Saberes do Nosso Chão”, da Secretaria Municipal de Educação, para a qual chegou a compor uma música; “O Chão que Conta e Encanta”, do Jardim de Infância; e “Potência da Mulher”, projeto estadual desenvolvido no CIEP.
Criou ainda o sugestivo “Pequeno Guardião da História”.
Não poderia existir nome mais apropriado.
Maria Beatriz sabe que preservar documentos é importante, mas formar pessoas que compreendam o valor desses documentos é ainda mais importante.
Seu desejo é que cada criança, depois de visitar o Centro Cultural, possa olhar para tudo aquilo e pensar:
“Esta história também é minha.”
Nesse instante nasce o pertencimento.
E quem aprende a pertencer aprende também a preservar.
Uma boneca de palha e mais de um século de memória
Entre os objetos guardados no Centro Cultural existe uma pequena peça capaz de resumir toda essa filosofia.
Uma boneca de palha de milho.
Foi doada, segundo Maria Beatriz, por Dona Maria Clara, a Dona Clarinha, figura importante da história do município, ligada à Educação e à Cultura e já falecida.
A história transmitida junto com a peça impressiona.
Segundo esse relato familiar, a boneca teria sido confeccionada por uma mulher escravizada que viveu com a mãe de Dona Clarinha. Se confirmada a tradição oral e sua cronologia, o objeto ultrapassa um século de existência.
Quantas mãos tocaram aquela boneca? Quantas casas conheceu? Quantas pessoas que a contemplaram já partiram?
A palha sobreviveu.
E sobreviveu porque, em algum momento, alguém percebeu que aquilo não era simplesmente um brinquedo velho.
Era memória.
Dona Clarinha também destinou ao Centro Cultural documentos de seu acervo, acrescentando novas páginas à história que Maria Beatriz procura preservar.
Cultura mantida pela própria comunidade
Há, contudo, um aspecto dessa história que deveria provocar reflexão.
O Centro Cultural não conta com estrutura financeira pública permanente.
Para pagar aluguel, água, luz e demais despesas, realizam-se rifas. Há voluntários. Há colaboração da comunidade. Há pessoas que compartilham aquilo que podem.
E há, sobretudo, a persistência de Maria Beatriz.
É com esse esforço que permanece funcionando aquele que ela aponta como o único espaço cultural dessa natureza no município.
Existe algo ao mesmo tempo belo e inquietante nessa realidade.
Uma comunidade faz rifas para ajudar a manter viva a própria memória.
A beleza está na solidariedade.
A inquietação está em perceber como iniciativas fundamentais para a identidade de uma cidade ainda dependem tanto do sacrifício pessoal de quem decidiu não desistir delas.
Duas paixões: Saúde e Cultura
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| Santa Beatriz Silva é patrona do CCMB |
Maria Beatriz não vive apenas entre livros e documentos.
Há 42 anos é servidora pública e atua na área de regulação municipal e planejamento da Saúde.
Quando resume sua trajetória, menciona duas paixões: a Cultura e a Saúde.
Elas estão mais próximas do que parece.
A Saúde cuida da continuidade da vida.
A Cultura cuida da continuidade daquilo que dá sentido à vida.
Uma preserva pessoas.
A outra preserva aquilo que as pessoas construíram, sonharam, amaram e deixaram como herança.
Quando Laje virou “Felicidade”
A literatura também ocupa lugar central nessa caminhada.
Poeta e escritora, Maria Beatriz define a poesia como uma maneira de conversar com a alma. Seus textos transitam pela fé, esperança, amor, sentimentos e experiências transformadoras.
E existe uma curiosa ligação entre Laje do Muriaé e a literatura brasileira que ela gosta de recordar.
O escritor Domingos Pellegrini esteve em Laje durante cerca de uma semana e encontrou no município inspiração para uma de suas narrativas, A Árvore que dava dinheiro", dando à cidade ficcional o nome de Felicidade.
É difícil imaginar nome mais literário.
Toda cidade que consegue preservar suas histórias conserve também alguma forma de felicidade.
O sonho de não ser a última guardiã
Mas existe uma preocupação que atravessa as palavras de Maria Beatriz.
Depois de 13 anos, ela deseja ampliar o Centro Cultural. Quer que a população valorize ainda mais o espaço. Sonha em vê-lo consolidado como verdadeiro polo de cultura e memória.
Acima de tudo, deseja continuidade.
Ao O Norte Fluminense, resumiu:
- Nesses 13 anos consegui colaborar com o resgate de nossa história. Alegria maior é transmitir para as crianças. Gostaria de ampliar porque temos cultura grandiosa. Hoje eu faço. Gostaria que alguém surgisse para dar continuidade ao trabalho.
A frase merece ser ouvida com atenção.
Porque todo guardião da memória carrega uma inquietação: quem guardará depois de mim?
Essa é a pergunta que Maria Beatriz silenciosamente entrega hoje a Laje do Muriaé.
Ela recolheu fotografias.
Guardou documentos.
Preservou objetos.
Ouviu os mais velhos.
Pesquisou histórias.
Escreveu.
Fez palestras.
Foi às escolas.
Recebeu estudantes.
Criou projetos.
Abriu portas.
E continua abrindo.
Mas patrimônio cultural somente permanece verdadeiramente vivo quando deixa de ser missão de uma pessoa e passa a ser compromisso de uma comunidade.
O chão onde a história cria raízes
Maria Beatriz chama Laje do Muriaé de “meu rincão”.
É uma palavra pequena para uma relação imensa.
Ela sabe que uma cidade não é apenas o conjunto de ruas, prédios, praças e casas que conseguimos enxergar.
Uma cidade também é feita daquilo que já não vemos.
Das vozes que se calaram. Dos costumes que desapareceram. Das famílias que partiram. Das histórias contadas pelos avós. Dos retratos amarelados guardados em gavetas. Dos objetos cuja utilidade ninguém mais conhece. Das cartas que alguém quase jogou fora.
Tudo isso forma aquilo que somos.
Por isso é possível resumir toda a obra de Maria Beatriz numa sequência:
MEMÓRIA → IDENTIDADE → PERTENCIMENTO → EDUCAÇÃO → LITERATURA → CRIANÇAS → CULTURA → FUTURO.
No final, voltamos à pequena boneca de palha de milho.
Ela atravessou décadas silenciosamente.
Sobreviveu às pessoas que a conheceram, às casas onde esteve, às mudanças da cidade e ao próprio tempo.
Até encontrar abrigo no Centro Cultural.
Ali, deixou de ser simplesmente uma boneca.
Transformou-se em testemunha.
É exatamente isso que Maria Beatriz Silva vem fazendo há 13 anos: dando voz às testemunhas silenciosas da história de Laje do Muriaé.
Para que o passado não desapareça. Para que as crianças conheçam suas raízes. Para que a cidade reconheça a própria identidade. E para que, muito depois de nós, alguém ainda possa olhar para aquele chão e compreender:
ali não estão apenas as marcas daqueles que partiram.
Ali estão as raízes daqueles que ainda virão.
Quem é Maria Beatriz Silva?
Sou Maria Beatriz Silva, escritora, poeta e ativista cultural de Laje do Muriaé. Minha trajetória sempre esteve muito ligada à educação, à cultura, à literatura e à valorização das pessoas e das histórias da nossa terra. Sou formada em Letras e Pedagogia e, ao longo dos anos, fui descobrindo que a literatura e a cultura poderiam ser instrumentos para aproximar as pessoas e preservar aquilo que muitas vezes corre o risco de ser esquecido.
Como surgiu a ideia de criar o Centro Cultural?
O Centro Cultural nasceu de um desejo muito profundo de preservar a memória de Laje do Muriaé. Percebi que muitas histórias estavam guardadas apenas na lembrança das pessoas, principalmente dos mais velhos. E aquilo que não é registrado pode desaparecer com o tempo. Então comecei a reunir fotografias, livros, objetos, documentos, histórias e lembranças da nossa comunidade. O Centro Cultural foi crescendo junto com esse sonho. (amor, memória, pertencimento, preservação)
Qual é a principal missão do Centro Cultural?
Eu costumo dizer que o Centro Cultural não é apenas um lugar onde estão guardadas coisas antigas. É um espaço para preservar, ensinar e compartilhar. Quero que uma criança entre ali e descubra que a história de sua cidade também faz parte da história dela.
O que podemos encontrar no Centro Cultural?
Temos uma biblioteca, exposição permanente de quadros com pinturas da nossa Laje antiga, fotografias antigas, sala Cândido Portinari, objetos e documentos relacionados à história e à cultura de Laje do Muriaé. Também procuramos valorizar artistas e escritores da nossa região. É um espaço simples, mas construído com muito amor e dedicação.
Por que preservar a história de uma cidade pequena é tão importante?
Porque uma cidade não é feita apenas de ruas e prédios. Ela é feita de pessoas, lembranças, costumes, histórias, sonhos e acontecimentos. Quando conhecemos nossas raízes, compreendemos melhor quem somos. Uma cidade sem memória perde sua própria identidade.
Como o Centro Cultural trabalha com as escolas?
Uma das coisas que mais me emociona é poder receber as crianças. Tenho participado e colaborado de projetos das escolas como “Saberes do Nosso Chão”, projeto da Secretaria Educação, levando os estudantes a conhecerem a história e a cultura do município. Trabalhamos também com propostas como “O chão que conta e encanta” projeto do Jardim de Infância, Potência da Mulher, projeto da SEEDUC desenvolvido no CIEP e o “Pequeno Guardião da História” que é um projeto meu. Acredito que a criança precisa conhecer sua cidade desde cedo para aprender a amar cuidar e respeitar.
O que significa ser uma “guardiã da memória” de Laje do Muriaé?
É uma expressão que recebo com muito carinho, mas também como uma responsabilidade. Ser guardiã da memória é ouvir, pesquisar, registrar e compartilhar. É olhar para uma fotografia antiga e perguntar: Quem são essas pessoas? Que história existe por trás dessa imagem? É tentar impedir que essas histórias desapareçam.
A senhora também é escritora. Como a literatura entrou nessa história?
A literatura sempre caminhou comigo. Escrever é uma forma de registrar sentimentos, pensamentos e experiências, mas também é uma maneira de tocar o coração de outras pessoas. A poesia me permite transformar aquilo que sinto em palavras. E acredito que a literatura pode abrir portas dentro de nós que, muitas vezes, nem sabíamos que existiam.
O que a poesia representa para a senhora?
A poesia é uma forma de conversar com a alma. Às vezes escrevemos aquilo que não conseguimos dizer numa conversa. Minha poesia fala muito de sentimentos, esperança, amor, fé, vida e também das experiências que nos transformam.
O Centro Cultural recebe apoio público?
Não. O Centro Cultural é mantido principalmente através de muito trabalho voluntário e dedicação. Não é simples manter um espaço cultural sem uma estrutura financeira permanente. Mas existe algo que não tem preço: a vontade de fazer acontecer. Cada pessoa que visita, cada criança que aprende alguma coisa, cada história que conseguimos preservar faz todo o esforço valer a pena.
Qual é o maior sonho para o Centro Cultural?
Meu maior sonho é que esse trabalho tenha continuidade. Que outras pessoas compreendam a importância de preservar nossa memória e possam continuar esse caminho. Quero que o Centro Cultural seja cada vez mais um espaço de encontro entre memória, literatura, educação e cultura.
O que a senhora gostaria que as crianças aprendessem ao visitar o Centro Cultural?
Gostaria que elas saíssem daqui pensando: Esta história também é minha. Que tenham orgulho de suas raízes e entendam que cada fotografia, cada objeto, cada história de uma pessoa mais velha pode ensinar alguma coisa.
O que Laje do Muriaé representa para a senhora?
Laje do Muriaé é o meu rincão. E o chão onde nasci e vivo guarda muito mais do que aquilo que os olhos conseguem enxergar. Guarda grandes histórias, pessoas, afetos, lutas e conquistas. Por isso gosto tanto da expressão "Saberes do Nosso Chão".
MEMÓRIA \rightarrow IDENTIDADE \rightarrow PERTENCIMENTO \rightarrow EDUCAÇÃO \rightarrow LITERATURA \rightarrow CRIANÇAS \rightarrow CULTURA \rightarrow FUTURO.
Maria Beatriz, que mensagem você gostaria de deixar?
Eu acredito que cada cidade possui tesouros que nem sempre estão nos museus. Eles estão nas lembranças das pessoas, nas fotografias antigas, nos livros, nas histórias contadas pelos nossos avós e nos costumes que recebemos de nossos antepassados. O meu desejo é ajudar a preservar esses tesouros e entregá-los às novas gerações. Porque o chão onde a gente nasce não é apenas o lugar onde nossos pés pisam. É o lugar onde nossa história cria raízes.























































