segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Vídeo: o enxadrista Abdusattorov e a delicada arte de amar no Uzbequistão: do tabuleiro ao noivado

 


​Crédito do vídeo: "Vídeo: Aybek Ismailov"



Existem noites em que os tabuleiros descansam e a vida convida para outra espécie de partida. As mãos, habituadas a mover peças com precisão, desenham gestos no ar. Os pés encontram o ritmo da música. E o olhar, tantas vezes concentrado nas possibilidades de uma posição, se ilumina com a presença das pessoas queridas.

É assim que Nodirbek Abdusattorov aparece na festa de seu noivado, no Uzbequistão: entregue à dança, cercado pelo calor de uma celebração que aproxima gerações. O grande mestre permite que a alegria se torne visível em cada movimento.

A cena tem uma beleza que os números do xadrez não conseguem medir. Por mais alto que um jogador chegue no ranking mundial, há instantes cujo valor pertence à intimidade: o abraço de um familiar, a emoção de anunciar um compromisso, a felicidade de imaginar uma casa e uma vida compartilhada.

Sob as luzes douradas do salão, entre rostos atentos e gestos de festa, Abdusattorov revela a juventude que também habita o campeão. Quem o acompanha diante do tabuleiro conhece a concentração, a coragem e a capacidade de encontrar caminhos em posições difíceis. Agora, vê o sorriso do homem que celebra o amor.

No xadrez, cada lance modifica o futuro. Um noivado também abre possibilidades: traz planos, esperanças e a disposição de caminhar ao lado de alguém. Mas a vida a dois pede uma sabedoria própria, aprendida no cuidado cotidiano, na escuta e na paciência de acolher o outro.

Essa é a poesia mais delicada. Enquanto a música atravessa o salão, a fama fica pequena diante da alegria de pertencer. Ali, o nome conhecido nos torneios é também o nome chamado com carinho pela família.

Samarcanda evoca a grandeza das disputas e a memória dos encontros. A festa acrescenta a essa paisagem uma lembrança pessoal: a noite em que um grande mestre dançou para celebrar o começo de uma nova história.

E os passos seguem, leves, sob a luz.

O tabuleiro pode esperar. O amor acaba de convidá-lo para dançar.

CURTIS LEE


 

IV SALÃO DE ARTES DE GUAÇUÍ

 


Música de Portugal


 

A mulher que levava um inverno no coração



A neve caía sobre São Petersburgo, na Rússia, com a delicadeza de quem teme acordar uma lembrança. Nas calçadas, acumulava-se em silêncio; na rua molhada, encontrava as luzes dos lampiões e se desfazia em pequenos reflexos dourados.

Uma mulher caminhava sozinha.

O vestido escuro roçava a brancura do chão. Sob o chapéu, o rosto permanecia inclinado, como se ela procurasse entre as próprias pegadas alguma resposta que não encontrara em casa. Havia saído sem pressa, embora o frio aconselhasse o contrário.

Uma carruagem passou. Ouviram-se os cascos dos cavalos, o ranger das rodas, um ruído breve de vida atravessando a noite. Ela ergueu os olhos por um instante. Talvez esperasse reconhecer alguém atrás da janela; talvez fosse apenas o antigo costume de olhar.

Depois, a carruagem desapareceu, deixando os reflexos da rua a tremer.

Ao longe, as torres mal se distinguiam entre a névoa e a neve. A cidade parecia recolhida em si mesma. Atrás de alguma vidraça haveria uma chaleira aquecendo, uma conversa à mesa, mãos estendidas sobre o fogo. A mulher pensou nessas pequenas coisas. Eram elas que mais lhe faziam falta: a segunda xícara, uma voz perguntando pelo seu dia, o cuidado distraído de tirar um floco de neve de seu ombro.

Continuou andando.

Naquela rua, certa vez, dois passos haviam acompanhado os seus. Lembrava-se de ter sentido frio e de haver escondido a mão numa mão maior. Já não sabia o assunto da conversa. Guardava, porém, a impressão do calor, o riso que interrompera uma frase, a vontade de prolongar o caminho.

Agora, diante de um lampião, parou para ajustar a luva. Um floco pousou no tecido escuro e ficou ali por alguns segundos, inteiro, com sua forma minúscula e improvável. Ela o observou até que derretesse.

Foi então que sorriu, quase sem perceber.

A lembrança daquela mão ainda doía, mas naquela noite também lhe devolvia alguma ternura. Podia recordar o que havia sido bom sem pedir à rua que trouxesse de volta quem partira.

Quando retomou a caminhada, levantou um pouco o rosto. A neve tocou-lhe as faces. Mais adiante, uma janela iluminada desenhava um quadrado de luz sobre a calçada, e ela passou devagar por dentro dele.

Ao chegar à esquina, voltou-se uma última vez. As pegadas permaneciam visíveis, embora a neve já começasse a suavizar suas bordas.

Depois, seguiu em direção a casa. Havia uma chaleira, uma xícara e uma noite inteira à sua espera.

SALSA, MAMBO & CHA CHA CHA


 

Jazz Latino