O NORTE FLUMINENSE, Bom Jesus do Itabapoana (RJ)
Jornal fundado por Ésio Martins Bastos em 25 de dezembro de 1946 e dirigido por Luciano Augusto Bastos no período 2003-2011. E-mail: onortefluminense@hotmail.com
sábado, 4 de julho de 2026
Um Pedaço dos Açores no Coração de Bom Jesus do Itabapoana
O Sangue Açoriano que Moldou o Itabapoana
Calheiros é uma das terras que guardam o passado não como poeira sobre livros velhos, mas como seiva que corre viva no tronco das árvores. Ali, o tempo parece conversar de perto com o presente. No Sítio Benedito Santos, o silêncio acolhedor da paisagem fluminense ganhou um novo e vibrante capítulo.
André Luiz de Oliveira, presidente da Associação dos Amigos do Memorial Governadores Roberto e Badger Silveira, traz no sorriso simples e nos pés a autenticidade de quem cuida das próprias raízes. Ao fixar a placa próxima ao Memorial sob o céu aberto, ele não fincou apenas madeira na terra; fincou um convite à memória. A placa é um chamado para se conhecer a Praça Três Irmãos, uma justa homenagem a três gigantes daquela região: os governadores Roberto e Badger Silveira, e o deputado federal Zequinha Silveira, todos açordescendentes.
Naquela madeira exposta ao sol, um detalhe discreto carrega um oceano de histórias: a bandeira dos Açores. Ela flutua ali, em cores e símbolos, para lembrar a todos que a força dessa família cruzou o Atlântico; o sangue açoriano moldou o caráter e o destino daqueles homens públicos.
Testemunhando o sussurro do vento e a força dos planos que virão, André fez visita à Dona Georgina Santos, a eterna presidente de honra da entidade. Juntos, como guardiões de um tesouro imaterial, desenharam as linhas da grande festividade que está por vir: os dez anos de fundação do Memorial, marcados para o dia sete de agosto.
Espera-se povo, espera-se festa, espera-se o reencontro da comunidade com sua própria identidade. E para coroar esse jubileu de lembranças, o Centro de Memórias Trabalhistas trará à luz uma publicação histórica, resgatando os laços indissolúveis entre Roberto Silveira e o chão de Bom Jesus do Itabapoana.
A história, afinal, não é feita apenas de grandes decretos. Ela se faz assim, no calor de uma tarde em Calheiros, no orgulho estampado no rosto de quem sabe de onde veio, e na promessa de que o amanhã jamais esquecerá o ontem.
FLICBonjê e FLIPir: As Feiras Literárias de Bom Jesus e Pirapetinga
Diz a nota ao rodapé do cartaz que “entre livros, vozes e encontros, a cultura faz nossa história florescer”. E há, de fato, um perfume de primavera antecipada que teima em brotar no inverno de Bom Jesus do Itabapoana quando o calendário marca o fim de julho. Entre os dias 30 de julho e 2 de agosto, a cidade deixa de ser apenas geografia para se fazer poesia viva, transformando-se no palco da IV FLICBonjê e da V FLIPIR.
Olhar para essa programação é como folhear um caderno de memórias que ainda não aconteceram, mas que já se adivinham doces.
O Despertar da Quinta-Feira
Tudo recomeça numa quinta-feira bem cedo. Às oito da manhã, as portas da Praça Governador Portela se abrem não apenas para o transeunte apressado, mas para a reconfiguração do mundo através das palavras. O vento da manhã traz o eco de histórias contadas com dinâmicas, o riso cristalino das crianças no Show de Talentos e o dedilhar tímido dos alunos da MusicArt. Quando a noite cai, trazendo a doçura musical de Sarah e o burburinho lúdico do bingo, a praça já não é mais a mesma; ela já foi batizada pelo afeto literário.
A Sexta-Feira de Encantos e Sabores
Na sexta-feira, o tempo parece esticar-se como uma linha de costura dourada. Das oito às vinte e duas horas, os livros repousam nas bancadas esperando por mãos curiosas. Há um aroma de capuchinho e pastel que emana da feira de artesanato e gastronomia ao entardecer. É a tradição que abraça a juventude da festa.
O Sábado da Outra Margem
No sábado, a poesia cruza caminhos e acorda Pirapetinga na Praça João Catarina. A FLIPir abre suas asas sob a batuta da professora Lúcia Spadarotto e das crianças das escolas municipais. Há oficinas onde as palavras ganham formas novas e rodas de conversa onde os escritores desnudam a alma. Na praça de lá e na praça de cá, a dança de Dilma Yara fecha o dia sob o luar de agosto, provando que o corpo também é um livro que se lê com os olhos do sentimento.
O Domingo de Acordes e Despedidas
E então, o domingo chega manso, com gosto de saudade antecipada. O dia é dos acadêmicos, dos monólogos poéticos e do Sarau da ACLAPTCTC, Academia Capixaba de Letras e Artes de Poetas Trovadores, onde trovas e poesias ganham o peso sagrado da voz alta. Às 15h, a Sociedade Musical Usina Santa Maria toca aquela marcha que faz o peito vibrar e os olhos marejarem, preparando o espírito para o Café Literário.
Quando o relógio marcar dezoito horas e o encerramento oficial for anunciado, as luzes das praças começarão a se apagar lentamente. Mas não haverá escuridão. Ficará, em cada morador e em cada visitante, a certeza lírica de que os livros lidos, as vozes ouvidas e os encontros vividos cumpriram seu papel: fizeram a alma de Bom Jesus do Itabapoana florescer mais uma vez.



