quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Conferência: 50 Anos de Autonomia nas Comunidades

 


Italian Vibes

 


Maria Apparecida Viestel: a Historiadora de Bom Jesus (VI)



Três gerações: Maria Apparecida Dutra Viestel, Maria Angélica e as duas netas, 2017, no Espaço Cultural Luciano Bastos 

Entre arquivos amarelados e lembranças guardadas como relíquias, a voz de Maria Apparecida Dutra Viestel nunca foi apenas a de uma pesquisadora, é a de quem vive dentro da própria história que conta.

Filha do historiador Antônio Dutra e neta do coronel Pedro Gonçalves da Silva, o “Cel. Pedroca”, primeiro prefeito na emancipação de Bom Jesus do Itabapoana em 25 de dezembro de 1890, Maria Apparecida cresceu ouvindo o passado como quem escuta histórias ao redor da mesa. Em sua memória, a cidade nunca foi cenário: sempre foi personagem.

Ela recorda que o pai certa vez publicou no jornal O Norte Fluminense o artigo “Instituições de Ensino”, posteriormente reunido no livro Páginas Memoráveis de Bom Jesus do Itabapoana, organizado por Delton de Mattos a partir de textos do jornal A Voz do Povo. Ali estavam os alicerces de uma narrativa maior,  a educação como espinha dorsal do município.

Mas a história, para ela, sempre teve rosto.

Na década de 1920, sua tia Maria Gonçalves da Silva abriu uma pequena escola particular na antiga Rua dos Mineiros, hoje Rua Gonçalves da Silva. Entre os alunos estava o historiador Francisco Camargo, conhecido como Zico, futuro pai da pianista Nina,  prova de que, em cidades pequenas, a cultura nasce em salas modestas e cresce em gerações.

A mestra ensinaria ainda por mais de trinta anos no Colégio Zélia Gisner, fundado por Adélia Barroso Bifano. Dona Adélia sonhara ser médica em Niterói, mas a morte inesperada do cunhado a trouxe de volta para cuidar da família. O pai, Francisco Bifano, construiu com tábuas da padaria os primeiros bancos escolares. Assim, em 1936, nascia uma professora, e com ela uma escola batizada em homenagem a uma amiga que partira cedo demais.

“Os alunos são como se fossem meus filhos”, repetia Dona Adélia, segundo Maria Apparecida, que ali lecionou Estudos Sociais, reunindo História e Geografia como quem costura território e memória.

Também ela percorreu as salas do Colégio Rio Branco. O diretor  Luciano Bastos dizia que era “a prata da casa”. Mais tarde, ensinaria no Colégio Estadual Padre Mello, levando aos estudantes não apenas datas, mas pertencimento.

Hoje, quando fala, não fala apenas de escolas,  fala de uma cidade educada por afetos. Em cada nome citado, Maria Apparecida reconstrói uma rede invisível de mestres, pais e alunos que ergueram Bom Jesus do Itabapoana com cadernos antes de tijolos.

Sua narrativa é jornalística porque informa, mas é lírica porque devolve vida.

E talvez seja esse o verdadeiro papel do historiador: impedir que a memória vire silêncio.

Dilma Yara e as Andarilhas de Madalena: Um Encontro que Floresceu no Carnaval

 



Na manhã clara de 6 de setembro de 2025, Dilma Yara chegou a Santa Maria Madalena como quem traz na bagagem algo invisível, não malas, mas possibilidades.

Era apenas uma aula experimental de dança cigana artística. Apenas,  palavra pequena demais para o que viria. Reuniram-se mulheres curiosas, depois interessadas, e logo encantadas. Quando se percebeu, já eram 35 corações batendo no mesmo compasso. Não era só técnica, nem coreografia: era reencontro. Entre giros, saias e sorrisos, alguma memória antiga do feminino parecia despertar, como se cada passo dissesse “você ainda é inteira”.

Nas manhãs de outubro, o Clube dos Leões de Santa Maria Madalena passou a respirar diferente. O salão virou círculo, o espelho virou portal e o tempo, cúmplice. Ali nasceu mais que um grupo: nasceu pertencimento. Chamaram-se Andarilhas de Madalena, nome que já continha destino.

E o destino gosta de festa.

No carnaval recém-encerrado, veio o convite da Mocidade Independente de Itaporanga. Coreografadas em 24 horas, urgência típica das alegrias verdadeiras, elas atravessaram a avenida não como alunas, mas como história em movimento. As saias contavam o que as palavras não alcançam: liberdade aprendida juntas.

Dilma, feliz como quem vê uma semente reconhecer a própria árvore, escreveu ao jornal O Norte Fluminense de Bom Jesus do Itabapoana que partilhava sua alegria ao ver “minhas meninas” fazendo bonito. E fizeram. Não apenas desfilaram; encantaram.

Naquela noite, percebeu-se que há cidades que não produzem só lembranças, produzem brilho. E assim Santa Maria Madalena reafirmou sua vocação: não apenas terra de montanhas e histórias, mas também de astros do carnaval, daqueles que nascem quando a arte encontra a alma coletiva.

Porque às vezes um projeto começa com passos de dança.

E termina virando constelação.







Morre o bonjesuense José Luiz Padilha Martins; comunidade lamenta perda e presta homenagens

 Com informação de Raul Travassos 


A cidade amanheceu em silêncio.

Não o silêncio comum das manhãs de interior, quebrado pelo canto dos galos ou pelo ranger dos portões antigos, mas um silêncio mais fundo,  desses que parecem nascer dentro do peito da gente. Faleceu o bonjesuense José Luiz Padilha Martins, e com ele parte um pedaço da história afetiva de nossa terra.

Há pessoas que não ocupam apenas um endereço; ocupam um tempo. José Luiz era dessas presenças que atravessavam gerações como quem atravessa a praça principal em fim de tarde,  cumprimentando um, aconselhando outro, sorrindo para todos. Seu nome não era apenas registro em cartório, era memória viva nas esquinas, nas conversas demoradas, nas lembranças que agora se tornam relíquias.

Em cada cidade pequena existem aqueles que, sem alarde, sustentam o espírito do lugar. São guardiões invisíveis das tradições, das histórias repetidas à sombra das árvores antigas, dos valores que não se ensinam em livros. José Luiz era um desses expoentes bonjesuenses,  referência, presença, raiz.

Ao saber da notícia, ecoaram as palavras de Raul Travassos:

“Mais um expoente bonjesuense que nos deixa... A cada dia ficamos mais pobres.”

E é verdade. Não se trata da pobreza das moedas, mas da ausência dos que carregavam consigo a riqueza da experiência, da convivência, da memória. Cada partida é como uma página arrancada do livro coletivo da cidade. Permanecem as histórias, mas já não temos a voz que as contava.

Contudo, há uma forma serena de permanência. Ela mora nas lembranças compartilhadas, nas atitudes que inspiraram outros, nos valores que continuam a ser vividos por filhos, amigos, conterrâneos. José Luiz não se despede por inteiro; ele se espalha. Fica na praça, no banco da igreja, na calçada onde conversava, no coração de quem o conheceu.

Bonjesuense não é apenas quem nasce aqui, é quem constrói pertencimento. E José Luiz construiu.

Hoje, a cidade chora. Amanhã, lembrará. E enquanto houver memória, haverá presença.

Que descanse em paz.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Toninho do Tupy: o herói do Carnaval de Bom Jesus do Norte e de nossas memórias

 Com informações de André Luiz de Oliveira 



Hoje, Toninho do Tupy,  que em 8 de abril soprará mais uma vela no tempo, amparado pela família e abraçado pelos amigos, fez mais do que um gesto: plantou memória.

Não foi apenas para Bom Jesus do Norte, foi para os olhos das crianças de amanhã, para quem ainda nem sabe que também herdará histórias.

Depois das enchentes, quando a água levou cores, risos e pedaços da festa, ele recolheu silêncios quebrados e devolveu vida às formas esquecidas.

Reformou bonecos feridos, costurou neles a esperança, e, como quem devolve alma ao barro, fez nascer de novo o que parecia perdido.

Hoje dois bonecos caminharam pelas ruas, não eram só bonecos.

Eram lembranças andando de mãos dadas com o futuro, eram sonhos aprendendo a não desistir da cidade.

Porque há gente que reconstrói paredes, e há quem reconstrua o coração do lugar.

Toninho escolheu o segundo.



André Luiz de Oliveira e Ronei, filho de Toninho do Tupy








13 de março: Dia Estadual da Poetisa Capixaba. Uma mensagem da Academia MARIA ANTONIETA TATAGIBA - Artes - História - Letras

 


 A "Primeira-Dama" das Letras Capixabas