sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Rustam Kasimdzhanov: o arquiteto da geração dourada do xadrez do Uzbequistão

 

Um país que passou a tratar o xadrez como instrumento de educação, identidade e orgulho nacional



Em Samarcanda, enquanto jovens enxadristas conduzem cavalos, bispos e torres pelos tabuleiros da Olimpíada de Xadrez de 2026, existe um homem que observa cada movimento com a serenidade de quem já conheceu o ponto mais alto do esporte. Seu nome é Rustam Kasimdzhanov, o campeão que um dia colocou o Uzbequistão no trono mundial e que, agora, procura conduzir uma nova geração rumo à glória.

Nascido em 5 de dezembro de 1979, em Tashkent, Kasimdzhanov tornou-se Grande Mestre em 1997. Naqueles anos, o xadrez uzbeque ainda buscava um rosto capaz de representar internacionalmente suas esperanças. Ele não apenas emprestou seu rosto a esse sonho: deu-lhe inteligência, coragem e uma coroa.

Em 13 de julho de 2004, na cidade de Trípoli, na Líbia, ocorreu o momento que mudaria definitivamente sua trajetória. Ocupando apenas a 54ª colocação no ranking mundial, Kasimdzhanov contrariou previsões e atravessou um caminho povoado por gigantes. Superou nomes como Vassily Ivanchuk, Alexander Grischuk e Veselin Topalov, antes de derrotar Michael Adams na final e conquistar o título de Campeão Mundial da FIDE.

Naquele instante, não foi apenas um jogador que venceu. Uma nação inteira percebeu que também poderia alcançar o topo do mundo sobre as 64 casas de um tabuleiro. A vitória de Kasimdzhanov tornou-se uma semente lançada no fértil imaginário das crianças uzbeques. Muitos dos jovens que surgiriam posteriormente cresceram sabendo que alguém nascido em sua própria terra já havia enfrentado e vencido os maiores enxadristas do planeta.

Sua carreira como jogador ainda lhe reservaria outras conquistas, entre elas a medalha de ouro nos Jogos Asiáticos de 2010. Contudo, o destino parecia guardar para Kasimdzhanov uma missão ainda mais profunda. Depois de demonstrar sua força diante do tabuleiro, ele passou a revelar sua grandeza atrás dele.

Kasimdzhanov tornou-se um dos treinadores e “segundos” mais respeitados do xadrez mundial. Nesse trabalho silencioso, longe dos aplausos e dos flashes, estudou adversários, preparou aberturas, encontrou novidades teóricas e ajudou grandes jogadores a suportarem o peso psicológico das batalhas mais importantes. O campeão transformou sua experiência em bússola para outros navegantes.

Ao lado do lendário indiano Viswanathan Anand, participou da preparação para três disputas vitoriosas do Campeonato Mundial, em 2008, 2010 e 2012. Mais tarde, entre 2015 e 2021, trabalhou com o norte-americano Fabiano Caruana, integrando sua equipe na conquista do Torneio de Candidatos de 2018 e no duelo pelo título mundial contra Magnus Carlsen.

Sua experiência também alcançou o xadrez coletivo. Kasimdzhanov integrou a comissão técnica da Alemanha quando a seleção conquistou o Campeonato Europeu por Equipes de 2011. Aprendeu, assim, que uma equipe não se constrói apenas com talentos individuais. É preciso unir diferentes temperamentos, compreender os silêncios, administrar as derrotas e transformar cinco jogadores em uma única vontade.

Em 2025, ele retornou simbolicamente ao ponto de partida ao assumir o comando da seleção masculina do Uzbequistão. Encontrou uma geração extraordinária, formada por nomes como Nodirbek Abdusattorov, Javokhir Sindarov e Nodirbek Yakubboev. Jovens que não nasceram do acaso, mas de um país que passou a tratar o xadrez como instrumento de educação, identidade e orgulho nacional.

Kasimdzhanov conhece os caminhos percorridos por esses talentos. Participou do desenvolvimento de vários deles e acompanhou de perto a evolução de Sindarov. Não é somente o técnico que prepara variantes ou escolhe a formação da equipe. É a memória viva de uma conquista que abriu as portas para todos os que vieram depois.

Na Olimpíada de 2026, disputada em solo uzbeque, sua presença como capitão possui um significado especial. Diante dos tabuleiros estão os jovens da geração dourada. Atrás deles permanece o homem que, há mais de duas décadas, provou que o Uzbequistão poderia conquistar o mundo.

O jogador de ontem tornou-se o mestre de hoje. Aquele que movimentava as peças agora ajuda a movimentar uma nação inteira. Sua maior obra talvez não esteja registrada em uma única partida, mas na construção de uma escola, de uma mentalidade e de uma confiança coletiva.

Por isso, a história do Uzbequistão em Samarcanda não se limita aos resultados anotados nas súmulas. Ela fala de continuidade, de herança e de um sonho que atravessa gerações. Fala de um campeão mundial que retornou à sua pátria não para viver das glórias do passado, mas para preparar o futuro.

Rustam Kasimdzhanov é a ponte entre a primeira coroa e a nova era do xadrez uzbeque. É o campeão que se tornou professor, o estrategista que se transformou em arquiteto e o homem que, por trás da geração dourada, continua movendo silenciosamente as peças da história.



O meu melhor, por Rogério Loureiro Xavier

 


*Olá 🖐 pessoa amiga e do bem.*


*"O meu melhor"*


*Se um dia me perguntarem qual foi a melhor coisa que fiz na vida, responderei com orgulho: dei o meu melhor a quem cruzou o meu caminho.*


*Mesmo diante das decepções, nunca permiti que as atitudes dos outros mudassem a essência  do meu coração.*


*Tudo o que fiz de bom, fiz com sinceridade e de coração.*


*✍️ ... Rogerio Loureiro Xavier*

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A menina que fugiu com a boneca


Por Gino Martins Borges Bastos 



Eu era jovem e me encontrava na biblioteca situada na parte de cima de minha casa. No meio de livros e silêncios, o mundo parecia distante, protegido pelas paredes e pelas páginas. Foi então que, repentinamente, ouvi gritos vindos da rua.

Levantei-me e abri a janela.

Uma menina caminhava pela calçada, apertando uma boneca contra o peito. Atrás dela, um homem corria e gritava:

- Por que você fugiu de casa?

A menina não respondeu. Continuou andando, levando consigo apenas aquela pequena companheira de pano, plástico e silêncio. Pouco depois, os dois dobraram a esquina e desapareceram de minha vista. Os gritos cessaram. A rua voltou à sua rotina. E eu jamais soube o desfecho daquela história.

Mas a imagem permaneceu dentro de mim.

Durante muito tempo, perguntei-me que sofrimento teria levado aquela criança a abandonar a própria casa. Que palavras duras teria escutado? Que medo teria atravessado sozinha? Quantas lágrimas teriam caído sem que ninguém as enxugasse? Para uma criança, fugir de casa não é apenas atravessar uma porta: é romper, com passos frágeis, a fronteira entre aquilo que deveria ser abrigo e aquilo que se transformou em dor.

Ela não levou roupas, alimentos ou qualquer objeto útil. Levou somente a boneca.

Talvez porque, em sua inocência, a boneca fosse a única criatura que a escutava sem julgá-la. Talvez fosse sua confidente, sua irmã imaginária, seu último pedaço de lar. Ao apertá-la contra o peito, aquela menina parecia proteger o pouco de ternura que ainda possuía, ou talvez pedisse à boneca a proteção que não encontrara entre os adultos.

Existem dores infantis que não sabem pronunciar o próprio nome. Elas se escondem no silêncio, no olhar assustado, na vontade de desaparecer. Algumas crianças não conseguem fugir pelas ruas; fogem para dentro de si. Crescem construindo quartos secretos na alma, lugares onde guardam o medo, a incompreensão e o desamor.

A infância deveria ser o tempo da confiança, mas, para tantas crianças, ela se torna a primeira escola da tristeza. E é particularmente cruel quando aqueles que deveriam oferecer colo são justamente os que ferem; quando o lar, que deveria ser porto, converte-se em tempestade.

Mesmo depois de adultos, conservamos dentro de nós a criança que fomos. Ela continua segurando sua boneca invisível, tentando preservar a inocência diante das muitas forças que procuram destruí-la. Algumas pessoas passam a vida inteira tentando reencontrar a menina ou o menino que um dia precisou fugir, ainda que ninguém tenha percebido a fuga.

Décadas se passaram, mas aquela menina jamais dobrou completamente a esquina de minha memória. Ainda a vejo caminhando pela calçada, pequena diante do mundo, abraçada à sua boneca. Não sei se voltou para casa, se encontrou acolhimento ou se alguém compreendeu a profundidade de sua dor.

Sei apenas que ela desapareceu de meus olhos, mas nunca de minha alma.

E, sempre que penso nas crianças que sofrem silenciosamente dentro dos próprios lares, volto àquela janela. Vejo novamente aqueles passos apressados e aquela boneca apertada contra o peito. Então, uma pergunta antiga retorna, coberta por uma tristeza que o tempo não conseguiu apagar:

quantas meninas ainda fogem todos os dias, levando consigo apenas o último pedaço de amor que lhes restou?

Isabela Grilo é eleita Rainha do Café de Varre-Sai

 



O desfile do Concurso Rainha do Café de Varre-Sai aconteceu no dia 18 de setembro de 2026, marcando a abertura de um evento que celebrou a tradição e a identidade cafeeira do município, reconhecido como a Capital Estadual do Café no Rio de Janeiro.

Com charme, simpatia e elegância, Isabela Grilo conquistou os jurados e o público, sendo escolhida como a Rainha do Café de Varre-Sai 2026.

O concurso valorizou a participação das jovens ligadas às comunidades e famílias produtoras de café, destacando a importância da cultura cafeeira para a história, a economia e a identidade de Varre-Sai.

A escolha da Rainha do 1° Festival do café de Varre-Sai, marcou um dos momentos de destaque das comemorações, celebrando não apenas a beleza, mas também o vínculo das jovens com a terra e com a tradição que atravessa gerações.

Isabel Menezes/ Professora e historiadora




quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A delicada arte de ler as pessoas


 É possível afastar-se do mal sem aprender a odiar




A vida, esse livro sem índice e sem páginas numeradas, ensina-nos lentamente a distinguir a aparência da essência, a cortesia verdadeira da gentileza ensaiada, o sorriso que acolhe daquele que apenas disfarça intenções.

Os invejosos procuram diminuir a luz alheia porque ainda não descobriram como acender a própria chama. Os nobres, ao contrário, ajudam sem tocar trombetas, oferecem a mão sem exigir plateia e fazem do bem um segredo partilhado apenas com Deus. As mentes pequenas gastam seus dias examinando a vida dos outros; as grandes mentes atravessam as noites conversando com ideias, sonhos e possibilidades.

Os corajosos não são aqueles que desconhecem o medo, mas os que o reconhecem e, apesar dele, seguem adiante. Os fortes não colecionam ressentimentos: compreendem que perdoar não é esquecer a ferida, mas impedir que ela continue governando o coração. Já os fracos procuram culpados, pois é sempre mais fácil apontar para fora do que contemplar as próprias sombras.

Existem os que acreditam saber tudo e, por isso, já não conseguem aprender. E existem os sábios, que conhecem a hora da palavra e a dignidade do silêncio. Eles sabem que nem toda provocação merece resposta, nem toda discussão conduz à verdade e nem toda promessa merece confiança. Quem promete demais, muitas vezes, oferece apenas o eco de palavras vazias.

Mas ler as pessoas não significa julgá-las apressadamente. Cada ser humano guarda batalhas que os olhos não alcançam. A verdadeira sabedoria está em observar com serenidade, compreender com prudência e preservar o coração sem endurecê-lo. É possível reconhecer a falsidade sem perder a bondade, perceber a inveja sem apagar a própria luz e afastar-se do mal sem aprender a odiar.

No fim, as pessoas felizes são justamente aquelas que não invadem a vida alheia porque estão ocupadas demais cultivando o próprio jardim. Vivem, amam, perdoam e seguem. E compreendem que a mais profunda leitura do ser humano não acontece apenas pelos olhos, mas pelo coração, esse silencioso intérprete dos gestos que as palavras jamais conseguem esconder.

UZBEQUISTÃO: QUANDO O XADREZ SE TORNOU UMA LÍNGUA NACIONAL



Algo está mudando no mundo do xadrez. E, desta vez, seu centro de gravidade não está em Moscou, Nova Délhi ou na Europa, mas no Uzbequistão. Um país que, no passado, aparecia apenas ocasionalmente nas conversas sobre o xadrez de elite agora revela uma geração que obrigou as potências tradicionais a prestar atenção.

O que torna esse fenômeno extraordinário é que o Uzbequistão não produziu apenas uma estrela. Há Abdusattorov, Sindarov, Yakubboev e um grupo cada vez maior de jovens enxadristas. Eles surgiram da mesma geração, treinaram lado a lado, desafiaram uns aos outros e ascenderam juntos ao mais alto nível. Essa trajetória parece menos fruto do acaso e mais o resultado de algo cuidadosamente preparado.

O segredo talvez não esteja apenas no talento. O Uzbequistão construiu um ecossistema antes de construir uma dinastia. As crianças são apresentadas ao xadrez desde cedo, as competições juvenis continuam crescendo e o sucesso de uma geração inspira a seguinte. Quando um jovem vê seu país revelar campeões, o sonho de se tornar um deles já não parece tão distante.

Agora, enquanto o mundo se reúne em Samarcanda para a Olimpíada de Xadrez, o Uzbequistão já não é apenas o anfitrião. O país está entre os gigantes do jogo. Uma nação que, certa vez, surpreendeu o mundo enxadrístico tornou-se uma força que não pode ser ignorada. O que mudou não foram somente os nomes no topo da classificação, mas também a maneira como um país enxerga o futuro do xadrez.

E talvez esse seja o significado mais profundo da ascensão do Uzbequistão. O xadrez deixou de ser tratado apenas como um jogo praticado por pessoas naturalmente talentosas e passou a ser visto como um espaço no qual uma geração inteira pode aprender a pensar. No fim, todos os países possuem o mesmo tabuleiro. Mas as políticas construídas ao redor dele podem criar futuros muito diferentes.

Rodolfo Graziano: dignidade e resistência no ofício de jornaleiro

 

Rodolfo Graziano Sinforoso

O jornal O Norte Fluminense recebeu duas bonitas mensagens vindas da Tijuca, no Rio de Janeiro. A ponte foi mais uma vez o nosso amigo Francisco Amaro Borba Gonçalves. A primeira foi enviada por Rodolfo Graziano Sinforoso, proprietário da tradicional Banca do Rodolfo, situada no Largo da Segunda-Feira. A segunda é de Valéria Rôças, moradora do bairro e leitora da matéria publicada pelo jornal sobre o trabalho desenvolvido pelo jornaleiro.

Valéria acompanha de perto a transformação promovida por Rodolfo, que fez de sua banca não apenas um lugar de venda de jornais e revistas, mas também um espaço de convivência, incentivo à literatura e circulação de ideias. “Tem sido uma experiência formidável ver os resultados dessa iniciativa”, afirmou.

As mensagens chegam em um momento especialmente significativo. No dia 30 de setembro, o Brasil comemora o Dia do Jornaleiro, data dedicada aos profissionais responsáveis, historicamente, pela distribuição e comercialização de jornais, revistas e outras publicações impressas. Ao longo de gerações, os jornaleiros tornaram-se agentes fundamentais da informação, da cultura e do acesso à leitura nas ruas das cidades.

Para celebrar a data, está prevista na Tijuca uma confraternização que deverá reunir cerca de 200 pessoas, reafirmando o carinho da comunidade por esses profissionais e o reconhecimento à importância das bancas de jornais como espaços de memória, informação e encontro.

Mensagem de Rodolfo Graziano Sinforoso

“Prezados amigos,

Ao agradecer a homenagem dessa instituição, da qual tenho a honra de pertencer, desejo expressar o meu compromisso com a tradição daqueles que se dedicam ao nobre exercício da profissão de jornaleiro.

Vivemos tempos nos quais a informação e a difusão de notícias têm sido feitas pelas chamadas redes sociais. O noticiário do dia é divulgado pelos celulares e, por isso, são poucos os que ainda mantêm o hábito de portar um exemplar de jornal ou mesmo uma revista, como acontecia em tempos passados.

Para que uma banca continue a existir e a servir aos cidadãos, mantendo viva essa tradição, tenho transformado esse espaço em um ponto de leitura, oferecendo livros de interesse daqueles que, além das notícias, também se interessam por obras literárias, históricas ou científicas. Com isso, tenho encontrado boa receptividade, e a banca vem se tornando um ponto de encontro no qual a cultura é valorizada.

Com o apoio de amigos e leitores, busco fazer da banca um lugar que possa, de alguma maneira, suprir a ausência das livrarias, que vêm desaparecendo ao longo dos últimos anos. Conto com a simpatia de muitas pessoas, que me estimulam a continuar essa batalha pela preservação de espaços que se tornam lugares de encontro e de troca de ideias.

Mesmo enfrentando todas as dificuldades, continuarei realizando esse trabalho, que me dá forças para seguir adiante, ao lado de todos vocês, que hoje me deixam ainda mais convencido da importância daquilo que fazemos. Assim, creio que ‘dignidade’ é a palavra que melhor se aplica ao trabalho voltado para o benefício de toda a comunidade da qual fazemos parte.”

Rodolfo Graziano Sinforoso

Mensagem de Valéria Rôças

“Prezados,

Li a matéria sobre Rodolfo, proprietário da banca de jornais do Largo da Segunda-Feira.

Com alegria, confirmo o importante papel que ele vem exercendo na localidade, promovendo e incentivando públicos de diferentes naturezas a retomarem o hábito da leitura.

Passei a frequentar a banca e não me canso de admirar seu empenho e sua determinação para fazer a literatura ‘adentrar’ a vida de tantas pessoas, reunindo em sua banca jornais, histórias e afetos!

Minha expectativa é que a banca seja incorporada como mais um Ponto de Cultura de nosso município.

Vamos acompanhar todas as vitórias de iniciativas como essa, que se fazem presentes pelo país e ressignificam vidas!

Parabéns ao jornal O Norte Fluminense pelo reconhecimento desse trabalho.”

Valéria Rôças

As palavras de Rodolfo e Valéria revelam que uma banca de jornais pode ser muito mais do que um estabelecimento comercial. Pode tornar-se uma pequena praça da cultura, onde as notícias encontram os livros, os leitores encontram uns aos outros e a cidade preserva um espaço precioso para o diálogo, a memória e os afetos.