Pirapetinga de Bom Jesus despertou, no primeiro dia de agosto de 2026, ao suave rumor das páginas sendo abertas. Logo nas primeiras horas da manhã, percebia-se que algo extraordinário estava em curso.
A praça deixava de ser apenas um espaço urbano para transformar-se em uma grande sala de aula a céu aberto. Crianças corriam entre os estandes, estudantes carregavam livros como quem leva sementes, professores sorriam discretamente ao ver a curiosidade vencer a timidez, enquanto escritores, poetas e artistas chegavam trazendo na bagagem aquilo que nenhuma mala consegue conter: histórias, memórias e sonhos.
Assim teve início a V Feira Literária de Pirapetinga, FLIPIR, com o tema LER PARA PERTENCER: HISTÓRIAS QUE INSPIRAM FUTURO. Mais do que um evento cultural, a feira revelou-se um verdadeiro estado de espírito. Durante todo o dia, a pequena vila permitiu que a literatura ocupasse as ruas e a praça, dialogasse com a música, abraçasse a educação e encontrasse na poesia uma forma delicada de recordar que os povos permanecem vivos enquanto preservam sua memória e cultivam a força das palavras.
A manhã da juventude e do conhecimento
A manhã pertenceu à juventude. Três escolas reuniram-se em uma animada gincana cultural que transformou o conhecimento em espetáculo e a convivência em vitória coletiva. Equipes dos alunos das Escolas Municipais João Catarina e Iracema Seródio Boechat participaram da competição com os do CIEP Marlene Abib de Oliveira Fabro, de Varre-Sai, que trouxeram entusiasmo e alegria, liderados pela renomada escritora, historiadora e professora Isabel Menezes.
Na sequência, a consagrada trovadora Lúcia Spadarotto conduziu uma oficina de trovas que transformou adolescentes em verdadeiros artesãos da palavra. O tema proposto, Gentileza, parecia simples apenas à primeira vista. Cada equipe escreveu seus versos, apresentou-os ao público e compartilhou, de improviso, as emoções despertadas pela experiência. Naquele instante, constatou-se que ensinar literatura vai muito além de transmitir técnicas: significa despertar sensibilidades e revelar novos olhares sobre o mundo.
A participação da União Brasileira de Trovadores - Seção Itaperuna foi um dos pontos altos da programação. Era como se uma verdadeira seleção da trova brasileira tivesse escolhido Pirapetinga para celebrar a poesia. Lúcia Spadarotto, Jane Bauer, Mariana Nogueira Lombardi, Gogó Pacheco, Luciana Pessanha Pires, Abia Dias, Gorete Demétrio, Cremilce de Souza Fernandes Nunes, Vanderleia Pacheco e Gabriela reuniram décadas de dedicação à arte trovadoresca, enriquecendo a programação com talento, experiência e sensibilidade. Jane Bauer e Mariana Nogueira Lombardi integraram também o corpo de jurados da gincana, conferindo à avaliação o olhar criterioso de quem conhece profundamente a poesia.
No meio de provas, desafios e descobertas, a equipe amarela, representando Varre-Sai, conquistou o primeiro lugar. Ao final, porém, todos pareciam vencedores. Afinal, quando o conhecimento é celebrado, não existem derrotados.
A literatura brasileira esteve representada por nomes de grande expressão. Prestigiou a feira Sol Figueiredo, presidente da Academia de Letras do Brasil (ALB), que apresentou publicações da entidade e reafirmou a importância nacional da FLIPir. Também marcou presença a escritora Cristiana Ana, premiada internacionalmente e integrante da ACLAPTCTC, ampliando o diálogo entre diferentes expressões da literatura contemporânea. A Editora O Norte Fluminense participou com a exposição de obras de seu catálogo editorial.
A voz dos Açores ecoou em Pirapetinga
Mas havia um visitante que parecia ter atravessado muito mais do que o Oceano Atlântico. O poeta açoriano Francisco Amaro Borba Gonçalves trouxe consigo o perfume das ilhas, a memória dos navegantes e a emoção dos ancestrais que, séculos atrás, partiram rumo ao Brasil. Seus poemas e canções encontraram eco imediato entre o público.
Ao homenagear a poetisa Iracema Seródio Boechat, descendente de açorianos, uniu simbolicamente dois continentes separados pela geografia, mas profundamente ligados pela cultura, pela língua e pela memória. Seu poema, reproduzido ao final desta reportagem, tornou-se um dos momentos mais delicados da feira. Ao falar de Pirapetinga e de Bom Jesus do Itabapoana, mostrou que a literatura possui um privilégio raro: construir pontes onde os mapas mostram distâncias.
Uma tarde de homenagens, memória e emoção
A tarde foi igualmente generosa. Houve sorteios, apresentações culturais, rodas de conversa, o espetáculo musical EmocionalMente, exposições e manifestações artísticas que revelaram o talento das escolas participantes. Cada atividade confirmava que a literatura nunca caminha sozinha; ela sempre traz consigo a música, o teatro, a memória, a amizade e a esperança.
Entre tantos momentos marcantes, alguns permanecerão gravados na história da comunidade. O médico e escritor Lauro Amaral foi homenageado pela Escola Municipal João Catarina, enquanto a Escola Municipal Professora Iracema Seródio Boechat prestou homenagem ao vice-prefeito Sávio de Almeida Borges.
A Escola Municipal João Catarina também homenageou o maestro Oseas José Severino, reconhecendo sua dedicação, paciência e incentivo permanente na formação da fanfarra escolar e nas inúmeras conquistas culturais alcançadas por Pirapetinga.
Outro instante de grande emoção foi a homenagem póstuma ao médico e escritor Norberto Seródio Boechat, promovida pelo Pirapetinga Futebol Clube. Os filhos Filipe e Miguel receberam a homenagem, idealizada pelo dr Nino Moreira Seródio. A solenidade reconheceu aquele que pertence à rara linhagem dos homens que vencem o tempo: médico por vocação, escritor por inspiração e guardião da memória de seu povo por amor.
Em um dos atos mais simbólicos da programação, a fanfarra da Escola Municipal João Catarina passou a denominar-se Fanfarra Cecy Brandão, eternizando a memória de uma mulher que dedicou sua vida à formação humana e à educação. A partir de agora, cada apresentação musical levará consigo a lembrança de Cecy Brandão, mãe do desembargador Cláudio Brandão, exemplo de dedicação à comunidade.
A gastronomia regional também encontrou espaço na feira. Um dos estandes mais visitados foi o do Café Jacó, tradicional café bonjesuense premiado pela excelência de sua produção.
Quando a noite chegou, Pirapetinga não diminuiu seu ritmo; apenas mudou de melodia. As luzes da praça iluminaram o artesanato, o tradicional bingo comunitário e, por fim, o show do músico Josias Carlos, que encerrou o primeiro dia da feira transformando cultura em confraternização.
Nada disso, porém, teria acontecido sem o trabalho silencioso daqueles que acreditaram no projeto muito antes de ele ganhar forma. Merecem reconhecimento Lauro Amaral, Lia Márcia Amaral, Lielma Amaral, Adalto Boechat e Anízia Maria Pimentel, com apoio inestimável de Alessandra Abreu. A dedicação, idealismo e amor à terra natal demonstraram que grandes eventos culturais nascem da soma entre competência, sensibilidade e espírito público. Organizaram muito mais do que uma feira: ofereceram à vila um encontro consigo mesma.
Muito além de uma feira literária
Ao final do dia, constatou-se que Pirapetinga havia vivido algo maior do que uma programação cultural.
Por algumas horas, os livros respiraram junto com a vila. A praça converteu-se em biblioteca, escola, palco, sala de concerto e espaço de convivência. As crianças descobriram novos mundos, os jovens perceberam que a poesia ainda lhes pertence, os escritores encontraram novos leitores e os mais velhos reencontraram memórias que julgavam adormecidas.
Esse é o verdadeiro sentido de uma feira literária: lembrar que uma comunidade cresce quando aprende a contar a própria história.
Pirapetinga não realizou apenas a quinta edição da FLIPIR. Escreveu mais um capítulo de sua própria história cultural, confirmando que as vilas também possuem alma, e que essa alma se fortalece sempre que um livro é aberto, um poema é declamado e uma criança descobre o encanto infinito da leitura.
Poema do açoriano Francisco Amaro Borba Gonçalves em homenagem a Pirapetinga de Bom Jesus
Por entre vales e montanhas, andei
Me senti como os nobres admiradores;
Itinerário percorrido, ali cheguei:
Pirapetinga, cidade logo encontrei
Descendentes respeitosos dos Açores.
Dona Lucinha, com apreço e afeição
Me revela de forma surpreendente
E repleta de orgulho e consideração
Me faz despertar enorme admiração:
Alto grau de açoriano sentimento.
De sua mãe, Iracema, versos leio,
Abrindo, a esmo, aquela página cinco,
Em "Paisagens e Perfis" versos relevo
"Descendente da terra que seu pai veio"
Demonstrando orgulho e muito afinco.
01/08/2026