terça-feira, 27 de outubro de 2026

“Dio, come ti amo!”: a canção que encantou o Cine Monte Líbano


Cine Monte Líbano: as filas de um amor que ainda canta






Houve um tempo em que o amor fazia fila na entrada do Cine Monte Líbano. Chegava em pequenos grupos, em casais, em passos apressados de quem temia perder o início da sessão. Antes que a tela se iluminasse, a própria espera já era um acontecimento: conversas, encontros e a expectativa de ouvir uma voz que vinha de longe, mas parecia cantar tão perto de cada coração.

Construído pelo libanês Merhige Hanna Saad e inaugurado em 14 de agosto de 1950, o Cine Monte Líbano nasceu do sonho de um homem que ofereceu a Bom Jesus do Itabapoana um lugar para acolher outros sonhos. Ali, gerações encontrariam histórias, melodias e emoções que permaneceriam muito além do último instante de cada sessão.

Entre os filmes que mais tempo permaneceram em exibição no cinema bonjesuense, o italiano Dio, come ti amo!, de 1966, conquistou um lugar especial. Estrelado por Gigliola Cinquetti, trazia no título uma declaração que dispensava tradução para ser compreendida. Bastava a música começar.

As grandes filas se repetiam a cada exibição. Quem passava diante do Cine Monte Líbano encontrava aquele movimento de gente reunida pelo desejo de acompanhar uma história de amor. É bonito imaginar quantas conversas começaram ali, quantas mãos se procuraram durante a sessão, quantas pessoas saíram levando consigo uma melodia.

Na tela, Gigliola era uma jovem e humilde nadadora napolitana que viajava à Espanha para uma competição e se apaixonava por Luis, interpretado por Mark Damon. Ele era rico e estava comprometido com sua melhor amiga. Entre sentimentos difíceis de esconder e o receio de revelar sua condição social, a moça fingia pertencer a uma família abastada, contando com a cumplicidade dos pais.

Por trás dos mal-entendidos, havia uma fragilidade reconhecível: o medo de que aquilo que somos não seja suficiente para quem amamos. E talvez fosse essa delicadeza que aproximasse a personagem de quem a acompanhava das poltronas do Monte Líbano. A distância entre Nápoles e Bom Jesus diminuía quando a história tocava numa esperança ou numa insegurança conhecida.

Então vinha a voz de Gigliola.

A canção de Domenico Modugno, que alcançou grande sucesso no Brasil, encontrava no cinema um lugar para permanecer. A melodia atravessava a sala e dava expressão ao que tantos guardavam em silêncio. Havia sentimentos que uma conversa não conseguia dizer, mas que, cantados, pareciam encontrar seu caminho.

“Deus, como eu te amo!”

Talvez alguém ouvisse pensando num amor presente. Outro, numa pessoa distante. Outro ainda, na coragem que lhe faltava para fazer uma declaração. A mesma canção podia acompanhar histórias muito diferentes, reunidas por alguns instantes diante daquela tela.

O Cine Monte Líbano guardou essas sessões. Guardou a espera do lado de fora, os lugares ocupados, a atenção dos espectadores e o instante em que as luzes se acendiam, devolvendo a todos à rua. O filme terminava, mas alguma coisa continuava: um refrão, uma conversa, a vontade de voltar.

Hoje, recordar aquelas filas é reencontrar uma cidade que se reunia para sonhar. A lembrança de Dio, come ti amo! pertence também à história afetiva de Bom Jesus do Itabapoana, às pessoas que assistiram ao filme e fizeram de suas exibições um acontecimento prolongado na vida do cinema.

É nessa memória que a aquisição do Cine Monte Líbano pelo Dr. Carlos Henrique Medeiros, sócio-proprietário da UniFAMESC, ganha um significado tão especial. A perspectiva de sua restauração traz a esperança de que novas gerações possam atravessar aquelas portas e viver suas próprias descobertas. O espaço erguido por Merhige Hanna Saad encontra, assim, a possibilidade de continuar a história que começou em 1950.

Ao Dr. Carlos Henrique cabe o reconhecimento por esse gesto de compromisso com a cultura bonjesuense. Há uma emoção particular em cuidar de um lugar onde tanta gente foi feliz: cada melhoria prepara o reencontro da cidade com uma parte querida de sua vida. E podemos imaginar o dia em que a espera diante do cinema volte a ser feita de conversas, sorrisos e expectativa.

Quando pensamos no Cine Monte Líbano, ainda podemos ver a porta aberta, a fila avançando devagar e a sala à espera de mais uma sessão.

Na lembrança, Gigliola começa a cantar.

E, por um momento, o tempo nos deixa entrar.





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