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| Lenice Xavier |
Fui uma criança ativa, chamada de levada, talvez peralta, mas era na verdade inquieta, estava sempre querendo brincar, buscar novas brincadeiras, por vezes mais ousadas, como subir em grandes árvores, ou descer morro abaixo escorregando numa folha de coqueiro ou de bananeira, o que estivesse ao alcance, mas gostava também, de passar anel, fazer colares e pulseiras das flores da cruz de malta, assim como, caçar borboletas no jardim da minha avó. Não havia o menor resquício de maldade, nós as soltavamos em tempo de voar, nunca aconteceu de alguma desfalecer.
Na adolescência, aquele espírito inquieto continuou e, estava sempre inventando brincadeiras mais apropriadas para a faixa etária, era teatrinho, desfile de miss, concurso de alguma coisa e até fazer enxoval para as bonecas, fazíamos inclusive, batizado e até casamento das bonecas. Ainda adolescente, meus pais me mandaram pra fora, supostamente para estudar, porém o espírito de criar, inventar algo pra fazer, se manteve forte, só que numa outra idade e cidade, a coisa tornou-se mais séria, fui fazer teatro amador, dança (balé e contemporânea), desfile de modas, ginástica rítmica, e o que mais se apresentasse. Mas a adolescência foi se despedindo, e já não havia tempo disponível, nem tantas ofertas pra aquele tipo de criatividade, invenção, tudo foi se tornando mais sério. Com a partida do meu pai, já não havia espaço e clima para pensar em bailar e brincar.
Na sequência, vem a necessidade de terminar os estudos e aí começam os flertes com vistas a alçar ou ser alçada para casar.
Nessa nova fase, as mudanças são drásticas inevitavelmente, no meu caso, do ponto de vista profissional, não posso me queixar, tive uma boa ascenção, e nesse mister, fui crescendo e sendo reconhecida, até chegar ao final de carreira, quando conquistei um respeito, advindo da seriedade com que encarava as tarefas a mim atribuídas. Dizer que foi fácil desempenhar funções de muita responsabilidade, aliadas aos papéis de dona e casa e mãe de duas filhas, se traduzia em desafios constantes, que, com a fé e a determinação me norteando, foi possível.
Entretanto, ao aposentar aos 59 anos, tudo mudou drasticamente, filhas independentes, o espírito criativo e inquieto foi se dissipando, já não havia sequer pessoas que se prestassem em participar, o derredor não se mostrava atrativo e eu, que no fundo, sempre fui tímida, fui me fechando.
E aí que entra o título "quem me roubou de mim", pois se a gente não faz, não realiza, os espaços vão ficando vazios, assim como os instrumentos que fazem parte do "realizar", e o tempo que, inexoravelmente passa muito rápido. É quando a gente se dá conta, abre os olhos e percebe que nada daquilo te pertence e se sente alguém pequeno, frágil, sem a menor capacidade de voltar a ser aquilo que um dia foi a sua essência e te definiu como criativa, espontânea e cheia de energia.
Ao longo de mais de uma década, eu sentia que algo ou alguém havia "me roubado de mim", mas sem pressa, muito aos poucos, fui tentando decifrar e entender como e porque me roubaram de mim e hoje, com a mais absoluta certeza, posso afirmar quem, de fato me roubou de mim.
Lenice Xavier
18/10/2026

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