Falar de educação é, antes de tudo, falar da formação da alma. E, para muitas gerações, essa formação esteve profundamente ligada à vivência da fé, especialmente em tempos fortes como a Semana Santa.
Hoje, é difícil imaginar uma família que não tenha um automóvel. Mas, na década de 70, a realidade era outra. A maioria não tinha. Meu pai, por exemplo, nem dirigir sabia. Ainda assim, conduzia nossa família com segurança pelo caminho mais importante: o da fé. Ele não guiava um carro, mas guiava nossos passos até a igreja.
Nossa Semana Santa era vivida intensamente na igreja matriz de São Sebastião. Cada celebração era mais do que um rito: era uma verdadeira escola do coração.
Na Quarta-feira Santa, começávamos com a Santa Missa. Em seguida, saíamos em procissão para a Via Sacra viva, um momento profundamente marcante. Um dos trechos mais comoventes era o Encontro de Jesus com sua Santíssima Mãe, encenado em frente à capela de Santa Filomena.
Ali, enquanto o padre Antônio Siqueira recitava seu sermão com fervor e sensibilidade, víamos o Filho se aproximar da Mãe, transpassada por uma dor silenciosa, como já anunciara a profecia. E, naquele instante, a voz de Maria ecoava entre nós:
“Meu Filho, meu querido Jesus!”
Não me recordo das palavras exatas da jovem que representava Nossa Senhora, mas me lembro perfeitamente da emoção. Era impossível não se comover.
A encenação seguia com a narrativa do julgamento e da morte de Jesus. Homens simples da comunidade davam vida aos personagens com uma dedicação admirável. Lembro-me do senhor Osvaldino, que interpretava Jesus, e do senhor Messias Cordeiro, no papel de Caifás, com sua fala firme:
“Blasfemou! Que necessidade temos ainda de testemunhas, se nós ouvimos de sua boca!”
E a multidão, formada por homens fardados como soldados romanos, respondia em coro:
“Merece a morte!”
Recordo também do senhor Gercino, liderando os soldados com vigor. Minhas irmãs Inês e Fátima, em anos diferentes , encenaram a Verônica, cantando: "O vos omnes. Qui transitis per viam, Attendite, et videte. Si est dolor similis sicut dolor meus" Mas talvez tão marcantes quanto a encenação fossem os ensaios. Aconteciam no átrio ao lado da matriz, e até hoje guardo essas cenas com carinho.
O padre Antônio, com paciência e zelo, ensaiava aqueles homens simples. Pedia que gritassem: “Crucifica-o!”
E eles, com sotaque forte, respondiam: “Corcificô!”
Com mansidão, o sacerdote corrigia, repetia, orientava. Até o som das lanças batendo no chão era treinado. Nada era improvisado , tudo era cuidado com amor.
Aquele padre incansável não apenas organizava uma encenação. Ele educava um povo inteiro na fé, com simplicidade e profundidade.
Naquela época, as ruas se enchiam. Vinham fiéis da zona urbana e também da zona rural, pois a paróquia era extensa, abrangia desde Jacutinga até o Cachoeirão. Era uma multidão reunida não por obrigação, mas por devoção.
Hoje, ao recordar essas vivências, fica uma pergunta que ecoa em nosso coração: o que temos ensinado às novas gerações?
Talvez tenhamos mais recursos, mais conforto, mais facilidades. Mas será que temos oferecido a mesma riqueza espiritual? Será que ainda conduzimos nossas famílias, com a mesma firmeza, pelos caminhos da fé?
A verdadeira educação não se limita ao conhecimento intelectual. Ela passa pela experiência, pelo testemunho, pela vivência do sagrado no cotidiano.
E a Semana Santa, vivida com profundidade, continua sendo, em todas as igrejas do mundo, uma das mais belas oportunidades de educar não apenas a mente, mas, sobretudo, o coração.
Isabel Menezes - Professora e historiadora de Varre-Sai/RJ – Retalhos do livro “Memórias de uma menina católica da década de 70”


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