terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Youtubers que vendem opinião

 


Há um novo comércio na praça pública digital.

Não se vende peixe, nem fruta, nem palavra escrita em papel.

Vende-se opinião, embalada em vídeo curto, iluminada por ring light, transferida por Pix.

Dizem que alguns youtubers receberam propostas para falar bem do Banco Master, para dourar a narrativa, suavizar a liquidação, criar um clima de normalidade onde há intervenção e risco.

Criar, quem sabe, um vento favorável que empurre decisões técnicas para o terreno escorregadio da pressão pública.

Alguns recusaram.

E ao recusar, fizeram o que ainda resta de nobre na era dos algoritmos: colocaram a boca no trombone.

Expuseram a tentativa, denunciaram o método, lembraram que consciência não se transfere por chave aleatória.

Outros, dizem, aceitaram.

E após o Pix, mudaram o tom, a pauta, a convicção.

Passaram a falar contra a liquidação, a defender a intervenção do TCU no Banco Central, como se a opinião tivesse sido apenas um aplicativo atualizado após o pagamento.

É preciso dizer com clareza: receber patrocínio não é pecado. Podcast patrocinado é legítimo. Publicidade declarada é parte do jogo, desde que venha com aviso, luz acesa, contrato à vista.

Mas vender opinião é outra coisa.

É trocar a própria voz por eco.

É confundir análise com encomenda, convicção com comprovante.

Quando a opinião vira mercadoria invisível, o público deixa de ser audiência e passa a ser cliente enganado.

E talvez o maior risco não seja o colapso de um banco, mas a falência silenciosa da confiança num tempo em que até a verdade anda cotada no Pix.

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