domingo, 1 de fevereiro de 2026

Como o Idiota Virou Maioria Absoluta

 

Os idiotas e o aplauso



Foi Nelson Rodrigues quem viu antes de todos: “Os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.”

No princípio era o silêncio, e o silêncio era bom. Mas o silêncio não multiplica, não ganha eleição, não vira trend, não acumula likes nem aplausos fáceis. Então vieram eles, os muitos, os barulhentos, os que repetem a mesma frase oca como se fosse oráculo.

São legião. Enchem as praças virtuais, entopem as ruas de bandeiras iguais, gritam em coro o que leram num meme e se sentem gênios por ecoar o óbvio com convicção de profeta.

O idiota de hoje não é só o que ignora; é o que se julga superior porque nunca duvidou. A ignorância vira opinião respeitável, e a tolice, quando repetida por mil bocas, ganha status de verdade absoluta

O problema nunca foi o idiota em si. O idiota é paisagem, é ruído de fundo, é a mosca que zumbe na orelha da tarde. O problema é o aplauso. A multidão que bate palma para o touro cego, que eleve o zote ao pódio, que transforme o tantã em tribuno, que dê microfone ao que só sabe berrar.

E aí vem o outro conselho, aquele que Mark Twain (ou alguém que o leu) deixou como escudo:

“Nunca discutas com um idiota.

Ele te arrastará ao nível dele

e te vencerá pela experiência.”

Porque experiência ele tem: anos gritando no vazio, aprendendo a afiar a burrice até virar faca.

Discutir com ele é mergulhar na lama e sair sujo, enquanto ele permanece imundo e triunfante.

Então o sábio cala. Guarda a palavra como quem guarda ouro. Deixa o coro seguir seu rumo de enxame, deixa o aplauso inflar o balão vazio até que ele suba tanto que estoure sozinho no ar rarefeito.

E o silêncio que sobra, aquele silêncio antigo, do princípio, restam os poucos que ainda sabem duvidar, que ainda preferem a dúvida à certeza barata, que sorriem quietos enquanto o mundo dos muitos se curva diante do espelho da própria tolice.

Porque o idiota domina, sim.

Mas só domina o que é raso.

O profundo ainda pertence a quem sabe ficar calado.







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