Na tarde em que a poesia vestiu branco de paz e o céu de maio derramou sua luz sobre as duas Bom Jesus, o auditório do Espaço Cultural Luciano Bastos transformou-se em terreiro sagrado da memória e da esperança.
Era o Dia da Poesia Bonjesuense. Data do nascimento de Elcio Xavier, o príncipe das palavras, o homem que ensinou que versos também podem ser pontes entre o povo e a eternidade.
E foi nesse dia simbólico, como se os ancestrais afinassem invisíveis berimbaus no infinito, que entrou o Mestre André Marreta, seguido por seus alunos, por crianças de olhos acesos, por jovens de passos firmes, por homens e mulheres que aprenderam, com ele, que a capoeira é mais do que luta: é oração em movimento.
Vieram em fila indiana.
Naturalmente formada entre as cadeiras do auditório, mas carregando o peso simbólico das grandes marchas humanas:
a disciplina dos que respeitam,
a ordem dos que aprendem,
a humildade dos que sabem seguir para um dia também poder conduzir.
Na frente ia o Mestre.
Não como quem busca aplausos, mas como quem abre caminhos.
Atrás dele, a comunidade inteira parecia caminhar.
E então o berimbau falou.
Falou através dos cantos.
Falou nos corpos dançando.
Falou nos pés descalços da infância.
Falou na vibração coletiva que arrepiou o auditório e fez a cultura popular erguer-se soberana, como rainha antiga que jamais aceita o exílio.
As músicas compostas pelo próprio Marreta ecoaram pelas paredes do espaço cultural como hinos de pertencimento.
Canções nascidas do chão simples, mas destinadas a voar longe, atravessando estados, cidades e corações.
Naquela tarde, não havia apenas uma homenagem.
Havia reconhecimento histórico.
O Certificado de Honra e Louvor entregue ao Mestre não premiava somente um capoeirista.
Premiava um semeador de futuros.
Um homem que escolheu salvar vidas com o instrumento da cultura, com a pedagogia do afeto, com a disciplina da roda e com a música que transforma feridas em resistência.
Filho da região de Bom Jesus do Norte, André Marreta iniciou sua caminhada oferecendo aulas voluntárias, quando quase ninguém enxergava a força social da capoeira.
Enquanto muitos viam apenas um esporte, ele via possibilidade de redenção.
Onde havia abandono, ele levou ritmo.
Onde havia silêncio, ele levou canto.
Onde havia desesperança, ele levou pertencimento.
E assim sua obra cresceu.
Chegou a Carabuçu, ao Bela Vista, às cidades vizinhas, ao Nordeste Fluminense, rompendo fronteiras invisíveis e espalhando sementes de dignidade por lugares onde a capoeira ainda mal era conhecida.
Hoje, suas raízes alcançam Cabo Frio, Macaé, São José do Calçado, Castelo e Muriaé.
Mas sua maior expansão não aconteceu no mapa.
Aconteceu dentro das pessoas.
Cada criança resgatada pela capoeira é um território libertado da violência.
Cada jovem que aprende a tocar berimbau é um poema vivo contra a exclusão.
Ao lado dele, sua esposa também constrói pontes humanas, unindo mães, famílias e comunidade por meio da ginástica, do acolhimento e do cuidado.
Juntos, fazem da cultura um abraço coletivo.
Naquela tarde memorável, até as autoridades compreenderam a dimensão do momento.
O prefeito de Bom Jesus do Norte, Toninho Gualhano, e o vice-prefeito Marcão prestigiaram a cerimônia, como quem reconhecem que existem homens que governam sem cargo, lideram sem imposição e transformam sem violência.
Porque Mestre Marreta pertence à rara linhagem dos que constroem revoluções silenciosas.
Seu berimbau não convoca guerras.
Convoca consciência.
Sua roda não separa.
Abraça.
Sua capoeira não humilha adversários.
Ergue irmãos.
E mesmo depois que a cerimônia terminou, os ecos daquela tarde continuaram vivos pelas ruas das duas Bom Jesus.
Ainda hoje parecem atravessar janelas, misturar-se ao vento do entardecer e repousar suavemente no coração de quem presenciou aquele instante.
Porque certas tardes acabam no relógio, mas nunca terminam na memória.
O berimbau da esperança continua tocando.
E enquanto houver um Mestre como André Marreta abrindo caminhos à frente da fila indiana dos sonhadores, a cultura continuará sendo essa força milagrosa capaz de unir pessoas, curar tristezas e anunciar, no meio do mundo, um amanhã mais justo, mais humano e mais fraterno.
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