No calendário da alma bonjesuense, o dia 3 de maio não é apenas uma marca no tempo; é o palpitar rítmico do Príncipe dos Poetas, Elcio Xavier, que renasce em cada verso declamado. Mas, naquele crepúsculo de celebração no Espaço Cultural Luciano Bastos, a poesia deixou de ser apenas palavra escrita para se tornar carne, movimento e memória na figura de Jandira Moreira Xavier.
A escritora, que cruzou fronteiras e conquistou o reconhecimento internacional com a força de sua educação e de sua escrita, ali estava, não como a intelectual laureada, mas como a menina de Pirapetinga de Bom Jesus.
O Canto que Desperta o Tempo
Quando os primeiros acordes da Folia de Reis Irmandade da Estrela Guia, comandada pelo Mestre Warlem Rodrigues Souza, ecoaram pelo salão, o ar pareceu se transformar. O som da viola, o bater do tambor e o tilintar do triângulo não traziam apenas música; traziam o cheiro da terra úmida e o brilho das estrelas de uma infância distante.
Para Jandira, a Folia não era uma apresentação folclórica; era um portal. Viu-se, em um átimo, acompanhando os passos dos foliões pelos caminhos de terra, sentindo a mesma reverência sagrada e profana que moldou seus primeiros olhares sobre o mundo. O brilho nos olhos da educadora não era de orgulho pela homenagem recebida, mas de emoção pura, o tipo de lágrima que só brota quando reencontramos um pedaço de nós mesmos que julgávamos perdido no passado.
O Abraço entre o Saber e a Raiz
Em um gesto de profunda humildade e beleza, a escritora fez questão de imortalizar o momento. No meio de uniformes alvirrubros, do Mestre Warlem e os instrumentos que guardam a tradição, ela buscou a figura enigmática e vibrante do Palhaço da Folia.
Naquela fotografia, o que se vê é um abraço simbólico: de um lado, a erudição que correu o mundo; do outro, a máscara colorida que guarda a ancestralidade.
Ali, Jandira Moreira Xavier reafirmou que nenhuma árvore toca o céu sem respeitar a profundidade de suas raízes. A homenagem no Dia da Poesia Bonjesuense transbordou o protocolo para se tornar um rito de passagem reverso: a volta para casa.
Foi o encontro da mestre com a sua própria nascente. Em Pirapetinga de Bom Jesus, a menina que corria atrás da Folia certamente sorriu, orgulhosa da mulher que, mesmo sendo mundo, nunca deixou de ser chão, nunca deixou de ser poesia viva.















Fico a imaginar meu pai, Antônio Francisco de Souza (Antôin Samuel) que pelos Anos de 1930 / 1940 atuava de palhaço da folia de Reiz pelas bandas da Usina Santa Maria, assim contava meus irmãos.
ResponderExcluirNão tive o privilégio de desfrutar desses momentos.
Parabéns Bom Jesus e a todas que trabalham para manter viva a nossa cultura.
OBRIGADO.