segunda-feira, 1 de junho de 2026

TV-Club de Bom Jesus e de Varre-Sai


O Gajo, a Antena e o Tribunal da Opinião Pública



Maria da Conceição Vargas, de Varre-Sai, é uma operária da memória. Guardiã dos arquivos da família Vargas de Figueiredo, sua atuação como pesquisadora tem trazido à luz preciosidades que explicam quem somos. Recentemente, ao abrir o "baú" de seus arquivos, ela revelou um documento que é um retrato fiel das dores e delícias do progresso no Vale do Itabapoana: um panfleto do antigo TV-Club de Bom Jesus.

​O Contexto de um Panfleto de Outrora

​Pela análise da ortografia (como os acentos em "êste", "dêle" e o uso do grave em "assiste a todos"), estima-se que o documento date entre as décadas de 1950 e 1970. Maria da Conceição supõe que o folheto cruzou a fronteira entre as cidades, chegando a Varre-Sai pelas mãos de alguém que pretendia utilizá-lo como modelo pedagógico, ou intimidatório, para os que relutavam em aderir ao clube de TV local.

​Naquela época, o sinal das grandes capitais era uma miragem que só se materializava através de iniciativas comunitárias. Os moradores se organizavam em associações para instalar e manter as repetidoras. O custo era dividido, mas o sinal, etéreo, não respeitava cercas: quem tivesse uma antena captava a imagem, pagando ou não. Nascia assim a figura do "clandestino", o carona da modernidade.

​A Retórica do Constrangimento

​O folheto revela que o "progresso" exigia um pacto coletivo rígido. A linguagem utilizada é de uma agressividade fascinante, típica de uma era de coerção social pré-digital. Não se cobrava apenas uma dívida; atacava-se a moral. O inadimplente era rotulado como "retrógrado", "antissocial" e "inimigo do progresso".

​A estratégia era psicológica e profunda. Ao afirmar que "a família dêsse cara já tem vergonha de ligar o televisor", o TV-Club transferia o tribunal da calçada para dentro da sala de estar. O ápice da pressão surge no convite à delação: a promessa de um "presente de Natal" para quem desse "nome aos bois", identificando o endereço do vizinho que assistia à programação em segredo.

​A Estática e o Horizonte

​Visualmente, o panfleto evoca os cartazes de "Procurado" do Velho Oeste. A caricatura do "gajo" corpulento e esquivo sugere que a falta de pagamento não era por escassez de recursos, mas por falta de brio. Era o "tribunal da opinião pública" operando a pleno vapor para garantir a sustentabilidade da tecnologia.

​Enquanto a cidade sonhava em uníssono, embalada pelas novelas e notícias que desciam do Rio de Janeiro, o clandestino assistia de soslaio, como quem rouba um pedaço do horizonte sem pedir licença ao vizinho.

​O progresso, em sua marcha implacável, trazia a imagem colorida do futuro, mas ainda cobrava o preço antigo da convivência: ou todos remam juntos, ou o barco da modernidade deixa alguém, solitário e exposto, assistindo à vida passar pela fresta da janela alheia. É um registro precioso de um tempo em que a honra de uma família era medida pela transparência da imagem em sua tela e pelo recibo guardado na gaveta.





Nenhum comentário:

Postar um comentário