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sábado, 1 de agosto de 2026
À procura de Lusbelino Bovolenta: o compositor esquecido da marcha em homenagem a Roberto Silveira e Bom Jesus do Itabapoana
A marcha "BOM JESUS DO ITABAPOANA", composta por Lusbelino Bovolenta, permaneceu preservada na memória cultural da cidade por décadas. Em 2015, ela foi incluída no CD "Bom Jesus de Corpo e Alma", em homenagem ao Grupo Musical Amantes da Arte, produzida pela Editora O Norte Fluminense, fundada por Luciano Bastos, e que coincidiu com parte das iniciativas que antecederam a inauguração do Memorial Governadores Roberto e Badger Silveira, açordescendentes .
É interessante notar que essa obra não é o hino oficial de Bom Jesus do Itabapoana. O hino oficial do município é a "Marcha a Bom Jesus", de autoria de Salim Darwich Tannus, oficializada pela Resolução Municipal nº 25, de 30 de outubro de 1964.
Lusbelino Bovolenta é um personagem praticamente desaparecido da memória escrita do município. O nome aparece de forma consistente apenas como autor da marcha "Bom Jesus do Itabapoana", dedicada à memória do governador Roberto Silveira, composta logo após sua morte em 1961.
O sobrenome Bovolenta é nitidamente italiano, originário do Vêneto, especialmente da província de Pádua. Isso sugere que Lusbelino provavelmente pertencia a uma família de imigrantes italianos estabelecida na divisa entre o sul do Espírito Santo e o norte fluminense, região que recebeu diversas famílias italianas entre o final do século XIX e o início do século XX.
Além disso, a qualidade literária da marcha indica que ele possuía boa formação cultural. É plausível que tenha sido: professor, músico de banda civil, funcionário público, poeta ou jornalista.
A marcha "Bom Jesus do Itabapoana", de Lusbelino Bovolenta, é mais do que uma composição cívica. Trata-se de um canto de exaltação municipal que se converte em elegia, unindo o orgulho pela terra à memória de um de seus filhos mais ilustres, Roberto Silveira. Sua estrutura simples, própria das marchas, é enriquecida por um forte conteúdo afetivo e histórico.
A primeira estrofe estabelece o tom laudatório. Ao chamar Bom Jesus do Itabapoana de "linda terra de tradição", o autor recorre a uma fórmula típica dos hinos municipais, valorizando a identidade coletiva. O verso "O teu povo de ti se ufana" utiliza um vocabulário clássico, "ufanar-se", para transmitir orgulho cívico, reforçado pela imagem do coração como sede do sentimento patriótico.
Na segunda estrofe, a cidade deixa de ser apenas um espaço geográfico para tornar-se berço de um personagem histórico. Roberto Silveira é apresentado como um herói local, cuja trajetória é descrita em termos épicos: "lutando de peito aberto". A expressão sugere coragem, integridade e entrega ao bem comum. O verbo "engrandecer" atribui à ação política um caráter quase moral, indicando que sua grandeza refletiu diretamente na grandeza da terra natal.
A terceira estrofe muda o registro. A celebração cede lugar à lamentação. A metáfora "as asas do destino tão cruelmente a vida lhe cortaram" é a imagem poética mais expressiva da composição. O destino surge como uma força implacável que interrompe precocemente uma existência promissora. O sofrimento coletivo aparece nos "olhos tristonhos", transformando a dor individual em memória compartilhada. Ao afirmar que lhe rendem "pra sempre um hino", Bovolenta converte a música em monumento simbólico contra o esquecimento.
A última estrofe oferece a síntese da mensagem. A morte não representa derrota, pois "sua luta ainda está de pé". É uma visão profundamente humanista da memória: os homens passam, mas os ideais permanecem. A expressão "na vitória nós temos grande fé" encerra a marcha com esperança, projetando para o futuro os valores associados a Roberto Silveira.
Sob o aspecto literário, a letra privilegia uma linguagem clara e acessível, adequada ao gênero das marchas cívicas, destinadas ao canto coletivo. Não busca sofisticação formal nem metáforas abundantes; seu objetivo principal é emocionar e fortalecer o sentimento de pertencimento. A simplicidade é, portanto, uma escolha estética coerente com sua função pública.
Em perspectiva histórica, a marcha também revela um momento em que a memória dos grandes líderes políticos era incorporada ao patrimônio cultural das cidades por meio da música. Lusbelino Bovolenta não escreve apenas sobre um homem ou um município; ele registra uma visão de comunidade fundada na gratidão, na coragem e na esperança.
Assim, "Bom Jesus do Itabapoana" permanece como um documento poético de sua época. É simultaneamente um hino à cidade, uma elegia a Roberto Silveira e uma afirmação de que a verdadeira liderança sobrevive à morte quando permanece viva na memória e nos ideais de seu povo.
BOM JESUS DO ITABAPOANA
(Marcha dedicada à memória de Roberto Silveira)
Autor: Lusbelino Bovolenta
Bom Jesus do Itabapoana,
Linda terra de tradição;
O teu povo de ti se ufana
E sente orgulho no coração.
Foste o lar do grande Roberto,
Que na vida sempre venceu;
E lutando de peito aberto
A nossa terra engrandeceu.
Num dia triste as asas do destino
Tão cruelmente a vida lhe cortaram;
Os nossos olhos tristonhos choraram
E lhe rendemos pra sempre um hino.
Mas sua vida não ficou perdida;
A sua luta ainda está de pé,
E continua gloriosa e mais renhida,
E na vitória nós temos grande fé
