sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Dr. José Lauro Louro


Gino Martins Borges Bastos

Na minha infância, o dentista escolhido por meus pais para cuidar dos meus dentes chamava-se José Lauro Louro.

Era mais do que um nome: era uma presença segura.

Lembro-me de minha mãe me entregando um bonito lenço branco, como quem oferece um pequeno amuleto de coragem.

Com ele nas mãos, eu seguia para o consultório, onde me aguardava um tratamento ao mesmo tempo rigorosamente profissional e profundamente humano.

Havia ali cuidado, e havia carinho, coisa rara, mesmo então.

Mais tarde, o Dr. José Lauro mudou-se de Bom Jesus para Niterói.

Recordo-me de que o novo dentista que passou a me atender depois fez questão de elogiar seu trabalho, classificando-o como de altíssima qualidade, algo pouco comum nos dias de então.

Aquilo ficou guardado em mim como uma confirmação silenciosa daquilo que eu já sabia sem saber dizer.

Os anos passaram.

Já adolescente, fui morar em Niterói para estudar.

E foi lá que um incômodo insistente num dente me levou, outra vez, ao encontro do mesmo destino: o consultório do Dr. José Lauro Louro.

Ele examinou com atenção e sentenciou com a tranquilidade de quem conhece o corpo humano e respeita o tempo das coisas:

“ - É o seu dente ciso,

nascendo tardiamente.”

Mas o ciso não apenas nascia ele se entranhara na boca, teimoso e dolorido.

Lembro-me do cenário como se fosse hoje: a cadeira inclinada até a horizontal, o silêncio concentrado, o instrumento firme.

Foram várias tentativas tensas, instantes longos, até que o dente cedeu e o alívio finalmente se fez.

Depois, a vida seguiu.

Deixei Niterói.

Anos mais tarde, já de volta a Bom Jesus, recebi uma carta do Dr. José Lauro.

Eu estava em meio a uma mudança, imerso nas urgências da vida profissional, e não respondi de imediato.

E acabei não respondendo.

Mas a natureza humana tem suas delicadezas.

A carta, e minha falta de resposta, retornavam sempre ao pensamento, como uma inquietação mansa, uma pendência do afeto.

Um dia, finalmente escrevi.

Enviei a resposta para um endereço que já não sabia se ainda lhe pertencia.

Nunca obtive retorno.

O tempo, contudo, se encarregou de resgatar o essencial: uma história feita de respeito, admiração e humanidade.

Aquilo que nasce do cuidado verdadeiro não se perde.

O que carrega pureza é eterno.

E torna-se fonte permanente de esperança, alegria e fé no amanhã, inclusive quando tudo começa num simples tratamento dentário, conduzido pelos princípios mais nobres da condição humana.

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