sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O Tabuleiro de Xadrez: Um Abrigo na Juventude

Gino Martins Borges Bastos 

E u olho para trás e me orgulho do tempo em que fui um adolescente de xadrez.

Um jovem que aprendeu cedo que a vida também se move entre casas claras e escuras.

Aos dezessete anos, fui morar em Niterói e, quase sem perceber, passei a morar também no Clube de Xadrez de Niterói.

Ali encontrei mais que um jogo: encontrei abrigo.

Por muitos anos, aquele espaço foi meu território de pertencimento, meu refúgio social, meu lugar no mundo.

Como esquecer o velho xadrezista surdo que, em meio às partidas, gritava em voz plena:

“- Xequinho!”

quando atacava o rei adversário?

Ninguém reclamava, ou reclamava em vão.

Ele não ouvia, e o xadrez seguia.

Como esquecer as piadas maliciosas de outro xadrezista, que certa vez contou, entre risos cúmplices, que uma xadrezista se casara com um homem de sobrenome Pinto e, por isso, passara a “agregar” o nome?

O riso ecoava entre peças e relógios.

Como esquecer as análises de partidas por correspondência, feitas pelo dono do clube, um senhor de bigode destacado, que, com paciência e gestos lentos, desfiava lances e ideias como quem conta histórias?

Como esquecer minha primeira competição no clube, quando terminei em último lugar e recebi o consolo sereno do Mestre José Costa:

“ - Não desanima, não.

Estude e você progredirá.”

Aquelas palavras valeram mais que qualquer troféu.

Eu jogava xadrez por correspondência.

O lema do clube dizia tudo:

“Leva o xadrez, traz o amigo.”

Guardo até hoje os lances que chegavam de várias partes do país, cartas que atravessavam distâncias para mover uma peça e criar um vínculo.

Depois, fui estudar Física no Rio de Janeiro e passei a disputar competições cariocas.

O tabuleiro mudou de cenário, mas o jogo permanecia.

O que importa, no entanto, é que o xadrez foi sempre um abrigo na minha juventude.

Um companheiro silencioso e fiel, que me ensinou a pensar, a esperar, a perder, a insistir.

Considero-me um privilegiado por ter tido, naquele tempo formativo, esse grande aliado.

O xadrez me ajudou a atravessar uma das fases mais delicadas da vida com dignidade, afeto e estratégia.

Como quem atravessa a juventude sem abandonar o rei.

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