Erguemos hoje a palavra pública como quem acende, no recinto da história, uma chama votiva de memória, reconhecimento e fraternidade.
Neste tempo de celebração e consciência histórica, o Município de Bom Jesus do Itabapoana dirige-se, com elevada consideração, ao Município de Varre-Sai, para saudá-lo como cidade irmã, digna de estima, reverência e sincero apreço.
Saudamos Varre-Sai não apenas na condição de município vizinho, mas como comunidade humana e histórica cuja trajetória se entrelaça, de modo profundo e significativo, com a de Bom Jesus do Itabapoana. Porque há vínculos entre povos que ultrapassam a proximidade geográfica e se afirmam no terreno mais alto da cultura, da memória, da fé, do trabalho e dos valores transmitidos entre gerações.
Bom Jesus do Itabapoana, marcada por significativa herança açoriana, pela presença civilizadora da fé e pelo legado de figuras exemplares como Padre Mello e açordescendentes, traz em sua formação histórica os sinais de uma tradição fundada na perseverança, na humildade, no espírito comunitário e na elevação da vida cultural. Em sua identidade vivem a resistência dos que atravessaram mares, a firmeza dos que lançaram raízes em solo novo e a dignidade dos que fizeram da lavoura, da palavra, da escola, da oração e do serviço à coletividade uma obra duradoura.
É nesse mesmo horizonte de fé e tradição que se insere um elo particularmente significativo entre os dois municípios: a Festa do Divino Espírito Santo, trazida por açordescendentes a Bom Jesus do Itabapoana entre 1860 e 1863, e que, irradiando sua força simbólica e espiritual, inspirou a Festa do Divino Espírito Santo hoje também celebrada no solo sagrado de Varre-Sai. Trata-se de mais um vínculo vivo de cultura, história e devoção que irmana as duas cidades, Bom Jesus do Itabapoana, que recebeu em sua formação a herança açoriana, e Varre-Sai, que desde suas origens acolheu e desenvolveu a tradição italiana, revelando como a fé, ao ser partilhada, não divide, mas multiplica sentidos, pertencimentos e comunhão.
Varre-Sai, por sua vez, honra-se de sua notável matriz italiana que está sendo reconstruída, forjada pela coragem dos imigrantes que trouxeram consigo a memória da antiga pátria e a esperança fecunda de um mundo novo. Nessa herança encontram-se o apreço pela família, a disciplina do trabalho, a coesão comunitária, a fidelidade às origens e a admirável capacidade de transformar as dificuldades da terra, da distância e do relevo em expressão de prosperidade, beleza e realização coletiva.
Achamo-nos, assim, diante de duas tradições de grande valor humano e histórico, que se encontram sem se confundirem, que dialogam sem se anularem, que se respeitam sem renunciarem à própria singularidade. De um lado, o legado açoriano; de outro, a contribuição italiana. E, no ponto de convergência entre ambos, ergue-se o Brasil interiorano, profundo e verdadeiro, aquele Brasil em que a grandeza de uma comunidade não se mede apenas por seus marcos materiais, mas, sobretudo, pela forma como preserva sua memória, educa sua juventude, cultiva a terra, protege seus símbolos e honra seus filhos ilustres.
É precisamente no contexto do Mês de Padre Mello que este encontro se reveste de ainda maior significado.
Padre Mello, filho de camponês, oriundo da simplicidade fecunda do meio rural, elevou-se, por força de espírito, inteligência, fé e sensibilidade, à condição de eminente referência da cultura e da civilização fluminense. Sua existência demonstra, de modo eloquente, que a verdadeira grandeza não deriva dos privilégios materiais, mas da nobreza interior, da disciplina moral e do serviço prestado ao bem comum. Fez de sua origem humilde não um limite, mas um fundamento; fez da vida simples uma escola de humanidade; fez da fé uma forma superior de inteligência; fez da palavra instrumento de elevação espiritual e cultural.
Cumpre registrar, com especial relevo, a circunstância histórica que reforça, de maneira singular, os laços entre Bom Jesus do Itabapoana e Varre-Sai: Padre Mello foi pároco de Varre-Sai e de Bom Jesus do Itabapoana concomitantemente por vinte e cinco anos, entre 1899 e 1924. Tal fato, de expressivo valor simbólico e histórico, consagra em sua pessoa um elo concreto, duradouro e luminoso entre os dois municípios, unidos não apenas pela vizinhança territorial, mas por uma memória pastoral partilhada, por um legado espiritual comum e por uma história de serviço que os aproxima em profundidade.
Nele, Bom Jesus do Itabapoana reconhece um de seus mais altos expoentes. E, por meio dele, dirige a Varre-Sai não apenas uma homenagem protocolar, mas uma autêntica declaração de fraternidade institucional, histórica e moral.
Porque Padre Mello pertence à memória de Bom Jesus do Itabapoana, mas pertence também à história de Varre-Sai e, em sentido mais amplo, ao patrimônio espiritual e cultural de todos aqueles que reconhecem na educação, na sensibilidade, na preservação da memória e no vínculo com a terra elementos indispensáveis à construção de uma civilização verdadeiramente humana.
Ao saudar Varre-Sai, Bom Jesus do Itabapoana manifesta seu apreço por uma comunidade cuja dignidade se exprime na força serena de seu povo, na beleza de sua paisagem, na honradez de sua formação familiar, na perseverança de seus trabalhadores e na fidelidade com que conserva e transmite o legado de seus antepassados.
Saudamos suas montanhas, que parecem guardar em silêncio a memória dos que vieram antes. Saudamos seu povo, herdeiro da coragem dos imigrantes e da ternura das famílias que fizeram do trabalho uma forma cotidiana de amor e continuidade. Saudamos, enfim, sua fidelidade às origens, virtude essencial dos povos que desejam oferecer às novas gerações não apenas progresso material, mas também identidade, sentido e horizonte.
E Varre-Sai, ao voltar seu olhar para Bom Jesus do Itabapoana, reconhece igualmente uma cidade cuja vida histórica se distinguiu pela presença fecunda da cultura, da religiosidade, da formação intelectual e do enraizamento comunitário. Reconhece uma cidade que soube transformar sua travessia histórica em patrimônio vivo e que conserva, na herança açoriana, na figura de Padre Mello e na força de seu povo, uma paisagem não apenas territorial, mas moral e espiritual.
Este Simpósio Intermunicipal, portanto, ultrapassa o caráter de simples programação comemorativa. Ele se afirma como gesto público de reconhecimento recíproco, como ponte institucional entre identidades complementares e como celebração de um parentesco moral entre comunidades que souberam converter herança em serviço, tradição em projeto e memória em responsabilidade perante o futuro.
Que não se diga jamais que cidades pequenas são menores em grandeza. Menor é apenas o olhar incapaz de perceber a vastidão humana, cultural e espiritual que pode habitar um campanário, uma praça, um cafezal, uma procissão, uma escola ou um poema.
Bom Jesus do Itabapoana e Varre-Sai são grandes porque resguardam grandezas invisíveis, porém decisivas: a grandeza do caráter, da palavra honrada, da fé vivida, do esforço anônimo, da cultura nascida do povo e da memória transmitida como dever e como bênção.
Diante de todos, proclamamos:
Que a amizade entre estes municípios se fortaleça acima de toda distância.
Que a cooperação entre estas comunidades produza frutos mais duradouros do que qualquer divergência circunstancial.
Que a memória de Padre Mello continue a iluminar, com serenidade e permanência, os caminhos da inteligência, da fraternidade e da beleza.
Que os descendentes das tradições açoriana e italiana, unidos na mesma paisagem fluminense, reconheçam uns nos outros não um contraste que separa, mas uma diferença que dignifica, enriquece e aperfeiçoa a vida comum.
Que o passado seja honrado.
Que o presente seja vivido em espírito de encontro.
Que o futuro seja construído como obra compartilhada.
Bom Jesus do Itabapoana estende, neste dia, suas mãos a Varre-Sai com respeito, afeição e júbilo cívico.
E afirma, de modo público e solene:
Você é nossa cidade irmã.
Você é nossa vizinha de alma.
Você é parte desta geografia afetiva, histórica e moral em que os povos não apenas coexistem, mas se reconhecem, se enriquecem e mutuamente se abençoam.
Receba Varre-Sai este manifesto como expressão legítima de estima, memória e gratidão.
Receba estas palavras como símbolo de um abraço institucional e fraterno entre serras, rios, capelas, lavouras e tradições.
Receba este testemunho público de admiração, formulado em nome da história, da cultura e dos vínculos que dignificam a vida dos povos.
Viva Varre-Sai, em sua herança italiana, em sua dignidade comunitária e em sua vocação de beleza e trabalho.
Viva Bom Jesus do Itabapoana, em sua alma açoriana, em sua tradição cultural e em sua fidelidade à memória de Padre Mello.
Viva o encontro entre municípios que compreendem que civilização também se faz por afeto, respeito e reconhecimento mútuo.
Viva a cultura que floresce no seio do povo.
Viva a memória que eleva e humaniza.
Viva Padre Mello, filho de camponês, sacerdote da palavra, servidor da fé e alto espírito da cultura e da civilização.
E que Deus abençoe, hoje e sempre, a amizade histórica entre Bom Jesus do Itabapoana e Varre-Sai.
De Bom Jesus do Itabapoana para Varre-Sai, 16 de abril de 2026
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| Gino Martins Borges Bastos |


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