quinta-feira, 7 de maio de 2026

O Dia da Poesia Bonjesuense e os Gigantes da Memória



No Dia da Poesia Bonjesuense, quando Bom Jesus celebrava o nascimento de Elcio Xavier, o Príncipe dos Poetas, três gigantes atravessaram as portas do Espaço Cultural Luciano Bastos e fizeram o passado voltar a respirar.

Não eram apenas bonecos.

Eram lembranças de pano, madeira e sonho.

Vieram conduzidos por Rondinelli Jesus de Paula, filho de Toninho do Tupy, acompanhado de Joana, sua mãe, trazendo consigo não apenas figuras enormes, mas uma herança inteira. Ao entrarem no auditório, pareciam antigos guardiões regressando ao templo da memória para assistir, em silêncio, à celebração da cultura que ajudaram a construir.

E ali permaneceram durante toda a programação.

Assistiram à Folia de Reis entoando versos ancestrais. Viram a capoeira desenhar liberdade no ar. Escutaram o piano delicado de dona Marise Figueiredo Xavier, fundadora da Escola de Música Cristo Rei, como quem acaricia o tempo com as mãos. Ouviram os instrumentos das crianças e jovens da Sociedade Musical da Usina Santa Maria ecoarem como promessa de continuidade. 

Observaram Rogério Loureiro Xavier, filho de Elcio Xavier e dedicado guardião da memória do pai, acompanhado de sua esposa, Eloisa Xavier, e da filha, Elaine Xavier, que vieram do Rio de Janeiro para viver aquele momento de celebração e afeto. Observaram também o açoriano Francisco Amaro Borba Gonçalves, que atravessou distâncias especialmente para o evento, assim como Cristiana Ana, integrante de diversas academias culturais, vinda de Vitória para prestigiar o encontro. Viram ainda Lenice Xavier, prima escritora da família Xavier, reunida entre escritores, acadêmicos, músicos, artistas e o povo, todos unidos como uma só família espiritual.

Naquela tarde, o que se viu foi mais do que um evento.

Foi um encontro de mundos que nunca deveriam estar separados.

A cultura popular entrou de mãos dadas com a cultura clássica. A sanfona abraçou o piano. A caixa da Folia dialogou com os instrumentos de orquestra. Os bonecos gigantes caminharam ao lado dos livros. A ABIJAL, Academia Bonjesuense de Artes e Letras, e a Tuna Luso-Bonjesuense juntaram suas presenças a esse grande mosaico de afetos e manifestações culturais.

E então compreendeu-se algo precioso: identidade não nasce da exclusão, mas do encontro.

Somos feitos desse mosaico.

Da cantoria da Folia.

Do toque do piano.

Do corpo gingando na capoeira.

Do verso escrito.

Do clarim das bandas.

Do boneco gigante atravessando a rua como se a infância nunca tivesse ido embora.

Toninho do Tupy compreendeu isso antes de muitos.

Filho de João de Dão e Rosa Maria da Conceição, ele transformou a vida em festa e a festa em pertencimento. Criou clubes, levantou carnavais, inventou gigantes. Fez da rua um palco onde o povo podia reconhecer a própria alegria. Seus bonecos não eram apenas alegorias, eram espelhos aumentados da alma popular.

Careca Barrigudo, a Boneca, a Mula Rosada e tantos outros não caminhavam apenas pelas ruas das duas Bom Jesus; caminhavam pela imaginação coletiva de gerações inteiras.

E agora, graças ao filho Rondinelli Jesus de Paula, a técnica de construir esses gigantes permanece viva. Ao fundar uma associação dedicada à preservação da memória de seu pai, Toninho, da cultura e de seus heróis, Rondinelli compreendeu que tradição não é saudade parada: é continuidade.

Os bonecos ainda respiram porque alguém decidiu não deixar morrer o encantamento.

Naquela tarde memorável, enquanto os gigantes observavam silenciosos cada apresentação, parecia que também eles se emocionavam ao perceber que o legado deixado por Toninho continuava florescendo diante de novas gerações.

E talvez essa tenha sido a maior poesia do dia.

Mais do que homenagear Elcio Xavier, Bom Jesus homenageou a si mesma. Reconheceu-se em suas múltiplas vozes. Descobriu que sua verdadeira riqueza não está apenas em monumentos ou prédios antigos, mas naquilo que o povo consegue preservar em conjunto: a memória, a arte, a fraternidade e o sentimento de pertencimento.

Porque um povo só se torna inteiro quando consegue enxergar beleza em todas as formas de cultura que o constituem.

E naquela tarde, no meio de versos, bonecos, músicas e bandeiras, Bom Jesus viu seu próprio coração palpitando diante dos seus olhos.

Os gigantes de Toninho não ocupavam apenas o auditório.

Ocupavam a eternidade.




























O Dia da Poesia Bonjesuense e a Folia de Reis Irmandade da Estrela Guia



A chama que não se apaga: o guardião da memória

Há presenças que não chegam, revelam-se.

No calendário afetivo de Bom Jesus do Itabapoana, o dia 3 de maio não é apenas uma data, é um marco de poesia e memória. Nesse dia nasceu Elcio Xavier, o eterno Príncipe dos Poetas, cuja palavra ainda ressoa como canto antigo nas almas sensíveis.

E não é por acaso que, ao celebrar o Dia da Poesia Bonjesuense, os versos parecem ganhar corpo e caminhar entre o povo. Eles ecoam nas rimas da Folia de Reis, misturam-se ao som da sanfona, ao compasso da caixa e à cadência das vozes que entoam fé e tradição.

Na cantoria da Irmandade Estrela Guia, liderada pelo Mestre Warlem Rodrigues Souza, há algo mais do que música: há poesia viva. Como se, em cada verso improvisado, em cada rima entoada sob o céu do interior, a presença de Elcio Xavier se fizesse sutil, não como lembrança distante, mas como essência incorporada.

Assim, a Folia canta, e o poeta permanece.

Naquele 3 de maio, no Espaço Cultural Luciano Bastos, não foi apenas um grupo que atravessou o auditório: foi a própria memória de um povo que entrou em cortejo, vestida de cores, fé e música.

A Folia de Reis Irmandade Estrela foi a primeira a chegar. E não entrou, inundou. Como maré serena que avança sobre a areia, trouxe consigo a bandeira erguida, o riso enigmático do palhaço, o compasso da caixa, o sopro da sanfona e vozes que pareciam costurar o presente ao passado. Não era espetáculo. Era permanência.

Naquele espaço, outrora Colégio Rio Branco, fundado em 1920,  a cultura encontrou abrigo em sua própria essência. Um lugar que respira história acolheu outra história viva, feita de passos, promessas e devoção.

E então algo silencioso aconteceu: muitos ali deixaram de ser apenas espectadores. Voltaram a ser crianças. Crianças que corriam atrás das Folias pelas ruas, que acreditavam no encanto, que viam no som dos instrumentos um portal para o sagrado e o mágico. A infância, por um instante, regressou inteira.

A Estrela Guia foi a última a sair.

Mas, na verdade, não saiu.

Permaneceu, nos olhos marejados, nas mãos que aplaudiam com reverência, nos corações que reconheceram ali não apenas uma tradição, mas uma herança viva.

Porque há luzes que não dependem de eletricidade.

Acendem-se com memória. Sustentam-se com devoção.

E essa luz começou em 1981, quando Carlos Rodrigues de Ávila, mais que fundador, foi semeador. Não criou apenas uma Folia, ergueu um altar em movimento, nascido de uma promessa e alimentado pela fé. Ele compreendia o que poucos compreendem: que a cultura, quando tocada pelo sagrado, não envelhece, eterniza-se.

O tempo, porém, provou sua força. Com a partida do patriarca, o silêncio tentou ocupar o lugar da cantoria. A bandeira repousou. Passou por mãos que não escutaram o chamado, por outras que a protegeram com respeito, mantendo acesa, ainda que tímida, a chama da tradição.

Mas há heranças que não se perdem, apenas aguardam.

E há treze anos, o destino encontrou seu guardião.

Ao assumir a Folia, Warlem Rodrigues Souza não aceitou um título, aceitou um legado. Não empunhou apenas a bandeira, abraçou sua própria história. Ser mestre, para ele, é mais que conduzir: é dialogar com o passado, honrar o presente e semear o futuro.

Sob sua liderança, a Estrela Guia respira. Vive. Caminha.

É estrada, é poeira, é madrugada, é canto que ecoa onde há fé. Warlem conduz seus foliões como quem carrega um relicário: com firmeza nas mãos e ternura no coração.

E talvez, em cada verso entoado, em cada passo ritmado, haja um sorriso invisível, o de seu avô, que, em algum lugar onde a folia nunca termina, reconhece que a promessa segue sendo cumprida.

Neste 3 de maio de 2026, a Estrela Guia volta a brilhar.

E seu brilho não está apenas nos trajes ou nos instrumentos, mas naquilo que representa: a resistência da cultura, a força da memória e a beleza de quem se dedica a manter viva a alma de um povo.

Porque enquanto houver um mestre que se lembre, uma bandeira que se erga, e uma estrela que guie, a tradição jamais conhecerá a escuridão.






















quarta-feira, 6 de maio de 2026

O Dia da Poesia Bonjesuense e André Marreta: O Mestre que Conduz a Fila da Esperança

 


Na tarde em que a poesia vestiu branco de paz e o céu de maio derramou sua luz sobre as duas Bom Jesus, o auditório do Espaço Cultural Luciano Bastos transformou-se em terreiro sagrado da memória e da esperança.

Era o Dia da Poesia Bonjesuense. Data do nascimento de Elcio Xavier, o príncipe das palavras, o homem que ensinou que versos também podem ser pontes entre o povo e a eternidade.

E foi nesse dia simbólico, como se os ancestrais afinassem invisíveis berimbaus no infinito, que entrou o Mestre André Marreta, seguido por seus alunos, por crianças de olhos acesos, por jovens de passos firmes, por homens e mulheres que aprenderam, com ele, que a capoeira é mais do que luta: é oração em movimento.

Vieram em fila indiana.

Naturalmente formada entre as cadeiras do auditório, mas carregando o peso simbólico das grandes marchas humanas:

a disciplina dos que respeitam,

a ordem dos que aprendem,

a humildade dos que sabem seguir para um dia também poder conduzir.

Na frente ia o Mestre.

Não como quem busca aplausos, mas como quem abre caminhos.

Atrás dele, a comunidade inteira parecia caminhar.

E então o berimbau falou.

Falou através dos cantos.

Falou nos corpos dançando.

Falou nos pés descalços da infância.

Falou na vibração coletiva que arrepiou o auditório e fez a cultura popular erguer-se soberana, como rainha antiga que jamais aceita o exílio.

As músicas compostas pelo próprio Marreta ecoaram pelas paredes do espaço cultural como hinos de pertencimento.

Canções nascidas do chão simples, mas destinadas a voar longe, atravessando estados, cidades e corações.

Naquela tarde, não havia apenas uma homenagem.

Havia reconhecimento histórico.

O Certificado de Honra e Louvor entregue ao Mestre não premiava somente um capoeirista.

Premiava um semeador de futuros.

Um homem que escolheu salvar vidas com o instrumento da cultura, com a pedagogia do afeto, com a disciplina da roda e com a música que transforma feridas em resistência.

Filho da região de Bom Jesus do Norte, André Marreta iniciou sua caminhada oferecendo aulas voluntárias, quando quase ninguém enxergava a força social da capoeira.

Enquanto muitos viam apenas um esporte, ele via possibilidade de redenção.

Onde havia abandono, ele levou ritmo.

Onde havia silêncio, ele levou canto.

Onde havia desesperança, ele levou pertencimento.

E assim sua obra cresceu.

Chegou a Carabuçu, ao Bela Vista, às cidades vizinhas, ao Nordeste Fluminense, rompendo fronteiras invisíveis e espalhando sementes de dignidade por lugares onde a capoeira ainda mal era conhecida.

Hoje, suas raízes alcançam Cabo Frio, Macaé, São José do Calçado, Castelo e Muriaé.

Mas sua maior expansão não aconteceu no mapa.

Aconteceu dentro das pessoas.

Cada criança resgatada pela capoeira é um território libertado da violência.

Cada jovem que aprende a tocar berimbau é um poema vivo contra a exclusão.

Ao lado dele, sua esposa também constrói pontes humanas, unindo mães, famílias e comunidade por meio da ginástica, do acolhimento e do cuidado.

Juntos, fazem da cultura um abraço coletivo.

Naquela tarde memorável, até as autoridades compreenderam a dimensão do momento.

O prefeito de Bom Jesus do Norte, Toninho Gualhano, e o vice-prefeito Marcão prestigiaram a cerimônia, como quem reconhecem que existem homens que governam sem cargo, lideram sem imposição e transformam sem violência.

Porque Mestre Marreta pertence à rara linhagem dos que constroem revoluções silenciosas.

Seu berimbau não convoca guerras.

Convoca consciência.

Sua roda não separa.

Abraça.

Sua capoeira não humilha adversários.

Ergue irmãos.

E mesmo depois que a cerimônia terminou, os ecos daquela tarde continuaram vivos pelas ruas das duas Bom Jesus.

Ainda hoje parecem atravessar janelas, misturar-se ao vento do entardecer e repousar suavemente no coração de quem presenciou aquele instante.

Porque certas tardes acabam no relógio, mas nunca terminam na memória.

O berimbau da esperança continua tocando.

E enquanto houver um Mestre como André Marreta abrindo caminhos à frente da fila indiana dos sonhadores, a cultura continuará sendo essa força milagrosa capaz de unir pessoas, curar tristezas e anunciar, no meio do mundo, um amanhã mais justo, mais humano e mais fraterno.