
O Dia da Poesia Bonjesuense, celebrado em 3 de maio, no Espaço Cultural Luciano Bastos, foi mais do que uma homenagem. Foi um reencontro entre o passado e o futuro das letras de Bom Jesus. Uma tarde em que a poesia caminhou entre as pessoas como quem retorna ao seu lugar de origem, trazendo nos olhos a memória e no peito a eternidade.
Para o Dia da Poesia Bonjesuense vieram especialmente do Rio de Janeiro Rogério Loureiro Xavier, filho e guardião da memória de Elcio Xavier, acompanhado de sua esposa, Eloisa, e da filha, Elaine. Rogerio foi um dos homenageados com o Certificado de Honra e Louvor.
E sobre todos os versos pairava o nome de Elcio Xavier, o eterno Príncipe dos Poetas. Homem de palavras iluminadas, que fez da delicadeza um estilo e da sensibilidade um reino. Seu legado não repousa apenas nos livros ou nas lembranças: permanece vivo nas novas gerações de escritores e poetas que continuam transformando Bom Jesus numa terra de inspiração.
Elcio jamais deixou para trás a Serra do Tardin, as paisagens da infância, o cavalo Ventania. Levava consigo a simplicidade das montanhas, o silêncio dos rios e a grandeza invisível das coisas humildes. E talvez seja exatamente por isso que sua poesia continue tão humana e tão eterna.
A poetisa e escritora Jandira Xavier Moreira, uma das homenageadas do dia, trouxe para o Espaço Cultural Luciano Bastos o soneto “O Voo do Pioneiro”, em que transforma Elcio em ave de luz e permanência. Seus versos fizeram do poeta uma presença suspensa entre o céu e a memória, como alguém que não partiu, apenas atravessou o horizonte.
Também veio de Laje do Muriaé, RJ, a voz sensível da poetisa Maria Beatriz Silva, trazendo palavras de profunda ternura em homenagem ao “Poeta Maior”. Seu texto lembrou que a poesia desconhece distâncias e que há homens cuja existência continua ecoando muito além do tempo. Em cada linha, Maria Beatriz fez da saudade um jardim iluminado pela gratidão.
E havia ainda os filhos da velha Pirapetinga de Bom Jesus igualmente homenageados: Lauro Amaral, Adalto Boechat Jr. e a própria Jandira Xavier Moreira. Todos carregando consigo as lembranças do torrão natal, os encantos da infância e o orgulho silencioso de pertencer àquela geografia afetiva onde a palavra nasce junto com o vento das montanhas.
A ABIJAL, Academia Bonjesuense Infantojuvenil de Letras, foi uma das grandes protagonistas do evento, ao lado do jornal O Norte Fluminense. A juventude literária mostrou que a chama acesa por Elcio Xavier continua viva e ardente. A jovem Beatriz Magalhães, filha de Giselle Magalhães, uma das homenageadas da tarde, brilhou durante toda a celebração, conduzindo homenagens ao lado de Rogério Loureiro Xavier, filho do Príncipe dos Poetas. Com ela estiveram os jovens Ana Alice Sátolo, Matheus Pimentel e Felipe. Suas presenças simbolizavam a continuidade da memória e da cultura.
A Tuna Luso Bonjesuense levou música e emoção ao encontro, enquanto o açoriano Francisco Amaro Borba Gonçalves trouxe palavras comoventes sobre Elcio Xavier, atravessando oceanos para participar daquele instante de comunhão poética. Também emocionou a presença de Lenice Xavier, com sua filha Renata. Lenice é prima de Elcio e sua trajetória literária igualmente honra a tradição das letras bonjesuenses. E no meio de acordes e memórias, destacou-se ainda Marise Figueiredo Xavier, fundadora da Escola de Música Cristo Rei, responsável pela formação musical de centenas de alunos ao longo dos anos. Sua presença iluminou a celebração, e sua delicada apresentação ao piano transformou o ambiente num instante de rara sensibilidade, como se a própria música dialogasse com a poesia e conduzisse, em notas suaves, a memória de Elcio Xavier através do tempo.
Livros circularam como sementes. “O Véu da Manhã”, “Rosaquarium”, e "Lembranças", de Elcio Xavier, além de “Saudades”, de Gedália Loureiro Xavier, foram distribuídos ao público, juntamente com "A Saudade que Não Passa", de Rogério Loureiro Xavier e "Alma Inquieta", da saudosa Raquel Loureiro Xavier Soares. Mais do que páginas impressas, eram fragmentos de memória entregues às mãos do povo.
Naquela tarde, Bom Jesus pareceu compreender algo raro: um povo sem poesia empobrece a alma; um povo que reverencia seus poetas constrói eternidade.
E assim, no Dia da Poesia Bonjesuense, Elcio Xavier foi elevado à condição de rei, não um rei de coroas e palácios, mas daquilo que realmente permanece: a palavra, a beleza, a cultura e a esperança.
Porque enquanto houver alguém declamando um verso às margens do Itabapoana, enquanto houver um jovem descobrindo a força de um poema, enquanto a memória da Serra do Tardin sobreviver no coração de seus filhos, Elcio Xavier continuará vivo.
Não apenas como poeta.
Mas como destino literário de Bom Jesus.
O Voo do Pioneiro
Jandira Xavier Moreira
Um século de luz em cada traço,
Rasgando “O véu da manhã, cortando o silêncio,
Quem conhece da alma, o seu imenso,
Não teme a curva, o tempo ou o cansaço.
Elcio, pioneiro da terra e desses espaços,
Colheu das palavras o brilho mais intenso,
Deixando o rastro de um olhar suspenso,
No rio que corre e acalma o nosso passo.
Agora é voz que o vento transmigra,
Poeta solto em céu itinerante,
Onde a saudade, em gratidão, se abriga.
Não é partida, é voo de diamante:
A carne finda, mas a rima intriga,
Fazendo o ontem ser o hoje: adiante.
(Olhares de Branca.Jandira)
ONDE A PALAVRA PERMANECE!
Maria Beatriz da Silva
Hoje não caminho entre vocês,
mas envio minha voz em forma de verso
porque a poesia não conhece distâncias
ela atravessa o tempo, o silêncio
e encontra morada no coração.
Dizem que há dias que passam
mas há outros que permanecem
e este não é um dia qualquer:
é daqueles que florescem dentro da gente,
onde a poesia respira
e a memória se faz presente.
Homenagear um poeta
é mais do que lembrar seu nome
é reconhecer que ele ainda fala
em cada verso que nos atravessa
em cada emoção que não conseguimos dizer
até que a poesia fale por nós.
Hoje, ecoa entre nós
o nome de Elcio Xavier,
meu poeta maior,
aquele que fez da palavra abrigo
e do sentimento eternidade.
Há almas que não partem,
apenas se transformam em luz
espalhada nas entrelinhas do mundo.
E hoje, entre vozes, encontros e lembranças,
Elcio Xavier vive
no sopro de cada verso dito com amor.
Que cada poesia aqui declamada
carregue um pouco dessa eternidade.
Que cada verso seja ponte,
semente, abrigo e emoção.
E que, mesmo eu estando ausente
eu esteja presente naquilo que mais importa:
no sentir que nos une,
na poesia que nos guarda,
e no silêncio bonito
onde o Poeta Maior continua vivo entre nós.
Foi ótimo. Existe cultura em Bom Jesus. Vamos valorizar.
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