sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Maria Apparecida Dutra Viestel: A Historiadora de Bom Jesus (Parte II)

 Maria Apparecida Dutra Viestel: Sentinela da Memória



Esta é a continuação da crônica histórica que mergulha ainda mais profundamente no legado de Maria Apparecida Dutra Viestel e na sua missão de preservar a alma de Bom Jesus do Itabapoana.

O Olhar que Atravessa os Séculos

​Se na primeira parte vimos as raízes de Dona Apparecida entrelaçarem-se com a fundação da cidade, nesta etapa compreendemos como a sua vocação se transformou no maior arquivo vivo da região. Para ela, a história não é uma fotografia estática, mas um rio que continua a correr, alimentado pelos relatos que ela colheu, guardou e, com generosidade ímpar, partilhou.

​A sua escrita é um ato de resistência contra o silêncio do tempo. Ao narrar a trajetória do seu avô na Farmácia Normal, ela não descreve apenas um comércio; ela descreve o nascimento da vida social urbana. Ela recorda-nos que as cidades são feitas de encontros: o encontro da ciência com a fé, do debate político com a cura física.

A Genealogia da Liderança e do Saber

​Dona Apparecida possui a rara habilidade de humanizar os nomes que hoje batizam praças e estádios. Através da sua memória, o General Fernando Lopes da Costa deixa de ser apenas uma placa no Estádio do Olympico FC para se tornar o filho de Maria Cecília, parte de uma família que chegou em 1880 com a coragem de quem vem para construir.

​A sua narrativa jornalística traz à tona detalhes que só o afeto permite conservar:

1. O Valor da Atualização: A imagem do seu avô a ler revistas de medicina estrangeiras num Bom Jesus ainda em formação mostra que o intelecto nunca esteve isolado, mesmo nos recônditos do interior.

2. O Sobrado como Símbolo: A conclusão da reforma em 1921 não foi apenas uma obra de engenharia, mas a afirmação de que a família Dutra e Silva estava ali para fincar raízes profundas, transformando o local de uma das três primeiras casas da vila num monumento à perenidade.

A Missão de Ensinar e Servir

​Seguindo os preceitos de seus pais, Alice e Antonio, Maria Apparecida transformou a sua vida num serviço público à cultura. Ser a "maior historiadora" de Bom Jesus não é um título que ela carrega com vaidade, mas com a responsabilidade de quem sabe que um povo sem memória é um povo sem identidade.

​Cada vez que Dona Apparecida clareia a origem de um nome como Abreu Lima, ela está, na verdade, a acender uma lanterna para as novas gerações. Ela ensina-nos que a dignidade, herança deixada pelos seus pais, manifesta-se no respeito pelos que nos antecederam.

Conclusão desta Etapa

​Maria Apparecida Dutra Viestel é, em si mesma, um sobrado de memórias. As suas palavras têm o peso do bronze e a leveza da poesia. Ao documentar as origens, as amizades entre as famílias fundadoras e o desenvolvimento da saúde e do pensamento na cidade, ela garante que o espírito de Bom Jesus do Itabapoana permaneça intacto, vibrante e, acima de tudo, lembrado.

A história de Bom Jesus continua a ser escrita, mas é sob a luz da obra de Dona Apparecida que conseguimos ler as suas páginas mais bonitas.


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