Ontem fui ao mercado do Loro comprar algumas coisinhas para o almoço e me deparei com um pedacinho da minha infância. Numa das prateleiras, vi vários saquinhos com pirulitos que me fizeram lembrar imediatamente dos famosos pirulitos da "Maria Rouca", a "Maria do Cessão" ou "Maria do Jorginho do Orestes". Quem se lembra deles?
Na verdade, aqueles não eram os antigos pirulitos feitos por ela, mas bastou vê-los para que minha memória viajasse no tempo. Voltei aos dias de criança, quando não tínhamos geladeira, sofá nem fogão a gás. Mesmo assim, éramos felizes. E os pirulitos da Maria faziam parte dessa felicidade.
Era uma alegria quando nosso pai comprava um para cada filho, ou quando eles eram distribuídos nas festinhas da igreja e nas comemorações de São Cosme e São Damião. Que delícia! Maria preparava um caramelo saborizado com pozinho de Ki-Suco nos sabores morango, abacaxi, groselha e também havia o tradicional. O formato lembrava uma chupeta de bebê presa a um palitinho. Para nós, aquilo era o máximo! Demorava a derreter e adoçava nossas tardes e nossa vida.
Maria Rouca morava onde hoje se encontra o Parque Confiança. Seu esposo, Jorge Purificati(Jorgim do Orestes), era músico da Lira Santa Cecília e eletricista prático. Consertava aparelhos de som, fogões e televisores, prestando valiosos serviços à comunidade.
Os pirulitos que vi na prateleira não eram da Maria. Ela já partiu, assim como tantos outros personagens queridos da nossa história. Deixaram saudades de um tempo mais simples, em que um simples pirulito era capaz de alegrar uma cidadezinha inteira.
Hoje os tempos são outros. Muitos pais evitam que os filhos consumam doces por preocupação com a saúde. Cada geração tem seus costumes e seus cuidados. Mas confesso que guardo com carinho as lembranças daquela época em que as brincadeiras, os livros, as histórias em quadrinhos, as vidas dos santos e os pirulitos da Maria Rouca faziam parte do nosso universo infantil.
Talvez alguém leia este texto e ache graça dessa recordação tão singela. Mas quem viveu aqueles tempos sabe que a felicidade morava nas coisas simples. Havia menos conforto material, é verdade, mas sobravam afeto, convivência e encantamento.
E, para quem quiser despertar uma doce lembrança da infância, basta dar uma passada no mercado do Loro e comprar um daqueles pirulitos. Eles não são os da Maria Rouca, mas têm o poder de nos levar de volta a um tempo em que tudo parecia mais simples e a alegria cabia na palma da mão.
(Isabel Menezes - professora e historiadora - fragmentos do livro Memórias de uma menina Católica da década de 70)

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