Acredita que em Pirapetinga um senhor amanheceu morto dentro de casa? A necropsia apontou tromboembolismo pulmonar obstrutivo. A medicina deu um nome à causa. Mas, quando fui até lá, meu coração encontrou outra história.
Ele estava sozinho. Vestia uma bermuda, um casaco fino e tinha sobre si apenas uma cobertinha leve demais para enfrentar o frio dessas madrugadas. Estava encolhidinho, como quem tentava guardar o último resto de calor dentro do próprio corpo.
Não sou médico para contestar laudos. O exame falou de trombose, de embolia, de artérias interrompidas. Mas a alma da gente às vezes enxerga o que os papéis não registram. E eu não consegui deixar de pensar no frio.
Talvez o frio não tenha sido a causa que constará nos documentos. Talvez jamais apareça em estatística alguma. Mas ele estava ali, silencioso, entrando pelas frestas da casa, acompanhando a solidão daquela noite. E fiquei pensando quantas vezes o frio não mata apenas o corpo; ele também agrava fragilidades, aperta dores antigas e encontra quem já estava vulnerável.
Saí dali com um aperto no peito. Porque, independentemente do nome que a ciência dê à morte, ninguém deveria partir assim: sozinho, com tão pouco abrigo contra uma madrugada gelada.
Hoje, ao lembrar daquele senhor encolhido sob uma coberta tão fina, sinto que o frio talvez não tenha escrito a certidão de óbito, mas certamente fez parte da última página de sua história.

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