sexta-feira, 28 de agosto de 2026

BOM JESUS, TERRA DE DOIS SANTUÁRIOS: UMA GEOGRAFIA ABENÇOADA PELA FÉ

 




Há observações que parecem simples quando pronunciadas, mas que, ao encontrarem a História, adquirem a força de uma revelação. Foi assim com as palavras de Thadeu Almeida, extraordinário pianista bonjesuense, ao tomar conhecimento de que a Igreja Matriz Senhor Bom Jesus será elevada à condição de Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus e Santa Rita de Cássia:

“Agora nosso município possui dois santuários, o de Nossa Senhora Aparecida e o diocesano. Bom Jesus é uma terra abençoada!”

E é mesmo.

A observação de Thadeu fez com que voltássemos os olhos para Calheiros, para as montanhas, para os caminhos percorridos por milhares de pés e para uma história de fé que começou muito antes de o título de Santuário ser escrito sobre um decreto.

Em contato com Edino Apolinário, Thadeu encaminhou o Decreto de Ereção do Santuário de Nossa Senhora Aparecida, datado de 12 de outubro de 2016, e também o precioso resumo histórico da Peregrinação à Capela de Aparecida.

Os documentos revelam uma história belíssima.

Antes de existir o Santuário, existiu o caminho.

E antes do caminho, existiu a fé.

Foi o saudoso Pe. José Paulo Vieira quem lançou as sementes daquela que se transformaria em uma das mais expressivas manifestações religiosas de nossa região. Em 1995, no dia dedicado à Padroeira do Brasil, um pequeno grupo de peregrinos, acompanhado por Congregados Marianos e uma pequena banda marcial, deixou a Capela de Santo Antônio, em Calheiros, em direção à Capela de Nossa Senhora Aparecida.

Eram cerca de 200 peregrinos.

Nenhum deles poderia imaginar que seus passos estavam escrevendo o primeiro capítulo de uma história destinada a atravessar gerações.

Ano após ano, os duzentos tornaram-se quatrocentos. Depois quinhentos, oitocentos, mil, quatro mil...

A pequena procissão transformou-se em rio humano.

E aquele rio passou a subir e descer as montanhas de Calheiros carregando terços, cânticos, promessas, agradecimentos e esperanças.

A peregrinação possui uma beleza que números jamais conseguirão explicar. Há os que percorrem aproximadamente cinco quilômetros entre Calheiros e Aparecidinha. E há aqueles, especialmente jovens, que partem de Bom Jesus ainda na noite anterior e enfrentam cerca de trinta quilômetros a pé.

Quando a cidade dorme, eles caminham.

Sob as estrelas, rezam.

Enquanto a madrugada cobre as estradas de silêncio, o Rosário atravessa a noite.

E, quando o dia 12 de outubro amanhece sobre as montanhas, outros peregrinos se juntam à caminhada. A imagem de Nossa Senhora segue no andor, enquanto cânticos marianos parecem misturar-se ao vento das serras.

Pe. José Paulo viu aquela devoção crescer diante de seus olhos.

Em 2008, já enfrentando limitações físicas, manifestou um sonho: desejava que aquela pequena Capela fosse transformada em Santuário.

Não viveria para assistir à realização desse desejo.

Em 2 de novembro de 2009, Pe. José Paulo faleceu.

Mas existem sonhos que sobrevivem aos sonhadores.

Pe. Ivoli Fernando Latrônico, seu sucessor, abraçou a missão de dar continuidade à peregrinação e ao projeto do Santuário. Vieram reformas, melhorias e uma estrutura cada vez maior para acolher os fiéis.

Então chegou 2015.

A Imagem Peregrina de Nossa Senhora Aparecida, que percorria o Brasil em preparação para o tricentenário do encontro da imagem no Rio Paraíba do Sul, chegou a Bom Jesus do Itabapoana. Segundo o registro histórico, cerca de dez mil domicílios da zona urbana e rural foram visitados durante as “Missões com a Mãe Aparecida”.

Naquele 12 de outubro, diante de aproximadamente 1.600 peregrinos, Pe. Ivoli fez publicamente dois pedidos: que a Capela fosse elevada a Santuário e que a Imagem Peregrina permanecesse definitivamente naquele lugar.

O sonho de Pe. José Paulo continuava caminhando.

E chegou, finalmente, o ano de 2016.

Por solicitação de Pe. Ivoli e por intermédio de Dom Fernando Arêas Rifan, a Imagem Peregrina de Nossa Senhora Aparecida foi doada pelo Santuário Nacional de Aparecida para permanecer definitivamente em Calheiros.

Era como se Aparecida viesse morar um pouco também entre nossas montanhas.

No dia 12 de outubro de 2016, festa da Padroeira do Brasil, Dom Fernando Arêas Rifan, Administrador Apostólico, assinou o decreto que transformaria definitivamente aquela história de devoção em instituição da Igreja:

“Erigimos a teor do cân. 1230 do CIC, o Santuário de Nossa Senhora Aparecida em Aparecidinha, Calheiros, Município de Bom Jesus do Itabapoana, RJ.”

O sonho estava realizado.

Segundo o registro histórico, aproximadamente três mil fiéis participaram daquele momento. A imagem foi coroada, houve confissões, cânticos, aplausos e emoção.

Naquele instante, muitos se lembraram de Pe. José Paulo.

Existem homens que plantam árvores sob cuja sombra nunca descansarão.

Ele sonhara com o Santuário.

Outros receberam a missão de construí-lo.

E milhares passaram a peregrinar até ele.

Dez anos depois daquele histórico 2016, outra notícia passa a iluminar a história religiosa bonjesuense: a Igreja Matriz Senhor Bom Jesus, coração espiritual de tantas gerações, prepara-se para assumir a missão de Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus e Santa Rita de Cássia.

E então compreendemos plenamente a observação de Thadeu Almeida.

Bom Jesus do Itabapoana passa a ostentar uma condição singular e belíssima: dois Santuários, pertencentes a circunscrições eclesiásticas distintas, mas unidos pela mesma geografia da fé.

De um lado, entre as montanhas de Calheiros, Nossa Senhora Aparecida acolhe os peregrinos que chegam depois de vencer quilômetros de estrada.

Do outro, no coração da cidade, o Senhor Bom Jesus e Santa Rita de Cássia recebem aqueles que atravessam outras espécies de caminhos, caminhos de esperança, sofrimento, promessa, gratidão e oração.

Dois Santuários.

Duas histórias.

Duas peregrinações espirituais.

E um mesmo povo.

Esta é uma das características mais profundas de Bom Jesus do Itabapoana: aqui, a fé não ficou apenas dentro dos templos. Ela ganhou estradas, montanhas, procissões, sinos, promessas e gerações.

Em Calheiros, os peregrinos caminham em direção a Nossa Senhora.

No centro da cidade, gerações caminharam e continuarão caminhando em direção ao Senhor Bom Jesus e a Santa Rita.

E sobre todos esses caminhos permanece a mesma certeza que Thadeu Almeida conseguiu resumir em poucas palavras:

Bom Jesus é uma terra abençoada.

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