domingo, 29 de março de 2026

A usurpação dos versos do Açoriano Padre Mello em uma das principais revistas nacionais


Rimas em Litígio: o escândalo em uma das mais importantes revistas do país

No Brasil febril das primeiras décadas do século XX, onde a imprensa era palco e tribunal, a pena ainda carregava o peso da honra, e a poesia, esse território sagrado da sensibilidade, não admitia profanações sem resposta. Foi assim que, em abril de 1924, nas páginas da revista O Malho, uma das principais revistas de circulação nacional no início do século XX, ergueu-se um caso que misturava lirismo, ironia e denúncia: o plágio das poesias do padre açoriano Antônio Francisco de Mello.

Filho de camponês, nascido sob o céu austero dos Açores, Padre Mello havia feito da palavra sua lavoura mais fértil. Cultivara versos como quem semeia trigo em solo ingrato, com paciência, fé e uma confiança quase mística na eternidade do espírito. Décadas antes, publicara em Ponta Delgada o livro Matutinas, onde depositara sua alma em estrofes de devoção, amor e contemplação.

Eis, porém, que o tempo - esse guardião caprichoso - trouxe-lhe de volta seus próprios versos, não como eco, mas como usurpação.

Nas edições 1.123 e 1.124 de O Malho, surgiam dois poemas: “Os meus amores” e “A Rodolpho Machado, na sua morte”, assinados por um certo Antonio Gomes Smith. Não fossem as mínimas alterações - duas palavras aqui, uma inversão ali - seriam espelhos quase perfeitos da criação original do padre-poeta.

A denúncia veio em forma de carta, mas com o timbre de uma peça literária. Padre Mello não brandiu a indignação em gritos: preferiu a lâmina fina da ironia. “Com tão pequeno capital”, escreveu, “não tem o Sr. Smith direito à sociedade.” E sugeriu, com elegante veneno, que ao menos o imitador apresentasse “o cartão da casa” - isto é, reconhecesse a autoria legítima.

A redação de O Malho, experiente nos dramas humanos que atravessam a imprensa, respondeu com admiração: nenhuma palavra editorial poderia superar a precisão e o espírito da carta recebida. O caso, entretanto, estava longe de se encerrar.

Chamado à tribuna pública, Antonio Gomes Smith apresentou sua defesa. Alegou ser vítima de uma intriga, vítima de mãos ocultas que teriam manipulado seus versos e sua assinatura. Invocou honra, amizade e até perseguição - como se a autoria fosse uma entidade volátil, capaz de se deslocar entre homens como sombra ao entardecer.

Mas a poesia, como a verdade, deixa rastros.

E quando se pensava que o episódio já se dissiparia nas brumas do esquecimento, um novo golpe: outro poema, “Semelhanças”, também de lavra do padre, aparecia novamente sob o nome do mesmo autor. A reincidência dissolvia qualquer resquício de dúvida e dava ao caso contornos quase farsescos - um teatro de máscaras mal ajustadas.

Padre Mello retornou, mais uma vez, às páginas da revista. E sua resposta, longe de inflamada, era ainda mais cortante. Comparou o plagiador a um rato que rói o fundo do saco onde se guardam as poesias - imagem doméstica e devastadora, que traduzia não apenas o furto, mas a sordidez do gesto.

Havia, no entanto, algo de profundamente simbólico nesse episódio.

De um lado, um sacerdote-poeta, moldado na humildade rural, cuja obra nascera do silêncio, da contemplação e do tempo longo. De outro, a pressa - essa ânsia moderna de ser visto, lido, celebrado - ainda que à custa da voz alheia.

O plágio, nesse contexto, não era apenas crime literário: era um sintoma. Revelava uma sociedade em transformação, onde o brilho da fama começava a rivalizar com o valor da criação, e onde a autoria - antes sagrada - passava a ser, para alguns, apenas um detalhe negociável.

Mas, no fim, permaneceu aquilo que sempre sobrevive: a palavra verdadeira.

Porque versos podem ser copiados, mas não recriados em sua origem. E a poesia de Padre Mello, nascida entre ilhas, fé e memória, conservava algo que nenhuma usurpação poderia alcançar - a autenticidade silenciosa de quem escreve não para o aplauso imediato, mas para a eternidade.

Assim, nas páginas amareladas de O Malho, ficou registrado não apenas um escândalo, mas uma lição: há glórias que se improvisam, e há outras que resistem ao tempo - intactas, como a própria alma da poesia.


AS POESIAS PLAGIADAS DE PADRE MELLO


A Gabriel de Almeida, na sua morte

Morrer é triste como a tua idade!
E tu contaste o derradeiro dia
quando tudo no mundo te sorria:
esposa e filhos, gloria e eternidade.
Esposa e filhos!... Dois idolatrados
carceres lindos onde livremente
captivos collocaste eternamente
teu coração, tua alma e teus cuidados.
Ella a esposa - conquista do passado,
os filhos - esperança do futuro.
Que dor perder tão cedo o affecto puro
que os extremos da vida tinha alliados!
Eternidade e gloria!... quanto é raro
ganhar dos homens um louvor ingente
e das cinzas do tumulo silente
revindicar ovante um nome claro.
Tudo alcançaste; mas é triste, triste,
cerrar tão cedo a pagina da Historia!...
Gosa no céo da immaculada Gloria
já que da terra poucou tempo viste.


OS MEUS AMORES

​Não ha ninguem sem affectos,

(nem primavera sem flor)

que o coração que dá vida

precisa a vida do amor.

​Porém se as flores são varias

o amor que não será?

como os meus lindos amores

outros amores não ha!

​São como as rosas de espinhos

muitos amores que eu sei;

agora encantos dos olhos,

logo tormentos sem lei.

​O doce objecto que eu amo

de todo o meu coração

para mim só tem sorrisos

quer na ventura quer não.

​Outros que chorem saudades

por ausencias do seu bem;

meu amor sempre me assiste,

para onde eu vou vae tambem.

​Sorri na face da aurora,

brilha no sol a raiar,

em qualquer fonte murmura,

brinca na areia do mar.

​E quando o sol é já posto

e briga a sombra co'a luz

contempla os astros do céo,

pousa o olhar no horizonte

onde mysterios traduz.

​Na flor do campo recende,

vê com transporte os destroços

das suas furias do escarcéo.

​Emfim meu bem, minha amada

onde eu estou ella está,

como os meus lindos amores

outros amores não ha.

​Mas pergunta a mocidade:

 - Esses amores quem são?

 - Quem? A Poesia que eu amo

de todo o meu coração.


LAMENTAÇÕES

A’ Amanda:

Tu vês o lyrio que do vil monturo
ergue a corolla de nevada côr ?
E’ a innocencia neste mundo impuro,
da mocidade o virginal pudor.
Tu vês a estrella na calada noite
rompendo as trevas, derramando luz ?
E’ da descrença o glorioso açoite,
o facho accessso triumphal da cruz.
Tu vês a aurora a despontar sorrindo,
dourando o berço para o sol nascer ?
E’ a esperança de um porvir mais lindo,
formosa palma para quem soffrer.
Cultiva, sempre, da pureza o lyrio,
tua alma vista da piedade o véo;
e se a virtude te exigir martyrio
eterna palma te dará no céo.



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