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| Rimas em Litígio: o escândalo em uma das mais importantes revistas do país |
No Brasil febril das primeiras décadas do século XX, onde a imprensa era palco e tribunal, a pena ainda carregava o peso da honra, e a poesia, esse território sagrado da sensibilidade, não admitia profanações sem resposta. Foi assim que, em abril de 1924, nas páginas da revista O Malho, uma das principais revistas de circulação nacional no início do século XX, ergueu-se um caso que misturava lirismo, ironia e denúncia: o plágio das poesias do padre açoriano Antônio Francisco de Mello.
Filho de camponês, nascido sob o céu austero dos Açores, Padre Mello havia feito da palavra sua lavoura mais fértil. Cultivara versos como quem semeia trigo em solo ingrato, com paciência, fé e uma confiança quase mística na eternidade do espírito. Décadas antes, publicara em Ponta Delgada o livro Matutinas, onde depositara sua alma em estrofes de devoção, amor e contemplação.
Eis, porém, que o tempo - esse guardião caprichoso - trouxe-lhe de volta seus próprios versos, não como eco, mas como usurpação.
Nas edições 1.123 e 1.124 de O Malho, surgiam dois poemas: “Os meus amores” e “A Rodolpho Machado, na sua morte”, assinados por um certo Antonio Gomes Smith. Não fossem as mínimas alterações - duas palavras aqui, uma inversão ali - seriam espelhos quase perfeitos da criação original do padre-poeta.
A denúncia veio em forma de carta, mas com o timbre de uma peça literária. Padre Mello não brandiu a indignação em gritos: preferiu a lâmina fina da ironia. “Com tão pequeno capital”, escreveu, “não tem o Sr. Smith direito à sociedade.” E sugeriu, com elegante veneno, que ao menos o imitador apresentasse “o cartão da casa” - isto é, reconhecesse a autoria legítima.
A redação de O Malho, experiente nos dramas humanos que atravessam a imprensa, respondeu com admiração: nenhuma palavra editorial poderia superar a precisão e o espírito da carta recebida. O caso, entretanto, estava longe de se encerrar.
Chamado à tribuna pública, Antonio Gomes Smith apresentou sua defesa. Alegou ser vítima de uma intriga, vítima de mãos ocultas que teriam manipulado seus versos e sua assinatura. Invocou honra, amizade e até perseguição - como se a autoria fosse uma entidade volátil, capaz de se deslocar entre homens como sombra ao entardecer.
Mas a poesia, como a verdade, deixa rastros.
E quando se pensava que o episódio já se dissiparia nas brumas do esquecimento, um novo golpe: outro poema, “Semelhanças”, também de lavra do padre, aparecia novamente sob o nome do mesmo autor. A reincidência dissolvia qualquer resquício de dúvida e dava ao caso contornos quase farsescos - um teatro de máscaras mal ajustadas.
Padre Mello retornou, mais uma vez, às páginas da revista. E sua resposta, longe de inflamada, era ainda mais cortante. Comparou o plagiador a um rato que rói o fundo do saco onde se guardam as poesias - imagem doméstica e devastadora, que traduzia não apenas o furto, mas a sordidez do gesto.
Havia, no entanto, algo de profundamente simbólico nesse episódio.
De um lado, um sacerdote-poeta, moldado na humildade rural, cuja obra nascera do silêncio, da contemplação e do tempo longo. De outro, a pressa - essa ânsia moderna de ser visto, lido, celebrado - ainda que à custa da voz alheia.
O plágio, nesse contexto, não era apenas crime literário: era um sintoma. Revelava uma sociedade em transformação, onde o brilho da fama começava a rivalizar com o valor da criação, e onde a autoria - antes sagrada - passava a ser, para alguns, apenas um detalhe negociável.
Mas, no fim, permaneceu aquilo que sempre sobrevive: a palavra verdadeira.
Porque versos podem ser copiados, mas não recriados em sua origem. E a poesia de Padre Mello, nascida entre ilhas, fé e memória, conservava algo que nenhuma usurpação poderia alcançar - a autenticidade silenciosa de quem escreve não para o aplauso imediato, mas para a eternidade.
Assim, nas páginas amareladas de O Malho, ficou registrado não apenas um escândalo, mas uma lição: há glórias que se improvisam, e há outras que resistem ao tempo - intactas, como a própria alma da poesia.
OS MEUS AMORES
Não ha ninguem sem affectos,
(nem primavera sem flor)
que o coração que dá vida
precisa a vida do amor.
Porém se as flores são varias
o amor que não será?
como os meus lindos amores
outros amores não ha!
São como as rosas de espinhos
muitos amores que eu sei;
agora encantos dos olhos,
logo tormentos sem lei.
O doce objecto que eu amo
de todo o meu coração
para mim só tem sorrisos
quer na ventura quer não.
Outros que chorem saudades
por ausencias do seu bem;
meu amor sempre me assiste,
para onde eu vou vae tambem.
Sorri na face da aurora,
brilha no sol a raiar,
em qualquer fonte murmura,
brinca na areia do mar.
E quando o sol é já posto
e briga a sombra co'a luz
contempla os astros do céo,
pousa o olhar no horizonte
onde mysterios traduz.
Na flor do campo recende,
vê com transporte os destroços
das suas furias do escarcéo.
Emfim meu bem, minha amada
onde eu estou ella está,
como os meus lindos amores
outros amores não ha.
Mas pergunta a mocidade:
- Esses amores quem são?
- Quem? A Poesia que eu amo
de todo o meu coração.


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