
Em 1901, no meio do silêncio das rotinas paroquiais e o fervor da palavra escrita, o açoriano Padre Antônio Francisco de Mello, um gênio da civilização e da cultura, revela uma faceta rara de sua sensibilidade ao compor, em francês, o soneto “Prière”, uma oração que transcende o rito e se transforma em poesia.
Mais do que um exercício de erudição, o texto é um gesto de afeto. Dedicado à jovem Maria Thérèse d’Azevedo Mattos, por ocasião de seu nascimento, o poema se inscreve no delicado território onde fé, linguagem e memória se entrelaçam.
A escolha do francês, idioma da elegância literária à época, reforça o refinamento cultural do pároco açoriano, ao mesmo tempo em que eleva a homenagem a um plano quase atemporal.
Maria Teresa era filha de Manoel Antônio de Azevedo Mattos, português nascido na Ilha da Madeira, figura presente na história local ao integrar a primeira intendência de Bom Jesus em 25 de dezembro de 1890, data que marca a primeira emancipação do município. Assim, o poema não apenas celebra uma vida que se iniciava, mas também ecoa as raízes de uma família ligada à formação política e social da região.
O documento, hoje, ganha ainda mais relevância por sua natureza efêmera. Trata-se de um exemplar de ephemera, aqueles frágeis registros em papel, criados para momentos específicos e que, por sua própria condição transitória, raramente sobrevivem ao tempo. Justamente por isso, quando preservados, tornam-se relíquias.
No meio de versos e história, “Prière” resiste como uma peça singular: ao mesmo tempo expressão artística, testemunho afetivo e precioso fragmento genealógico. Um pequeno papel que atravessou o tempo para nos lembrar que, às vezes, a eternidade se esconde nas coisas mais delicadas.
Tradução
Oração
À Srta. Maria Thérèse d’Azevedo Mattos, no dia de seu nascimento
Olha com teus belos olhos este anjinho tão belo,
contempla sua beleza e seu ar de inocência.
O que diz ele, ó minha filha, no dia do teu nascimento?
- Que o Autor da vida é Deus que está no Céu.
É Deus quem dá o ser a toda a Natureza,
quem faz a borboleta, o lírio do campo,
o rio majestoso que corta a montanha
e o pequeno riacho que languesce, que murmura.
É Deus quem no Céu, antes que a matéria,
criou para sempre os Anjos cheios de graça,
o mesmo que desde então criou nossa raça,
e a mulher é um Anjo, um Paraíso a terra.
Mas é preciso que sempre sua alma se revista
da graça angelical e das nobres virtudes.
Eis o encantamento de Deus e dos eleitos,
e eis minha Oração em meio à Festa.
16 — 10 — 1901
Padre Mello
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