sábado, 28 de março de 2026

O Açoriano Padre Mello e o Soneto Francês "Prière": Erudição em Versos



Em 1901, no meio do silêncio das rotinas paroquiais e o fervor da palavra escrita, o açoriano Padre Antônio Francisco de Mello, um gênio da civilização e da cultura, revela uma faceta rara de sua sensibilidade ao compor, em francês, o soneto “Prière”,  uma oração que transcende o rito e se transforma em poesia.

Mais do que um exercício de erudição, o texto é um gesto de afeto. Dedicado à jovem Maria Thérèse d’Azevedo Mattos, por ocasião de seu nascimento, o poema se inscreve no delicado território onde fé, linguagem e memória se entrelaçam.

A escolha do francês, idioma da elegância literária à época,  reforça o refinamento cultural do pároco açoriano, ao mesmo tempo em que eleva a homenagem a um plano quase atemporal.

Maria Teresa era filha de Manoel Antônio de Azevedo Mattos, português nascido na Ilha da Madeira, figura presente na história local ao integrar a primeira intendência de Bom Jesus em 25 de dezembro de 1890, data que marca a primeira emancipação do município. Assim, o poema não apenas celebra uma vida que se iniciava, mas também ecoa as raízes de uma família ligada à formação política e social da região.

O documento, hoje, ganha ainda mais relevância por sua natureza efêmera. Trata-se de um exemplar de ephemera, aqueles frágeis registros em papel, criados para momentos específicos e que, por sua própria condição transitória, raramente sobrevivem ao tempo. Justamente por isso, quando preservados, tornam-se relíquias.

No meio de versos e história, “Prière” resiste como uma peça singular: ao mesmo tempo expressão artística, testemunho afetivo e precioso fragmento genealógico. Um pequeno papel que atravessou o tempo para nos lembrar que, às vezes, a eternidade se esconde nas coisas mais delicadas.

Tradução 

Oração

À Srta. Maria Thérèse d’Azevedo Mattos, no dia de seu nascimento

Olha com teus belos olhos este anjinho tão belo,

contempla sua beleza e seu ar de inocência.

O que diz ele, ó minha filha, no dia do teu nascimento?


- Que o Autor da vida é Deus que está no Céu.

​É Deus quem dá o ser a toda a Natureza,

quem faz a borboleta, o lírio do campo,

o rio majestoso que corta a montanha

e o pequeno riacho que languesce, que murmura.


​É Deus quem no Céu, antes que a matéria,

criou para sempre os Anjos cheios de graça,

o mesmo que desde então criou nossa raça,

e a mulher é um Anjo, um Paraíso a terra.


​Mas é preciso que sempre sua alma se revista

da graça angelical e das nobres virtudes.

Eis o encantamento de Deus e dos eleitos,

e eis minha Oração em meio à Festa.


16 — 10 — 1901

Padre Mello




Nenhum comentário:

Postar um comentário