domingo, 12 de julho de 2026

A Anatomia do Identitarismo: Uma Análise das Críticas de Nildo Ouriques à Militância Institucional

 


A análise crítica proposta por economistas e intelectuais da esquerda e soberanista, como Nildo Ouriques, frequentemente direciona suas baterias contra o que chamam de identitarismo. A tese central dessa vertente sustenta que os movimentos identitários contemporâneos abandonaram a centralidade da luta de classes e do projeto nacional-revolucionário, fragmentando a classe trabalhadora em nichos baseados em características biológicas, de gênero ou orientação sexual.

​Abaixo, estruturamos os principais eixos desse debate com base nos pontos levantados:

​1. O "Identitarismo Escrachado" e a Universidade

​Para críticos dessa corrente, a universidade pública brasileira,  que outrora foi o berço da formulação de projetos nacionais e de debates profundos sobre a dependência econômica,  teria sido "capturada" por uma pauta excessivamente focada nas subjetividades.

​O termo "identitarismo escrachado" refere-se a uma militância que, na visão de Ouriques, se baseia mais na performance verbal e na ocupação de espaços de poder do que na transformação estrutural do capitalismo.

​Figuras públicas da política institucional (como a deputada Érika Hilton) costumam ser o alvo dessa crítica por representarem, segundo essa ótica, uma conciliação com o sistema sob uma roupagem progressista.

​2. A Fragmentação: O "LGBT" como Grupo Social

​A premissa defendida nessa crítica é a de que a sigla LGBT+ não constitui, rigorosamente falando, um "grupo social" homogêneo ou uma classe com interesses econômicos unificados.

​Um burguês homossexual e um trabalhador homossexual da periferia pertencem a realidades materiais completamente distintas.

​Ao tratar orientações sexuais e identidades de gênero como um bloco político coeso, o identitarismo estaria mascarando o corte de classe, que é o verdadeiro motor da desigualdade.

​3. A Hierarquização das Opressões: O Caso Anielle Franco e Silvio Almeida

​O debate ganha contornos mais complexos ao analisar a chamada "olimpíada da opressão" ou a hierarquização das vulnerabilidades. A tese apresentada sugere que o identitarismo cria uma pirâmide de privilégios e opressões morais onde certos grupos "vencem" o debate público puramente pela sua identidade, e não pelos fatos materiais.

​No episódio envolvendo os ministros Anielle Franco e Silvio Almeida, o argumento de Ouriques e de críticos correlatos se desdobra em duas vertentes:

Mulher Negra vs. Homem Negro: Dentro da mecânica identitária, a mulher negra acumula mais marcadores de opressão (gênero + raça) do que o homem negro (apenas raça). Portanto, em um conflito discursivo ou institucional, o homem negro estaria automaticamente em desvantagem ou "abaixo" na escala de legitimidade moral.

A Posição do Trans: Seguindo essa lógica de pirâmide invertida, a identidade trans ocuparia o topo da vulnerabilidade reconhecida pela academia e pela mídia progressista. Logo, teria uma espécie de "salvo-conduto" ou superioridade retórica em disputas narrativas.

​4. Interesses Pessoais vs. Soluções Estruturais

​Por fim, a crítica de Nildo Ouriques diagnostica que a engrenagem identitária não busca a solução definitiva do preconceito, do racismo ou da homofobia. Pelo contrário: ela necessita da manutenção dessas injustiças para justificar sua própria existência e a ocupação de cargos públicos, verbas de ONGs e posições acadêmicas.

​"Utiliza-se o solo legítimo do sofrimento humano (o racismo e a homofobia real) para transformá-lo em capital político individual e carreirismo."

​Em suma, para a esquerda sob a ótica de Nildo Ouríques, o identitarismo opera como uma linha auxiliar do liberalismo: ele atomiza a sociedade, impede a união dos trabalhadores e substitui a radicalidade da mudança econômica pela superficialidade da representatividade cosmética.


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