Havia no mundo um silêncio que precedia o toque, um véu de névoa dourada onde os passos de Psiquê ecoavam como gotas d’água em uma fonte secreta. Ela habitava a morada do invisível, um palácio erguido não de pedra e cal, mas de promessas e luz crepuscular. Ali, o amor não tinha rosto, apenas o calor de um abraço na calada da noite, a respiração mansa do deus que se entregava na penumbra sem pedir nome, apenas fé.
Mas a alma humana, essa frágil engrenagem de sede e abismo, raramente suporta a inteireza da paz sem que uma fresta de dúvida venha corrompê-la.
Fora daquele refúgio intocado, o mundo continuava seu curso áspero, e nele viviam as irmãs de Psiquê. Eram mulheres de passos pesados e corações ressecados pelo tempo, espectadoras amargas da própria mediocridade. Quando souberam da opulência em que vivia a caçula, da felicidade que transbordava daquele castigo que julgavam ser a solidão, a inveja desceu sobre elas como um vento encardido. Não suportavam a luz alheia porque nelas mesmas habitava a mais densa escuridão.
Sob o pretexto do afeto, cruzaram os umbrais sagrados. Trouxeram consigo os olhares estreitos, os sorrisos de dentes apertados e, ocultas sob os mantos de linho, as adagas da maledicência. Cochichavam nos corredores de mármore que o marido invisível era, na verdade, um monstro hediondo, uma serpente monstruosa que um dia a devoraria no escuro. Semeavam o veneno da desconfiança gota a gota, destilando o fel da própria pequenez no espírito puro de Psiquê.
Nessa noite, o palácio não teve o calor de costume. Quando Cupido deitou-se ao lado da esposa, sentiu o ar denso, pesado de lágrimas contidas e de uma dúvida recém-plantada.
O deus, envolto nas sombras que o protegiam, tocou o rosto banhado de pranto de Psiquê e, com a voz que gemia como o vento nas frestas do mundo, sussurrou o aviso cortante:
"Psiquê, minha doce e imprudente esposa... Tuas irmãs preparam a tua ruína. Elas não vêm em paz; são víboras rastejantes, movidas pelo veneno da inveja, prontas para apunhalar o nosso amor com a lâmpada da curiosidade cega. Afasta-te delas, ou perderás tudo o que construímos no altar do silêncio."
Palavras ditas em vão, pois a semente da inquietação já havia germinado.
As víboras haviam falado, e o coração de Psiquê, dividido entre o temor do monstro imaginado e a ânsia de ver a face do seu amado, começou a vacilar. Naquele instante, o destino deu seu primeiro passo em direção ao inevitável: a luz da lâmpada que se acenderia mais tarde não revelaria apenas a beleza divina de Cupido, mas queimaria com o óleo fervente da traição o próprio tecido da inocência, expulsando a alma para os caminhos tortuosos da saudade e da dor.

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