terça-feira, 1 de setembro de 2026

A vida real ficou insustentável

 

Os livros provavelmente sobreviverão. Resta saber se sobreviverá o tipo de ser humano capaz de lê-los


A escritora Carla Madeira 

Quando uma escritora afirma que “a vida real ficou insustentável”, não está falando apenas de si. Está colocando em palavras uma sensação que muita gente experimenta silenciosamente: a de que o mundo se tornou excessivo.

Excesso de notícias, de imagens, de opiniões, de urgências. Excesso de gente falando e escassez de gente escutando. Nunca estivemos tão conectados e talvez nunca tenhamos produzido tanta solidão em escala industrial.

Carla Madeira aponta a literatura como território de salvação e enxerga nas redes sociais uma espécie de entorpecimento. A imagem é perturbadora justamente porque parece verdadeira. O homem contemporâneo não precisa mais ficar sozinho com seus pensamentos. Basta tocar uma tela. Imediatamente surgem vídeos, mensagens, escândalos, celebridades, tragédias, receitas, guerras, fofocas e desconhecidos oferecendo opiniões sobre tudo.

Não suportamos mais o silêncio.

E isso talvez seja mais grave do que parece.

O silêncio era o lugar onde a consciência conversava consigo mesma. Hoje, antes que uma pergunta interior consiga terminar a frase, chega uma notificação.

A literatura exige exatamente aquilo que estamos desaprendendo a oferecer: tempo, concentração, silêncio e demora. Um romance pede que permaneçamos algumas horas dentro da vida de outra pessoa. A rede social, ao contrário, nos treina para abandonar uma história em poucos segundos. Deslizamos o dedo e descartamos paisagens, pensamentos, rostos e tragédias com o mesmo movimento.

Estamos também aprendendo a deslizar pessoas. Se incomoda, bloqueia-se. Se discorda, cancela-se. Se demora, abandona-se. Se entristece, procura-se imediatamente alguma distração.

Construímos uma civilização extraordinariamente competente para fugir de si mesma.

E há nisso uma ironia cruel: criamos instrumentos destinados a aproximar os seres humanos e acabamos fabricando máquinas perfeitas de dispersão. Temos milhares de “amigos”, mas precisamos anunciar publicamente quando estamos tristes para descobrir quem ainda percebe nossa existência.

Por isso a frase de Carla Madeira tenha uma tonalidade quase profética: a vida real ficou insustentável porque fomos perdendo a capacidade de sustentá-la. Sustentar o tédio. Sustentar a espera. Sustentar uma conversa difícil. Sustentar o sofrimento. Sustentar o outro. Sustentar a nós mesmos.

A literatura ainda oferece uma resistência quase clandestina a esse processo. Abrir um livro significa fechar, por algum tempo, as comportas do ruído. Significa aceitar que uma história não será resolvida em quinze segundos. Significa reaprender a demora.

Mas até essa resistência parece ameaçada.

Talvez chegue o dia em que um romance de trezentas páginas seja considerado longo demais para uma humanidade treinada para vídeos de poucos segundos. Talvez nossos descendentes olhem para as antigas bibliotecas como contemplamos hoje ruínas de civilizações desaparecidas: tentando compreender que espécie de criatura conseguia permanecer durante horas diante de páginas silenciosas.

É um pensamento pessimista.

Mas o pessimismo, algumas vezes, é apenas uma janela aberta para aquilo que preferiríamos não enxergar.

Carla Madeira encontrou na literatura uma maneira de atravessar seus lutos. Outros também procuram livros para sobreviver às suas perdas. Ali ainda existe entre duas capas, aquilo que o mundo digital vai lentamente nos roubando: profundidade, intimidade, contemplação e memória.

A questão inquietante não é saber se os livros sobreviverão.

Os livros provavelmente sobreviverão.

Resta saber se sobreviverá o tipo de ser humano capaz de lê-los.

Antes de magoar, pense bem, por Rogério Loureiro Xavier

 


Olá 🖐 pessoa amiga e do bem. 


*Antes de magoar, pense bem.*


Antes de magoar uma pessoa, pegue um papel e amasse-o. Já o fez? ... Bem, agora deixe-o como estava novamente... você não pode, né? 

O coração das pessoas é como esse papel, uma vez que você o machuca, é difícil voltar a deixá-lo como era antes... Então, antes de magoar, PENSE BEM no que você faz...


*✍️ ... Rogerio Loureiro Xavier*

Reencontro de emoções: Mestre Daniel de Lima e Dona Helena, vinte anos depois

 




O reencontro do Mestre Artesão Daniel de Lima com Dona Helena, depois de aproximadamente vinte anos sem se verem, pareceu carregar dentro dele todos os anos que ficaram no meio do caminho. Duas décadas passaram, mas bastou que os olhares se reconhecessem para que o tempo, esse artesão invisível da vida, juntasse novamente as pontas de uma antiga história de amizade.

Dona Helena conheceu Daniel quando ele tinha apenas 18 anos. Era um jovem que começava a percorrer os caminhos da arte, descobrindo nas mãos a capacidade de transformar matéria em sentimento. Ao lado dela estava o esposo, Valdir, de quem Daniel guarda uma lembrança especialmente afetiva:

- Seu esposo Valdir me ensinava a fazer instrumento de barro.

Uma frase pequena para uma memória imensa.

Os verdadeiros mestres permanecem um pouco nas mãos daqueles a quem ensinaram. Cada técnica transmitida, cada segredo do ofício, cada conselho dado diante do barro que tomava forma era também uma maneira de perpetuar conhecimento.

Daniel e Dona Helena participaram juntos de feiras e também deram aulas. Dividiram espaços, experiências e aquele universo singular dos artesãos, no qual ensinar e aprender muitas vezes acontecem ao mesmo tempo.

E então a vida cumpriu seu movimento inevitável. Os caminhos se afastaram. Vieram outros trabalhos, outros lugares, outros dias. Daniel prosseguiu sua trajetória. Dona Helena seguiu a sua.

Até que, vinte anos depois, aconteceu o reencontro.

O cenário também fala de arte e continuidade. A história passa pelo Duarte Ateliê, em Rocha Leão, Rio das Ostras, e por Rio Dourado, distrito de Casimiro de Abreu, onde existe uma extensão do ateliê de Rocha Leão. A neta Aline, ligada ao Duarte Ateliê, representa ainda uma nova geração nessa bonita corrente em que a arte parece passar de mãos em mãos.

E foi justamente um objeto simples que acrescentou poesia ao reencontro.

Daniel foi presenteado com um pano de prato.

Para quem observa de fora, talvez seja apenas tecido. Para quem conhece o universo do artesanato, porém, sabe-se que uma peça feita ou escolhida com afeto jamais é apenas uma peça. Nela permanecem mãos, lembranças, histórias e sentimentos.

Daniel resumiu tudo em poucas palavras:

Felicidade esse encontro!

E talvez nenhuma outra frase fosse necessária.

Depois de vinte anos, não eram apenas Daniel e Dona Helena que se reencontravam. Reencontravam-se as antigas feiras, as aulas compartilhadas, o barro moldado pelas mãos, os ensinamentos de Valdir, a juventude de um Daniel de 18 anos e todos aqueles dias que pareciam desaparecidos no calendário.

Descobrimos, então, que certas amizades não terminam quando as pessoas deixam de se encontrar.

Elas apenas ficam guardadas.

E, quando a vida resolve aproximá-las novamente, vinte anos podem desaparecer na duração de um abraço




José Roberto Silveira parte e deixa sua presença na memória

 

José Roberto no Memorial Governadores Roberto e Badger Silveira, em 2019


O Jornal O Norte Fluminense recebeu, com profunda tristeza, por intermédio de Badger Silveira Filho, a notícia do falecimento de seu irmão, Zé Roberto Silveira. Sua partida chega envolta em silêncio e consternação, porque toca não apenas sua família e seus amigos, mas todos aqueles que, de alguma maneira, compartilharam de sua caminhada.

Nos últimos tempos, Zé Roberto atravessou momentos difíceis. Ao seu lado esteve o filho Arthur, oferecendo-lhe presença, cuidado e amparo, fazendo tudo o que estava ao seu alcance. Diante da dor humana, entretanto, existem territórios que nem sempre conseguimos alcançar. Restam-nos o respeito, a compreensão e, sobretudo, a solidariedade para com aqueles que ficam.

A morte possui essa estranha capacidade de interromper os dias sem conseguir apagar a história. Uma pessoa parte, mas permanecem sua voz na lembrança dos que a ouviram, seus gestos na memória dos que os receberam, os encontros, as conversas e tantos pequenos acontecimentos que, somente depois da despedida, percebemos que constituíam uma vida inteira.

O sobrenome Silveira carrega páginas importantes da história de nossa região. Mas cada integrante de uma família escreve também sua própria página, feita de experiências, afetos, alegrias, dificuldades e relações humanas. É nessa dimensão profundamente humana que a memória de Zé Roberto deverá ser guardada.

Neste momento de consternação, o Jornal O Norte Fluminense manifesta seus mais profundos sentimentos ao filho Arthur, aos familiares e aos amigos de Zé Roberto Silveira.

Que Deus o acolha em Sua infinita misericórdia e conceda consolo e serenidade àqueles que sofrem com sua partida.

Talvez seja esta uma das poucas maneiras que encontramos de enfrentar o mistério da despedida: quando alguém que amamos parte, encerra-se a presença física, mas a memória inaugura outra forma de continuidade.

Geraldo Silveira, Badger Silveira, José Roberto Silveira e dr Herval Silveira na igreja Matriz Senhor Bom Jesus