Os livros provavelmente sobreviverão. Resta saber se sobreviverá o tipo de ser humano capaz de lê-los
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| A escritora Carla Madeira |
Quando uma escritora afirma que “a vida real ficou insustentável”, não está falando apenas de si. Está colocando em palavras uma sensação que muita gente experimenta silenciosamente: a de que o mundo se tornou excessivo.
Excesso de notícias, de imagens, de opiniões, de urgências. Excesso de gente falando e escassez de gente escutando. Nunca estivemos tão conectados e talvez nunca tenhamos produzido tanta solidão em escala industrial.
Carla Madeira aponta a literatura como território de salvação e enxerga nas redes sociais uma espécie de entorpecimento. A imagem é perturbadora justamente porque parece verdadeira. O homem contemporâneo não precisa mais ficar sozinho com seus pensamentos. Basta tocar uma tela. Imediatamente surgem vídeos, mensagens, escândalos, celebridades, tragédias, receitas, guerras, fofocas e desconhecidos oferecendo opiniões sobre tudo.
Não suportamos mais o silêncio.
E isso talvez seja mais grave do que parece.
O silêncio era o lugar onde a consciência conversava consigo mesma. Hoje, antes que uma pergunta interior consiga terminar a frase, chega uma notificação.
A literatura exige exatamente aquilo que estamos desaprendendo a oferecer: tempo, concentração, silêncio e demora. Um romance pede que permaneçamos algumas horas dentro da vida de outra pessoa. A rede social, ao contrário, nos treina para abandonar uma história em poucos segundos. Deslizamos o dedo e descartamos paisagens, pensamentos, rostos e tragédias com o mesmo movimento.
Estamos também aprendendo a deslizar pessoas. Se incomoda, bloqueia-se. Se discorda, cancela-se. Se demora, abandona-se. Se entristece, procura-se imediatamente alguma distração.
Construímos uma civilização extraordinariamente competente para fugir de si mesma.
E há nisso uma ironia cruel: criamos instrumentos destinados a aproximar os seres humanos e acabamos fabricando máquinas perfeitas de dispersão. Temos milhares de “amigos”, mas precisamos anunciar publicamente quando estamos tristes para descobrir quem ainda percebe nossa existência.
Por isso a frase de Carla Madeira tenha uma tonalidade quase profética: a vida real ficou insustentável porque fomos perdendo a capacidade de sustentá-la. Sustentar o tédio. Sustentar a espera. Sustentar uma conversa difícil. Sustentar o sofrimento. Sustentar o outro. Sustentar a nós mesmos.
A literatura ainda oferece uma resistência quase clandestina a esse processo. Abrir um livro significa fechar, por algum tempo, as comportas do ruído. Significa aceitar que uma história não será resolvida em quinze segundos. Significa reaprender a demora.
Mas até essa resistência parece ameaçada.
Talvez chegue o dia em que um romance de trezentas páginas seja considerado longo demais para uma humanidade treinada para vídeos de poucos segundos. Talvez nossos descendentes olhem para as antigas bibliotecas como contemplamos hoje ruínas de civilizações desaparecidas: tentando compreender que espécie de criatura conseguia permanecer durante horas diante de páginas silenciosas.
É um pensamento pessimista.
Mas o pessimismo, algumas vezes, é apenas uma janela aberta para aquilo que preferiríamos não enxergar.
Carla Madeira encontrou na literatura uma maneira de atravessar seus lutos. Outros também procuram livros para sobreviver às suas perdas. Ali ainda existe entre duas capas, aquilo que o mundo digital vai lentamente nos roubando: profundidade, intimidade, contemplação e memória.
A questão inquietante não é saber se os livros sobreviverão.
Os livros provavelmente sobreviverão.
Resta saber se sobreviverá o tipo de ser humano capaz de lê-los.

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