Aquele que acompanha a partida sabe quanto o horizonte pode mudar depois de um pequeno passo de peão
Existe uma maneira silenciosa de mudar a paisagem: crescer. Primeiro, um ramo ultrapassa o muro; depois, outro encontra a luz. Quando os olhos percebem, a árvore já ocupa um espaço que antes parecia pertencer apenas ao céu. Assim, aos poucos, os jovens uzbeques vão se aproximando do topo do xadrez mundial.
Na lista apresentada, Javokhir Sindarov aparece em quarto lugar, seguido por Nodirbek Abdusattorov. Duas bandeiras do Uzbequistão, uma logo abaixo da outra, entre nomes que o mundo aprendeu a pronunciar com respeito. Para quem contempla esses números, há algo além da classificação: a impressão de assistir a uma geração que chega e começa a acomodar seus sonhos nas cadeiras mais disputadas.
Acima deles, Magnus Carlsen, Hikaru Nakamura e Fabiano Caruana guardam a altura com a experiência de quem conhece os caminhos difíceis da montanha. Os jovens que sobem precisam conquistar cada trecho. Uma imprecisão custa semanas de trabalho; uma vitória abre uma passagem estreita. Nesse avanço, feito também de derrotas e recomeços, Sindarov e Abdusattorov vão tornando familiar a presença uzbeque nas proximidades do cume.
É emocionante vê-los juntos nessa subida. Cada um leva ao tabuleiro sua maneira de pensar, suas inquietações, a coragem que consegue reunir diante do relógio. Entretanto, vistas de longe, as duas trajetórias parecem conversar. Quando um avança, o horizonte do outro também se alarga. E, em algum lugar do país que representam, um menino pode olhar para seus nomes e descobrir que aquele caminho pode começar na pequena mesa de sua casa.
O xadrez conhece bem esse instante em que a juventude deixa de ser apenas promessa. Os adversários passam a preparar suas partidas com maior cuidado; o público acompanha os resultados; uma cadeira vazia entre os primeiros já faz lembrar um nome. A chegada acontece assim, antes mesmo de qualquer coroação, quando a ausência de alguém começa a causar surpresa.
Os números da próxima lista poderão mudar. Haverá torneios difíceis, posições perdidas, tardes em que o talento precisará suportar o peso da frustração. Ainda assim, duas bandeiras vizinhas nesse alto do ranking deixam uma imagem persistente: a de jovens que aprenderam a subir e agora conseguem enxergar, cada vez mais perto, os lugares que desejam ocupar.
No tabuleiro, um peão avança uma casa. Parece pouco a quem passa depressa. Mas aquele que acompanha a partida sabe quanto o horizonte pode mudar depois de um pequeno passo.

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