O Brasil Fora de Cartaz
Há números que deveriam nos fazer parar diante da tela e pensar. Segundo o cineasta Luiz Carlos Prestes Filho, até 90% dos filmes exibidos nos cinemas brasileiros são americanos. O dado, mais do que uma estatística sobre o mercado cinematográfico, revela uma questão muito maior: quem está contando as histórias que o Brasil assiste?
Não se trata de erguer muros contra o cinema estrangeiro, muito menos de negar a extraordinária contribuição que Hollywood e outras cinematografias deram à cultura mundial. O problema começa quando a presença estrangeira se torna tão dominante que o cinema nacional passa a ocupar uma espécie de sala lateral, quando deveria estar no centro da própria casa.
O cinema não é apenas entretenimento. É memória, identidade, imaginário e, sobretudo, uma maneira de um povo olhar para si mesmo. Quando uma criança brasileira conhece mais personagens, cidades, conflitos e costumes de outros países do que aqueles que fazem parte da sua própria história, alguma coisa precisa ser discutida. Não porque seja errado conhecer o mundo, mas porque é igualmente necessário que o mundo conheça o Brasil através dos olhos dos brasileiros.
Independentemente das circunstâncias políticas que cercam uma transformação, há uma lição econômica e cultural que não deveria ser ignorada: nenhum país constrói uma indústria cinematográfica forte se não criar condições para que seus próprios filmes cheguem ao seu próprio público.
O Brasil possui histórias para encher milhares de telas. Temos Machado de Assis e Lima Barreto, Guimarães Rosa e Jorge Amado, Ariano Suassuna e tantos outros escritores esperando novas interpretações. Temos Canudos, a Inconfidência, a Revolução de 1930, a construção de Brasília, a saga dos imigrantes, as culturas indígenas, africanas, açorianas, italianas, alemãs e tantas outras que ajudaram a formar nossa identidade. Temos sertões, florestas, cidades, rios, festas populares, música, futebol, religiosidade, personagens anônimos e grandes personagens históricos.
Temos, sobretudo, um país inteiro ainda por ser filmado.
Mas não basta produzir. É preciso distribuir, exibir e formar público. De nada adianta um cineasta brasileiro realizar uma obra de qualidade se ela desaparece rapidamente das salas, esmagada pela força comercial das grandes produções estrangeiras. Soberania cinematográfica não significa impedir que o filme americano entre no Brasil. Significa garantir que o filme brasileiro tenha também o direito de permanecer em cartaz, encontrar seu público e disputar o imaginário nacional.
É uma questão de soberania cultural.
Um país que não produz suas próprias imagens corre o risco de terceirizar a própria memória. E quando terceiriza suas imagens, pode acabar terceirizando também a maneira como se enxerga.
O Brasil não precisa escolher entre o mundo e si mesmo. Pode assistir ao cinema americano, europeu, russo, asiático ou latino-americano e, ao mesmo tempo, abrir espaço generoso para seus próprios cineastas. A verdadeira autonomia não está em fechar as portas, mas em ter força suficiente para manter as próprias portas abertas sem abandonar a própria casa.
Essa é a grande reflexão que se impõe hoje:
Não precisamos de menos mundo nas nossas telas. Precisamos de mais Brasil.
Mais Brasil contado por brasileiros.
Mais Brasil filmado por brasileiros.
Mais Brasil visto pelos brasileiros.
Um país também existe nas imagens que produz de si mesmo. E, quando as luzes se apagam na sala de cinema, é preciso que, no meio de tantas histórias vindas de longe, ainda haja uma tela capaz de nos devolver o nosso próprio rosto.