Por Gino Martins Borges Bastos
Livros de uma Vida Enxadrística para o Colégio Estadual Padre Mello
No dia 19 de setembro, quando for inaugurada a Sala de Xadrez do Colégio Estadual Padre Mello, não serão apenas peças, relógios e tabuleiros que encontrarão ali uma nova morada. Também chegarão livros antigos, carregando em suas páginas silenciosas uma parte de minha própria caminhada pelo fascinante reino do xadrez.
Entre os exemplares que doei hoje, há um que guarda marcas muito particulares. Suas páginas estão sublinhadas a lápis e a caneta. Nas margens, aparecem variantes, observações e sequências de lances que transcrevi pacientemente. À primeira vista, talvez alguém veja apenas riscos deixados pelo tempo. Eu, porém, reconheço ali os vestígios de muitas batalhas travadas em silêncio, enquanto procurava compreender por que um cavalo deveria ocupar determinada casa, por que um peão avançava, por que uma torre esperava o instante exato para atravessar o tabuleiro.
Eu escrevia para memorizar. Copiava os lances para que eles não permanecessem somente diante dos olhos, mas passassem pelas mãos e encontrassem morada no pensamento. Cada anotação era uma tentativa de transformar o movimento mecânico de uma peça em entendimento. Era como se, ao deslizar o lápis sobre o papel, eu também percorresse os caminhos secretos da posição.
Esse método, contudo, não nasceu propriamente do xadrez. Veio de muito antes, de uma sala de aula do querido Colégio Rio Branco e da voz inesquecível de uma professora que marcou minha infância: a icônica Dona Carmita.
Foi ela quem me ensinou que escrever é também uma forma de aprender. Quando copiamos com atenção, as palavras deixam de ser estranhas e começam a viver dentro de nós. A mão ajuda os olhos, os olhos despertam a inteligência e a repetição paciente constrói a memória. Aquela lição simples atravessou os anos e, mais tarde, sentou-se comigo diante do tabuleiro.
Ao transcrever uma partida do ex-campeao mundial Kasparov, ao sublinhar uma explicação estratégica ou ao registrar uma variante nas margens estreitas de um livro, era também a antiga professora quem, de algum modo, continuava a orientar minha mão. Dona Carmita jamais imaginaria que sua lição chegaria tão longe, atravessando décadas, escolas e tabuleiros. Mas os verdadeiros mestres são assim: permanecem ensinando mesmo depois que a aula termina.
Agora, esses livros deixaram minhas estantes e seguiram para o Colégio Estadual Padre Mello. Não os entreguei como objetos impecáveis. Entreguei-os usados, estudados, sublinhados, interrogados. Suas marcas não diminuem o seu valor; ao contrário, contam a história de alguém que buscou aprender dialogando com cada página.
Talvez algum jovem enxadrista abra um desses volumes e encontre minhas anotações. Talvez se pergunte quem escreveu tantos lances entre as linhas impressas. Quem sabe resolva acrescentar suas próprias observações, continuando aquela conversa iniciada muitos anos antes. Então o livro já não pertencerá somente ao passado: tornar-se-á uma ponte entre gerações.
No dia 19 de setembro, quando a porta da Sala de Xadrez se abrir, Dona Carmita também entrará por ela. Estará invisível, mas presente em cada lápis que correr sobre um caderno, em cada estudante que repetir uma sequência para compreendê-la e em cada jovem que descobrir que a memória também se constrói com a ponta dos dedos.
Os livros que doei carregam partidas de grandes mestres. Mas, entre todas as lições neles guardadas, talvez a mais profunda não esteja impressa em nenhuma página. Foi ensinada por uma professora do Colégio Rio Branco a um menino que ainda começava a descobrir o mundo: quando escrevemos aquilo que desejamos aprender, o conhecimento deixa o papel e passa a morar dentro de nós.

Que riqueza esses livros! Ótima iniciativa a doação para preservação histórica.
ResponderExcluirQue linda atitude 📚📕
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