Rick cantava, compunha e, sobretudo, acreditava que a música precisava nascer de algum lugar verdadeiro da alma
O que ele combatia não era o novo, mas o vazio; não era a transformação, mas a substituição da verdade artística por fórmulas destinadas apenas ao consumo imediato.
Rick partiu, mas ficou aquilo que havia de verdadeiro em sua arte: a voz, as composições, a coragem de defender a qualidade e o respeito pela música sertaneja
Ela é demais
A morte de Rick Sollo, aos 59 anos, não silencia apenas uma das vozes mais conhecidas da música sertaneja. Interrompe também a caminhada de um artista que jamais teve medo de dizer o que pensava sobre os rumos da arte que amava. Rick cantava, compunha e, sobretudo, acreditava que a música precisava nascer de algum lugar verdadeiro da alma.
Sua partida repentina deixa o espanto de uma canção interrompida antes do último acorde. No entanto, permanecem as melodias, as palavras e a lembrança daquele timbre que, ao lado de Renner, atravessou décadas e embalou histórias de amor, despedidas e reencontros. A voz de Rick sobrevive ao seu tempo, já encontrou morada na memória afetiva do Brasil.
Ele observava com inquietação as transformações do mercado musical. Recordava uma época em que, para alcançar o público, era necessário ter uma boa canção e saber cantá-la. Via, porém, o dinheiro e a promoção ocuparem o espaço antes reservado ao talento, à sensibilidade e ao trabalho paciente. Sua frase, “Ninguém mais precisa cantar bem”, não era somente uma crítica à nova geração, mas o desabafo de quem conhecia o preço de construir uma carreira com a própria voz.
Rick lamentava que refrões repetitivos fossem, muitas vezes, suficientes para transformar uma música em sucesso passageiro. Também sabia que a tecnologia podia corrigir imperfeições no estúdio, afinar vozes e fabricar desempenhos. Mas nenhuma máquina consegue criar emoção verdadeira. Pode ajustar a nota, jamais o sentimento. Pode aperfeiçoar o som, mas não inventar a alma.
Apesar da firmeza de suas palavras, Rick não era um inimigo das mudanças. Reconhecia que havia novos artistas realizando trabalhos de qualidade e compreendia que toda geração necessita encontrar a própria linguagem. O que ele combatia não era o novo, mas o vazio; não era a transformação, mas a substituição da verdade artística por fórmulas destinadas apenas ao consumo imediato.
Talvez sua reflexão mais profunda tenha sido também a mais simples: “Aquilo que é verdade fica, o que é mentira vai embora.” Nessa frase, Rick parecia anunciar o julgamento inexorável do tempo. As músicas fabricadas para durar uma estação desaparecem quando passa a moda. As que nascem do coração atravessam os anos, visitam outras gerações e continuam sendo cantadas mesmo quando seus intérpretes já não estão entre nós.
Agora, diante de sua ausência, suas próprias palavras assumem a força de um testamento musical. Rick partiu, mas ficou aquilo que havia de verdadeiro em sua arte: a voz, as composições, a coragem de defender a qualidade e o respeito pela música sertaneja.
O homem se foi inesperadamente; o cantor, entretanto, continuará chegando aonde houver alguém disposto a ouvir. O tempo pode interromper uma vida, mas jamais consegue apagar uma canção que nasceu verdadeira.

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