terça-feira, 24 de outubro de 2023

Veneração

 

Elício de Freitas

 


Píndaro, Píndaro, inspira-me agora!
A louvar este hino a esta terra,
Quero cantar pelos rincões afora,
As belezas perenes que ela encerra.

Quero cantar os alcantis da serra,
Nos esplendores deste sol que doura.
As águas deste rio que descerra,
Entre os vergéis da perfumada aurora.

Píndaro, Píndaro, magistral poeta!
Ilumina-me agora nesta oferta,
Jorrando nos meus versos a tua luz.

Eu te venero, Píndaro e te respeito!
Guardando a tua lira no meu peito,
Para cantar um hino a Bom Jesus.




Nota do jornal O Norte Fluminense: Elício de Freitas, autêntico poeta popular, ocupou a cadeira nº 21 da Academia Bonjesuense de Letras, patronímica de Leopoldo Muylaert Junior 

Os poetas não morrem...

 Evandro Santana dos Anjos


Os poetas não morrem jamais,

Vão pro céu, em algum lugar,

E de lá cantam nas asas do vento,

De lá, choram com a chuva fria,

De lá vejam a noite

Com as estrelas, apaixonados pela lua.

Os poetas não morrem jamais...

São almas doces e puras,

Que no mundo dos sonhos

São reis. Reis ingênuos, loucos e amantes.

Os poetas são seres do outro mundo...

São seres eterrantes, que passam pela gente,

Como anjos sem asas,

E vão chorar sozinhos,

E vão sorrir chorando,

E vão amar alucinadamente a paixão de amar

No silêncio da noite,

Na solidão arredia, sem viço.

Os poetas não morrem jamais...

Os poetas são eternos,

São santos, loucos e magos...

São indigentes do amor, apaixonados,

São o perfume da rosa, o cume das montanhas,

São os condenados da poesia,

Os poetas não morrem,

Eles vão sonhar mais um pouco

Perto de Deus...

Eles vão voar com os passarinhos

Sobre as nuvens brancas do céu, 

Vão declamar os seus poemas moribundos

Para a santa poesia,

Que de tão santa, faz a gente chorar...

Os poetas não morrem jamais.


Nota do jornal O Norte Fluminense: Evandro Santana dos Anjos ocupa a Cadeira nº 18 da Academia Bonjesuense de Letras, patronímica de Joaquim Padilha Vaz (Pádua Filho)

















segunda-feira, 23 de outubro de 2023

MEU SONHO

 


Francisco Baptista de Oliveira




Quero o fulgor do luar,

Para com ele viver;

Não quero as ondas do mar,

Nem com elas me entreter.


Quero as estrelas cantar

Com versos de meu lavor;

Não quero o mundo afagar,

Nem dele quero o esplendor.


Direis por certo: - Um asteca

Que da vida quer fugir

Para viver do irreal,


Responderei: - Um poeta

Que quer a alma a sorrir

Em tão sublime ideal.




Nota do jornal O Norte Fluminense: o Dr. Francisco Baptista de Oliveira, saudoso Promotor de Justiça bonjesuense, ocupou a cadeira nº 21 da Academia Bonjesuense de Letras, patronímica de Leopoldo Muylaert Júnior.

SAUDADE DE MEU CÃO

 

José Vieira Seródio



Não foi um cão qualquer. Tinha nobreza e graça

e um porte senhoril de modesta altivez.

Não houve mais fiel entre os de sua raça,

nem noutras raças mais nunca haverá talvez!


Foi-lhe a vida, porém, avaramente escassa,

e bem cedo chegou de sua morte a vez.

Tudo que é puro e bom rapidamente passa,

como passou no mundo o meu fiel "Marquês"!


Só me pode entender nas coisas que ora digo

quem um cão possuiu e o lembra com saudade,

como alguém que recorda o seu melhor amigo...


Se virtude maior não há que a gratidão,

nem mesmo o humano ser nas coisas da amizade,

é capaz de imitar as virtudes do cão!


2/1/1966


Nota do jornal O Norte Fluminense: o saudoso médico Dr José Vieira Seródio, natural de Pirapetinga de Bom Jesus, foi titular da cadeira nº 17 da Academia Bonjesuense de Letras, patronímica do Monsenhor Jeferson Valgueiro Diniz.


Discurso do acadêmico Esio Martins Bastos na Academia Bonjesuense de Letras, sobre a vida de Osório Carneiro

 

Ésio Martins Bastos 



Excelentíssimo Senhor Presidente


Excelentíssimas autoridades presentes


Prezados colegas


Meus senhores e senhoras



Dificuldade, das maiores, se me antolha, neste momento. É que se torna tarefa ingente conseguir, ante tão seleto e culto auditório, empolgá-lo, quando apouca em quem fala, os atributos indispensáveis a esse fim. Procurarei, entretanto, como sempre fiz em minha vida de autoridade, suprir as deficiências com o calor e veracidade dos conhecimentos hauridos na árdua luta do dia a dia e, neste caso particular, auxiliado pela convivência que tive a ventura de manter com o patrono da cadeira que hoje assumo nesta academia - o imortal jornalista OSÓRIO CARNEIRO. 

Traçar o perfil de Osório Carneiro, desse modo, não é cometimento dos mais difíceis apesar de sua personalidade polimorfa, o seu espírito inquieto, insatisfeito, à procura da perfeição e a repercussão e reações oriundas de sua ativa ação jornalística em prol das coisas desta cidade que tanto amou e que adotou como sua, pelo pendor de seu coração. 

Nascido ainda no século passado, precisamente no dia 12 de julho do ano de 1898, na antiga e tradicional Vila de Laje do Muriaé, no Município de Itaperuna, ao qual, à época, também pertencíamos, Osório passou a sua juventude na Zona da Mata, em Minas Gerais, onde, na cidade de Juiz de Fora, ao terminar brilhante curso, recebeu o diploma de Guarda-Livros, como eram designados os Contadores de hoje. Engajou-se, após, na briosa Policia Militar do grande estado montanhês, da qual desligou-se, na patente de segundo sargento, vindo para nossa Bom Jesus, então Vila e sede do 10º Distrito do Município de Itaperuna, isto em 20 de novembro do ano de 1927.

Aqui chegando, Osório Carneiro foi exercer a sua profissão de guarda livros, na tradicional firma Teixeira de Oliveira & Cia. Com a extinção dessa firma, Osório dedicou-se ao magistério, instalando em sua residência uma escola de contabilidade que contou com elevado número de alunos.  

Advindo a Revolução de Outubro de 1930, Osório Carneiro, em virtude de sua condição de segundo sargento da reserva da Policia Militar Mineira, foi designado pelos chefes revolucionários que aqui chegaram, Delegado Revolucionário com jurisdição nesta região limítrofe com amplos poderes.

Terminada a Revolução, foi nomeado Subdelegado de Policia do então 10º Distrito do Município de Itaperuna, cargo que exerceu com eficiência e dedicação até o ano de 1933, quando foi nomeado Fiscal do recém-criado Ministério do Trabalho. Mais tarde foi nomeado Avaliador Judiciário do Estado, cargo em que se aposentou.  

A ação, todavia, que imortalizou Osório Carneiro, a exerceu na imprensa bonjesuense. Depois de fundar e dirigir Bom Jesus-Jornal, "A Voz do Povo" (lª.fase) e "O Momento", que não chegaram a circular, cada qual, mais de um ano, o que bem demonstra a dificuldade de se manter um jornal naqueles tempos - Osório fundou, em definitivo, em agosto de 1933, "A Voz do Povo", que circula até hoje, prestando inestimáveis serviços à comunidade bonjesuense. 

Foi como já disse, no jornalismo, que Osório Carneiro se realizou. Identificou-se de tal maneira ao seu jornal que a "A Voz do Povo era citada e conhecida como "A Voz do Osório". Na verdade, vivia e vibrava com o seu jornal, encetando campanhas que ficaram para sempre gravadas nos anais da história bonjesuense, como as que resultaram na fundação do Centro Popular Pró-Melhoramentos de Bom Jesus e em nossa emancipação política e comarca, só para citar as de maior relevância. 

Conheci de perto o jornalista emérito, conhecedor, como ninguém da profissão, com o qual cheguei a manter polêmicas que ficaram célebres na cidade.

Divergi, e muito, de algumas de suas ideias e iniciativas, mas jamais deixei de reconhecer o valor inconteste e sobremaneira o traço predominante de sua personalidade: que era não guardar rancor, sempre pronto a reconciliação e a estender a sua mão ao seu opositor. Soube pelejar o bom combate.

Além do jornalismo, Osório excursionava, com maestria na poesia, já que era dotado de rara sensibilidade, deixando-nos valiosa produção, inclusive na área satírica. Foi assim, de valor inestimável, o acervo cultural que nos legou Osório Carneiro, que soube como ninguém retratar, nas páginas de seu jornal, durante anos e anos, a história da terra e os costumes de nossa gente, merecendo, por isso mesmo, os aplausos dos seus contemporâneos e o reconhecimento das gerações futuras. 

Foi guarda-livros, mestre, revolucionário, funcionário público, jornalista, homem de pensamento, cidadão prestante e de coração aberto às emoções do cotidiano. Um simples que pela grandeza de sua alma se tornou imortal. Esta a memória que hoje, saudosos, reverenciamos.

Esio Martins Bastos

Bom Jesus, 18-12-77

Nota do jornal O Norte Fluminense: Esio Martins Bastos ocupou a Cadeira nº 27 da Academia Bonjesuense de Letras, patronímica de de Osório Carneiro

VISÃO NOTURNA

 Antonio Francisco Menezes Wanderley



Maior tortura quem sofreu jamais?

Quem tanta dor, quanta eu sofri, sofreu?

Amigos meus, sonhais?

Em dois minutos, quem a tal chegou?


Foi-se Seringe... entanto eu era crente

De nos meus braços tê-la...

Pus-me a segui-la... Alguém mais velozmente

Já viu passar no céu errante estrela?


E a bela, amigos, mal

Sentiu meus dedos roçar touca,

Em verde canavial,

Louca de medo, transformou-se: louca!


E, por vingança, não sabeis? Feliz

Cortei viçosa cana,

Da qual esta flauta fiz.

Ela ao mundo inteiro diz

O que me resta de Seringe insana.


Lamento, agora, seja

Noite ou dia, esse amor perdido.

Tomemos tanto... cada qual que seja 

Seu coração... que o amor que a rir nos beija

É muitas vezes, um amor fingido.


E reembocando a flauta, o deus caprino

Foi pelos montes sua dor cantando,

Deixando imerso, num cismar ferino

Todo o confuso bando.



Nota do jornal O Norte Fluminense: Antonio Francisco Menezes Wanderley foi patrono da Cadeira nº 9 da Academia Bonjesuense de Letras, e progenitor dos poetas Renato Wanderley e Rubem Wanderley, igualmente patronos das Cadeiras números 35 e 37, respectivamente, da Academia Bonjesuense de Letras.

"FEBRE DE MAU CARÁTER"

 

  

O Conselho da Intendência de "Itabapoana", nome de nosso município quando se emancipou pela 1ª vez, em 25 de dezembro de 1890, se reuniu no dia 1º de abril de 1891, sob a presidência do Conselheiro Pedro Gonçalves da Silva Jr.

No expediente, foi lido ofício do Governador Portela, autorizando a Intendência a promover despesas necessárias para o tratamento dos indigentes acometidos de "febres de mau caráter", que grassam no município, pedindo, entretanto, a maior economia nos gastos.

Essa "febre de mau caráter", que em forma de epidemia colocou em pânico a nossa população há mais de cem anos atrás, trouxe várias mortes, todavia não há registro nos anais, da natureza dessa febre ou a doença ocasionada.

Em outro expediente, o Governador dava ciência à Intendência que "os reparos da Estrada para Santo Eduardo deveriam ocorrer por conta da Intendência, consoante o Regulamento das Obras Públicas". No último expediente lido, o governo solicitava a relação dos novos eleitores do município para a eleição do dia 20 de abril.

                                      ***

O Intendente Luiz Vieira de Rezende encaminhou requerimento informando que "face ter de viajar improrrogavelmente e demorando uns 15 dias em seu percurso, pedia licença das reuniões". O Presidente nesse requerimento despachou: "Não há que deferir". Esse despacho, sem maiores detalhes, deixou evidenciada uma crise política que se evoluía. O fato, que ora registramos, é que, a partir dessa reunião, o Conselheiro Luiz Vieira de Rezende não mais retornou às reuniões do 1º Conselho de Intendência. Fatos posteriores parecem confirmar a "crise", pois no 2º Conselho, já com novo Governador, Luiz Vieira de Rezende foi o único dos primeiros Conselheiros a integrá-lo.


(Publicado no jornal O Norte Fluminense de 6 de janeiro de 1991)


Nota do jornal O Norte Fluminense: Luciano Augusto Bastos ocupou a Cadeira nº 27 da Academia Bonjesuense de Letras, patronímica de seu pai, Olívio Bastos.