sexta-feira, 28 de novembro de 2025

"Praça João Catarina em noite de acender estrelas", por Adalton Boechat Júnior


Adalto Boechat Júnior



Este ano, a praça João Catarina, coração miúdo e luminoso de Pirapetinga de Bom Jesus, começou a respirar Natal antes mesmo de dezembro. Há lugares que parecem ter memória própria, e ali, cada pedra guarda o riso dos meninos que correram, muitos anos antes, com fitas, galhos e enfeites improvisados. Este ano, porém, não foi diferente: os meninos voltaram. Voltaram maiores, talvez mais sérios, mas com a mesma inocência nos olhos. Vieram ajudar a arrumar a praça. Como se cada lâmpada pendurada fosse também uma promessa à infância que insiste em ficar.

À frente do trabalho, dois rostos conhecidos: Ivan Zhamorano e Jefinho, o Jefim irmão, como é chamado ali, com a intimidade de quem conhece o outro de longas datas e pequenas histórias. E no canto, sempre atento, Zé da Vó, figura querida da Vargem Alegre, distribuindo risos, conselhos e aquela sabedoria de quem sabe que espírito de Natal não se compra; cultiva-se.

Ivan é desses jovens que carregam luz própria. Filho da Geiza, artista autodidata, aprendeu desde cedo que criar é resistir. Entre estudos, esforço e noites de sonho acordado, tornou-se agente comunitário, e hoje é suporte, voz e abraço para muita gente da comunidade. Ao seu lado, Alessandra Soares, filha do Zé do Valfredo e de Maria Alice, tece com suas mãos e seu entusiasmo a parte mais delicada dos festejos: a que mantém acesa a chama das tradições.

É com ela, comigo e com Anizia  Maria, da Escola de Música JEMAJ, que a cantata vai tomando forma. Vasculhamos vozes e memórias: corais, trovadores, seresteiros, foliões. Cada chamado é um fio puxado da história que nunca se apaga. A cantata acontecerá no dia 13 de dezembro, celebrando o aniversário do museu, esse guardião de tempos, e, ao mesmo tempo, agradecendo. Porque agradecer também é uma arte.

Agradecer ao Menino Jesus pelas colheitas que vingaram, pelas chuvas que caíram no tempo certo, pela fartura que alimentou o gado e pelas mãos firmes dos pequenos produtores, que trabalham a terra como quem reza.

Agradecer pela saúde que voltou a quem estava fraco, pelas melhoras que chegaram como um alívio silenciosobàs famílias que esperavam.

Naquela tarde em que os enfeites foram pendurados, era possível ver,  no brilho dos olhos de quem montava a praça, que o Natal não é só uma data: é o reencontro de uma comunidade com o que ela tem de mais bonito. A praça João Catarina, iluminada pelos esforços de Ivan, Jefim, Alessandra e tantos outros, parecia respirar mais fundo. Como se estivesse, ela também, se preparando para cantar.

E assim, entre fios de luz, fitas vermelhas e um céu que começava a escurecer, Pirapetinga de Bom Jesus acendeu suas primeiras estrelas. Não as do céu, mas as que nascem das mãos humanas quando trabalham juntas.

E essas...essas iluminam por muito mais tempo.




Serginho Cyrillo e Sávio Almeida Lançam Programação Natalina na Praça Central



No dia 30 de novembro, quando o relógio marcar 20h, a praça Governador Portela deixará de ser apenas praça. Tornar-se-á um abraço iluminado, um ponto de encontro onde memórias antigas e esperanças futuras caminham de mãos dadas.

O prefeito Paulo Sérgio Cyrillo, o Serginho Cyrillo, e o vice-prefeito Sávio Almeida anunciam a inauguração das Luzes Natalinas, mas o anúncio, na verdade, é só o pretexto visível para algo maior: um gesto que reacende pertencimentos, que reacende o sentido de viver junto.

Porque quando a cidade se ilumina, não é só o Natal que chega. Chega também a certeza de que, por algumas horas, somos todos parte de um mesmo enredo.

As luzes se acendem, e com elas acendem-se rostos, planos, lembranças. Crianças apontam para o céu como se ali morassem segredos. Famílias se juntam sem pressa. Senhores recuperam o brilho que às vezes a rotina insiste em apagar. A comunidade respira junto, e isso, isso não tem preço.

O Cortejo com a Orquestra Filarmônica Metropolitana atravessará a praça como um rio de sons, conduzindo os passos de quem acompanha. E logo depois, a Orquestra Sinfônica do Vale do Itabapoana tecerá no ar uma tapeçaria de acordes que tocará a noite como quem acaricia um sonho.

E assim, entre música, luzes e encantamentos, nasce mais um rito de comunhão.

Um evento que parece falar baixinho ao ouvido de cada morador: “Isto aqui é seu. Isto aqui é nosso. A cidade vive porque você faz parte dela.” E então a praça se torna palco. A comunidade se torna artista. E o Natal, enfim, começa a brilhar de dentro para fora.


 



quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Imperdível: Documentário sobre Fausto Gomes da Silveira, o Tim Tim

 


Cantos, Versos e Infâncias: Uma Noite Memorável no SESI

O Jardim da ACIL no Sarau Elas em Cena

As Mulheres e as Palavras Escritas, Declamadas e Cantadas: Elas em Cena


No dia 25 de novembro, o SESI de Itaperuna acendeu uma luz especial. Era como se a noite tivesse decidido ouvir histórias, músicas e sonhos, reunidos sob um mesmo sopro: Elas em Cena, o sarau da ACIL, Academia Itaperunense de Letras.

Antes que o relógio marcasse 18 horas, a sala de entrada já pulsava em expectativas felizes. Ali, Lúcia Spadarotto abria ao mundo o seu primeiro livro infantil, uma homenagem terna aos netos Guga e Bê, e, por meio deles, a todas as crianças que ainda brilham com aquele encantamento que só a infância entende. Era um gesto amoroso que se tornava universal, como se cada página dissesse: “a ternura é maior quando compartilhada”.

Uma hora depois, quando o sarau se iniciou, a poesia tomou o palco com naturalidade de rio que encontra seu curso. Lá estavam Lúcia Spadarotto, Suely Coutinho, Abia Dias e Elizabeth Faria, cada uma com seus cinco poemas, vinte interpretações que se ergueram como pétalas vivas, intercaladas pela música de Válber Meireles, cuja voz parecia costurar céu e chão.

Elizabeth Faria, além de poeta, emprestou sua voz a uma canção ao lado de Válber. Abia Dias também se juntou a ele em outra melodia. Havia, naquela combinação, algo de celebração íntima, como se amigos antigos, reunidos sob a mesma estrela, decidissem lembrar ao mundo que a arte é sempre melhor quando repartida.

O público foi vasto, carinhoso, presente. Ali estavam Celina Spadarotto, mãe de Lúcia, suas irmãs Cida e Regina, o ilustrador Cristian Tardin, acadêmicos da ACIL, membros da UBT, antigas professoras, amigas da faculdade e tantos outros rostos que fizeram daquele instante um colar de afetos. Alguns vieram pelo livro, outros pelo sarau; muitos, por ambos. E todos saíram mais plenos do que chegaram.

Ao final do sarau, as trovas, três de Lúcia, duas de Abia, para fechar a noite com aquele sabor de tradição que não se perde, apenas se transforma em música da memória.

O lançamento do livro, retomado após o sarau, prosseguiu como quem respira fundo antes de sorrir. E o sorriso permaneceu também no dia seguinte: pedidos de exemplares continuavam a chegar. Lúcia, emocionada, confessou: “Estou muito feliz com a aceitação do meu livro.” E ainda recebeu a notícia de que uma escritora de São Paulo deseja trabalhar a obra em um projeto literário sobre trovas infantis. A ternura viaja, e encontra quem a escute.

Foi, enfim, uma noite memorável.

E assim a ACIL segue sendo o que sempre foi: um jardim magnífico, desses que florescem poesia nos lugares mais simples, que levam beleza para onde quer que se vá, que fazem da arte uma forma de respirar e da palavra, um gesto que ilumina.

Porque algumas noites não passam, permanecem. E esta, certamente, foi uma delas.




































Açores Dentro de Nós: O Aniversário que Oferece Caminhos

 

Coração Açoriano: Um Ano de Gestos que Afinam a Alma

Instrumentos de percussão e itens para reparo serão doados pela ABIJAL à Sociedade Musical da Usina Santa Maria 


A ABIJAL, Academia Bonjesuense Infantojuvenil de Artes e Letras, irá festejar seu aniversário de um ano de existência no dia 6 de dezembro. Mas a celebração não se parecerá com nenhuma festa de aniversário conhecida.

E explicanos.

A recém-restabelecida Sociedade Musical da Usina Santa Maria necessitava de novos instrumentos de percussão, além de peças que permitissem restaurar instrumentos antigos, muitos deles doados, outrora, pelo tradicional Colégio Rio Branco.

Foi então que a ABIJAL decidiu que seu primeiro aniversário não seria marcado por aplausos a si mesma, e sim por um gesto que ecoasse mais longe: doaria novos instrumentos e dezenas de itens para devolver voz e vida aos instrumentos antigos.

A festa acontecerá no Teatro Cinema Conchita de Moraes, dirigido por Betinho Milão. O aniversariante celebrará longe de sua sede, é verdade, mas terá motivo grandioso para isso.

Aqui, a lógica se inverte com delicadeza.

Quem faz aniversário, desta vez, não receberá presentes: entregará sons, ritmos e esperança para que muitos jovens encontrem lugar na Sociedade Musical da Usina Santa Maria.

Celebrar um aniversário é celebrar a alegria do amor.
Assim, a ABIJAL brinda seu primeiro ano com um gesto de afeto, jovens oferecendo possibilidades a outros jovens, música oferecendo caminhos.

Não serão apenas duas festas num mesmo dia.
Serão festas múltiplas, latejando no coração de todos.

Porque transformar o mundo não é obra de ruídos, gritos ou intimidações. Não. A verdadeira transformação floresce em gestos silenciosos, mas profundos, daqueles que desejam ver o outro crescer, desenvolver-se, erguer-se pela cultura, pela mão estendida no momento certo.

A ABIJAL reafirma, assim, seus princípios: honrar os Açores que, desde 1860, moldam através de açordescendentes nossa cultura açoriana; honrar também o abraço largo e poético do açoriano Padre Antônio Francisco de Mello, cuja presença sempre palpitou nas Usinas Santa Maria e Santa Isabel, ao lado dos irmãos industriais José Carlos Pereira Pinto e Jorge Pereira Pinto.

Há açorianidade nas Usinas Santa Maria e Santa Isabel. Há açorianidade na alma da ABIJAL.
Há açorianidade no jornal O Norte Fluminense, que mantém viva essa herança em nossa região.

Por isso, é natural que se irmanem, Academia, jornal, Sociedade Musical e povo santa-mariense, entrelaçando mãos e corações para dar passos firmes, ainda que silenciosos, rumo a uma sociedade mais culta e mais humana.





Supermercado Fluminense anuncia novas vagas e reforça fase de crescimento em Bom Jesus

 

Bom Jesus do Itabapoana desperta com uma boa nova.

A rede de supermercados Fluminense abriu vagas para operador de caixa, açougueiro, estoquista, embalador, motoboy, motorista categoria D e repositor. Currículos serão recebidos em cinco unidades do grupo, sediadas nas duas Bom Jesus, de segunda a sexta-feira, como uma porta simbólica que se abre ao trabalhador.

Os fatos, por vezes silenciosos, falam mais alto que qualquer discurso. O anúncio público da empresa, fundada em 1989 em Itaperuna, ecoa como confirmação da atual fase de desenvolvimento econômico de Bom Jesus do Itabapoana. Em meio a novos investimentos e à constante circulação de oportunidades, a cidade reencontra seu próprio fôlego.

Hoje com cerca de 34 lojas distribuídas pelo estado do Rio de Janeiro, o Supermercado Fluminense reafirma sua presença na região e estende à população um convite: o de fazer parte de uma história que segue crescendo.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

"Racismo estrutural: uma teoria social falha que apostou na ignorância – e venceu", por Paulo Cruz

O ex-ministro dos Direitos Humanos Silvio Almeida é um dos principais defensores da teoria do racismo estrutural. (Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil)


 “A perda de realidade leva a distúrbios pneumopatológicos na ordem existencial da pessoa respectiva, e se a vida na ʻsegunda realidadeʼ se torna socialmente dominante, seguem-se grandes distúrbios na ordem social com os quais estamos bem familiarizados.” (Eric Voegelin)

Quase tudo o que eu tinha para falar em relação à teoria social propagada pelo proscrito Sílvio Almeida está em outro artigo publicado nesta Gazeta do Povo, de modo que não me estenderei para além de alguns poucos comentários adicionais, mas importantes, a fim de compreendermos o quanto essa teoria – sempre é bom frisar que trata-se de uma teoria – é intelectualmente primária e sofre de problemas conceituais gravíssimos, de modo que sua aceitação é sinal de uma doença espiritual generalizada na academia, que encontra validação na ignorância de uma população de analfabetos funcionais.

O Brasil é um país mestiço – pardo, mulato, como queiram. Não há o que tergiversar em relação a isso e absolutamente ninguém deveria ter dúvida. A mestiçagem é um dos sinais mais evidentes da complexidade do problema racial brasileiro. Já cansei de dizer aqui, inclusive recentemente – apesar de alguns continuarem em negação: o racismo existe no Brasil e, é bom que se diga, não foi uma invenção dos negros. O racismo existe como uma consequência dos quase 350 anos de escravidão, das teorias racialistas (que acreditavam na existência de raças humanas) e racistas (que acreditavam na hierarquia ontológica entre as raças) e sua subsequente cultura de subalternização do negro. Isso é um fato, um dado da realidade histórica do nosso país que só os racistas e os estúpidos negam.

Por outro lado, a falta de um projeto de país que diminua a pobreza e promova a mobilidade social em larga escala faz com que a perpetuação da população negra nas camadas mais baixas da sociedade gere demandas reais que são convertidas em bandeiras políticas e ideológicas pela disputa de poder. E os dados não mentem. De acordo com a pesquisa Sínteses dos Indicadores Sociais (SIS), do IBGE, de 2020:

“A maioria dos pobres no Brasil é de mulheres, negros e pessoas com pouca instrução. A SIS mostrou que, entre os brasileiros abaixo da linha da pobreza no Brasil (considerando os critérios do Banco Mundial, de renda per capita diária inferior a US$ 5,50 para pobres e US$ 1,90 para extremamente pobres), mais de 70% eram negros ou pardos. Esse grupo representava 56,3% da população total. Isso quer dizer que a maioria dos 117,9 milhões de brasileiros que se declararam negros ou pardos em 2019 vivia na pobreza. De acordo com a SIS, 8,9% deles (ou 10,5 milhões) eram extremamente pobres e 32,3% (ou 38,1 milhões), pobres.”

O racismo existe no Brasil. Isso é um fato, um dado da realidade histórica do nosso país que só os racistas e os estúpidos negam

A pobreza tem cor no Brasil, ela é preta e parda: “em 2019, o contingente de negros ou pardos pobres (38,1 milhões) era 2,8 vezes maior que o de brancos pobres (13,2 milhões). Essa concentração era ainda maior no grupo de extremamente pobres. De acordo com a SIS, eram 10,5 milhões de negros e pardos nessa situação – quase 3,5 vezes o contingente de brancos, que somava 3 milhões”.

Dito isso, tal situação, cujas causas são multifatoriais (o racismo é um fator, mas não o único), é utilizada para sustentar todas as teorias delirantes que a militância negra identitária propaga como se fossem verdades absolutas; dentre elas, a mais fundamental, sobre a qual se assentam praticamente todas as outras, é a do chamado “racismo estrutural”. Tal teoria se assenta sobre a premissa de que o racismo no Brasil se processa para além da esfera individual ou mesmo das instituições; ele penetrou nas chamadas estruturas sociais, políticas, jurídicas e econômicas.

O fato de Sílvio Almeida nem sequer conceituar o que é uma estrutura em seu livro não causou espanto em (quase) ninguém, obviamente porque (quase) ninguém leu o livro. E os que leram já concordavam, e quem concorda não precisa compreender. A teoria foi aceita como argumento de autoridade, uma vez que Almeida se tornou, pelo menos para a mídia e os formadores de opinião (e para a internet, claro), o grande representante da população negra naquele período agudo das discussões sobre racismo no Brasil, iniciado a partir do assassinato de George Floyd, em 2020, nos EUA, e de João Alberto de Freitas, numa loja do Carrefour, em Porto Alegre, no mesmo ano. Almeida figurava em praticamente em todos os jornais e quem discordasse de sua teoria era devidamente defenestrado.

O delírio que se seguiu foi tão amplamente disseminado e irrefletidamente assimilado que tal teoria, sem qualquer comprovação científica, se tornou até base para decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) – e corremos o risco de isso ocorrer novamente, com a votação da patética ADPF 973. A inconstitucionalidade do “estado de coisas inconstitucional” é a cereja do bolo para as incessantes, e a cada vez mais absurdas, reivindicações do ativismo político negro.

A “perda da realidade” de que fala o filosofo Eric Voegelin na epígrafe deste artigo é o motor para construções ideológicas que não correspondem ao que de fato existe, mas cuja existência é fruto de abstrações teóricas assumidas como descrições da realidade. A perda da realidade, nesse sentido, “se expressa na perda de contato das palavras. As palavras adquirem sua própria existência, a linguagem torna-se uma realidade independente em si mesma”, diz Voegelin em Hitler e os alemães.

O conceito de estrutura, por exemplo, no qual Sílvio Almeida baseia toda a sua teoria, é retirado de um único sociólogo, Anthony Giddens, cuja “teoria da estruturação” está longe de ser unânime na academia, mas sofreu críticas severas de outros sociólogos. Giddens afirma, em A Constituição da Sociedade, que:

“Não pode haver dúvida sobre o modo como ʻestruturaʼ é usualmente entendida pelos funcionalistas e, de fato, pela vasta maioria dos analistas sociais – como uma espécie de ʻpadronizaçãoʼ das relações sociais ou dos fenômenos sociais. Com frequência, isso é ingenuamente concebido em termos de imagens visuais, análogas ao esqueleto ou morfologia de um organismo ou às vigas mestras de um edifício. Tais concepções estão intimamente ligadas ao dualismo de sujeito e objeto social: ʻestruturaʼ apresenta-se nesse caso como ʻexternaʼ à ação humana, como uma fonte de restrição à livre iniciativa do sujeito independentemente constituído.”

O conceito de estrutura, no qual Sílvio Almeida baseia toda a sua teoria, é retirado de um único sociólogo, Anthony Giddens, cuja “teoria da estruturação” sofreu críticas severas de outros sociólogos

Entretanto, entre estruturalistas e pós-estruturalistas, “a noção de estrutura é mais interessante. Ela é caracteristicamente concebida, aí, não como uma padronização de presenças, mas como uma interseção de presença e ausência; os códigos subjacentes têm de ser inferidos de manifestações superficiais”. Mas, para ele:

“A estrutura refere-se, em análise social, às propriedades de estruturação que permitem a ʻdelimitaçãoʼ de tempo-espaço em sociais, às propriedades que possibilitam a existência de práticas sociais discernivelmente semelhantes por dimensões variáveis de tempo e de espaço, e lhes emprestam uma forma ʻsistêmicaʼ. Dizer que estrutura é uma ʻordem virtualʼ de relações transformadoras significa que os sistemas sociais, como práticas sociais reproduzidas, não têm ʻestruturasʼ, mas antes exibem ʻpropriedades estruturaisʼ, e que a estrutura só existe, como presença espaço-temporal, em suas exemplificações em tais práticas e como traços mnêmicos orientando a conduta de agentes humanos dotados de capacidade cognoscitiva.”

Traduzindo: para Giddens, uma estrutura social existe apenas na medida em que é instanciada nas práticas sociais, e é ao mesmo tempo o meio e o resultado dessas práticas. A estrutura não é algo externo aos indivíduos, mas produzida e reproduzida continuamente pelas ações humanas; é composta por regras (normas, significados) e recursos (materiais e autoritativos) que orientam e organizam as interações sociais. Ou seja, a relação entre indivíduo e estrutura é dialética, e não de simples determinação – as pessoas são agentes capazes de modificar as estruturas que, ao mesmo tempo, as condicionam.

Por isso Sílvio Almeida afirma, de modo tímido em seu livro, que “ações e políticas institucionais antirracistas” podem ajudar a modificar as estruturas, ao mesmo tempo em que afirma ser “imperativo refletir sobre mudanças profundas nas relações sociais, políticas e econômicas”; ele mesmo não define quais seriam essas mudanças profundas, mas, em se tratando de um marxista, já imaginamos quais seriam.

Voltando a Giddens, ele afirma, mediante o desejo de superar os conceitos clássicos de “estrutura”, baseados no império do sujeito ou do objeto social, que uma de suas “principais ambições na formulação da teoria da estruturação é pôr um fim a cada um desses esforços de estabelecimento de impérios”, afirmando que “as atividades sociais humanas, à semelhança de alguns itens autorreprodutores na natureza, são recursivas. Quer dizer, elas não são criadas por atores sociais, mas continuamente recriadas por eles através dos próprios meios pelos quais eles se expressam como atores”.

Mas sua teoria da estruturação não passou incólume pelos olhos argutos de Margaret Archer (1943-2023), socióloga britânica católica nomeada, em 2014, pelo papa Francisco como presidente da Pontifícia Academia de Ciências Sociais do Vaticano (cargo que ocupou até 2019). Archer, assim como Giddens, reagiu a um mesmo impasse clássico na sociologia: como conciliar o peso das estruturas sociais (instituições, papéis, normas, desigualdades) com a capacidade dos indivíduos de agir e transformar essas estruturas. Mas Archer acusou Giddens de “sincretismo ontológico”, pois ele confunde estrutura e agência, impedindo-nos de distinguir causalmente entre o que é estrutura e o que é ação.

A questão, para Archer é que, se estrutura e ação são sempre simultâneas, como entender que as estruturas preexistem a certas ações e condicionam o que os agentes podem fazer? E em sua obra Realist Social Theory: The Morphogenetic Approach, Archer acusa Giddens de cometer o que ela chama de “erro conflacionista” – isto é, confundir níveis analíticos distintos (estrutura e agência) ao tratá-los como mutuamente constitutivos no mesmo momento. Ou seja, a terceira via proposta por Giddens parece elegante, mas é ontologicamente incoerente: se estrutura e agência são sempre copresentes, não podemos explicar como a ação transforma a estrutura, pois não há distância temporal entre as duas. Em suas palavras:

“O que contesto é a representação de sua ligação como adesão por contato, de modo que estrutura e agência sejam efetivamente definidas em termos uma da outra. Pois o resultado final disso é que a constituição mútua implica, em última análise, conjunção temporal entre os dois elementos. Assim, as propriedades estruturais (definidas redutivamente como regras e recursos) são consideradas fora do tempo, tendo uma ʻexistência virtualʼ apenas quando instanciadas pelos atores. Em exato paralelo, quando os atores produzem práticas sociais, eles necessariamente recorrem a regras e recursos e, portanto, inevitavelmente invocam toda a matriz de propriedades estruturais naquele instante. Tudo isso se condensa na breve afirmação de que ʻa estrutura é tanto meio quanto resultado da reprodução de práticasʼ [Giddens]. Isso representa a noção-chave da ʻdualidade da estruturaʼ, que é apresentada em oposição direta ao dualismo analítico aqui defendido.”

Já passou da hora de tratarmos da teoria de “racismo estrutural” como ela de fato é: uma falácia grosseira e mal fundamentada

Complexo? Para o leitor comum pode ser um pouco, mas o fato é que a teoria de Giddens é contestada de modo profundo e intelectualmente bem fundamentado por Archer, que propõe, em seu lugar, o conceito de morfogênese, ou análise morfogenética, a saber:

“A análise morfogenética […] confere ao tempo um lugar central na teoria social. Ao trabalhar em termos de seus ciclos tripartidos compostos por (a) condicionamento estrutural, (b) interação social e (c) elaboração estrutural, o tempo é incorporado como sequências e fases, e não simplesmente como um meio pelo qual os eventos ocorrem. Pois a própria ocorrência de eventos, como a estruturação progressiva de um sistema educacional, exige que teorizemos sobre a interação temporal entre estrutura e ação. O que é crucial, então, é que a perspectiva morfogenética sustenta que estrutura e ação operam em diferentes períodos de tempo – uma afirmação que se baseia em duas proposições simples: que a estrutura necessariamente precede as ações que a transformam; e que a elaboração estrutural necessariamente sucede essas ações.”

Ou seja, Archer sustenta que para explicar uma mudança social é preciso reconhecer que as estruturas existem antes das ações que as transformam. Sem recair no determinismo, pois a ação humana pode modificar as estruturas, afirma que essa modificação só faz sentido se houver uma estrutura realmente existente a ser transformada. Nesse sentido, “estrutura social” é mais do que um conceito heurístico ou virtual: é um nível ontológico real, com propriedades emergentes e efeitos causais.

Portanto, pode não causar espanto que Sílvio Almeida tenha ousado fundamentar a sua teoria num conceito de estrutura deficiente e amplamente criticado (o filósofo Roy Bhaskar também contesta Giddens), pois pode se tratar não só de um problema de formação (desconhecimento da crítica de Archer, por exemplo), mas de rejeição ideológica consciente a qualquer contestação, uma vez que sua teoria foi formulada na segunda realidade. Mas já passou da hora de tratarmos da teoria de “racismo estrutural” como ela de fato é: uma falácia grosseira e mal fundamentada.


Paulo Cruz é professor e palestrante, formado em Filosofia e mestre em Ciências da Religião. Em 2017, foi um dos agraciados com a Ordem do Mérito Cultural, honraria concedida pelo Ministério da Cultura a nomes que se destacaram na produção/divulgação cultural, e em 2022, com o podcast Noir, foi vencedor do Prêmio Governo do Estado de São Paulo para as Artes, na categoria Cultura Urbana. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.

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