Chamamos de alegria quase sempre aquilo que chega. O abraço reencontrado na estação, a cadeira puxada à mesa para mais um amigo, a conversa que atravessa a madrugada sem perceber o relógio. Crescemos aprendendo que felicidade tem barulho de encontro: vozes misturadas, risos altos, mãos que se procuram no meio da multidão. E talvez tenha mesmo. Há gente que ilumina a casa apenas entrando nela.
Mas ninguém nos ensina, com a mesma delicadeza, sobre a paz silenciosa de certas despedidas.
Existe um tipo de cansaço que não vem do corpo. Vem da convivência. Pessoas que exigem de nós um personagem permanente; que diminuem nossos entusiasmos; que transformam qualquer manhã em terreno de vigilância.
Até que um dia nos afastamos.
E o curioso é que o coração começa devagar a respirar melhor. O silêncio deixa de ser solidão e vira descanso. A ausência daquela pessoa não abre um vazio, abre espaço. Espaço para voltar a gostar das próprias ideias, para rir sem defesa, para atravessar a tarde com sentimento de liberdade.
Há alegrias que chegam. Outras libertam.
Nem todo afastamento é fracasso. Alguns são cuidados invisíveis que fazemos em nós mesmos. Como abrir a janela de um quarto fechado há anos e descobrir que o ar ainda sabe circular. Fomos ensinados a celebrar permanências. Mas certas distâncias também merecem festa discreta: um café tomado em paz, uma noite sem ansiedade, um domingo que finalmente não pesa.
Talvez amadurecer seja isso: compreender que a vida não floresce apenas nas presenças que acumulamos, mas também nas ausências que escolhemos.
E há despedidas que acabam tendo o mesmo brilho sereno de um reencontro, só que conosco.

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