Ainda era madrugada.
O silêncio de Rosal parecia dormir mais um pouco quando, ao longe, surgiam os primeiros acordes da alvorada. Havia quem apenas mudasse de lado na cama para aproveitar mais alguns minutos de sono. Mas havia também um menino que fazia sempre a mesma coisa.
Levantava num salto.
Corria até a janela.
E esperava.
Primeiro vinha o som. Depois, aos poucos, surgiam as silhuetas dos músicos iluminadas pelas luzes amareladas dos postes e pela luz do Cruzeiro, no alto do morro, que parecia velar as noites e madrugadas da vila. Logo apareciam os instrumentos refletindo aquela claridade tímida, o uniforme azul rompendo a escuridão e o brasão azul e amarelo que, para aquele menino, brilhava como se anunciasse que aquele seria um dia diferente.
Ele assistia por poucos segundos.
Não resistia.
Saía correndo de casa e seguia atrás da banda pelas ruas de Rosal.
Talvez nem soubesse explicar o motivo.
Apenas caminhava atrás daquele som que parecia conhecer o caminho de todas as ruas, de todas as casas e de todos os corações.
Enquanto a banda seguia seu percurso, ele imaginava como seria estar ali. Sonhava que um dia também vestiria aquele uniforme azul, carregaria um instrumento e faria parte daquela música que acordava a vila antes mesmo do nascer do sol.
E esse nunca foi um sonho impossível.
Durante cento e quatro anos, esse sonho continuou vivo porque muitas mãos decidiram sustentá-lo.
A Lira 14 de Julho não atravessou mais de um século apenas por causa dos dobrados que executou ou das festas que abrilhantou. Ela chegou até aqui porque incontáveis pessoas ofereceram um pouco de si para que a música nunca deixasse de ecoar por Rosal.
Alguns hoje se chamam saudade.
Foram músicos, maestros, presidentes, professores, colaboradores, apoiadores e tantos outros que dedicaram parte de suas vidas à banda e hoje permanecem apenas nas lembranças, nas fotografias e, principalmente, nas notas que ainda parecem ressoar pela memória da vila.
A todos eles, nossa eterna gratidão.
Há também aqueles que seguem firmes nessa caminhada. Pessoas que carregam consigo décadas de história e continuam oferecendo tempo, dedicação e amor para que a Lira permaneça viva, como quem entende que preservar uma banda é também preservar a identidade de um povo.
E há os que estão chegando agora.
É bonito ver tantas crianças e jovens descobrindo a música em um tempo em que quase tudo parece efêmero. Num mundo onde as telas disputam cada minuto de atenção, elas escolhem aprender um instrumento, dedicar horas aos ensaios, descobrir o sabor da arte, da convivência e do comprometimento.
Talvez o mais bonito seja saber que essas aulas acontecem por pura generosidade.
Sem qualquer contrapartida.
São pessoas que doam gratuitamente seu tempo, seu conhecimento e sua experiência simplesmente porque amam a Lira e acreditam que a música merece continuar encontrando novos corações.
Esse talvez seja um dos sons mais bonitos produzidos pela banda: o som da solidariedade.
Quem viveu as antigas festas de Rosal também guarda outra lembrança inesquecível.
O Baile da Saudade atravessava a madrugada.
Quando o relógio já se aproximava das cinco da manhã, a festa parecia caminhar para o fim. Mas era justamente ali que um novo espetáculo começava.
Ao longe, surgiam novamente os primeiros acordes.
A Lira chegava em alvorada até a porta do baile.
As portas se abriam.
E quem havia passado a noite inteira dançando esquecia o cansaço. Em vez de ir para casa, seguia atrás da banda pelas ruas da vila, como se todos voltassem a ser crianças outra vez.
O destino era sempre o mesmo.
A padaria.
Ali, entre o cheiro do café recém-passado e do pão saindo do forno, a madrugada se despedia enquanto o sol começava a iluminar Rosal. Conversas, risos e abraços encerravam mais uma noite que jamais seria esquecida.
Talvez seja justamente isso que explique os cento e quatro anos da Lira 14 de Julho.
Ela nunca foi apenas uma banda de música.
Sempre foi um encontro.
Um abraço coletivo.
Uma memória compartilhada.
Um patrimônio construído por rosalenses presentes e ausentes, por aqueles que permanecem na vila e por aqueles que partiram, mas jamais deixaram Rosal partir de dentro deles. Todos, de alguma forma, continuam ajudando a manter vivo esse sonho.
E aquele menino da janela?
Talvez ele ainda exista.
Talvez more em alguma casa da vila e, sempre que a alvorada romper o silêncio da madrugada, corra novamente para ver a banda passar.
Ou talvez ele já tenha crescido, vestido o uniforme azul que tanto admirava e descoberto que caminhar dentro da Lira era ainda mais bonito do que sonhar com ela.
Porque algumas coisas mudam com o tempo.
As ruas mudam.
As casas mudam.
As gerações se renovam.
Mas há sons que permanecem.
Há cento e quatro anos, a alvorada da Lira 14 de Julho não desperta apenas Rosal.
Ela desperta sonhos.
E enquanto houver uma criança correndo para a janela ao ouvir os primeiros acordes, enquanto houver alguém disposto a ensinar, alguém disposto a aprender e uma comunidade inteira disposta a proteger esse patrimônio, a Lira jamais será apenas uma banda centenária.
Será, para sempre, a mais bela trilha sonora da história de Rosal.
Vila Velha - 14/07/2026

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