sexta-feira, 2 de outubro de 2026

UniFAMESC e Monte Líbano: onde Ismélia Saad e o ex-governador Roberto Silveira comemoraram o casamento


Monte Líbano: as paredes que guardam um amor e o amanhã de Bom Jesus



O edifício Monte Líbano é um dos prédios que atravessam os anos como quem guarda uma chama entre as mãos. Recebe a chuva, o sol, o silêncio, as mudanças da cidade e permanece. Dentro dele, o tempo deixa vozes, passos, esperanças. O edifício Monte Líbano, em Bom Jesus do Itabapoana, é um desses lugares em que a memória ainda respira.

Antes de pertencer às lembranças de tantas gerações, aquele prédio pertenceu a um sonho. Um sonho que trazia, no próprio nome, a distância e a saudade de outra terra. O libanês Merhige Hanna Saad ajudou a escrever sua história em Bom Jesus, onde constituiu família com Alzira Sauma Saad. E, em 1951, o Monte Líbano recém-construído abriu suas portas para a recepção do casamento de sua filha Ismélia com Roberto Silveira, que mais tarde seria governador do Estado.

Naquele dia, chovia muito.

A chuva foi tanta que impediu a chegada, a tempo, do fotógrafo que vinha do Rio de Janeiro. Não ficaram as fotografias da cerimônia e da festa. Restou um pequeno filme feito por Badger Silveira, e, sobretudo, a lembrança de quem viveu aquela felicidade.

É comovente pensar nisso: um acontecimento tão importante para aquela família e para a história bonjesuense sem o álbum que permitiria às gerações futuras percorrer os rostos, os abraços, os detalhes. Por isso o relato de Ismélia se tornou ainda mais precioso. Suas palavras nos dão o que a chuva não deixou fotografar.

No dia 19 de abril de 2014, o jornal O NORTE FLUMINENSE realizou uma entrevista histórica com a saudosa viúva de Roberto Silveira. O encontro aconteceu no palacete da Praça Governador Portela onde seus pais haviam vivido na década de 1950. Ali, onde a vida familiar também se entrelaçou à vida pública, funcionara a sede do governo estadual durante uma semana das Festas de Agosto de 1959 e de 1960, quando Roberto vinha a Bom Jesus acompanhado de sua comitiva.

Mas, naquela entrevista, a história abriu espaço para algo mais íntimo: a recordação de um amor.

E tudo começou com cadeiras na calçada.

Merhige e Alzira conversavam com Boanerges e dona Biluca, pais de Roberto. As famílias eram vizinhas, e a convivência tinha a simplicidade dos encontros à porta de casa. Enquanto os adultos partilhavam as horas, dona Biluca alimentava uma esperança e dizia ao filho que a vizinha era gente boa.

O destino, porém, demorou a apresentar os dois. Ismélia estudava num internato de freiras em Campos; Roberto morava em Niterói. As férias dela e as visitas dele pareciam desencontrar-se de propósito.

Até que veio um baile da Rainha da Festa de Agosto, no antigo Colégio Pereira Passos, hoje Colégio Estadual Governador Roberto Silveira.

Roberto a convidou para dançar. Entre um passo e outro, perguntou sua idade, quis saber se tinha namorado e anunciou que pediria ao pai dela autorização para namorá-la. Ismélia se assustou. Na lembrança daquele diálogo, ainda podemos perceber a moça de dezessete anos, que não informara a idade, dividida entre a alegria do encontro e o receio da reação paterna.

Depois vieram as cartas, entregues por intermédio de Déia Tavares, e as conversas pelo posto telefônico de Inah Borges, marcadas com antecedência. Era preciso esperar para ouvir a voz amada. Era preciso confiar a saudade ao papel.

Na primeira resposta, Ismélia pediu ajuda à tia Alvina. Roberto percebeu e escreveu que havia gostado da carta, mas desejava que, na próxima, ela mesma escrevesse. Queria encontrar, naquelas linhas, a voz de Ismélia.

O noivado foi celebrado com guaraná e bombons Sonho de Valsa, os favoritos de Boanerges. A delicadeza desse detalhe sobrevive aos anos: uma família reunida, uma taça servida, um doce escolhido com carinho. A grande história também se faz dessas pequenas ternuras.

E então chegou o casamento. Chegou a chuva. Chegou a festa no Monte Líbano.

Hoje, ao sabermos que o prédio foi adquirido pela UniFAMESC, sentimos que uma nova esperança atravessa suas portas. É magnífico o gesto de uma instituição de ensino que investe na cultura e no resgate da grande história de Bom Jesus do Itabapoana. Há uma profunda responsabilidade nesse encontro entre educação e memória: oferecer às novas gerações a oportunidade de conhecer o chão em que vivem, os sonhos que receberam e as pessoas que os tornaram possíveis.

Naqueles espaços, o aprendizado poderá ganhar a companhia da emoção. Um jovem poderá descobrir que ali se celebrou o casamento de Ismélia e Roberto. Poderá imaginar as cartas, o baile, as famílias na calçada. E compreender que os nomes inscritos na história foram também pessoas que esperaram uma resposta, sentiram saudade e sonharam com uma vida a dois.

O Monte Líbano merece esse reencontro com a cidade. Merece portas abertas, vozes, música, cultura. Merece que sua história seja contada com o cuidado de quem recebe uma herança preciosa e deseja entregá-la viva aos que virão.

A chuva de 1951 impediu as fotografias, mas não apagou a festa. Décadas depois, Ismélia ainda a guardava consigo.

Agora, Bom Jesus tem diante de si a possibilidade de guardar e renovar essa memória. Que o gesto da UniFAMESC frutifique em conhecimento, encontros e realizações. Que o velho prédio volte a acolher os sonhos de sua gente.

E que, ao entrar no Monte Líbano, cada bonjesuense possa sentir a emoção de chegar a um lugar onde o passado ainda nos reconhece, e onde o futuro começa a encontrar morada.

Edifício Monte Líbano construído pelo libanês Merhige Hanna Saad


Palacete onde viveram o libanês Merhige Hanna Saad e sua esposa, Alzira Sauma Saad, local da entrevista histórica 


Marian Saad Sauma, Maria Cristina Saad Gomes, Olga Borges Saad, André Luiz Ribeiro, Gino Martins Borges Bastos e Ismélia Saad Silveira, viúva do governador Roberto Silveira: entrevista histórica para O NORTE FLUMINENSE, no dia 19 de abril de 2014


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