segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Finados: flores e gratidão para Merhige Hanna Saad, o libanês que marcou Bom Jesus

 

Neste Dia de Finados, no cemitério de Bom Jesus do Itabapoana, flores repousam sobre a sepultura de Merhige Hanna Saad. No meio do silêncio das pedras e o movimento discreto dos visitantes, suas cores guardam uma delicada mensagem de gratidão. O povo bonjesuense se lembra daquele libanês que ajudou a desenhar a paisagem da cidade e a iluminar a memória de suas gerações.

Existem pessoas cuja passagem permanece naquilo que construíram. De Merhige ficaram o prédio do Monte Líbano e o Cine Monte Líbano, marcas da presença libanesa em nosso município. No nome escolhido para essas construções, sua terra de origem encontrou lugar entre nós. O Líbano passou a fazer parte da linguagem cotidiana de Bom Jesus, pronunciado por quem combinava um encontro, indicava um endereço ou anunciava que iria ao cinema.

Ao construir, Merhige ofereceu à cidade espaços onde outras vidas poderiam acontecer. Pelas portas do Cine Monte Líbano entraram famílias, namorados, crianças de olhos atentos. Na penumbra da sala, quantas mãos se procuraram, quantas lágrimas foram discretamente enxugadas, quantas alegrias atravessaram as fileiras de cadeiras! Sobre a tela, as histórias vinham de longe; na plateia, Bom Jesus escrevia a sua.

Agora, diante de sua sepultura, o olhar encontra outra espécie de narrativa. Uma rosa de pedra repousa sobre o túmulo. Sua delicadeza parece resistir à dureza do material, como se alguém tivesse desejado prolongar, para além das estações, o gesto de oferecer uma flor. Ao seu redor, as flores depositadas neste Finados acrescentam à permanência da pedra o perfume breve da vida.

Também estão ali uma cruz e um pequeno Cristo. São sinais diante dos quais a saudade pode se ajoelhar. Quem chega traz um nome, uma lembrança, talvez uma oração que os lábios mal conseguem dizer. E aqueles símbolos acolhem o que há de mais íntimo na visita aos nossos mortos: a vontade de continuar perto.

Acima deles, sobressai a grande figura de Cristo, com as mãos elevadas aos céus. O rosto voltado para o alto e as palmas abertas dão à escultura a expressão de uma prece silenciosa. As dobras da veste descem até a pedra, enquanto o gesto parece buscar o infinito. Aos seus pés, a dor humana encontra uma imagem de esperança.

É emocionante contemplar essas mãos sobre a sepultura de um construtor. As mãos de Merhige trabalharam para erguer paredes, abrir portas, dar forma a um projeto. As mãos do Cristo se elevam sobre sua memória, oferecendo a quem passa um instante de recolhimento. Entre a obra realizada na terra e a confiança no céu, há uma vida que a cidade continua a recordar.

As flores deste Dia de Finados tornam essa lembrança visível. Alguém parou, aproximou-se do túmulo e deixou ali um cuidado. Nesse gesto simples, Bom Jesus reconhece sua dívida de afeto com o homem que trouxe consigo o nome de uma terra distante e o fez criar raízes entre nossas ruas.

Merhige Hanna Saad repousa no chão bonjesuense. Pela cidade, suas construções seguem contando parte de sua história. E, sobre a sepultura, entre a rosa de pedra e as flores da saudade, o Cristo mantém as mãos erguidas, como quem confia ao céu aquilo que o coração de um povo guarda.




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